(On weak cubical categories, I) by Marco GRANDIS
4. Examples of symmetric weak or strict cubical categories
A economia capitalista, após a segunda grande guerra (1939-1945), atravessou um período de relativa estabilidade. Somente com a crise deste modo de produção, a partir da década de 1970, que essa estabilidade chegou ao fim e encerrou a hegemonia do modelo de organização fordista/keynesiano. Essa crise ficou conhecida como a crise do petróleo e modificou substancialmente a organização da produção capitalista. Iniciada na década de 1960, ela se aprofundou na década seguinte devido a uma combinação de fatores que concorreram para o seu desencadeamento. É o que nos mostra Harvey (2002, p. 135-136):
De modo mais geral, o período de 1965 a 1973 tornou cada vez mais evidente a incapacidade do fordismo e do keynesianismo de conter as contradições inerentes ao capitalismo. Na superfície, essas dificuldades podem ser melhor apreendidas por uma palavra: rigidez. Havia problemas com a rigidez dos investimentos de capital fixo em larga escala e de longo prazo em sistemas de produção em massa que impediam muita flexibilidade de planejamento e presumiam crescimento estável em mercados de consumo invariantes. Havia problemas de rigidez nos mercados, na alocação e nos contratos de trabalho (especialmente no chamado setor “monopolista”). E toda tentativa de superar esses problemas de rigidez encontrava a força aparentemente invencível do poder profundamente entrincheirado da classe trabalhadora – o que explica as ondas de greve e os problemas trabalhistas do período de 1968-1972. A rigidez dos compromissos do Estado foi se intensificando à medida que programas de assistência (seguridade social, direitos de pensão etc.) aumentavam sob pressão para manter a legitimidade num momento em que a rigidez na produção restringia expansões da base fiscal para gastos públicos. O único instrumento de resposta flexível estava na política monetária, na capacidade de imprimir moeda em qualquer montante que parecesse necessário para manter a economia estável. E, assim, começou a onda inflacionária que acabaria por afundar a expansão do pós-guerra. Por trás de toda a rigidez específica de cada área estava uma configuração indomável e aparentemente fixa de poder político e relações recíprocas que unia o grande trabalho, o grande capital e o grande governo no que parecia cada vez mais uma defesa disfuncional de interesses escusos definidos de maneira tão estreita que solapavam, em vez de garantir, a acumulação de capital.
Portanto, a crise evidenciou a incapacidade de conciliação entre capital e trabalho tão defendida pelo fordismo. Não significa, no entanto, dizer que não ocorreram conquistas sociais no período do fordismo. Ao sair de duas grandes guerras mundiais48 e encontrar o mundo totalmente destruído, havia espaço para o capital
investir na reconstrução mundial, bem como, garantir direitos sociais para uma parte da população. Essa garantia de direitos expressava a ofensiva do trabalho sobre o capital e funcionava como forma de estabilização da sociedade de consumo de massas. Contudo:
Nem todos eram atingidos pelos benefícios do fordismo, havendo na verdade sinais abundantes de insatisfação mesmo no apogeu do sistema. Para começar, a negociação fordista de salários estava confinada a certos setores da economia e a certas nações-Estado em que o crescimento estável da demanda podia ser acompanhado por investimentos de larga escala na tecnologia de produção em massa. Outros setores de produção de alto risco ainda dependiam de baixos salários e de fraca garantia de emprego. E mesmo os setores fordistas podiam recorrer a uma base não fordista de subcontratação. Os mercados de trabalho tendiam a se dividir entre o que O’Connor (1973) denominou de um setor “monopolista” e um setor “competitivo” muito mais diversificado em que o trabalho estava longe de ter privilégios. As desigualdades resultantes produziram sérias tensões sociais e fortes movimentos sociais por parte dos excluídos – movimentos que giravam em torno da maneira pela qual a raça, o gênero e a origem étnica costumavam determinar quem tinha ou não acesso ao emprego privilegiado. Essas desigualdades eram particularmente difíceis de manter diante do aumento das
48 A Primeira Guerra Mundial ocorreu no período de 1914 a 1918. A Segunda Guerra Mundial ocorreu no
período de 1939 a 1945. Para um melhor aprofundamento sobre o período dessas duas guerras, indicamos a primeira parte do livro de: HOBSBAWM, E. A era dos extremos: o breve século XX 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
expectativas, alimentadas em parte por todos os artifícios aplicados à criação de necessidade e à produção de um novo tipo de sociedade de consumo. Sem acesso ao trabalho, também não tinham acesso a tão louvadas alegrias do consumo de massa49. Tratava de uma forma segura para produzir insatisfação
O movimento dos direitos civis se tornou uma raiva revolucionária que abalou as grandes cidades. O surgimento de mulheres como assalariadas mal remuneradas foi acompanhado por um movimento feminista igualmente vigoroso. E o choque da descoberta de uma terrível pobreza50 em meio a
crescente afluência (exposta, por exemplo em The other América de Michael Harrington) gerou fortes contra movimentos de descontentamento com os supostos benefícios do fordismo (HARVEY, 2002, p. 132, aspas e itálicos do autor).
Prossegue o autor:
Embora fosse útil sob certos aspectos, do pondo de vista do controle do trabalho, a divisão entre uma força de trabalho predominantemente branca, masculina e fortemente sindicalizada e “o resto” também tinha seus problemas. Ela significava uma rigidez nos mercados de trabalho que dificultava a realocação do trabalho de uma linha de produção para outra. O poder exclusivista dos sindicatos fortalecia sua capacidade de resistir à perda de habilidades, ao autoritarismo, à hierarquia e à perda de controle no local de trabalho. A inclinação de uso desses poderes dependia de tradições políticas, formas de organização (o movimento dos comerciários na Inglaterra era particularmente forte) e disposição dos trabalhadores em trocar seus direitos na produção por um maior poder no mercado. As lutas trabalhistas não desapareceram, pois os sindicatos muitas vezes eram forçados a responder a insatisfações das bases. Mas os sindicatos também se viram cada vez mais atacados a partir de fora, pelas minorias excluídas, pelas mulheres e pelos desprivilegiados. Na medida em que serviam aos interesses estreitos de seus membros e abandonavam preocupações socialistas mais radicais, os sindicatos corriam o risco de ser reduzidos, diante da opinião pública, a grupos de interesses fragmentados que buscavam servir a si mesmos, e não a objetivos gerais (HARVEY, 2002, p. 132-133, aspas do autor).
49Sobre a sociedade de consumo de massa, Netto e Braz (2006, p. 237) demonstram que: “Nada é mais
enganoso do que caracterizar o capitalismo contemporâneo como uma “sociedade de consumo” – quando se constata que massas humanas que se contam na casa de centenas e centenas de milhões vivem em condições infra-humanas, essa expressão torna-se uma trágica mentira. De fato, no capitalismo contemporâneo o que se desenvolve é uma ideologia consumista. (itálicos dos autores).
50Marx descobriu essa contradição do modo de produção capitalista quando tratou da Lei Geral da
Acumulação Capitalista. De acordo com ele: “Quanto maiores forem a riqueza social, o capital em funcionamento, o volume e o vigor de seu crescimento e, portanto, também a grandeza absoluta do proletariado e a força produtiva de seu trabalho, tanto maior será o exército industrial de reserva. A força de trabalho disponível se desenvolve pelas mesmas causas que a força expansiva do capital. A grandeza proporcional do exército industrial de reserva acompanha, pois, o aumento das potências da riqueza. Mas
quanto maior for esse exército de reserva em relação ao exército ativo de trabalhadores, tanto maior será a massa da superpopulação consolidada, cuja miséria está na razão inversa do martírio de seu trabalho. Por fim, quanto maior forem as camadas lazarentas da classe trabalhadora e o exército industrial de reserva, tanto maior será o pauperismo oficial. Essa é a lei geral, absoluta, da
acumulação capitalista. Como todas as outras leis, ela é modificada, em sua aplicação, por múltiplas
circunstâncias, cuja análise não cabe realizar aqui. É compreensível a insensatez da sabedoria econômica, que prega aos trabalhadores que ajustem seu número às necessidades de valorização do capital. O mecanismo da produção e acumulação capitalistas ajusta constantemente esse número a essas necessidades de valorização. A primeira palavra desse ajuste é a criação de uma superpopulação relativa, ou exército industrial de reserva; a última palavra, a miséria de camadas cada vez maiores do exército ativo de trabalhadores e o peso morto do pauperismo.” (MARX, 2013, p. 719-720, aspas e itálicos do autor, grifos nossos). Fica clara a atualidade da obra marxiana.
Como bem aponta o autor, as contradições do modo de produção capitalista, ainda que atenuadas, não poderiam ser superadas porque são constitutivas deste modo de produção. De maneira que cada vez mais essas contradições se tornavam agudas e a pobreza não deixara de existir e até se expandira. A capacidade de acumulação de capital estava comprometida pelo fordismo/keynesianismo:
O Estado aguentava a carga de um crescente descontentamento, que às vezes culminava em desordens civis por parte dos excluídos. No mínimo, o Estado tinha de tentar garantir alguma espécie de salário social adequado para todos ou engajar-se em políticas redistributivas ou ações legais que remediassem ativamente as desigualdades, ou combatessem o relativo empobrecimento e a exclusão das minorias. A legitimação do poder do Estado dependia cada vez mais da capacidade de levar os benefícios do fordismo a todos e de encontrar meios de oferecer assistência médica, habitação e serviços educacionais adequados em larga escala, mas de modo humano e atencioso. Os fracassos qualitativos nesse campo eram motivo de inúmeras críticas, mas, no final, é provável que os dilemas mais sérios fossem provocados pelo fracasso quantitativo. A condição do fornecimento de bens coletivos dependia da contínua aceleração da produtividade do trabalho no setor corporativo. Só assim o Estado keynesiano do bem-estar-social poderia ser fisicamente viável (HARVEY, 2002, p. 133).
A burguesia encontrava cada vez mais dificuldades em oferecer os serviços públicos de então. Externamente, nos países periféricos, ocorria uma onda de insatisfação social muito forte em relação às políticas imperialistas dos países centrais, o que, de certa forma, empurrava esses países para a defensiva. Continua o autor:
Devem-se acrescentar a isso todos os insatisfeitos do Terceiro Mundo com um processo de modernização que prometia desenvolvimento, emancipação das necessidades e plena integração ao fordismo, mas que, na prática, promovia a destruição de culturas locais, muita opressão e numerosas formas de domínio capitalista em troca de ganhos bastante pífios em termos de padrão de vida e de serviços públicos (por exemplo, no campo da saúde), a
não ser para uma elite nacional muito afluente que decidira colaborar ativamente com o capital internacional. Movimentos em prol da libertação
nacional – algumas vezes socialistas, mas com mais frequência burgueses- nacionalistas – mobilizaram muitos desses insatisfeitos sob formas que por vezes pareciam bem ameaçadoras para o fordismo global. A hegemonia
geopolítica dos Estados Unidos estava ameaçada, e o país, que começara a
era do pós-guerra empregando o anticomunismo e o militarismo como veículos de promoção da estabilização geopolítica e econômica, logo se viu às voltas com o problema da opção “armas ou manteiga” em sua própria política econômica fiscal. (HARVEY, 2002, p. 133-134, aspas e parênteses do autor, grifos nossos).
O capital estava na defensiva por conta da crise e pelas contestações dos movimentos sociais em escala global, como foi demonstrado. Estavam postas as condições necessárias para uma contraofensiva do capital. O período de conquistas por parte do trabalho chegara ao fim. Essa particularidade histórica do desenvolvimento
capitalista pode ser considerada um momento determinado e uma exceção desse modo de produção. De acordo com Netto (2001, p. 68):
Raramente desenvolvida tem sido, contudo, a concreta relevância histórico- universal do exaurimento do denominado Estado de bem-estar social; salvo em poucos estudos de cariz marxista, este processo foi apreendido enquanto problemática de natureza administrativa, como ilustração da necessidade de redirecionar políticas sociais, como fenômeno de caráter financeiro ou tributário ou, mais geralmente, no quadro abstrato do esgotamento de padrões ideais de socialidade. Não é frequente colocar-se de manifesto que a crise
do Walfare State explicita o fracasso do único ordenamento sócio-político que, na ordem do capital, visou expressamente compatibilizar a dinâmica
da acumulação e da valorização capitalista com a garantia de direitos sociais mínimos (itálicos do autor, grifos nossos).
Vale ressaltar que as crises do modo de produção capitalista não são anomalias, mas um fato constitutivo deste modo de produção. A crise de 1929 foi precedida por outras crises de superprodução. No entanto, a particularidade da crise da década de 1970 é que não se trata mais de uma crise cíclica, e sim de uma crise estrutural. Nesse sentido, Mészáros (2011, p. 795-796) demonstra que:
Como mencionado antes, a crise do capital que experimentamos hoje é
fundamentalmente uma crise estrutural. Assim, não há nada especial em
associar-se capital a crise. Pelo contrário, crises de intensidade e duração variadas são o modo natural de existência do capital: são maneiras de progredir para além de suas barreiras imediatas e, desse modo, estender com dinamismo cruel sua esfera de operação e dominação. Nesse sentido, a última coisa que o capital poderia desejar seria uma superação permanente de todas as crises, mesmo que seus ideólogos e propagandistas frequentemente sonhem com (ou ainda, reivindiquem a realização de exatamente isso). A novidade histórica da crise de hoje torna-se manifesta em quatro aspectos principais: (1) seu caráter é universal, em lugar de restrito a uma esfera
particular (por exemplo, financeira ou comercial, ou afetando este ou aquele ramo particular de produção, aplicando-se a este e não àquele tipo de trabalho, com sua gama específica de habilidades e graus de produtividade etc.); (2) seu alcance é verdadeiramente global (no sentido mais literal e ameaçador do termo), em lugar de limitado a um conjunto particular de países (como foram todas as principais crises no passado); (3) sua escala de tempo é extensa, contínua, se preferir, permanente, em lugar de limitada e cíclica, como foram todas as crises anteriores do capital; (4) em contraste com as erupções e os colapsos mais espetaculares e
dramáticos do passado, seu modo de se desdobrar poderia ser chamado de rastejante, desde que acrescentemos a ressalva de que nem sequer as convulsões mais veementes ou violentas poderiam ser excluídas no que se refere ao futuro: a saber, quando a complexa maquinaria agora ativamente empenhada na “administração da crise” e no “deslocamento” mais ou menos temporário das crescentes contradições perder sua energia (grifos nossos).
A mudança qualitativa da crise estrutural gestou novas formas de organização da produção. Já não mais era possível manter a rigidez fordista, esta era insuficiente para resolver a crise. Essa modificação na esfera produtiva trouxe uma modificação em toda a vida social, política, econômica, ideológica, educacional, filosófica, etc. Agora, a
organização da produção se assentava sobre novas bases. De acordo com Harvey (2002, p. 140):
A acumulação flexível, como vou chamá-la, é marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se apoia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional. A acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos padrões de desenvolvimento desigual, tanto entre setores como entre regiões geográficas, criando, por exemplo, um vasto movimento no emprego no chamado “setor de serviços”, bem como conjuntos industriais completamente novos em regiões até então subdesenvolvidas (tais como a “Terceira Itália”, flanders, os vários vales e gargantas do silício, para não falar da vasta profusão de atividades dos países recém-industrializados). Ela também envolve um novo movimento que chamarei de “compressão espaço-tempo” no mundo capitalista – os horizontes temporais da tomada de decisões privada e pública se estreitaram, enquanto a comunicação via satélite e a queda nos custos do transporte possibilitaram cada vez mais a difusão imediata dessas decisões num espaço cada vez mais amplo e variegado (aspas e itálicos do autor).
Essas transformações implementadas foram resultados das experiências e do modo de produzir da indústria automobilística japonesa, que ficou conhecido como toyotismo, e consistia numa forma radicalmente diferente do fordismo. Primeiro porque não operava com rigidez e segundo porque buscava cada vez mais uma produção vinculada à demanda. As características desta foram assim demonstradas por Antunes (2011, p. 32-33):
Seus traços constitutivos básicos podem ser assim resumidos: ao contrário do fordismo, a produção sob o toyotismo é voltada e conduzida diretamente
pela demanda. A produção é variada, diversificada e pronta para suprir o
consumo. É este quem determina o que será produzido, e não o contrário, como se procede na produção em série e de massa do fordismo. Desse modo, a produção sustenta-se na existência do estoque mínimo. O melhor aproveitamento possível do tempo de produção (incluindo-se também o transporte, o controle de qualidade e o estoque), é garantido pelo just in time. O kanban, placas que são utilizadas para a reposição das peças, é fundamental, à medida que inverte o processo: é do final, após a venda, que se inicia a reposição de estoques, e o kanban é a senha utilizada que alude a necessidade de reposição das peças/produtos. Daí o fato de, em sua origem, o kanban estar associado ao modelo de funcionamento dos supermercados, que repõe os produtos na prateleira depois da venda (aspas e itálicos do autor, grifos nossos).
O que era uma particularidade da indústria daquele país, se apresentou como solução para a crise do fordismo e passou a dominar todas as formas de produzir em escala global. Foi no interior do toyotismo que as formas flexíveis de trabalho e a concepção do sindicalismo de empresa foram gestados, conduzindo uma prática sindical dócil e pouco combativa. Operava-se assim uma nova modelagem dos conflitos entre
capital e trabalho e, com isso, buscava-se conquistar a subjetividade do trabalhador. É assim que Antunes (2009, p. 55) nos apresenta essas transformações:
Dentre as experiências do capital que se diferenciavam do binômio taylorismo/fordismo, pode-se dizer que o “toyotismo” ou o “modelo japonês” encontrou maior repercussão, quando comparado ao exemplo sueco, à experiência do norte da Itália (Terceira Itália), à experiência dos EUA (Vale do Silício) e da Alemanha, entre outros. O sistema industrial japonês, a partir dos anos 70, teve grande impacto no mundo ocidental, quando se mostrou para os países avançados como uma opção possível para a superação capitalista da crise. Naturalmente a “transferibilidade” do toyotismo carecia, para sua implantação no Ocidente, das inevitáveis adaptações às singularidades e particularidades de cada país. Seu desenho organizacional, seu avanço tecnológico, sua capacidade de extração intensificada do trabalho, bem como a combinação de trabalho em equipe, os mecanismos de envolvimento, o controle sindical, eram vistos pelos capitais do Ocidente como uma via possível de superação da crise de acumulação. E foi nesse contexto que se presenciou a expansão para o Ocidente da via japonesa de consolidação do capitalismo industrial51 (aspas e itálicos do autor).
O capitalismo agora se encontrava numa nova fase, em que a exacerbação da desregulamentação financeira passou a ser imperativa nas relações sociais, bem como na dinâmica da produção material. Por sua vez, adquiriu um caráter cada vez mais destrutivo, no qual a racionalidade capitalista expressava cada vez mais uma irracionalidade social. Neste sentido, Mandel (1985, p. 402) demonstra que:
Por outro lado, a oposição objetiva entre a racionalidade parcial e a irracionalidade global, enraizada na contradição entre a socialização crescente do trabalho e a apropriação privada, uma característica peculiar ao modo de produção capitalista, adquire um potencial tão explosivo, que a
irracionalidade global do capitalismo tardio ameaça a médio prazo, não apenas a forma presente da sociedade, mas toda a civilização humana.
Qualquer criança pode entender o fato de que seria não apenas irracional e sem sentido, mas também um gesto suicida permitir a “compra e venda
51 Novamente retornemos a Marx: “O revolucionamento do modo de produção numa esfera da
indústria condiciona seu revolucionamento em outra. Isso vale, antes de mais nada, para os ramos da
indústria isolados pela divisão social do trabalho – cada um deles produzindo, por isso, uma mercadoria autônoma -, porém entrelaçados como fases de um processo global. Assim, a fiação mecanizada tornou necessário mecanizar a tecelagem, e ambas tornaram necessária a revolução mecânico-química no