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O alemão é o sexto idioma mais falado no mundo, com cerca de cem milhões de falantes. No Brasil, aproximadamente dois milhões de pessoas falam alemão como língua materna ou como LE, ocupando o sexto lugar no mundo, juntamente com Hungria e República Tcheca35. Além disso, no mundo inteiro, mais de dezesseis milhões de pessoas estão aprendendo alemão LE. Na Europa, o alemão está (depois do inglês como o idioma largamente mais ensinado) na segunda posição entre as línguas estrangeiras nas escolas e

35 Fonte:“Innovations-report: Forum für Wissenschaft, Industrie und Wirtschaft“ (Fórum para Ciência, Indústria e Economia).

universidades ou nos institutos de língua. Hoje 70.500 pessoas aprendem alemão LE no Brasil em mais de seiscentas escolas e instituições36.

Apesar de ser uma língua com abrangência mundial, o alemão é, no Brasil, pouco conhecido. Pesquisas mostram que as crenças sobre a língua e sobre a identidade alemã mais difundidas entre os aprendizes continuam sendo crenças de certa forma negativas, há muito disseminadas (Rozenfeld, 2008). Portanto, pesquisar crenças sobre a língua alemã pode promover reflexão e (re)significação e, assim, contribuir positivamente no processo de ensino/aprendizagem de alemão. Apresento, a seguir, alguns aspectos históricos que considerei relevantes sobre o idioma e seu ensino, e também aspectos estruturais da língua alemã, os quais, em minha experiência como professora, tenho percebido como os mais frisados pelos alunos.

1.3.1 Aspectos estruturais

Em alemão, as vogais podem ser longas ou breves. Em geral, vogais longas são mais fechadas do que as breves. As vogais são breves e abertas quando seguidas de duas consoantes, quer na fala, quer na escrita. Quando segue uma única consoante ou nenhuma, a vogal é geralmente longa. Ela é sempre longa quando reduplicada (Saal, Boot), seguida de um h mudo (fahren) ou, no caso de i, seguida de e (que não é pronunciado, a não ser em algumas palavras de origem estrangeira, como Familie) (Welker, 1992). Há vocábulos que, na fala, se distinguem de algum outro somente por esta característica. Por exemplo, Hüte (chapéu) – Hütte (cabana); Rate (prestação) – Ratte (rato); Weg (caminho) – weg (embora) (Welker, op. cit.). E, em alemão, não há vogais nasais nem ditongos nasais, como o ão do português.

Uma característica forte do idioma é o Knacklaut, o fechamento momentâneo das cordas vocais. Seria uma pequena pausa antes de todas as vogais iniciais de palavras, radicais e componentes de palavras compostas. Como explica Welker (1992):

Não existe letra pra transcrevê-lo na escrita normal, mas ele é importante quando se quer pronunciar corretamente palavras compostas ou as palavras dentro de um

36 Fonte: “Deutsch als Fremdsprache weltweit: Datenerhebung 2005” (Alemão como língua estrangeira no mundo: levantamento de dados 2005).

enunciado. Por exemplo, não se deve ligar o m de am ao a de Abend em am

Abend, visto que antes dos dois ocorre o golpe da glote. Nos seguintes exemplos,

vamos usar a escrita normal, acrescentando [o símbolo para oclusão glotal (‘)]: be’antworten (responder), ‘unter’einander (entre si), verreisen (viajar), ver’eisen (congelar), ‘er ‘ist ‘ein ‘Abenteurer (ele é um aventureiro). Embora essa oclusão nem sempre seja nítida, de modo que o aluno talvez não a perceba, é importante estar consciente de que as palavras não devem ser ligadas umas às outras como em português (grifo no original, p. 25).

Uma diferença do português é que o acento tônico recai, em muitos casos, sobre a primeira sílaba, partícula ou componente da palavra e não é usada acentuação gráfica. Já a maioria das palavras em português é paroxítona e é usada acentuação gráfica. Em português há dois gêneros – feminino e masculino – enquanto que em alemão há três – masculino, feminino e neutro – e, conseqüentemente, três formas de artigo definido e indefinido.

Na língua alemã existe também o artigo indefinido negativo (kein), usado para negar um substantivo precedido do artigo indefinido ou de nenhum artigo. No plural, só existe o artigo definido e o artigo indefinido negativo, com sua forma válida para os três gêneros. O artigo indefinido (positivo) não existe no plural (equivalente a uns e umas do português).

Em alemão, há muita ocorrência de palavras mais longas do que as palavras típicas do português. Esses são os casos de composição, processo pelo qual se juntam dois ou mais vocábulos para formarem uma única palavra. É um processo extremamente freqüente e importante no alemão (Welker, 1992).

Na gramática alemã, o verbo é considerado o núcleo da oração. O verbo flexionado segue o sujeito na sentença declarativa se o sujeito estiver na posição inicial; e precede o sujeito no imperativo, na sentença interrogativa, e na oração principal precedida de uma subordinada (Welker, op.cit.). Na oração principal declarativa, se houver outro elemento na posição inicial da frase que não seja o sujeito, o verbo tem, necessariamente, que ocupar a segunda posição.

Nas orações subordinadas, o verbo flexionado está no final e, quando as orações são compostas por mais de um verbo, o segundo é posto no final da frase, mesmo se a oração for muito longa, como explica Welker (1992). Geralmente, o adjuntos adverbiais seguem a seguinte ordem na frase: tempo, causa, modo e lugar. Para evitar acúmulo de adjuntos adverbiais, coloca-se um deles no início da frase, levando o verbo para a segunda posição.

Finalizando este breve apanhado, os casos. Os casos indicam a função do substantivo e do pronome, que tomam – ou podem tomar – formas diferentes dependendo da

função que eles exercem na oração (sujeito, objeto, complemento etc.). As gramáticas modernas apresentam os casos na seguinte ordem: nominativo – acusativo – dativo – genitivo (Welker, op. cit.).

Esses são alguns dos aspectos do idioma que devem ser observados para que haja compreensão oral. Acredito que a competência lingüística do aprendiz na língua alemã ajuda no desenvolvimento da habilidade da fala por dois fatores principais: há influência da ortografia na pronúncia e, conseqüentemente, no significado, além de prover o recurso da memória visual, por exemplo, no momento da sua produção oral; e a construção do discurso tem um alto grau de fidelidade à estruturação gramatical.

Como vimos, há diversos pontos em que a língua alemã difere da língua portuguesa, tanto fonética- como estruturalmente. Quando os aprendizes começam a ter conhecimento desses aspectos, ou mesmo ao ouvir pessoas falando alemão, é possível que haja um estranhamento, que pode se relacionar às crenças dos alunos e à construção de suas identidades.

1.3.2 Aspectos históricos

A língua alemã chegou ao Brasil na primeira metade do século XIX, com os imigrantes alemães, que criaram colônias principalmente no sul do país (Rio Grande do Sul e Santa Catarina). Na segunda metade do século, e depois da Primeira e Segunda Guerras, muitas famílias migraram também para São Paulo e Paraná. Essas famílias criaram comunidades onde se falava alemão e as crianças freqüentavam escolas alemãs (Franco, 2003).

Nas escolas secundárias do governo, o idioma alemão foi ensinado como língua estrangeira (normalmente opcional) no Brasil entre 1855 e 1930 (Chagas, 1957). Após a revolução de 1930, com a Reforma Francisco de Campos37 em 1931, consideraram-se línguas obrigatórias francês e inglês. A língua alemã era facultativa, mas nunca se firmou na prática, pois, como aponta Chagas (op.cit.), “nulo era o número de alunos que a escolhiam no curso fundamental e continuavam a sua aprendizagem no complementar” (p. 110). Em

1942, com a Reforma Capanema38, apesar de esta ter sido a reforma que mais deu importância ao ensino de línguas estrangeiras no Brasil (Leffa, 1999), o ensino de alemão foi suprimido das escolas secundárias, restando apenas em poucas escolas privadas39.

A partir o início dos anos 1960, vieram para o Brasil muitas multinacionais alemãs, o que fez o interesse pela língua alemã aumentar. Até hoje são oferecidos, em algumas dessas firmas, cursos de alemão. Estudantes de diversas áreas, como engenharia, ciências humanas e música, começaram a estudar alemão para continuar a se especializar na Alemanha, ou porque muitos livros de suas áreas eram escritos em alemão (Franco, 2003).

Nos anos 1980, como afirma Franco (op.cit.), “houve um boom na área de alemão como língua estrangeira, os institutos de língua nas grandes cidades encheram de alunos de alemão e o mercado de trabalho para professores de alemão estava muito propício40” (p. 1). Esta situação mudou nos anos 1990, segundo a autora, por três motivos principais: 1) o empobrecimento da classe média, muitos dos que haviam freqüentado cursos de alemão e ainda teriam interesse em aprender não poderiam mais pagar um curso; 2) devido à globalização, ao Mercosul41 e à ALCA42, as pessoas voltaram seu interesse ao inglês e ao espanhol; e 3) o interesse em preservar a língua e cultura alemãs diminuiu, pois anteriormente, muitos dos aprendizes em institutos de língua e escolas alemãs eram descendentes de alemães que queriam preservar, ampliar, ou mesmo corrigir a língua. Exceções sempre foram os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina (Franco, 2003).

Já nos anos 2000, a situação parece novamente estar mudando. Segundo dados do Goethe Institut de São Paulo43, o número de alunos de alemão aumentou 10% a 15%. Isso se dá, de acordo com Franco (op.cit.), pelas razões anteriores, ou seja, motivos profissionais, ou estudantes que desejam ler em alemão, mas, além destas, alemão agora é considerado um diferencial, um incremento na qualificação profissional, depois do inglês e do espanhol, que se tornaram lugar comum.

38 Mais sobre o tema cf. Chagas, 1957, pp. 114-120.

39 Como, por exemplo, Colégio Humboldt (www.humboldt.com.br), Colégio Benjamin Constant (www.colegiobenjamin.com.br), e Colégio Visconde de Porto Seguro (www.portoseguro.org.br).

40 Do original: „In den 80er Jahren, gab es einen Boom im Bereich Deutsch als Fremdsprache, die Sprachinstitute in den Größstädten wimmelten von Deutschlernenden, und der Arbeitsmarkt für Deutschlehrer war sehr günstig“ (Franco, 2003, p. 1).

41 União econômica entre Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai.

42 Área de Livre Comércio das Américas, um acordo comercial entre todos os países da América, exceto Cuba. 43 Disponível em www.goethe.de/saopaulo

Existem hoje, no Brasil, diversas associações de professores de alemão ligadas à ABRAPA44 (Associação Brasileira de Professores de Alemão), que publica semestralmente uma revista chamada Projekt, cuja orientação teórica de ensino é a abordagem comunicativa. Além disso, a Conferência internacional de professores de alemão (IDT –

Internationale Deutschlehrertagung)45 tem discutido acerca de mais subsídio e estímulo para a difusão da língua/cultura alemã por parte dos governos dos países falantes da língua.

Esses dados mostram um crescimento do ensino de alemão no Brasil e um ambiente estimulador para que cada vez mais pessoas estudem a língua. Nesse cenário, o processo de ensino/aprendizagem de alemão pode constituir um campo que se abre para pesquisas no Brasil.

Considerações finais

Este capítulo está dividido em três seções. Na primeira seção, apresentei a fundamentação teórica sobre crenças que serve de alicerce para minha pesquisa. Discuti a importância da pesquisa em crenças por elas atuarem no nosso modo de ver o mundo e de nos ver no mundo. O histórico da pesquisa em crenças inicia-se com os trabalhos de Horwitz (1987) e de Wenden (1987), seguidos de um breve panorama do estado da arte trazido de Barcelos (2007) e de um levantamento de trabalhos em crenças e identidades e crenças e alemão. Na seqüência, apontei os conceitos de crenças, vistas, neste trabalho, como formas de ver e perceber o mundo, construções da realidade. Explorei também suas características: dinâmicas, contraditórias, paradoxais, interconectadas, interacionais. Na dinâmica da sala de aula, alunos e professores são vistos como indivíduos ativos, com suas próprias crenças, identidades, concepções, abordagens, experiências e, conseqüentemente, variadas ações. Apresentei, então, a inextricável relação das crenças com contexto, experiências e ações, incluindo as inconsistências e os conflitos nessas relações.

Na segunda seção, apresentei as identidades, compreendidas no estudo como processos de identificação cultural complexos, relacionados ao contexto, um construto abstrato, não quantificável, simbólico, em constante significação e socialmente construída.

44

Disponível em www.abrapa.org.br

Discuti também seu processo de construção e co-construção em sala de aula e sua relação com língua e aprendizagem de língua. Por fim, na terceira seção, discorri sobre a língua alemã, alguns de seus aspectos estruturais e históricos. Tendo fundamentado o estudo teoricamente, apresento, no próximo capítulo, a metodologia da pesquisa.

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