4 Densité-dépendance intra et inter-spécifique
4.1 Existence de l’équilibre strictement positif
A menção a Hoehne nas obras de Arthur Neiva, Fernando de Azevedo e Mário Ferri diz tanto de sua atuação quanto da maneira como o trabalho foi visto por seus contemporâneos. O próprio botânico esforçou-se em registrar sua vida e obra, ajudando a definir de antemão aquilo que era mais importante em sua trajetória e, ao mesmo tempo, evidenciando a proficuidade de seu trabalho. Em sua autobiografia, Hoehne definiu-se como um modesto botânico. Habituado ao estudo das plantas e de suas histórias, ele compreendeu que a história das pessoas, suas intérpretes, deveria ser igualmente conhecida. Daí a ideia de elaborar o texto sobre sua vida, atendendo aos “Insistentes e reiterados pedidos de pessoas conhecidas e amigas, bem como de editores de dicionários bibliográficos” (HOEHNE, 1951, p. 65).
Figura 2 – Foto de F. C. Hoehne publicada na página inicial de sua autobiografia
Fonte: Hoehne (1951, p. 63).
Viu-se, entretanto, diante de um dilema: ser taxado de insociável ou grosseiro, ou, no outro extremo, de vaidoso ou imodesto. Optou pela segunda opção, incluindo no início do texto uma explicação justificando a escolha. As informações autobiográficas foram inseridas no relatório anual do Instituto de Botânica do Estado de São Paulo referente a 1950 e publicado no ano seguinte com a autorização do secretário de Agricultura. A julgar pela presente pesquisa e textos de outros
pesquisadores, o objetivo de Hoehne foi cumprido, pois a publicação é uma das fontes consultadas e dá eco à narrativa composta pelo botânico sobre a própria vida.
Nascido em 1º de março de 1882, em Juiz de Fora (MG), Hoehne era filho de imigrantes alemães que se estabeleceram no Brasil em 1858. Augusto Hoehne, seu pai, aprendeu marcenaria e trabalhava em fazendas arrumando máquinas e engenho; posteriormente, conseguiu adquirir um terreno próprio para cultivo. Casou-se com Elisabeth Reink Hoehne com quem teve oito filhos, sendo o quinto deles Frederico Carlos Hoehne.
Por ter nascido na pobreza, diz Hoehne, desde a tenra idade conheceu todos os acidentes da vida. Não só vivenciou as faces da vida ensolaradas e sombrias, como também conheceu, por experiência própria, “tudo que diz respeito às atividades musculares, bem como aos trabalhos intelectuais” (HOEHNE, 1951, p. 65). Tal experiência foi muito útil nas viagens realizadas pelo interior do País, onde a tarefa de coletar espécimes vegetais teria sido entremeada com outros afazeres, inclusive o de preparar a comida.Criado no sítio paterno, ressalta a proximidade que teve desde cedo com a natureza e, em especial, com as orquídeas – seu pai mantinha um rústico orquidário no pomar que atraia visitantes e que teria despertado seu interesse. No oitavo aniversário, Hoehne recebeu do pai um exemplar de uma Laelia crispa e, desde então, passou a organizar o próprio orquidário: “Ali passava as horas de folga arrumando rochas, plantando palmeiras e pendurando tôcos e cestas de sarrafos contendo espécimes que ia buscar nas matas próximas. Assim lançou-se o alicerce para o interêsse para a botânica” (HOEHNE, 1951, p. 67).
Com a mãe, aprendeu os rudimentos da aritmética e a ler em alemão, língua natal de seus progenitores. Aos nove anos, começou a frequentar o Colégio Americano, período no qual narra as dificuldades que enfrentou para realizar os estudos devido àcaminhada cansativa e à falta que fazia no sítio. Após convencer aos pais, quando tinha onze anos foi matriculado como interno no mesmo Colégio, prontificando-se a pagar parte dos estudos trabalhando como limpador, copeiro, monitor e mensageiro. Em decorrência dos trabalhos e estudo muito pesados, afirma que não desenvolveu o físico tanto quanto desejável, mas “no intelecto venceu e cresceu sem dificuldade tôdas as etapas”, tendo terminado o curso ginasial com apenas 17 anos.
Chama atenção a narrativa de Hoehne sobre a própria vida. Ao atender aos diversos pedidos para escrever sobre sua trajetória, conta a vida de um menino simples, nascido na pobreza, encantado com a natureza, esforçado e estudioso que conseguiu prosperar a despeito das dificuldades. Antes de listar centenas de publicações de sua autoria sobre botânica, oferece ao
leitor uma narrativa de traços heroicos digna de ser publicada pelo Instituto de Botânica. As memórias escolhidas e a forma de contá-las não foram aleatórias, mas uma opção tendo em vista o veículo de comunicação e os leitores em potencial. E aqui fazemos um adendo: Hoehne terminou a carreira ocupando cargo importante no governo do Estado de São Paulo e tendo atuado intensamente nos assuntos concernentes à botânica, o que o coloca não só como um sujeito interessado pela natureza, mas como alguém que conseguiu estabelecer redes e se articular no âmbito técnico e político.
Os contatos estabelecidos durante a mocidade foram igualmente salientados na autobiografia, pois foi por meio deles que continuou os estudos de maneira autodidata. Hoehne detalha esse processo durante a juventude, quando faltavam recursos para a aquisição de livros. Em Juiz de Fora, diz ter travado conhecimento com outros colecionadores de Orchidaceae com os quais permutava plantas e, de Emilio Jovet, ourives e orquidófilo, obteve diversas obras em francês; conseguiu, dessa maneira, classificar muitas espécies e incorporar algumas exóticas ao orquidário. Aos poucos, a biblioteca foi crescendo, assim como seu interesse em estudar botânica. Iniciou, além disso, a montagem de um herbário, que passou a ser visitado por colecionadores da vizinhança. À medida que o orquidário do pai desaparecia, o de Hoehne aumentava e chamava cada vez mais aatenção de outras pessoas: “O círculo de relações aumentou e com êle surgiram novas possibilidades para o progresso dos conhecimentos” (HOEHNE, 1951, p. 68).
Ao que Hoehne indica, as relações estabelecidas foram essenciais para ampliar o acesso à bibliografia especializada, à permuta de espécies e à troca de informações com outros orquidófilos. Também foi o contato estabelecido com o presidente da Câmara Municipal de Juiz de Fora, Dr. Duarte de Abreu, que abriu novos horizontes, pois foi a partir de sua indicação que Hoehne conseguiu o cargo de jardineiro-chefe do Museu Nacional (RJ). A intenção inicial, entretanto, era outra – o jovem teria procurado Duarte de Abreu com a proposta de organização de “um modesto orquidário no jardim público da cidade, para goso e instrução dos habitantes” (HOEHNE, 1951, p. 68). O relato indica que a preocupação com a educação lhe ocorreu desde a juventude, ao reconhecer a natureza não só como fonte de deleite e curiosidade, mas algo a ser partilhado e ensinado.
Em 1907, Hoehne mudou-se para o Rio de Janeiro e se casou com Clara Augusta Frieda Kuhlmann, com quem teve quatro filhos, dois dos quais mencionados por terem se aproximado da botânica. Wilson Hoehne formou-se em agronomia e tornou-se catedrático de botânica na
Faculdade de Farmácia e Odontologia da Universidade de São Paulo; Laelia Hoehne, no momento da publicação da autobiografia, ingressou na Faculdade de Filosofia na mesma Universidade e foi citada pela probabilidade de também se tornar naturalista. Tal percurso não parece um detalhe, tendo em vista a trajetória do próprio Hoehne, que indicava a pobreza na infância e a impossibilidade de cursar o ensino superior. O fato de ser autodidata se sobressai no registro feito:
Os alicérces do preparo intelectual que tivemos não puderam jamais adquirir a consistência indispensável através das adições posteriores pelo processo da autodidaxia. [...] Os que tiveram a ventura de poder adquirir um preparo fundamental mais completo, por haverem sido mais favorecidos pela fortuna, pela constituição física e pelas possibilidades existentes no que concerne escolas superiores especializadas, poderão realizar melhor e muito mais do que isto que representa a nossa credencial de cientista botânico (HOEHNE, 1951, p. 65).
O ano de 1907 também foi marcado pelo ingresso na carreira pública, quando travou contato com João Baptista de Lacerda, então diretor do Museu Nacional. Esta mudança foi um marco na trajetória de Hoehne, considerando as relações interpessoais que a partir daí estabeleceu e que abriram as portas para a atuação em outras instituições científicas importantes. Alípio de Miranda Ribeiro, secretário do Museu Nacional, foi um dos nomes destacados pela proximidade estabelecida entre os dois. Foi dele que surgiu o convite para participar na primeira expedição científica junto com o Major Cândido Mariano da Silva Rondon, chefe da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas. Hoehne relata que aceitou participar da expedição na condição de ajudante de botânico e ganhando menos do que o oferecido, por considerar-se um “modestíssimo estudante de botânica” (HOEHNE, 1951, p. 71).
Durante a viagem, o estudioso fez colheitas, preparos e cuidou da organização de herbários, regressando em 1909 e apresentando um herbário de mais de dois mil exemplares ao Museu Nacional. Parte do material coletado passou a ser estudado pelo botânico e outra parte foi enviada ao Jardim Botânico de Dahlem, em Berlim, Alemanha. Em dezembro de 1910, Hoehne retornou ao Mato Grosso com a intenção de conhecer outras regiões do estado. Ele foi acompanhado dos cunhados Hermano Kuhlmann e João Geraldo Kuhlmann, este último, depois reconhecido botânico, tornando-se diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro em 1944.
Tais episódios, de acordo com Hoehne, resumem como ocorreu o ingresso no funcionalismo público e como se tornou botânico. A ênfase na infância difícil contrasta com o sucesso obtido posteriormente, com destaque para o trabalho desenvolvido junto aos órgãos públicos: “Esta carreira pública não teve interrupções e como HOEHNE só tirou férias quando estava tão doente que não podia ir para a repartição, ela lhe assegurou, em fins de 1950, mais de
47 anos de serviço efetivo prestado ao País” (HOEHNE, 1951, p. 74). As viagens e as publicações também indicam os frutos de sua carreira e as áreas às quais se dedicou. Sobre as primeiras, foram realizadas quinze viagens mais longas entre 1908 e 1948, especialmente para o interior e litoral do Brasil; no tocante às publicações, tratam quase exclusivamente de questões relativas à natureza e, em especial, ao reino vegetal.
A autobiografia possibilita que os leitores se aproximem da infância, juventude e dos primeiros anos no funcionalismo público a partir da ótica do próprio Hoehne, que mostra como a vida dedicada à botânica remonta ao contato próximo à natureza e às práticas colecionistas. Com a organização do orquidário e do herbário, aprendeu sobre cultivos; familiarizou-se com formas de preservação, organização e classificação de espécimes; consultou bibliografia especializada; conheceu pessoas e estabeleceu permutas. Esses fazeres não só contribuíram com sua formação, como tornaram-se centrais quando passou a atuar no âmbito governamental. O fato de o texto ter sido publicado no relatório anual do Instituto de Botânica, ao nosso ver, é significativo: celebra os feitos realizados e a crença na ação do poder público para o caminho do progresso e para a promoção do amor e estudo da flora.