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Desde o início do planejamento, vimos a antecipação de resistências sobre vários objetos (Gengenstand), entre eles o Datashow. Vimos a dupla, repetidamente, planejar visando ao uso desse recurso didático, mesmo com níveis altos de incerteza quanto a sua disponibilidade. O Datashow parece ser o recurso didático mais importante para eles. Na primeira atividade, eles discutiam sobre levar à aula os instrumentos musicais para apresentá- los às crianças. Uma estratégia metodológica valiosíssima, pois as crianças iriam ver, concretamente, os instrumentos musicais, poderiam tocá-los, manuseá-los, tentar produzir algum som e tantas outras possibilidades que a dupla poderia explorar com os instrumentos musicais. Mas essas possibilidades não foram nem cogitadas, tudo indica que pela necessidade pedagógico-tecnológica da dupla em usar um Datashow. Além disso, eles não teriam que se preocupar: com empréstimo de Datashow ou lousa digital; como conseguir o som individual dos instrumentos musicais usados no Maracatu; com impressão das imagens de cada instrumento musical; com empréstimo de vídeo-aula ou qualquer outra coisa, pois o próprio Lenine é músico de percussão e poderia, ele mesmo, demonstrar o som de cada instrumento durante a execução da própria aula.

Diante das resistências detectadas na dupla, parece que as estratégias de contra-ação ao Gegenstand (Datashow que não pode ser usado) os levam sempre de volta ao desejo de usar o Datashow, e não aos vetores de ação que os levariam a outras formas de abordar o conteúdo na aula, sem usar o referido recurso material. Essa característica dessa dinâmica particular, identificamos como um signo hipergeneralizado a que chamamos de dependência. Com isso, queremos dizer que o sujeito, em seus processos imaginativos, especificamente aqueles relacionados à dinâmica de resistência e direcionalidade, parece estar “preso” a um determinado signo que opera na regulação semiótica da construção de significados de uma dada experiência, colaborando para uma relação de dependência entre ele e o signo. E, ainda, inibindo os processos imaginativos dessa experiência a uma direção diferente daquela que o mantém na dependência daquele signo regulador. Contudo, em outra direção os processos imaginativos continuam ocorrendo.

Quadro 6: Diálogo entre Maria Flor e Lenine: apresentação dos sons dos instrumentos musicais. Trecho Diálogo entre Maria Flor e Lenine O que destacamos?

A

L: Acho que é isso. (Ele faz anotações no caderno). Bom, 90%

acho que já é isso...

MF: Slides. Eu converso com a professora (do estágio) hoje e vejo se tem como a gente levar daqui (um Datashow), se sim, eu posso

fazer o slide hoje só com imagens.

L: Eu tenho encaminhado essas imagens... MF: Mas tem texto?

L: Não tem texto ainda. MF: Pronto, é ótimo.

L: Eu coloquei só as imagens, mas tem espaço para o texto. Mas

eu não botei...

MF: Porque a gente sabe falar sobre cada uma delas. [...]

A persistência em continuar o planejamento, considerando o uso do Datashow, mesmo com possibilidade remota de seu uso.

B

L: Ótimo, se a gente não conseguir o Datashow, a gente imprime alguns instrumentos, pelo menos, e mostra pra eles. Vamos

sempre pensar no plano “B” porque a gente tá sempre precisando do plano “B”.

O uso de imagens de instrumentos é cogitado, mas apenas se eles não conseguirem o Datashow.

C MF: Eu não tô querendo mais confiar nessas coisas não. Já duas vezes que deu errado. Deixa eu ver: amanhã eu levo meu computador, as caixinhas...

Maria Flor adverte sobre as dificuldades enfrentadas anteriormente para usar o Datashow e a necessidade de usar um plano B. Ela já fala como se houvesse decidido usar as imagens impressas e os sons através do seu computador e caixas de som – como cogitado anteriormente.

D

L: Eu levo as caixinhas.

MF: Pronto. Se a professora conseguir o, o, ...como é o nome do

coisinha amarelo?

L: A lousa digital.

G. Sim! Se não, a gente mostra as imagens dos instrumentos?

L: É. A imagem e o áudio que dá pra relacionar legal. Por exemplo,

um Agogô, mesmo que impresso no papel, e mostra o áudio. Acho que dá pra ter uma...

MF: A gente grava isso de que horas? L: Hoje, tem que ser hoje.

MF: De que horas?

L: Pode ser daqui a pouquinho.

MF: Lá (na casa da música) só é até meio-dia. Tá ligado? L: Tô. São oito e meia, e em 10 minutos a gente grava. Seria 1 minuto para cada instrumento, entendeu? Aí a gente grava lá com

o celular. Bem caseiro mesmo... e dá ênfase ao instrumento, não

ao tocador, que seria eu ou você. MF:Tá.

Eles passam a considerar a substituição do Datashow por uma lousa digital de que o IFPE dispõe. Mais uma vez, as imagens dos instrumentos serão utilizadas apenas se não houver Datashow ou lousa digital disponíveis. Até agora não sabíamos como eles conseguiriam o som dos instrumentos individualmente para apresentar às crianças. Aqui, eles decidem que eles mesmos irão gravar de forma amadora, usando o celular.

E

L: Beleza? Eu acho que aí fica como plano B.

MF: Ótimo. Não! Mas de qualquer forma tem q ter os sons. Sendo plano B ou...

L: É! Mas se a gente conseguir da internet, por exemplo, e o Datashow...

MF: Se conseguir da internet, não precisa gravar. É só colocar no meu computador e levar a caixinha, né? (risos) Então a gente já procura na internet, caso não ache, a gente grava. Mas acho que a gente consegue com o professor José aquele vídeo de cada instrumento separado! Pronto!

No minuto seguinte descobrimos que a gravação será feita somente se eles não conseguirem os sons na internet e o Datashow. Eles ainda insistem no Plano A: usar o Datashow.

Sobre os sons dos instrumentos: depois de cogitarem pegar na internet, Maria Flor parece encerrar o assunto (“Pronto!”) e optar por usar o vídeo do Prof. José.

F

L: Pelas músicas que eu vi, que tu me mostrou agora a pouco, dá

pra mostrar o Agogô que tem um início de uma música que tá só ele, tá muito bom! Já seria um apresentando. Tá bem legal. MF: Corta, né?

L: Mesmo que não corte, dá uma pausa. MF: Tu tem o Audacity?

L: Eu tenho, apesar de que eu não consigo cortar. MF: A gente fala com alguém que sabe e pede ajuda. L: Beleza!

Aqui, eles propõem usar trechos de músicas que Maria Flor já tem e que mobilizarão uma terceira pessoa que consiga cortar trechos da música (isolando os sons dos instrumentos), para que eles utilizem na aula planejada.

Fonte: própria.

O Quadro 6, acima, traz o diálogo estabelecido entre Maria Flor e Lenine, no tocante à apresentação dos sons dos instrumentos musicais. Ele apresenta seis trechos que formam o diálogo quase que na íntegra, pois retiramos apenas o que não era especificamente concernente à atividade sob investigação. A leitora e o leitor observarão que os trechos foram organizados de modo que cada um apontasse um conteúdo distinto. Isto é, cada vez que havia uma mudança de conteúdo no diálogo, abríamos um novo trecho.

É possível identificar três possibilidades cogitadas pela dupla para conseguirem os sons dos instrumentos musicais: 1) eles mesmos gravarem os sons; 2) conseguir os sons através da internet e 3) “recortar” os sons de músicas que Maria Flor já tem gravadas. Como já afirmado, parece-nos que os processos imaginativos não são inibidos pelo signo hipergeneralizado dependência – quando estes seguem outra direção que não aquela que os mantêm na situação de dependência – uma vez que a dupla prossegue propondo várias alternativas para as dificuldades que se apresentam. Entretanto, inferimos que o signo hipergeneralizado dependência restringe a tomada de decisão (construção de significados) em certas situações, principalmente aquela ligadas diretamente ao objeto visto-como, como no caso da não ministração da aula com o Datashow. Vimos que eles não tiveram dificuldade em decidir pela atividade 3. Mas na parte implicada no uso direto do Datashow – mostrar as imagens dos instrumentos e tocar seus respectivos sons – eles não conseguem definir claramente como será feito.

A dependência à qual nos referimos – o signo hipergeneralizado atuante na regulação semiótica da dinâmica de resistência e direcionalidade, em relação ao recurso material Datashow – parece denunciar um fazer pedagógico muito comum no ensino superior que é o uso do Datashow como recurso didático, por quase todos o(a)s docentes. Lembremos que Maria Flor e Lenine não têm experiências com aulas em contextos formais de educação (escolas regulares), logo, inferimos que a referência de aulas para eles parece ser as próprias aulas da licenciatura. Anteriormente, Maria Flor chamou a atenção de Lenine para que a aula que eles ora planejavam não ficasse parecendo um dos seminários que eles fazem na licenciatura:

Trecho 9:

L: É, mas isso aqui é um pouco longo (falando sobre relatos históricos). MF: Mas a gente não vai deixar longo demais pra não ficar chato. Esse longo daqui tem que demorar 10 a 15 minutos... se ficar muito mais que isso vai ficar muito chato. Vai ficar parecendo um seminário da gente. (Fonte: própria)

Embora eles já tenham mencionado – tanto no planejar a aula, quanto na entrevista pós- planejamento – que não conseguiram usar o Datashow em aulas anteriores (aula sobre o baião na mesma escola campo de estágio), a atuação do signo hipergeneralizado dependência é tão forte no sistema de regulação semiótica, que todas as estratégias de contra-atuação, neste evento específico, são criadas para um Plano B a ser executado no futuro, apenas se eles não conseguirem ministrar a aula com o Datashow. Ou seja, o plano A, que envolve o uso do Datashow, regula e promove processos imaginativos na atividade de planejar uma ação futura, mesmo que o índice de incerteza seja alto, como nesse caso. Vejamos a figura 30, abaixo:

Figura 30: Dinâmica de resistência e direcionalidade: vetor de dependência

Fonte: própria

A relação cognitivo-afetiva da dupla em experiências de aulas na faculdade (ministrar aula é sempre usar um Datashow) parece fazer emergir neles um sentimento sobre essa relação e, por conseguinte, também surge um signo hipergeneralizado que passa a guiar a dupla sempre que eles precisam planejar uma aula. Depois que eles se viram impedidos de utilizar o recurso didático, em duas ocasiões, pela indisponibilidade do mesmo na escola campo de estágio, eles antecipam a resistência do objeto e criam um Gegenstand: nunca há Datashow disponível para a aula. A forma de resistência que eles, inicialmente, apresentam – contorno ao Gegenstand –

leva-os ao vetor de ação (representado na figura pelo V1) “Plano B31, aula sem o Datashow”. A atuação do signo hipergeneralizado dependência (“ministrar aula significa usar o Datashow”), que exerce função reguladora, afasta-os de uma contra-ação plausível (se não há Datashow disponível para a aula, podemos planejar a aula utilizando outros recursos didáticos). Também, observamos um fortalecimento desse signo que, contraditoriamente, os faz cruzar a borda representada pelo Gegenstand. O aparente cruzamento os leva, portanto, a um vetor de ação, que denominamos Vetor de Dependência – VD. Contudo, devido à característica particular desse vetor, o caminho tomado no referido cruzamento (VD = plano A: aula com Datashow), deflagra um processo que chamamos de rotação na dinâmica de resistência e direcionalidade. Isto é, ao invés do vetor dependência se configurar em um caminho diferente (outra possibilidades de aula sem o Datashow), o signo dependência, em contínua atuação na dinâmica experienciada, cria o processo de rotação. Dito de outra forma, o sujeito cria uma estratégia semiótica de enfrentamento à resistência e cruza o Gegenstand. Todavia, a regulação do signo dependência não cessa no fenômeno. Assim, esse processo de rotação acaba repercutindo na apreensão da totalidade do fenômeno, já que as relações que mutualmente se estabelecem nas bordas, também são afetadas pelo signo dependência.

Outro fenômeno ocorre nessa dinâmica. A dupla, dada as circunstâncias acima descritas, estabelece um processo dialético na inter-relação entre as bordas dos dois vetores identificados na dinâmica: o V1 (vetor 1) encapsula todas as atividades ligadas ao planejamento da aula sem o uso do Datashow. O VD (vetor dependência), por seu turno, reúne as ações planejadas com o uso do Datashow. São posições opostas que criam ambivalência na movência experienciada pelos sujeitos, entre os dois vetores. Ilustraremos essa dinâmica com um exemplo, abaixo:

Trecho 10

[Eles planejam usar o Datashow e Lenine sugere uma alternativa caso não haja disponibilidade do recurso na escola campo de estágio]

L: Ótimo! Se a gente não conseguir o Datashow, a gente imprime alguns instrumentos, pelo menos, e mostra pra eles. Vamos sempre pensar no plano “B” por que a gente tá sempre precisando do plano “B”.

MF: Eu não tô querendo mais confiar nessas coisas não. Já duas vezes que deu errado. Deixa eu ver: amanhã eu levo meu computador, as caixinhas... L: Eu levo as caixinhas.

MF: Pronto. Se a professora conseguir o, o... como é o nome do coisinha amarelo?

L: A lousa digital. (Fonte: própria)

A dupla havia definido uma ação com o uso do Datashow. Mas Lenine, imaginando que talvez eles não consigam o Datashow, sugere a impressão de imagens dos instrumentos musicais para serem apresentadas na aula e anuncia isso como o Plano B. Maria Flor concorda porque “não quer mais confiar nessas coisas”, ou seja, planejar o uso do Datashow e na hora da aula não haver essa disponibilidade de uso. E reforça dizendo que planejar aula com uso do Datashow já deu errado duas vezes. Mas logo em seguida, experienciando a ambivalência da situação, ela já volta a cogitar o uso da lousa digital, recurso que equivale ao Datashow, e que é usado nas aulas do IFPE. Vemos, então, a atuação do signo hipergeneralizado dependência.

Tensões e ambivalências são características inerentes ao processo de construção de significados (ABBEY, VALSINER, 2006) e aos processos imaginativos. Também é uma das três características da criação de bordas (MARSICO, 2016). Na Figura 31, abaixo, destacamos, microgeneticamente, a ambivalência experienciada por Maria Flor na ocorrência de processos imaginativos.

Figura 31: movência semiótica entre bordas psicológicas: ambivalência experienciada na regulação de processos imaginativos.

Fonte: própria

No T1 (tempo 1), ela planeja com Lenine uma atividade que requer o uso do Datashow. Diante do argumento de Lenine que se eles não conseguirem o Datashow, deverão ter um plano B, Maria Flor cruza a borda (T2) e defende uma aula sem Datashow, pois tal planejamento “já deu errado duas vezes”. Mas em seguida, (T3) cruza novamente a fronteira e volta a cogitar a aula com o uso de uma lousa digital, recurso material equivalente ao Datashow, utilizada no IFPE. Essa movência entre bordas revela o dinamismo e a dialogicidade da psique, além da atuação do signo hipergeneralizado dependência nos processos imaginativos, na atividade de

planejar uma ação futura.

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