TEATRO
A seleção do gênero peça de teatro como recurso terapêutico teve o intuito de conquistar leitores e produtores de textos por meio da inserção dos sujeitos em uma atividade ligada à esfera da arte. Dessa maneira, distantes das propostas tradicionalistas realizadas no contexto de muitas escolas e clínicas, fundamentados em uma teoria bakhtiniana, pretendíamos dar novos sentidos a uma provável relação negativa dos sujeitos com a linguagem escrita. Pensamos que em meio a contextos significativos de produção de linguagem seja possível ampliar as capacidades discursivas dos aprendizes que nos vêm encaminhados com pré-diagnósticos de supostos distúrbios de escrita.
Para efetivarmos o trabalho com o gênero peça de teatro na clínica fonoaudiológica, partimos de uma proposta de elaboração de um enunciado escrito, uma peça de teatro, seguida de encenação da peça produzida. A produção escrita ocorreu a partir de uma adaptação de uma obra literária para o gênero peça de teatro. Tivemos, desse modo, de selecionar a obra literária para que, depois de realizada a sua leitura, se partisse para o processo de reenunciação do romance para a peça de teatro A produção escrita foi dividida em duas partes, devido à complexidade do processo de elaboração escrita. Ou seja, para a reenunciação, os sujeitos tinham como proposta de lidar com uma série de aspectos: indicações de personagens, ações, cenários, divisão em cenas etc; então, consideramos prudente facilitar o processo de produção dividindo as estratégias de escrita em duas partes, especificadas logo abaixo. Também, adiante, detalhamos os passos para que os sujeitos se apropriassem de outros gêneros (sinopse e cartaz de divulgação) que foram, neste caso, necessários à concretização do trabalho com o gênero peça de teatro.
Acordamos (terapeuta e participantes do grupo) que a peça,
depois de finalizada, seria publicada no site
www.recantodasletras.com.br e encenada por eles na festa de
encerramento que era realizada todos os anos (próximo ao Natal) no ambulatório de leitura e escrita do Hospital Infantil Joana de Gusmão. Um dos componentes do grupo sugeriu que a peça também fosse apresentada para as crianças hospitalizadas do referido Hospital. Achamos (àquela época – início do processo de atendimento) a proposta bastante interessante, já que dessa forma teríamos um espectador mais imediato e real, já que a encenação só ocorreria na festa de encerramento do ano seguinte (2009). No entanto, os planos iniciais com relação ao local de encenação não se concretizaram e a peça acabou sendo encenada em uma sala de terapia do hospital, onde foram convidados pré-adolescentes atendidos no ambulatório de leitura e escrita.
A seguir, um resumo das sessões de terapia relacionadas ao trabalho com o gênero peça de teatro:
1a sessão: apresentação dos objetivos do trabalho terapêutico e de pesquisa; conversa inicial a respeito do gênero a ser trabalhado (estudo dos seus aspectos históricos).
2a a 4a sessões: seleção e leitura do romance (objeto de adaptação): Goosebumps – ele saiu debaixo da pia, de R. L Stine. O romance de 77 páginas foi dividido em três partes, e sugerimos (a terapeuta) que cada parte fosse lida em casa pelos sujeitos em um período de uma semana. Nas sessões foram realizadas leituras de trechos da obra (por parte de todos os integrantes do grupo) e feitas discussões orais a respeito do enredo.
5a a 11a sessões: 1- leituras de peças de teatro em diferentes modalidades (drama, comédia e tragédia). O objetivo desta conduta foi o de apresentar distintas modalidades de peças teatrais, intencionando, desse modo, ampliar os conhecimentos linguístico-discursivos dos participantes. 2- leituras de entrevistas com dramaturgos e elaboração de entrevista para um dramaturgo. Objetivamos, com essa atividade, entre outras coisas, fazer com que os participantes da pesquisa interagissem com alguns dos agentes sociais do campo da arte dramática. 3- leituras de trechos das obras Clarissa e Crepúsculo para comparação entre gêneros (romance e peça de teatro). Esta atitude objetivou clarificar alguns aspectos relacionados à
composição textual do gênero peça de teatro, como, por exemplo, a questão dos tempos verbais (tempo presente na peça e pretérito no romance). Para isso, estudamos a função social de cada gênero.
Nesse período foram realizadas leituras de peças de teatro com objetivos de entretenimento e também de análise e apropriação do gênero. Foram lidos, por meio de leitura compartilhada entre todos os componentes do grupo, onze peças e alguns trechos de outras, tais como,
A comédia dos erros, de Shakespeare, e de peças de Nelson Rodrigues.
As peças lidas foram as seguintes:O pássaro feliz (RAMALHO,
1982), Ele mente que nem sente (SLOVICK, 2009), Deu a louca nos
contos de fadas (NASCIMENTO, 2009), Maria no mundo da fantasia
(RAMALHO, 1982), O ABC do sonho (ANGÉLIDA, 1982), O jogo da
sorte (SOLDATELLI, 1982), As árvores também sentem (ELIBERTO,
1982), Espelhos humanos (SILVA, 1982), A revolução das enxadas (SILVA, 2009), Meu primeiro amor (CAS, 2009), As três damas (SCHIMIDT, 1982).
O grupo, antes de iniciar a escrita da peça, assistiu a uma peça de teatro (Infância), no teatro da UBRO, em Florianópolis. Isso aconteceu no final de semana.
12ª a 18ª sessões: escrita da peça (parte 1): os vinte e nove capítulos do romance Goosebumps: ele saiu debaixo da pia foram divididos entre os sujeitos para que eles realizassem a reenunciação do gênero romance para o gênero peça de teatro. Essa primeira parte de escrita foi centrada nos seguintes aspectos: indicação dos personagens no canto esquerdo da página; microrubricas (indicação do estado emocional dos personagens e da movimentação dos atores em cena).
19ª a 21ª sessões: escrita da peça (parte 2): divisão em cenas (pautada na entrada e saída de personagens) do texto completo produzido pelo grupo; indicação das macrorubricas (indicação realizada no topo da cena: se é dia ou noite; cena interna ou externa; indicação de cenário).
22ª a 25ª sessões: após o processo de escrita foi realizada a revisão da peça inteira produzida pelo grupo. O grupo teve acesso ao enunciado inteiro, pois a pesquisadora digitou todo o texto produzido e entregou uma cópia para cada sujeito. Eles fizeram a revisão inclusive na parte escrita pelos colegas. Esse processo ocorreu em grupo, com discussões mediadas pela terapeuta.
26ª a 28ª sessões: encenação/pré-ensaios: de posse da peça completa, os sujeitos sugeriram que realizassem entre si um ensaio do texto produzido. O texto foi dividido em três partes e cada parte (principais cenas) foi ensaiada em uma sessão. Ficou acordado que os sujeitos estudariam o texto também em casa. Os ensaios ocorreram em sala de terapia, com objetos trazidos pela pesquisadora (cachorro de brinquedo, maquiagem, peças de vestuário). A última sessão de ensaio foi assistida por duas das mães e por uma funcionária do hospital. Não foi possível a encenação para as crianças hospitalizadas, como havia sido previamente acordado, pois as alas de internação haviam sido isoladas do público, devido à incidência da influenza A (vírus H1N1). Vale comentar que no período destinado aos ensaios foram feitos trabalhos de corpo e voz direcionados para atores (SPOLIN, 2006; BEHLAU e PONTES, 1995; QUINTEIRO, 2007).
29ª a 33ª sessões: posteriormente, procedeu-se à realização da escrita de sinopse da peça que ocorreu como condição para a publicação da peça em site. É importante ressaltar que nessa fase foram lidas e analisadas algumas sinopses de algumas peças já lidas anteriormente, com vistas à apreensão das características desse gênero. Também foram lidas algumas sinopses de romances e filmes. Procuramos abarcar o gênero
sinopse em seus vários suportes: livros, DVD, revistas (Carta
Capital e Veja) e jornal (Diário Catarinense).
34ª e 35ª sessões: foram realizados os cartazes de divulgação da peça. Cada integrante do grupo produziu um cartaz.
36ª sessão: escrita da avaliação (do trabalho desenvolvido) pelo grupo. Os sujeitos produziram um texto no qual relataram suas opiniões em relação à atividade desenvolvida com o teatro. Também nesse dia iniciaram a última revisão da peça no computador para o envio para publicação.
37ª sessão: finalização da revisão no computador.
38ª e 39ª sessões: redução e adaptação do texto para encenação, pois a peça original havia ficado muito extensa. A adaptação foi necessária, uma vez que havia mais personagens do que sujeitos para representá-los.
40ª a 43ª sessões: ensaios para encenação. 44ª sessão: encenação final.