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Exclu du sens

Dans le document Programme Psychanalytique d Avignon (Page 52-58)

Chegamos e ficamos ali na pracinha de Taquara, município de Serra-ES, esperando nos bancos em frente ao CMEI Olindina de Leão Nunes. Olhando ao redor, várias pessoas também parecem aguardar o fim do turno para buscar as crianças.

Findo o curso para os membros das Cosates Piloto e depois de vários meses sem ir à escola, programamos uma volta para saber como estavam as coisas. A realização do Projeto Piloto disparou movimento de análises no grupo de pesquisa e também algumas novas situações no Fórum, como a ideia da Audiência Pública na Câmara de Vereadores. Todavia, se afirmou a pertinência da ideia de que a produção de saúde se articula à existência de espaços de conversa, um lugar onde os próprios trabalhadores colocam seus processos de trabalho em análise, sendo a Audiência mais um mecanismo para lançar outras movimentações.

Então, após a realização do curso de formação, final de ano escolar, férias, carnaval, início de ano escolar... Enfim, após um período considerável estávamos de volta à escola para sondar, sentir como estavam as ações planejadas e disparadas no curso. De tudo que vivenciamos, o que ainda reverberava? O que mudou no trabalho na escola? E, não menos importante, por que as professoras membros da comissão não estavam mais indo às reuniões do Fórum que aconteciam uma vez por mês?

É hora de aquecer, recompor nosso campo de batalha. Em frente ao CMEI, movimentação intensa: pais saindo com crianças pela mão, irmãos mais velhos levando os menores pelo portão, pelas esquinas, fluxo de carros e vans escolares.

Fim de turno escolar. Escolhemos este horário para a visita surpresa e conversa, porque sabíamos que entre 11h e 12h as professoras permaneciam na escola para planejamento.

Logo no portão, a senhora que sempre nos recebia e cuidava com carinho não economiza na recepção calorosa. E, no meio desta festa, ainda na entrada da escola, outras funcionárias e as professoras que haviam sido membros da Cosate Piloto foram chegando. Abraços para todos os lados enquanto as crianças saíam, algumas até chorando (criança não chora só na entrada? Pelo visto não...).

Ali mesmo as companheiras do curso nos atualizam sobre como este ano “estava difícil”, relatando vários endurecimentos nos modos da Gestão Municipal relacionar- se com os professores e as escolas. Também questionavam: “e a autorização para continuação do trabalho da Cosate?”. Não tínhamos resposta, ainda...

- Podemos conversar com vocês? – Pedimos.

A diretora Penha consegue se desembaraçar de pais que a buscavam e nos leva para a sala de professores, perguntando se queríamos que ela chamasse todo mundo (não só aquelas que participaram do curso). Nem foi preciso convocar: foram chegando, colocando as cadeiras da sala em círculo. Elas também queriam conversar.

Explicamos que até então, 04 de maio de 2015, não tínhamos nenhuma resposta da Secretaria para continuação do Projeto Piloto Cosate, mas mesmo assim achamos importante conversar, saber como estavam e também sobre o plano de ação que a equipe do Olindina havia apresentado ano passado. O que conseguiram fazer?

Elas anunciam que não estavam fazendo nada fora do horário de trabalho, uma vez que ainda não tinham liberação que compusesse a carga horária com horas previstas para o trabalho das Cosates Piloto para continuar. Entretanto, apontam o calendário de formação para progressão14 com o tema saúde pautado quatro vezes em diferentes períodos do ano, além do estudo do Estatuto do Servidor Público Municipal de Serra, estudo do Caderno de Textos publicado pela Fiocruz “Programa de Formação em Saúde, Gênero e Trabalho na Escola” (BRITO; ATHAYDE; NEVES, 2003) que havia sido utilizado no curso de formação das Cosates.

Outra novidade é a pequena cozinha. Construída ao lado do banheiro, sua falta era um motivo de queixa, pois os professores não podem frequentar a cozinha industrial da escola onde são preparadas as merendas das crianças. Agora elas têm um lugar para aquecer a comida, preparar um café ou guardar algum alimento na geladeira. Mesmo sendo uma realização sem suporte administrativo e financeiro da SEDU- Serra, ou seja, mesmo correndo o risco de naturalizar a precarização ao improvisar

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No sistema de progressão salarial da rede pública municipal de Serra-ES, o professor passa por uma carga de 20 encontros formativos (aqui formação é no sentido mais estrito da palavra: curso) fora do horário de aula e com temas escolhidos pelo colegiado. Também são avaliados pelo colega e pela gestão. O processo pode durar o ano inteiro, ou mais e prevê aumento de 3%.

para dar conta de problemas que envolvem a Gestão Municipal as professoras mostravam-se contentes por terem conseguido colocar em prática pelo menos parte do plano de ação acerca de um assunto que havia gerado vários debates.

Atuar nos possíveis, com o que temos. As ações do grupo indicam efeitos do curso ainda operando, ainda aquecidos. Se de um lado a SEDU fez gelo e endureceu a relação com os professores, de outro lado há resistência por meio da sustentação, da aposta e investimento nos efeitos do Fórum e do Projeto Piloto.

Em nossa visita percebemos que a criação de um espaço para conversa sobre o trabalho pode não ter continuidade oficial garantida, mas a relação saúde e trabalho ainda tem pauta nas brechas, o movimento ainda persiste.

O Movimento Fórum, para além do Projeto Piloto e da aprovação de uma Lei, quer contagiar com a constituição de políticas públicas por meio do fortalecimento da ideia de saúde como muito mais que ausência de doença. Então, aproveitamos que estamos juntos para informar sobre a Audiência Pública na Câmara de Vereadores que o Fórum está organizando. E o encontro que já estava quente agora pega fogo. Lurdinha já vai dizendo como fazer a audiência, quem tem de ser chamado, como fazer da dessa oportunidade um grande ato, um jeito de convocar a todos.

Essa conversa animada e amistosa nos passa a ideia de que algo perdura, que mais que trocar informações havíamos constituído um plano comum. A fala é partilhada não só pelas professoras que participaram do curso, mas todas tem algo a dizer, apontam que não é suficiente esperar “de braços cruzados” que o sindicato resolva tudo. A vontade de produzir algo, de criar outros modos de relacionamento frente ao autoritarismo da Secretaria permeia a conversa fazendo todo mundo querer ficar próximo, se aquecendo. “Não dá para ficar do jeito que está”. Nas conversas, elaboram e narram ações de fuga ao endurecimento: “se agora não podemos mais colocar um substituto que a gente pagava para poder ir ao médico para consulta, o jeito é chegar lá no consultório, falar que sente muita tontura e pegar atestado de 15 dias por labirintite...”

Relatos de saídas individuais entremeados por outros de saída coletiva à parte, os ânimos estavam exaltados e também mostravam sinais de desencantamento em relação à SEDU. Se para nós do Fórum havia ainda alguma esperança de liberação

de carga horária para continuação do trabalho da Cosate, para o corpo de professoras do CMEI Olindina esta expectativa já havia expirado e elas mostravam que estavam com disposição para a batalha.

Em meio aos sentimentos contraditórios, em um momento de silêncio que se fez, alguém comenta:

- É... Hoje é segunda-feira. – À guisa de explicação do silêncio que amornou a fala.

- Cansaço normal de segunda? – perguntamos.

- Também... É que segunda é dia de Cestão.

- Cestão?!

- É... É quando chegam os comunicados da Secretaria. “Cês” tão fodidos ...

Riso geral.

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