CHAPITRE III............................................................................................................................................... 59
V. COMPOSANTS PASSIFS POUR LES PIXELS
5.2. C APACITE DE DECOUPLAGE
5.2.4. Expériences et tests
De acordo com Robert Merton, em sociologia, ―funções manifestas são aquelas consequências objetivas que contribuem para o ajustamento ou adaptação do sistema, que são intencionais e reconhecidas pelos participantes do mesmo. E as funções latentes, correlativamente, são aquelas que não constam das intenções, nem são reconhecidas (diretamente)‖. (q.v. Merton, 1949, 130)
A distinção entre funções manifestas e latentes foi imaginada para evitar a confusão irrefletida, frequentemente encontrada na literatura, entre motivações conscientes do comportamento social e suas consequências objetivas. Há uma tendência inconsciente entre os teóricos sociais de confundir as categorias subjetivas da motivação com as categorias objetivas da função.
A mesma distinção foi realçada, com alguma frequência, por outros analistas do comportamento humano. Por exemplo, para Durkheim, as funções sociais das penalidades para crimes foram analisadas sob o ângulo das suas funções latentes (as consequências em relação à sociedade, como indicativo de comportamento inadequado), ao invés de serem indicadas apenas às funções manifestas (as consequências em relação ao criminoso).
Assim, funções manifestas dizem respeito às consequências objetivas para uma unidade especifica (indivíduo, subgrupo, sistema social ou cultural) que contribuem para o seu ajustamento ou adaptação; e, neste sentido, são intencionais. E as funções latentes dizem respeito às consequências não intencionais e não reconhecidas diretamente.
Esta distinção esclarece a análise de muitos padrões sociais, rituais, etc., que são considerados aparentemente irracionais, supersticiosos, hábitos de pensamento estranhos, bizarros, conforme Veblen referia-se aos costumes não claramente identificados ou justificados racionalmente. Ou seja, ajuda a interpretação sociológica de inúmeras práticas sociais e econômicas que persistem mesmo quando o seu propósito manifesto não esteja claramente identificado.
Por exemplo, Merton cita as cerimônias dos Hopi destinadas a produzir chuva. Estas cerimônias podem ser rotuladas como práticas meramente supersticiosas de primitivos, e completamente destituídas de ―razão‖ ou explicação funcional. Entretanto, esta apreciação não leva em conta o papel real destas práticas para a vida da comunidade Hopi como um todo, para um processo de identificação de cada membro com a sua comunidade. O conceito de função latente, entretanto, amplia a atenção do analista para mais além da questão de se saber se a conduta dos Hopi consegue ou não a sua finalidade confessada, que é ―fazer chover‖. Se alguém se limitasse, como diz Merton, ao problema de saber se existe uma função manifesta deliberada, isto se converteria num problema não para o sociólogo, mas para um meteorologista. E parece claro que os meteorologistas estão de acordo de que a cerimônia de chuva dos Hopi não produz chuva. Entretanto, sociologicamente, a cerimônia não tem este propósito técnico (manifesto), mas sim a motivação latente acima descrita de fortalecer e reforçar os laços de identidade do grupo. (q.v. Merton, 1949, 131)
Existem provas de que muitos teóricos sociais, como Veblen por exemplo, fizeram suas maiores e importantes contribuições precisamente no momento em que a sua atenção investigadora passou do plano das funções manifestas para o plano das motivações latentes. No caso específico de Veblen, não existem dúvidas de que ele utilizou esta distinção ubíqua e abundantemente em sua obra, e esta distinção está mesmo no centro de seu scheme of things, conforme veremos reiteradamente neste livro. Pode-se mesmo afirmar que Veblen sofisticou ainda mais esta distinção, explicando, às vezes, certo comportamento através de uma motivação latente de outra motivação latente já explicitada. Por exemplo, ver Figura 3.4.
Para utilizarmos o mesmo exemplo de Veblen em seu artigo de 1894 sobre as motivações do vestuário em culturas pecuniárias, constantes da Figura 3.1 no início deste capítulo, do ponto de vista dinâmico, tais motivações, entendidas a partir dos conceitos de função manifesta e motivação latente aqui explicados, assumem duas configurações possíveis: a forma mais simples, como na Figura 3.3; e a forma expandida, como na Figura 3.4, mais adiante.
Figura 3.3
A descoberta das funções ou motivações latentes representou, assim, um importantíssimo avanço nos conhecimentos sociológicos, antropológicos, e podemos concluir, através de Veblen, igualmente importantes contribuições no campo da economia.
Como as funções ou motivações latentes distanciam-se mais ou menos das funções manifestas, a pesquisa que acaba descobrindo motivações latentes consistentes em certo procedimento ou comportamento, acaba produzindo, normalmente, resultados paradoxais. O paradoxo, entretanto, surge da radical modificação de um preconceito popular e de senso comum, que vê uma prática padronizada, crença, comportamento ou objeto unicamente pelas suas funções manifestas e tidas como óbvias.
O próprio conceito vebleniano de consumo conspícuo é um excelente exemplo de pesquisa que, ao empregar o conceito de motivação latente (para este comportamento) acaba verificando um paradoxo. Não é por acaso, afirma Merton, que Veblen foi considerado um analista social dotado de imensa perspicácia para o paradoxo, a ironia e a sátira; pois são estes os resultados frequentes, se não mesmo inevitáveis, da aplicação do conceito de função ou motivação latente a uma série de comportamentos e padrões sociais. O paradoxo, muitas vezes, é a própria diferença entre a função manifesta - tida como óbvia e única para a maioria das pessoas - e a latente, que precisa ser descortinada pelo olhar arguto e perspicaz de um analista de um certo comportamento ou objeto. Por exemplo, no caso do consumo conspícuo para Veblen, o propósito evidente e cândido da compra de bens de consumo, produtos, etc., é, naturalmente, a satisfação das necessidades às quais
estão explicitamente destinados estes bens. Os automóveis destinam-se, prima facie, ao transporte de pessoas ou cargas; as lâmpadas, a proporcionar luz; os alimentos, a proporcionar a nutrição, etc. Como estes produtos possuem estes usos (que Veblen os designou por utility in the first instance), em geral supôs-se que tais usos abarcavam todo o campo das funções socialmente e economicamente relevantes. Veblen afirmou mesmo que esta era a interpretação (simples ou simplória) da teoria econômica até o seu tempo. Nas palavras de Veblen: ―Afirma-se, convencionalmente, que o fim da aquisição e da acumulação é o consumo dos bens acumulados ... Pelo menos, acredita-se que esta seja a finalidade econômica legítima da aquisição, única que a teoria deve levar em consideração‖. (Veblen, 1899a, 16)
Mas Veblen insistirá, como teórico social, que devemos considerar as funções ou motivações latentes na aquisição, acumulação e consumo dos bens, e estas motivações latentes se afastam muito, na realidade, das funções manifestas dos mesmos. ―Mas somente quando tomado num sentido muito afastado da sua significação ingênua (i.e., da sua função manifesta) se pode dizer que esse consumo de bens oferece o incentivo do qual deriva invariavelmente a acumulação‖. (Veblen, 1899a, 16) E entre as funções latentes que ajudam a explicar a persistência do consumo conspícuo, figura a sua indicação ou simbolização de força pecuniária, e a aquisição e conservação, por esse meio, do bom nome do usuário ou do consumidor.
Para Veblen, a escolha escrupulosa no consumo de alimentos, bebidas, residências, ornamentos, vestuário, divertimentos, ―ideias‖, etc., resulta não somente da satisfação de consumir artigos superiores em vez de inferiores, mas também, e principalmente, de um aumento ou reafirmação da reputação, do good-will ou do status social do consumidor. Ver Figura 3.4.
Figura 3.4
O paradoxo de Veblen é que as pessoas compram bens dispendiosos e caros não porque são superiores ou melhores, mas porque são ―caros‖ ... pois é a equação latente (alto preço = marca de elevado status social) que ele reitera em sua análise funcional, mais do que a equação manifesta (alto preço = excelência do produto) (Merton 1949, 136-137)
Veblen não nega que as funções manifestas tenham algum papel no apoio do consumo conspícuo. Elas também estão presentes e são operantes. Em suas palavras: ―O que se acaba de dizer não deve ser interpretado no sentido de que não haja outros incentivos para a aquisição e a acumulação do
que este desejo de exibir a sua situação pecuniária, conseguindo assim a estima e a inveja dos semelhantes ... o desejo de maior comodidade e segurança perante a necessidade está presente em todos e em cada um‖ ... (Veblen, 1899a, 19) Ainda: ―Seria temerário afirmar que sempre falta uma finalidade proveitosa na utilidade de qualquer artigo ou necessidade, por mais evidente que seja o fato de que seu propósito primordial e seu elemento fundamental estejam constituídos pelo desperdício conspícuo e pela consideração social que daí resulta‖. (Veblen, 1899a, 48)
Assim, as funções diretas e manifestas dos produtos e dos serviços, para Veblen, não explicam totalmente, e nem principalmente, as normas predominantes de consumo em sociedades competitivas ou pecuniárias. E certamente para uma gama imensa de produtos, serviços, ideias, comportamentos, etc., suas funções manifestas talvez possuam um papel claramente irrelevante. No caso de muitas teorias econômicas oficiais, por exemplo, assim como de muitas doutrinas jurídicas, igualmente, parece haver pouca divergência entre os pesquisadores menos ingênuos, de que as motivações latentes de suas disseminações suplantam, em larga medida, qualquer função manifesta de serventia para a comunidade como um todo. Entretanto, assim como as cerimônias de fazer chover dos Hopi vistas acima, estas teorias econômicas e jurídicas precisam ser avaliadas e julgadas não pela serventia que prestam ou pelas verdades que carregam, mas pelo importante papel que jogam para a perpetuação das instituições peculiares e caras das sociedades competitivas ou predatórias, e de suas classes ociosas.
Um exemplo adicional: na medida em que um calçado serve, prima facie, para a proteção ou o conforto dos pés (ao caminhar), parece evidente que os calçados de salto alto femininos (e masculinos, ao longo da maior parte da História) buscam processar muito pouco suas funções manifestas. Seguramente, as motivações colaterais para suas utilizações, isto é, o uso de sapatos de salto alto como prótese para elevação somática de seus usuários (para indicar superioridade), ou como prótese para indicar que os usuários (ou usuárias) não efetuam qualquer atividade de serventia (ao portá-los), sufocam e comprimem, além dos pés, quaisquer tentativas, mesmo que módicas, de funcionalidade e eficiência.
Ademais, o desconforto suportado pelos usuários dos sapatos de salto alto, e de tantos outros objetos, para uma exposição meramente adjacente e reputada dos mesmos, não é a única condição conspícua de ineficiência ou de eficiência deformada. O número de malefícios para a coluna vertebral, para os joelhos, tendões, articulações, etc., demonstra como podem ser poderosas as instituições na deflexão ou desfiguração de nossas propensões ancestrais.
Portanto, a análise que Veblen empreende das funções latentes dos objetos e serviços distancia-se da ideia ingênua e do senso comum de que o objetivo final do consumo, e especialmente da acumulação de bens e riquezas, é, preponderantemente, a satisfação direta das necessidades que proporcionam. E isto se aplica igualmente para comportamentos, ideias, etc.
Finalmente, Merton dirá que a descoberta de motivações latentes tornam mais precisos os conceitos das funções desempenhadas por certas normas e padrões sociais (incluindo objetos e estruturas), e introduz uma elevação qualitativamente diferente no estado anterior dos conhecimentos.
Na medida em que as avaliações morais em uma sociedade tendem a ser feitas pelas consequências manifestas de uma prática ou de um código, é possível perceber que o uso de explicações calcadas em motivações latentes pode acabar contradizendo estas avaliações morais ingênuas, e causando
algum tipo de surpresa, assombro, ou surpreendendo os analistas que fixam o foco unicamente nas funções manifestas daquelas práticas ou daqueles códigos. Alguns analistas mais ingênuos poderão até mesmo sentir claro desconforto intelectual com o descortinar abrupto de certas motivações latentes em comportamentos ou em objetos que eles jamais puderam imaginar possuir.