Graduação em Fisioterapia pela Universidade Federal da Paraíba, mestrado e doutorado em Psicobiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e pós-doutorado na Universidade de Lisboa/Portugal. Professora do Departamento de Fisioterapia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
E-mail: [email protected].
INTRODUÇÃO
O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é uma doença de origem vascular que compromete gravemente as funções neurológi- cas do indivíduo (TRUELSEN; BEGG; MATHERS, 2013). Os fato- res de risco compreendem características biológicas e hábitos de vida, sendo os principais fatores a hipertensão arterial,
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sofre influência do contexto socioeconômico, afetando mais as pessoas com baixa escolaridade, de segmentos economicamen- te mais baixos e de etnia negra (MESTRAL; STRINGHINI, 2017; LOTUFO, 2015; LOTUFO; BESENOR, 2013).
Em 2013 o AVC contribuiu para 11,8% de todas as mortes no mundo, e o número de novos casos e de pessoas que sobrevi- veram ao AVC aumentou significativamente entre os anos 1990 e 2013 (FEIGIN; NORVING; MENSAH, 2015). Atualmente ainda é uma doença negligenciada no Brasil, evidenciado pelas altas taxas de incidência, prevalência e mortalidade (LOTUFO, 2015; LOTUFO et al., 2017). Um estudo longitudinal verificou que entre 2005 à 2009 a mortalidade por AVC caiu nos estados do sul e sudeste brasileiro, enquanto que na maioria dos estados do norte e nordeste as taxas aumentaram (VINCENS; STAFSTRÖM, 2015).
Do ponto de vista da gestão dos serviços de saúde é muito importante traçar um perfil epidemiológico das popu- lações afetadas pelo AVC, levando em consideração variáveis como idade, sexo, etnia, condição socioeconômica e escolari- dade, para que sejam traçadas políticas de promoção da saúde direcionadas a estas populações. Neste planejamento também é necessário levar em consideração a distribuição espacial da doença, de forma a fazer um diagnóstico das áreas de maior risco, para isso pode-se utilizar a técnica de georreferencia- mento, a qual consiste em localizar os eventos de saúde e suas variáveis em um mapa de referência terrestre, identificando padrões espaciais e aglomerados de casos (RIBEIRO et al., 2014). Os dados são coletados pelos sistemas de informação de saúde e processados através de softwares, tais como o TerraView, um software de Sistema de Informações Gráficas (SIG) brasileiro desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Dessa forma, o objetivo do estudo foi de identificar áreas
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de alta mortalidade por AVC nas mesorregiões do RN, através da técnica de georreferenciamento.
MÉTODOS
Os dados foram levantados no Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) disponibilizados pelo Sistema de Informações de Saúde (TABNET) do Departamento de Informática do SUS (DATASUS), de todos os 167 municípios do RN entre os anos de 2008 a 2014. Foram incluídos óbitos dentro das categorias I60 à I69 de acordo com a classificação internacional de doenças (CID- 10). As taxas de mortalidade foram calculadas para 100.000 habi- tantes e padronizadas através do método direto, como padrão a população total do RN. As características sociodemográficas da população foram coletadas tendo como base o censo demo- gráfico de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), sendo utilizado o rendimento médio mensal como indi- cador socioeconômico. Como critério de classificação para alta mortalidade, o município deveria ter taxa de mortalidade 20% maior que a média anual, por no mínimo quatro dos sete anos estudados. O georreferenciamento foi realizado pelo programa TerraView, sendo produzido um mapa com os índices de baixa e alta mortalidade. A análise estatística foi realizada pela ANOVA, teste Qui-quadrado e teste de correlação de Spearman.
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identificados 39 municípios do RN que atendem os critérios de alta mortalidade, sendo 33% na mesorregião Central, 26% na mesorregião Oeste, 23% na mesorregião Agreste e 18% na mesorregião Leste. A análise espacial por georreferenciamen- to evidenciou aglomerados na mesorregião Central, princi- palmente na microrregião da Serra de Santana (Figura 1).
Figura 1 – Mapa de áreas de alta mortalidade por AVC nas mesorregiões do RN, através da técnica de georreferenciamento.
Além disso, foram observados aglomerados na mesorre- gião Oeste envolvendo as microrregiões da Serra de São Miguel e Pau dos Ferros e um aglomerado no sul da microrregião do Agreste Potiguar (Figura 1). Pela análise de correlação foi verifi- cado que quanto menor o rendimento médio mensal das mesor- regiões, tanto maior foi a taxa de alta mortalidade por AVC (r= -0,34; p= 0,0001).
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DISCUSSÃO
Os achados apontam distribuição heterogênea da mortalidade por AVC no RN, que se relaciona com a situação socioeconômica dos municípios. Este achado pode ser interpretado sob duas perspectivas, pela qualidade na assistência e prestação de servi- ços e pela distribuição dos fatores de risco entre os municípios. No que diz respeito à qualidade da assistência, um estu- do recente analisou a diferença na mortalidade por AVC entre regiões urbanas e rurais e verificou um maior aumento na morta- lidade em zonas rurais. Os autores sugerem que as desigualdades na mortalidade entre as duas populações estejam associadas com as diferenças entre os sistemas de saúde das regiões (KALEDIENE; RASTEMYTE, 2016). Neste sentido, a identificação de municípios com alta mortalidade pode indicar a necessidade de uma melhor assistência de saúde nestes municípios.
Um estudo de análise espacial da mortalidade por AVC na cidade de São Paulo constatou que a distribuição da morta- lidade na cidade obedecia a um padrão de maior mortalidade nas zonas periféricas e que esta relacionava-se com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos bairros, com maior morta- lidade nas zonas menos desenvolvidas (KAUP et al., 2015). Este achado corrobora com o do nosso estudo, que encontrou maior mortalidade nos municípios de menor estrato econômico.
A relação entre a situação socioeconômica e a mortali- dade por AVC também foi abordada em uma revisão sistemá- tica, sendo verificado que pessoas de baixa renda têm menor acesso a procedimentos específicos de cuidado ao AVC quando
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sentido, ressaltamos que no RN ainda não há unidade exclusiva de atendimento ao AVC, o que pode estar refletindo nas taxas de mortalidade do Estado.
Quanto à distribuição dos fatores de risco, sabe-se que pessoas de menor situação socioeconômica possuem maior prevalência de fatores de risco para doenças cardiovascula- res, o que contribui para maior mortalidade nesta população (MESTRAL; STRINGHINI, 2017). Além disso, o comprometimento do AVC também relaciona-se com a situação socioeconômica das populações, sendo verificado que pessoas de renda mais alta obtiveram menores deficits neurológicos após o AVC e menor gravidade durante a fase aguda, bem como uma maior escolari- dade foi associada à menor propensão à comorbidades e melhor recuperação motora e funcional (ADDO et al., 2012).
De acordo com os resultados encontrados, podemos concluir que o RN apresenta diferenças na distribuição da mortalidade por AVC entre as mesorregiões, o que pode estar relacionado com o tipo de assistência de saúde prestada nessas regiões e as condições sócioeconômicas da população. A técnica de georreferenciamento mostrou-se uma boa ferramenta para monitoramento da mortalidade por AVC no RN, identificando zonas de prioridade para avaliação dos serviços de saúde, dire- cionamento de recursos e políticas públicas.
Palavras-chave: Acidente vascular cerebral, mapeamento geográfico, gestão de riscos, mortalidade