Percebi por meio dos documentos escritos e orais que as
religiosas incentivavam os pacientes e funcionários a
participarem das missas e das orações na capela do hospital Bom Pastor para contribuir na recuperação do doente. Como se vê na Crônica abaixo, a missa era, na visão das religiosas, um produto católico que contribuiria positivamente para o tratamento da doença física e também para a cura da alma dos pacientes.
As irmãs zelaram para que os doentes e funcionários encontrasse o caminho da salvação.
A Santa Missa na capela em nosso Hospital, é o melhor remédio para a cura física e da alma dos pobres doentes que aqui chegam!
Oh bondosa nossa fundadora, que os acolhe em seus braços!365
Os documentos indicam, ainda, que a capela do hospital Bom Pastor não foi espaço apropriado apenas para os que frequentavam o hospital, como os enfermos, os familiares e funcionários, mas principalmente pelas religiosas e as juvenistas. Na entrevista de Virgínea Lopes Grugger, que trabalhou no hospital por um curto período de tempo, identifiquei que as religiosas não somente comercializavam os produtos da Igreja Católica como também eram consumidoras.
As irmãs tinham como sagrado rezar as ladainhas delas duas vezes ao dia; era demanhã bem cedo e a noite. Quando elas tinham tempo, todas iam juntas, ou as vezes eram em duas por vez. Elas rezavam, eu acho, uns 40 minutos. Um dia eu pedi para participar com elas, né, aí elas deixaram. Mas eu sabia que era somente para elas mesmo. Algumas mocinhas entravam com elas também, eram as filhas de católicos que
365
queriam ser freira e aprendiam com elas. Ah, essas tinham por obrigação rezar também.366
De acordo com a literatura produzida por religiosas da Congregação de Santa Catarina e por outros pesquisadores, elas têm por costume, por onde se instalam, a fim de exercitar a espiritualidade, construir uma capela para as suas orações, que são normas da congregação.
Existem dois momentos para efetuar a oração: na parte da manhã, às seis horas, que é a chamada ―liturgia das horas‖, conhecida por Laudis, e no final da tarde, às 18 horas, a conhecida oração As vésperas. Nesses momentos, as religiosas fazem leitura da Bíblia, cantam salmos e rezam.367
Seguindo essa linha de pensamento, por meio da entrevista de Rosa Avantino Leocádio, percebi que as religiosas compreendiam a missa como um mandamento da Igreja Católica e também como remédio, que ajudaria no tratamento físico dos pacientes, a tal ponto de imaginar que o enfermo que não participasse das missas na capela estaria cometendo um grave pecado e correndo o risco de ficar até mesmo mais enfermo, pela desobediência.
No hospital, as irmãs tratavam bem os doentes; elas rezavam segurando nossas mãos. Dizia para acompanharmos as rezas com elas, sabe, era muito bom o atendimento delas. Elas sempre diziam que a santa Regina, era uma mulher muito boa que deixou os ensinamentos para elas seguirem.
Elas passavam de quarto em quarto dizendo que era a missa na capela. Quem poderia ir caminhando sozinho ia, e quem não podia, as irmãs, as mocinhas [juvenistas] e outras
366
Virgínea Lopes Grugger, 76 anos. Entrevistas concedidas a Lúcio Vânio Moraes em 5/6/2010 e 4/9/2010.
367 PETRY, Ir. Maria Cecília Alice. 2003, Op. cit.,p. 15 a 23. Ver também a pesquisa
enfermeiras levavam até a capela.
Naquele tempo elas diziam que participar da missa era um santo remédio para o doente e também um sinal de obediência ao mandamento da Igreja. Se o paciente pudesse caminhar e não fosse à missa, poderia ficar até mais doente. As freiras diziam que não ir à missa era um grave pecado.
[...]
A missa era um tratamento também né! Elas diziam que na missa as pessoas teriam mais fé e iriam se curar mais rápido. Elas mandavam a gente fazer promessas, pedindo cura para a madre Regina.368
A visão apresentada no fragmento leva-me a perceber que a base teológica das religiosas acerca da missa é proveniente do Catecismo. Tal documento utilizado pela Igreja Católica e pelas religiosas foi escrito pelo Papa São Pio X em 1905. Possui o método de perguntas e respostas com a finalidade de popularizar o ensino catequético na Igreja Católica. Ele contêm o conhecimento básico teológico que orienta toda a Igreja Católica. Tratando-se sobre mandamentos e missa, conforme apontado nos depoimentos de Rosa Avantino Leocádio, há escrito no Catecismo os cinco mandamentos da Igreja Católica,369 e o primeiro afirma que o adepto católico deve ―ouvir a Missa inteira nos domingos e festas de guarda‖.370
No decorrer das páginas do Catecismo, as perguntas vão sendo direcionadas e específicas acerca da missa, permitindo compreender as entrevistas.
368 Rosa Avantino Leocádio, 73 anos. Entrevista concedida a Lúcio Vânio Moraes em
5/12/2009.
369 Mandamento é uma ordem da Igreja. ―A Igreja pode dar Mandamentos, porque
recebeu êste (sic) poder de Nosso Senhor Jesus Cristo‖. POLL, Fr. Boaventura.
Op.cit., p. 94.
370 ―As festas de guarda são as seguintes: Natal, circuncisão do Senhor, Epifania,
Ascensão do Senhor, Corpus Christi, Imaculada Conceição, São Pedro e São Paulo Apostolo e Todos os Santos‖. Idem, p. 95-96).
Quem é obrigado a ouvir Missa nos domingos e dias santificados?
Todos os cristãos que têm o uso da razão e sete anos de idade, e que não estiverem impedidos por algum motivo grave‖.371
Quais são os pecados contra o primeiro mandamento da Igreja?
1o Perder a Missa, ou perdê-la em parte, por própria culpa, nos domingos e festa de guarda;
2o Profanar estes dias;
3o Estar voluntariamente distraído ou comportar-se irreverente durante a missa.372
A missa, no Catecismo, é ainda considerada um sacrifício.373 Ou seja, está relacionada com a questão do sacrifício de Jesus, sua morte na cruz do Calvário, por isso ela é considerada ―santa‖. ―Que é a Santa Missa? A Santa Missa é o Sacrifício do corpo e sangue de Jesus Cristo, oferecido no altar, sob espécies de pão e de vinho, para renovar continuamente o Sacrifício da Cruz‖.374
Com base no exposto, a missa era representada pelas religiosas um remédio religioso que traria um revestimento espiritual a quem participasse, pois estaria ―alimentando‖ a alma com os bens simbólicos da Igreja Católica, como as rezas, a comunhão e os cantos. Nesses bens simbólicos, ―o Cristo vivo e ressurreto se faz presente para curar os doentes em nosso nosocômio. Quantos doentes têm alcançado a cura de Cristo Pai
e o consolo de Madre Regina‖.375
Como as religiosas desejavam que todos os pacientes consumissem os bens de salvação da Igreja Católica, a superiora do hospital, ordenou para que as auxiliares de enfermagem, as juvenistas, profissionais e a equipe de leigos, levassem os pacientes que possuissem dificuldades de locomoção para a capela a fim de assistirem a missa. Segundo senhor Francisco
371
Idem, p. 96.
372
Idem ibidem.
373 ―Sacrifício é um dom visível que se oferece a Deus como nosso supremo Senhor e
Criador, a fim de honrá-lo e adorá-lo‖. Idem, p. 131.
374
Idem ibidem.
375
de Souza,
eu fui internado várias vezes no hospital das irmãs por causa da pressão alta, e lá elas me levavam na capela para participar das missas.
As missas as vezes era feita pelos padres, os cantos pelas irmãs e as vezes por pessoas assim da Igreja.
Sabe como eu era levado? Duas mulheres me pegavam pelos braços e eu dava pequenos passos até na capela. Naquele tempo não se tinha cadeira de roda eu acho.
Era bom participar das missas né. Eu saía de lá confiante que iria melhorar. Quando a gente tá doente tudo que a gente recebe é bom, né? Doente se lembra mais em Deus e a fé aumenta mais.376
Em situações quando o enfermo não poderia nem sair do quarto, rezava-se o terço juntamente com ele e era ofertado o Santíssimo Sacramento de modo que o enfermo pudesse comungar. Valdete Assis de Oliveira, que cuidou da sua mãe por uns seis dias que ficou internada, lembra que as religiosas tinham uma equipe que faziam visitas nos quartos no hospital para atender os pacientes que não poderiam levantar-se para ir à capela. Esse grupo era composto por diversas pessoas (leigos) preparadas pelo pároco para rezar pelos enfermos, dar a benção e entregar o Santíssimo Sacramento ao doente. Contudo, para ter a confissão e ter a unção dos enfermos, era preciso a presença do pároco e das religiosas.
Eu fiquei seis dias no hospital cuidando da minha mãe que ficou internada e nem podia se levantar da cama. Aí as freiras perguntavam se ela aceitava que rezassem por ela.
376
Francisco de Souza, 81 anos. Entrevista concedida a Lúcio Vânio Moraes em 2/7/2009.
Ali no quarto mesmo era feito uma missa. A minha mãe queria se confessar e receber a unção dos enfermos, aí veio o padre Sprícigo e a irmã Verônica, bem novinha, para confessar e ungir a mãe.
A confissão era porque a mãe queria estar preparada para Deus né, caso ela partisse.377 As religiosas compreendiam também que os pacientes participando das missas na capela e no quarto teriam condições de fazer o exame de consciência e passar pelo processo de purificação da alma. Ainda com os depoimentos de Valdete Assis de Oliveira,
nos momentos mais críticos da doença da mãe no hospital, as freiras, muito queridas, durante os terços no quarto, orientavam para que a mãe lembrasse de tudo o que havia feito de errado e pedisse perdão a Deus. Se fosse preciso pedir perdão e dar o perdão para algum familiar, era para chamar que elas iriam ajudar a mãe!378
As missas realizadas na capela possuíam ainda a função de conscientizar o adepto que estava esfriando a fé voltar a consumir os produtos católicos. Em entrevista, Hercílio Valter Macan, residente em Maracajá, descendente de italianos, lembrou que, por volta de 1956, sofreu um acidente enquanto trabalhava na agricultura. Segundo ele, enquanto fazia o tratamento no hospital, as religiosas detectaram que ele já há algum tempo não havia mais participado de missas e outras ações da Igreja Católica. Convenceram-no, então, de que precisava participar das missas na capela para aproximar-se mais de Deus. Após a sua recuperação, as religiosas usaram o argumento de que o Senhor Deus lhe concedeu mais uma oportunidade para ser fervoroso católico. Ou seja, na visão das
377 Valdete Assis de Oliveira, 74 anos. Entrevista concedida a Lúcio Vânio Moraes em
13/6/2008.
378
religiosas, Jeová permitiu a doença no entrevistado para que ele se voltasse a Deus, ―aquele que não vem por amor, vem pela dor‖.379
Eu levei um corte profundo em minha perna e fui levado desmaiado para o hospital. Quando acordei, estava em uma sala para avaliação.
Depois de instantes veio uma freira, enfermeira, vestindo hábito branco, perguntou como eu estava me sentindo e eu respondi que estava bem. Aí ela me disse que Deus havia me dado uma perna nova, porque, eu só não perdi a perna porque os santos e Deus me protegeram. Então, naquele momento eu senti realmente como eu estava distante de Deus e passei a dizer para ela, igual uma confissão mesmo, que tinha deixado de ir aos terços, de frequentar as missas, de não rezar em casa e outras coisas. Eu senti que aquela freira pegou a minha situação e começou a dizer palavras de consolo e que ainda possuía tempo para eu recomeçar tudo.
Depois disso eu pedi para as freiras que queria participar da missa na capela, assim como elas haviam me orientado. Comecei a participar das missas e fui mesmo melhorando da perna!
O que aconteceu comigo foi um ensinamento de Deus e mais uma oportunidade para mim.
Confesso que eu passei a me sentir frágil diante da vida, que passei a reconhecer que necessitava de Deus e que deveria voltar ser um verdadeiro católico.
Naquela mesma tarde, eu pedi para uma moça que trabalhava com elas, para levar-
379
Hercílio Valter Macan, 79 anos. Entrevista concedida a Lúcio Vânio Moraes em 5/7/2009.