332.1.2 Guides d’entretien avec le patient
5. exemple de plan d’action détaillé
O Materialismo Histórico é uma exterioridade que atravessa a Linguística e dá origem à AD (FERNANDES, 2008). Orlandi (1986, p. 111) ressalta que “[...] quanto aos processos de significação, a AD visa o caráter material do sentido, sua historicidade [...]”. Segundo Amaral (2007), o discurso possui a dimensão linguística, mas também uma dimensão histórica, e ambas formam a ordem do discurso. A AD se vale do método marxiano, pois analisa o discurso como um todo concreto, um concreto pensado, uma representação do real. O analista toma o objeto discursivo e, interpreta-o, para alcançar um novo concreto pensado: o discurso é ponto de partida, mas também de chegada (AMARAL, 2007).
Segundo Orlandi (2015a), o materialismo histórico deixou de legado à AD o real da história, que não é transparente ao humano. Pêcheux (2008, p. 29, grifo nosso) se refere ao real como “[...] pontos de impossível, determinando aquilo que não pode não ser assim. (O real é o impossível... que seja de outro modo) [...]” ou ainda um real que não se descobre, mas que “[...] a gente se depara com ele, dá de encontro com ele, o encontra [...]” (PÊCHEUX, 2008, p. 29). Portanto, o viés materialista da AD é parte integrante dela, pois “[...] é pensada para se constituir, ao mesmo tempo, como intervenção científica e política, consolidando uma teoria marxista do discurso [...]” (FLORÊNCIO; MAGALHÃES; SILVA SOBRINHO; CAVALCANTE, 2016, p. 26). Pêcheux (2016) considera que o sentido possui uma natureza material e, por conseguinte, Orlandi (2015a, p. 17) trata do caráter materialista da AD, que
[...] pressupõe o legado do materialismo histórico, isto é, o de que há um real da história de tal forma que o homem faz história mas esta também não lhe é transparente. Daí, conjugando língua com a história na produção de sentidos, esses estudos do discurso trabalham o que vai-se chamar a forma material (não abstrata como a da Linguística) que é a forma encarnada na história para produzir sentidos: esta forma é portanto linguístico-histórica.
Portanto, o ser humano conjuga língua com história para que se produzam os sentidos. Há, por sua vez, segundo Orlandi (2015a, p. 17), uma forma material, “[...] o acontecimento do significante (língua) em um sujeito afetado pela história [...]” ou a “[...] forma encarnada na história para produzir sentidos [...]” (ORLANDI, 2015a, p. 17). A AD propõe uma análise que seja capaz de “[...] sair da materialidade linguística em questão para compreendê-la em sua exterioridade, no social, espaço em que o linguístico, o histórico e o ideológico coexistem em uma relação de implicância, compreendidos como discursos [...]” (FERNANDES, 2008, p. 61). Segundo Maldidier (2003), é com o materialismo histórico e a teoria das ideologias que Pêcheux dá fundamento ao discurso e marca uma posição epistemológica explícita. É a
partir do materialismo que o discurso se põe em relação com a ideologia. A autora afirma que “[...] Michel Pêcheux procurará concluir uma teoria materialista do discurso [...]” (MALDIDIER, 2003, p. 34) no período de 1972-74, depois de tomar conhecimento do artigo de Althusser11, marcando definitivamente sua obra.
Segundo Silva (2015), Pêcheux explicita sua entrada no materialismo em 1971 no texto “Língua, linguagens, discurso”. Pêcheux (2014a) observa a Linguística a partir de um ponto de vista marxista-leninista, ao considerar que as condições sócio-históricas se ligam às significações de um texto. Para Pêcheux, tal ligação é constitutiva das significações. Ao tratar da língua e do discurso, Pêcheux assevera que “[...] o tipo de concreto com que lidamos e em relação ao qual é preciso pensar, é precisamente o que o materialismo histórico designa pela expressão relações sociais, que resulta de relações de classe características de uma formação social dada.” (PÊCHEUX, 2014a, p. 127).
Pêcheux considera a língua como base sobre a qual os processos se constroem e adverte que sobre uma base única, diversas formações ideológicas podem se constituir. Ou seja, em domínios distintos, como, por exemplo, a política e a produção científica, “[...] as palavras podem mudar de sentido de acordo com as posições sustentadas por aqueles que as empregam [...]” (PÊCHEUX, 2014a, p 122). No interior desta base, conforme Pêcheux (2014a), a enunciação possibilita a articulação de processos discursivos e é por meio dela que o sujeito falante assume posição face às representações das quais ele mesmo é suporte. O fundador da AD, a esta altura, trata a teoria do discurso por nome provisório, mas já a inscreve como “[...] um setor do materialismo histórico [...]” (PÊCHEUX, 2014a, p. 129). Seu trabalho trata-se, pois, de “[...] uma abordagem teórica materialista do funcionamento das representações e do pensamento nos processos discursivos [...]” (PÊCHEUX, 2014a, p. 115).
Paulo Netto (2012a, p. 10) diz que no âmbito da teoria social de Marx, o método aparece como um nó de problemas, mas ressalta que os problemas se devem, para além das motivações científicas, às recusas ideológicas e às questões políticas, uma vez que “[...] na medida em que a teoria social de Marx vincula-se a um projeto revolucionário, a análise e a crítica da sua concepção teórico-metodológica (e não só) estiveram sempre condicionadas às reações que tal projeto despertou e continua despertando [...]”. Para Marx, o conhecimento teórico significava o “[...] conhecimento do objeto – de sua estrutura e dinâmica – tal como
ele é em si mesmo, na sua existência real e efetiva [...]” (PAULO NETTO, 2012a, p. 20). Dito
de outra maneira, “[...] a teoria é o movimento real do objeto transposto para o cérebro do
11 Publicado pela revista La Penseé, em 1970, o artigo ideologia e aparelhos ideológicos de Estado (notas a uma pesquisa) (MALDIDIER, 2003).
pesquisador – é o real reproduzido e interpretado no plano ideal (do pensamento) [...]” (PAULO NETTO, 2012a, p. 21). O pesquisador tem por objetivo apreender a estrutura e a dinâmica (essência) do objeto, cuja existência objetiva não depende dele. Em síntese:
[...] o método de pesquisa que propicia o conhecimento teórico, partindo da
aparência, visa alcançar a essência do objeto. Alcançando a essência do
objeto, isto é: capturando a sua estrutura e dinâmica, por meio de procedimentos analíticos e operando a sua síntese, o pesquisador reproduz no plano do pensamento; mediante a pesquisa, viabilizada pelo método, o pesquisador reproduz, no plano ideal, a essência do objeto que investigou. (PAULO NETTO, 2012a, p. 22).
De acordo com Paulo Netto (2012a, p. 27), para Marx, o método de pesquisa não é “[...] algo autônomo em relação à teoria ou à própria investigação [...]”. A teoria e o método estão conectados e sustentam-se a partir da realidade social (PIMENTEL; SILVA, 2019). Na concepção marxiana, no processo de conhecimento teórico, a relação sujeito-objeto é uma relação de implicação do sujeito no objeto. Deste modo, tanto a pesquisa quanto a teoria dela resultante exclui, automaticamente, a presunção de neutralidade. O pesquisador, por sua vez, tem papel ativo, “[...] deve ser capaz de mobilizar um máximo de conhecimentos, criticá-los, revisá-los e deve ser dotado de criatividade e imaginação [...]” (PAULO NETTO, 2012a, p. 25).
A teoria materialista do discurso está ancorada no método científico elaborado por Karl Marx. A AD a qual nos filiamos é herdeira do materialismo histórico, como é possível constatar quando Pêcheux (2016, p. 172) se posiciona a favor de uma teoria dos processos discursivos, capaz de atribuir “[...] a referência materialista às relações de produção e ao modo de produção que as implica [...]”. Para Pêcheux, a existência da sociedade e da história não se dissocia das relações de produção e da luta de classes, uma vez que “[...] a história da produção dos conhecimentos não está acima ou separada da história da luta de classes [...]” (PÊCHEUX, 2016, p. 172).
Amaral (2007, p. 15) nos chama a atenção para a perspectiva de historicidade que possibilita à AD “[...] avançar em termos teóricos e metodológicos e romper com os paradigmas que sustentam o objeto como determinante da significação e com os que afirmam ser o sujeito o senhor absoluto de seu dizer [...]”. É, portanto, a partir da historicidade que “[...] a Análise do Discurso resgata o estatuto do materialismo histórico, propondo uma outra leitura das formas de significação da existência, das formas como os homens atribuem sentido à vida [...]”. Desde Michel Pêcheux, portanto, salienta Amaral (2007, p. 15), “[...] os
procedimentos analíticos são definidos à luz do referencial da teoria social Marxista”. O método materialista histórico produz um conhecimento que
[...] pressupõe o estudo ontológico do ser social, uma análise histórica do objeto concreto, para determinar suas categorias mais simples e mais complexas, numa relação dialética entre particularidade e universalidade, na determinação de suas mediações, visando compreender aparência e essência do objeto, revelando suas contradições, com o objetivo de superá-las. O método em Marx é, sobretudo, uma posição ético-política de superação das contradições capitalistas. (PIMENTEL; SILVA, 2019, p. 49).
A AD como campo específico de conhecimento do discurso, se empenha em definir uma teoria crítica na qual o discurso é um processo articulado da língua com a história. O discurso é, pois, um objeto que apresenta características linguísticas, sociais e históricas. Do diálogo com a filosofia surge o acercamento com a teoria social de Marx, fundamentalmente do método que o fez captar o funcionamento da sociedade burguesa. A produção da teoria do discurso de Pêcheux, na vertente do materialismo histórico, produziu deslocamentos dos conceitos de formação social, formação discursiva e formação ideológica, entretanto manteve a categoria totalidade em destaque fundamental para reproduzir a realidade em pensamento e concretizá-la em discurso (AMARAL, 2007).
O quadro teórico-metodológico elaborado e sustentado pela AD a faz reconhecida como um campo do conhecimento (AMARAL, 2007; ORLANDI, 2016). A noção de materialidade é fundamental para a perspectiva discursiva posta pela AD. A entrada no materialismo histórico é a saída do positivismo, já a materialidade é a condição de possibilidade de observação da relação entre o real e o imaginário, isto é, a ideologia operando pelo inconsciente (ORLANDI, 2016). Como postula Pêcheux (2016), a filosofia materialista coloca questões, convoca a ciência que se encarrega da língua a voltar-se para dentro e questionar seus próprios domínios e objetos, fazendo-o a partir de objetos da ciência das formações sociais, por meio do que ele denominou teoria histórica dos processos ideológicos e científicos.
Pêcheux, embasado em Marx, construiu seu percurso teórico considerando que os processos discursivos não se configuram como pensamento puro nem, tampouco, como atividade cognitiva pura e vai também considerar o papel da luta de classes em sua teoria. Para Pêcheux (2016, p. 82), “[...] todo processo discursivo se inscreve numa relação ideológica de classes [...]”. Orlandi (2016, p. 73) parte da obra de Pêcheux, lembrando que a teoria do discurso é a “determinação histórica dos processos de significação” e que processo discursivo, por sua vez, é “[...] o sistema de relações de substituição, paráfrases, sinonímias
etc. que funcionam entre elementos linguísticos – significantes – em uma formação discursiva dada [...]” (ORLANDI, 2016, p. 73).
Para Florêncio, Magalhães, Silva Sobrinho e Cavalcante (2016, p. 39), “O funcionamento da ideologia se dá, pois, nas relações sociais de produção e abrange as determinações de classe (na sociedade capitalista) e os horizontes culturais dos integrantes de uma formação social, uma vez que a cultura é a condição dada para consolidação e desenvolvimento da ideologia [...]” Nesse sentido, para além da Ideologia em geral, a AD considera circunscrições ideológicas específicas, justamente porque “[...] o processo de constituição dos sujeitos, não ocorre da mesma forma, mas através de diferentes formas específicas de ideologia [...]” (FLORÊNCIO; MAGALHÃES; SILVA SOBRINHO; CAVALCANTE, 2016, p. 39). Tais circunscrições ou formas específicas de ideologia são as formações ideológicas.