Trazemos esses procedimentos, observados durante o convívio com a professora e diretora do grupo, porque eles foram decisivos na nossa formação (Waldete Brito e eu, Eleonora Leal) e, consequentemente, em nossa prática pedagógica, como será visto no próximo capítulo.
Dentre as inúmeras funções que exercia, Eni Corrêa mantinha uma relação franca, aberta e res- peitosa com os intérpretes-criadores, além de transmitir uma grande responsabilidade para com tudo e todos. Sua aparência séria ocultava pensamentos inovadores, revelados quando compar- tilhava ideias que direcionava as criações inusitadas em Dança, em virtude de seu dinamismo e da sua convivência com distintos profissionais do desporto, da educação e das artes. Era uma profissional de vanguarda em relação à Dança praticada em Belém.
No período, ela achava oportuno convidar outros professores e ex-componentes do Grupo Coreográfico para dar aulas e coreografar, porém não deixava de ministrar suas aulas, dividindo a responsabilidade com as bailarinas. Nossas tarefas incluíam colaborar no processo de acordo com nossos conhecimentos e domínios em alguma técnica específica. Essa era uma prática entre os membros daquela comunidade; todos trabalhavam em prol do bom condicionamento e da ma- nutenção das bailarinas no grupo. O respeito pelas colegas que ministravam aulas era o mesmo dado a um professor convidado. O importante era que não havia preferências e sim o reconheci- mento do trabalho de cada um, descentralizando a figura do que se costumava chamar de maître. Esse rodízio colaborativo em dar aulas já servia de preparação para os momentos de criação. Com a mestra e as bailarinas com as quais convivemos, conhecemos a importância da interr- relação e a importância da inteligência interpessoal. Ficamos mais receptivas à empatia e ao relacionamento com o outro, assim como mais disponíveis para compreender e lidar com “tem- peramentos, estados de humor, motivações e desejo de outras pessoas” (ANTUNES, 2001, p. 20), fundamental em processos colaborativos.
Para coordenar um trabalho de criação colaborativo, necessário se faz saber contornar impasses, ser condutor das ideias, sem que o gosto individual predomine, e reconhecer as diferentes ex- periências, potencialidades e habilidades dos intérpretes-criadores. A dimensão ética e estética mais uma vez se faz presente ao valorizar qualidades individuais dos integrantes e permitir que a criatividade flua entre eles. Eni distribuía tarefas entre os integrantes do Grupo, estimulava a troca de conhecimento, facilitava o aperfeiçoamento ou o aprendizado de distintas técnicas corporais, trabalhava o sentido de grupo, enfatizava o respeito, solicitava sugestões, ensinava a compartilhar os devaneios e a valorizar as habilidades e as qualidades expressivas próprias de cada um. Essa condução inicial, somada às ferramentas que utilizava nos laboratórios para o fomento ao processo criativo, despertava no intérprete a sensibilidade poética e afinava sua concepção estética.
Seus sentidos operavam com uma intuição que vinha da experiência, vivência e escuta da voz interior e do outro. Para a professora, era fundamental escutar o corpo de cada elemento do grupo pelo tato, voz, emoção, comportamento, atitude e sentimento, a fim de conhecer e quebrar rótulos preexistentes e instigar o lado criativo. No processo criativo, mostrava que as experimentações são momentos de erros e acertos, pois “para lidar com a criação, necessário se faz provocar e suportar as incertezas” (RANGEL, 2006, s/p).
O procedimento de Eni de compartilhar a criação coreográfica começava ao pedir às bailarinas sugestões de temas para o desenvolvimento de coreografias ou peças de Dança, ou até manifestar uma ideia para ser discutida. Independentemente da tarefa solicitada, todos participavam com seus pareceres, favoráveis ou não, aos temas expostos e, em conjunto, chegávamos a um deno- minador comum. Após a decisão, discutíamos a primeira versão de uma sinopse para desdobrar em um roteiro, linha de pesquisa de movimento, uma possível trilha sonora e as demais ações que deveríamos providenciar ao longo do processo. A tomada de decisão final em algumas situações era dela, em outras era do grupo.
Quando partíamos para o processo criativo do movimento, tínhamos um ou dois estímulos para iniciar a pesquisa, ou seja, o tema a ser desenvolvido na coreografia e a música para acompanhar o movimento. Nos casos de acompanhamento musical, este era estudado, para conhecermos an- damento, pulsação, compasso, melodia e os instrumentos que constituíam a composição musical. Então, começávamos a improvisar com mais propriedade, por meio desses conhecimentos. Quando não havia música, ela nos fornecia elementos para variarmos o tempo do movimento no decorrer do improviso, com o intuito de encontrar a pulsação e o ritmo daquele movimento. Outra experiência consistia em adaptar as frases coreografadas à música, o que dava trabalho, mas permitia aprender a ultrapassar fronteiras e dar unidade à junção das duas linguagens. Com base em estímulos-chave, iniciávamos a criação dos primeiros movimentos pelo impro- viso, os quais se transformavam em células-mães que se juntavam a outras, formando sintaxes. Depois que todos mostravam o que tinham pesquisado, selecionávamos as frases coreográficas que conversavam mais com o tema, como também reorganizávamos a frase que percebíamos sem fluência. Para os momentos de solo, duo e trio, os envolvidos ficavam responsáveis pela elaboração da coreografia, porém sempre trocando ideias, pedindo sugestões, se fosse necessário, acompanhando todos os procedimentos.
Ao acompanhar todo o processo, Eni Corrêa revelava sua competência na organização das
Imagens e dos movimentos do corpo. Com um olhar ou gesto, dava a entender o que faltava, o
que era preciso alterar e como fazê-lo. Quando a conexão de pensamento não ocorria, reorga- nizava os instrumentos para novos estímulos e a tarefa se voltava à pesquisa até encontrar o fio condutor poético.
O trabalho dela não se restringia à orientação; também coreografava, revelando seu modo pes- soal de criação. Tal qual um ourives, fazia a lapidação final de toda a estrutura da montagem coreográfica e do espetáculo. Supervisionava pessoalmente os ensaios e, quando percebia a necessidade de modificar alguma parte da coreografia, por não condizer com a imagem que daria a “liga” à frase seguinte, comunicava e explicava o porquê da alteração e convidava-nos a sugerir novas proposições para a criação. Mostrava-nos que a obra está sempre em processo, alterando-a, muitas vezes, inclusive momentos antes de entrar em cena.
Nos ensaios, enfatizava que a interpretação era mais um meio de acrescentar sensibilidade cria- tiva, além de ser um espaço no qual experiências inusitadas podiam ser incluídas na coreografia. Como etapa de qualquer processo de criação, incluía a avaliação do processo e seu resultado permitia reestruturar e refletir sobre o fazer do grupo.
A atuação como professora de Dança, nos dias de hoje, permite-nos dar continuidade ao méto- do experimental de Eni Corrêa, afinal as tendências para aprendizagem colaborativa e criação colaborativa solicitam um profissional mais reflexivo no seu fazer e sem verticalidade, alguém que escuta e aprende, reconhece e valoriza as experiências e vivências do outro.
Observamos que, tanto como diretora do grupo, nos processos criativos, quanto como professora, ela assumia o papel da facilitadora diante dos intérpretes ou alunos, deixando nossos pensamentos criativos fluírem e encorajando a apresentação desses pensamentos. É uma atitude que “requer adaptação, flexibilidade e experimento da [...] aprendizagem conjunta e social” (WOODS, 2008, p. 129) de todos os presentes. Os experimentos que instigavam intérpretes e alunos à criação também foram aprendizados de como adaptar-se às circunstâncias. Esse posicionamento ma- terializava o conceito de autonomia da artista, diretora e professora que otimizava a ação do grupo ao organizar e acordar proposições surgidas, evidenciando seu conhecimento pedagógico no controle do processo.
A força artística que ela imprimiu ao Grupo Coreográfico possibilitou, por meio de seus projetos, a contratação de novos professores de Dança em distintas linguagens e a criação da Escola de Dança na UFPA em 1992, deixando nela traços de seus fundadores.
Trazer a história de vida e de trabalho de Eni Corrêa, enfatizando seu papel para a nossa forma- ção artística e profissional, foi um modo de compreender como o processo criativo colaborativo teve início na produção artística do Grupo Coreográfico e instaurou uma rede multiplicadora naqueles que viveram a experiência com ela. Assim, no contínuo rastrear dos procedimentos dos professores da ETDUFPA para a criação colaborativa, veremos a seguir como fizemos do PCC um dispositivo, eixo da transmissão artística e educativa.