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Valdecir, 73 anos, frequentava o serviço e se apresentava de uma maneira excêntrica, com roupas muito parecidas com fantasias, causando certo incômodo nos idosos e até mesmo na equipe. Ela contava que uma amiga a trouxera para o núcleo de convivência em um momento em que estava ficando “doida”, contrariando os médicos que indicavam uma internação psiquiátrica.

Isso aconteceu logo após a morte de sua filha por um câncer no útero. Uma situação muito difícil para essa senhora, resultando no que pareceu ser uma crise envolvendo uma desorganização psíquica grave: “quando minha filha morreu, eu fiquei muito perdida. Eu cheguei aqui com o povo me chamando de doida, querendo me internar. Mas, eu fui acolhida. Depois da morte da minha filha, ela morreu de câncer no útero, eu comecei a me interessar muito por crianças”.

Como disse, seu nome era Valdecir, mas, a partir da morte da filha, ela passou se apresentar como “Vódecir, a avó de todas as crianças”. Dentro e fora do serviço, quando do contato com pessoas mais jovens, ela se autointitulava avó e pedia para ser assim chamada. Além disso, ela me disse: “hoje eu faço bonecos e apresentações para crianças em aniversários, festas de amigos. Eu sou a avó de todas as crianças. Eu ainda não superei a morte da minha filha, mas eu consigo viver com isso desse jeito”.

Pelo seu relato, poder ser a avó de todas as crianças e ser reconhecida desde esse lugar garantiu a essa idosa a possibilidade de se situar no laço social e de lidar com o seu sofrimento. Porém, por conta da maneira como ela se apresentava – vestida de palhaça ou de bailarina, por exemplo –, era difícil para a equipe, em alguns momentos, suportar a excentricidade de Vódecir. Assim, passavam a orienta-la sobre como ela devia se vestir, se comportar e o que podia ou não dizer.

Em certa ocasião, a coordenadora do serviço me disse que iria falar com ela, afinal o nome dela era Valdecir e era dessa maneira que deveria se apresentar e ser chamada. Ainda, não julgava adequado também as fantasias que em certos momentos ela vestia e com as quais ia ao serviço. Nesse momento, percebi que ela estava considerando um aspecto do caso, mas havia dificuldade em perceber a importância das questões subjetivas da idosa. Então, intervi junto à equipe dizendo que, se isso causava algum incômodo pela extravagância, por outro lado era justamente o que a permitia se sustentar na vida, após a morte de sua filha. E que,

contrariamente a tentar inibir a maneira como essa idosa se expressava, seria mais adequado acolher e garantir um espaço de reconhecimento.

Essa intervenção foi baseada na escuta do sujeito e do lugar em que ela dizia se reconhecer no discurso. Minha hipótese, como me referi acima, era a de que ser a “avó de todas as crianças” era um ponto de estabilização para o insuportável da morte da filha. Com a perda do lugar de mãe, encontrou aí um meio de sustentação que a permitia estabelecer um elo com os outros e o Outro. Reconhecer a importância desse meio de sustentação me parecia uma maneira de auxiliá-la a sustentar esta possibilidade de se manter na interação social. Não cabia a mim julgar se era certo ou errado ela se dizer “avó de todas as crianças” ou, ainda, determinar o que seria adequado socialmente ela vestir15. O trabalho do psicanalista se dá em outra via, e nesse caso foi o de propor um acompanhamento dessa idosa baseado na escuta da particular relação que o sujeito estabelecia com o Outro (social e institucional).

Como resultado dessa intervenção, não obtive no momento uma resposta da coordenadora do serviço, mas após esse dia não foi preciso retomar essa discussão novamente com ela.

Em relação aos outros idosos, apostava que se o posicionamento dos profissionais fosse o de acolher o sofrimento e a estranheza dessa senhora – e de qualquer outra – favoreceríamos que os usuários do serviço fizessem o mesmo. Não eram todos os idosos que respeitavam o jeito de “Vódecir”, alguns claramente apenas aturavam suas “esquisitices”. E era aí que havia a necessidade de intervirmos, por exemplo, quando algum idoso debochava de sua roupa ou de seu jeito. Quando comentavam comigo sobre o “jeito” dessa senhora, seriamente me posicionava contrário a tal postura: “precisamos respeitar cada pessoa que vem aqui como queremos ser respeitados”. Isso marcava um limite e apontava uma mediação na relação que podia se estabelecer no serviço, indicando que ali era um espaço de acolhimento e de convivência no qual as diferenças eram acolhidas, e não menosprezadas.

Em suma, “Vódecir”, em sua “doideira”, encontrou no NCI e em seu bairro um lugar a partir do qual subjetivamente se organizou. O fato de essa senhora ser a “avó de todas as crianças” e assim ser acolhida no serviço e em seu bairro favorecia que suportasse a dor da perda da filha. As pessoas do bairro que a conheciam a convidavam para animar festas de aniversário com suas fantasias e fantoches. Além disso, ela também participava em nosso serviço de um espaço de convivência semanal para as famílias dos idosos, no qual

15 Nesse sentido, sigo a indicação de Lacan (1958/1998b) de que o psicanalista em sua prática “tem que pagar

com o que há de essencial em seu juízo mais íntimo” (p. 593), distanciando-se de impor para o sujeito o que o analista julga adequado ou não no âmbito de sua avaliação pessoal.

compareciam mães e seus filhos, avós e seus netos. Ela sempre participava, na maioria das vezes fantasiada, na companhia de algum “neto”, filhos de seus vizinhos. Isso evitava um possível isolamento social na medida em que era inserida desde a sua singularidade.

Nesse caso, o trabalho do psicanalista foi o de zelar para que essa inserção se sustentasse no discurso dos profissionais e também dos usuários da instituição.

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