Nos dois pontos anteriores tecemos algumas considerações relativas à importância da transversalidade da língua portuguesa e à sua posição no currículo do Ensino Básico.
Neste ponto, gostaríamos de nos referir especificamente às implicações da exploração da transversalidade da língua portuguesa no respectivo processo de ensino/aprendizagem.
Começamos por salientar a grande importância da língua portuguesa na sociedade de hoje.
Em primeiro lugar, ela é a língua materna da maioria da população portuguesa. É ainda a língua de acolhimento para muitos indivíduos que não têm o português como língua materna. Ela unifica e é fundamental no usufruto pleno da cidadania.
Para além disso é a língua de escolarização, sendo portanto a língua de comunicação na Escola.
Por conseguinte, como já vimos, a área de Língua Portuguesa ocupa um lugar de grande destaque no currículo nacional do Ensino Básico: é considerada como o eixo central do currículo.
Segundo Lídia Valadares (2003:31), “a Língua Portuguesa, através do desenvolvimento das suas competências, desempenha um papel de relevo na aquisição de saberes nas diversas disciplinas. Só desenvolvendo capacidades a nível de leitura, compreensão e expressão orais e escritas, em Língua Portuguesa, os alunos estarão aptos a construir a sua aprendizagem, em processos significativos, noutras áreas, e a alcançar o sucesso escolar e social.”
O Ministério da Educação definiu cinco competências específicas para a área de Língua Portuguesa, a desenvolver em todos os ciclos do Ensino Básico. São
elas: a compreensão do oral, a expressão oral, a leitura, a expressão escrita e o
conhecimento explícito.
A compreensão do oral requer que o aluno, além de captar correctamente a mensagem, tenha a capacidade de a compreender, de modo a usar a informação assim adquirida em contextos adequados.
Esta competência é essencial para o sucesso escolar dos alunos. Uma deficiente compreensão do oral não permite ao aluno apreender a informação contida na mensagem, logo desenvolver a sua aprendizagem.
Cabe a todas as áreas curriculares (disciplinares e não disciplinares) contribuírem para o seu desenvolvimento.
Por sua vez, ao desenvolver competências no domínio da expressão oral, o
aluno estará apto a exprimir-se de acordo com as situações e contextos em que se envolve. Para isso, terá de se familiarizar com os diferentes géneros do oral.
Esta competência também é fundamental no processo de
ensino/aprendizagem, dado que este pressupõe um acto comunicativo. O seu desenvolvimento é fulcral para o alcance do sucesso escolar, por parte do aluno.
Torna-se imprescindível trabalhar esta competência em todas as áreas curriculares (disciplinares e não disciplinares), para que todos os alunos se saibam expressar oralmente, de forma adequada às situações em que interagem.
Segundo Inês Sim-Sim (2001:81), “A leitura (associada à compreensão escrita) implica que o aluno seja capaz de extrair informação do material escrito, qualquer que seja o suporte, o tipo de texto e qualquer que seja a finalidade da leitura, transformando essa informação em conhecimento.”
Tal como as restantes competências específicas, esta também se reveste de
uma grande importância no processo ensino/aprendizagem. Os problemas em
leitura levarão o aluno ao insucesso escolar, uma vez que este não conseguirá obter a informação que pretende a partir do material lido. Essa falha de
compreensão escrita traduzir-se-á em desconhecimento e fracasso nas
aprendizagens.
Estas especificidades da leitura fazem dela uma competência com carácter transversal, devendo todas as áreas curriculares (disciplinares e não disciplinares) contribuir para o desenvolvimento da mesma, o que será uma responsabilidade de todos os professores.
Independentemente da área em que o professor exerça a sua actividade docente, é sempre possível criar actividades que desenvolvam esta competência.
A expressão escrita é entendida como “o produto, dotado de significado e
conforme à gramática da língua, resultante de um processo que inclui o conhecimento do sistema de representação gráfica adoptado. Esta competência
implica processos cognitivos e linguísticos complexos, nomeadamente os
envolvidos no planeamento, na formatação linguística, na revisão, na correcção e na reformulação do texto.” (Ministério da Educação, 2001a:32).
Esta competência também se reveste de uma grande importância no alcance do sucesso escolar.
Os estudos concretizados a nível nacional e internacional revelam que, no final do Ensino Básico, bem como quando já concluíram o Ensino Secundário, os nossos alunos revelam um baixo desempenho nesta competência.
Como defendem Garcia e Pérez (2001:18), “a função do professor é criar um clima de interacção e construção de conhecimentos em torno do escrito que seja suficientemente rico para compensar as desigualdades daqueles que não tiveram a opção de fazer isso fora da escola, possibilitando-lhes, assim, a obtenção de informação e a geração de hipóteses sobre a natureza, a função e os usos da escrita em contextos reais ( e não exclusivamente escolares).”
É realmente importante que se criem situações propícias e motivadoras para a escrita, de forma a que os alunos não a considerem difícil e aborrecida.
É também importante que os professores de todas as áreas se
consciencializem da importância desta competência e do seu desenvolvimento em sala de aula.
Muitas vezes, os professores não valorizam devidamente a expressão escrita, uma vez que muitos remetem para trabalho de casa tudo o que se relaciona com a sua prática. Uma das razões que justificam este hábito condenável prende-se com o facto de esta actividade requerer muito tempo útil de aula.
Devemos ter em conta o facto de que o principal local de desenvolvimento desta competência deve ser a sala de aula. O aluno deverá ser capaz de
seleccionar informação, organizar a informação recolhida, redigir nova informação e, por fim, rever e alterar o que produziu em função da revisão feita.
Esta competência deverá ser desenvolvida num ambiente motivador, de forma a não perdermos o aluno logo nos primeiros ciclos de ensino.
A última competência específica para a área de Língua Portuguesa definida
pelo Ministério da Educação é o conhecimento explícito, que consiste na reflexão
sobre o funcionamento interno da língua.
O aluno deverá progressivamente conhecer e aplicar as regras gramaticais. Também é uma competência fundamental, uma vez que, se o aluno não conhecer estas regras, dificilmente se expressará correctamente (tanto na forma oral como na escrita), além de ter dificuldade em compreender mensagens orais e escritas.
Também deve ser desenvolvida em todas as áreas curriculares (disciplinares e não disciplinares), embora o seu lugar de eleição seja a área de Língua Portuguesa. Em suma, as competências específicas definidas para a área curricular disciplinar de Língua Portuguesa têm todas um carácter transversal, devendo ser desenvolvidas em todas as áreas curriculares (disciplinares e não disciplinares).
Daqui advém também a convicção de que a área de Língua Portuguesa é o eixo central do currículo.
Está enraizada em toda a sociedade a ideia de que o grande insucesso escolar em todas as áreas curriculares (disciplinares e não disciplinares) advém do mau desempenho na área de Língua Portuguesa.
Esta lacuna, além de levar ao insucesso escolar do aluno, limitá-lo-á futuramente na inserção em sociedade, nomeadamente no que se refere ao mundo do trabalho.
No 1º Ciclo do Ensino Básico, este trabalho pode ser realizado sem tantos obstáculos como nos restantes ciclos.
De facto, alguns estudos revelam que um dos grandes entraves ao desenvolvimento da transversalidade da língua portuguesa se deve ao facto de os professores não cooperarem e não trabalharem em conjunto.
No caso do 1º Ciclo do Ensino Básico, há um ponto a favor da operacionalização da transversalidade: o facto de se operar em sistema de
monodocência, permitindo que se trabalhem todas as áreas na sala de aula com apenas um professor. Assim, este tem a possibilidade de planear as suas actividades, tendo em conta a forma de operacionalizar em sala de aula a transversalidade da língua portuguesa.
Consideramos que muitos professores o fazem, mesmo sem terem um conhecimento alargado desta temática.
Capítulo 2 – A transversalidade da língua portuguesa associada ao