O PNCV concentra sua maior extensão sobre o complexo montanhoso Araí-Nova- Roma-Veadeiros, situando-se na porção noroeste do nordeste goiano. Domiciano (2014) e Oliveira (2007) afirmam que a Chapada dos Veadeiros caracteriza-se por estruturas geológicas ligadas a movimentos tectônicos antigos, como dobramento, falhas e fraturas, que têm influência na formação do relevo, conforme se pode observar na Figura 5, a seguir.
Figura 5 - Formação Geológica do PNCV (ao fundo)
Fonte: Elaboração própria, (jan./2018).
Segundo Oliveira (2007), em carta hipsométrica produzida na área do PNCV, demonstra-se excepcional gradiente com amplitude altimétrica em torno de 1.200 metros, decrescendo de nordeste para sudeste. Tais diferenças explicam as cachoeiras, conforme a Figura 6, e grande quantidade de cursos d’agua em desnível na área compreendida no PNCV, Figuras 7 e 8, seguintes.
Figura 6 - Cachoeira Salto de 80m
Figura 7 - Curso d’agua afluente do Rio Preto
Fonte: DOMICIANO, (set./2012).
Figura 8 - Saltos do Rio Preto/PNCV
Fonte: Elaboração própria, (set./2017).
A elevada altitude do PNCV aliada aos fatores edáficos (latossolo, litossolo, plintossolo, gleissolo, cambissolo e alissolo ou luvissolo), conforme a EMBRAPA (1999), além da disponibilidade de água, contribuem para uma alta diversidade fisionômica, formando
um grande mosaico de paisagens naturais que englobam formações florestais, conforme a Figura 9 adiante, savânicas, demonstradas na Figura 10 e campestres, retratadas na Figura 11, segundo o Plano de Manejo da UC (BRASIL, 2009). Essas características constituem-se, conforme Domiciano (2014, p.27), “em porções de cerrado de sentido restrito, denso, rupestre e ralo, além da presença de formações florestais ladeadas por campos úmidos e áreas alagadas”.
Figura 9 - Formação Florestal
Fonte: Elaboração própria, (jan./2018).
Figura 10 - Formação Savânica
Figura 11 - Formação Campestre, ao fundo Serra de Santana
Fonte: DOMICIANO, (set./2012).
O Rio Preto, conforme a Figura 12 abaixo, afluente do Rio Tocantinzinho, que deságua no Rio Tocantins, é o principal curso d’água que corta de leste para oeste o Parque Nacional, recebendo as águas de córregos que descem de suas encostas, formando pequenos vales transversais. O Rio Preto percorre as fraturas rochosas que são características do local, forma cânions e corredeiras, e os desníveis aí encontrados dão origem às cachoeiras e saltos.
Figura 12 - Rio Preto
No PNCV, em função das características descritas, encontra-se grande diversidade animal e vegetal, algumas raras e ameaçadas de extinção.
Entre todas as espécies reconhecidas na área, destaca-se o pato-mergulhão (Mergus
octosetaceus), espécie altamente ameaçada de extinção, com área de incidência no Brasil,
Argentina e Paraguai. Conforme Hugues (2006, p. 15), “atualmente, a estimativa populacional do pato-mergulhão é de apenas 250 aves em regime natural no Brasil, não se encontrando espécies em cativeiro”. Anteriormente, eram encontrados em uma vasta região do território brasileiro, indo do Tocantins a Santa Catarina, e hoje, segundo o mesmo autor, restringe-se a Tocantins, Minas Gerais e Goiás, mais especificamente no PNCV e região.
Além da notoriedade conferida à proteção ao pato-mergulhão, inclui-se uma vasta lista de espécies de animais e vegetais ameaçadas de extinção. No caso da fauna, destacam-se, segundo Domiciano, (2014, p. 27), “lobo-guará (Chrisocium brachyurus), onça-pintada (Phantera onça), codorna (Nathura minor), Socó-boi-escuro (Coryphaspiza mecanotes), sapo-de-chifre (Proceratophrys goyana) e sapo-fusquinha (Odontophrynus salvatori)”.
Em se tratando de flora, destaca-se o chuveirinho (Paepalanthus scandens), mostrado pela Figura 13, 35andombe (Vellozia sp) na Figura 14, canela-de-ema (Vellozia squamata) na Figura 15, palipalã (Paepalanthus elongatus) e algumas espécies ameaçadas por exploração desenfreada, como a arnica (Lyncochrophora enicoides) e a aroeira (Myracondron
Unudeuva), entre outras (BRASIL, 2009).
Figura 13 - Chuveirinho (Paepalanthus scandens)
Figura 14 - Andombe (Vellozia sp)
Fonte: Elaboração própria, (jan./2018).
Figura 15 - Canela-de-ema (Vellozia squamata)
Fonte: Elaboração própria, (jan./2018).
Toda riqueza natural do PNCV e seu entorno representam, de fato relevante importância para o bioma cerrado e mais especificamente para o cerrado de altitude pela sua diversidade biológica e especificidade. A grande biodiversidade da região e o Parque atraem pesquisas científicas que envolvem biologia, taxonomia, sistemática e fitogenética, além de
pesquisas voltadas ao turismo, ciências sociais e geografia (BRASIL, 2009).
Relevantes são também as atividades de lazer e educação onde áreas específicas, catalogadas no Plano de Manejo do Parque, são destinadas ao uso público. Essas atividades são monitoradas, respeitam o estudo de capacidade de carga, porém não exigem acompanhamento de funcionários ou guias.
Atualmente os visitantes do PNCV têm à sua disposição quatro trilhas, todas partindo do portão de entrada do Parque. A primeira é denominada Travessia das Sete Quedas e é aberta ao público de junho a outubro. Percorre grandes extensões do PNCV e é possível visualizar diversas fisionomias como: campos rupestres, veredas, campos sujos e limpos, e cerrado Strictu Sensu, margeando em boa parte do trajeto o Rio Preto. Para tanto, a travessia é percorrida em dois a três dias, com pernoites dentro da área do Parque, como se pode observar na Figura 16.
Figura 16 - Vista parcial da trilha das Sete Quedas
Fonte: Elaboração própria, (jan./2018).
Outra opção é a trilha dos Saltos, com extensão aproximada de 13 km ida e volta, em terreno acidentado e pedregoso, alcançando as cachoeiras Salto de 120 metros e Salto de 80 m do Rio Preto, em que é permitido banho nas suas imediações.
A terceira possibilidade é a trilha dos Canions, com o percurso de 12 km ida e volta, é uma trilha bastante plana e bem pedregosa. Essa se subdivide em duas opções logo após os
primeiros 5 km de caminhada, uma bifurcação a esquerda leva a Canion da Carioca, conforme a Figura 17 abaixo e a segunda a direita leva ao Canion 2.
Figura 17 - Vista parcial da trilha dos Canions
Fonte: Elaboração própria, (jan./2018).
A derradeira opção é a trilha da Seriema de acordo com a Figura 18, com extensão de 800 m ida e volta, que leva ao Córrego Rodoviarinha, percurso recomendado para idosos, grávidas, crianças e pessoas com dificuldade de locomoção.
Figura 18 - Indicativo parcial da trilha da Seriema
Relevante ainda é o fato que até 2013, todas as trilhas eram percorridas obrigatoriamente com orientação de um condutor de visitantes, geralmente moradores da Vila de São Jorge, ex- garimpeiros que anteriormente ajudaram na demarcação e manutenção desses caminhos.
Dessa forma, o patrimônio natural do PNCV é disponibilizado para a sociedade por meio de bens, serviços e ações que integram a proteção e a biodiversidade aos interesses de uso e fruição da sociedade distanciada da natureza.
1.3 BIODIVERSIDADE, CAMPONESES, GARIMPEIROS, COMUNIDADES MÍSTICAS