7.2 Develop Parallel and Concurrent Programs with ID-net
7.2.2 An Example of DSL Composition
Na realidade minha preocupação dirige-se a compreender a limitação visual a partir de uma perspectiva sociocultural, pois acredito que os impedimentos e barreiras estão centrados nos aspectos culturais em lugar de pensar e responsabilizar a não inclusão social pelo viés da ausência do sentido da visão. As inabilidades para aprendizagem ou desenvolvimento do sujeito na vida comum da sociedade não devem ser compreendidas como parte inerente à pessoa com deficiência visual.
O preconceito pode ser apontado como um elemento cultural que contribui para essa ideia equivocada de que a deficiência visual seja responsável pela não inclusão, visto que o perceber uma pessoa com deficiência visual, apenas pela sua característica da ausência da visão, coloca estas pessoas em total desvantagem, seja na vida profissional, afetiva, amorosa, familiar e, inclusive, na vida educacional,
já que o educador que não percebe seu aluno de maneira espontânea, desprendida e libertadora, vai estar sempre promovendo um distanciamento, entre ele e o outro, não permitindo aflorar nesse educando suas outras potencialidades enquanto ser humano.
Para José Leon Crochik (1997), o preconceito é um resultado cultural, mas também fruto de uma construção interna de cada pessoa. Um indivíduo pode simplesmente reproduzir esse comportamento preconceituoso aprendido na cultura, ou pelo contrário, construir uma visão crítica e rejeitar esta forma de perceber o outro. Crochik (1997), exemplificando sobre esse modo de preconceito, esclarece que o preconceituoso fixa a identidade em uma única característica da pessoa vitima do preconceito, não importando os demais aspectos que a definem como pessoa:
Utilizam-se então predicados ao nome que não permite a nomeação: judeu, negro, louco etc. Contudo, uma pessoa que é portadora do vírus da AIDS não é somente portadora deste vírus, mas é, também, homem ou mulher, adulto ou criança, branca ou negra, pobre ou rica, sensível ou insensível, bonita ou feia, culta ou inculta, religiosa ou atéia, viciada em tóxicos ou não, amistosa ou hostil, trabalhadora ou proprietária, casada ou solteira, com ou sem filhos, homossexual ou heterossexual, pacífica ou agressiva etc. Embora algumas destas dicotomias tenham alternativas, o que se quer dar ênfase é que independentemente das inúmeras características que a pessoa vítima do preconceito possua a que passa a caracterizá-la é o termo que designa o preconceito. (CROCHIK, 1997, p. 1)
O individuo que possui uma deficiência visual, segue esta mesma tendencia preconceituosa, suas demais caracteristicas identitárias são anuladas em lugar daquela, em que o preconceito social prefere dar mais enfase. É possivelmente pertencente a várias outras identidades, como por exemplo ao que se refere a identidade nacional, ele pode ser brasileiro, italiano, argentino; pode ainda pertencer a agremiações futebolísticas, torcedor desse ou daquele clube, Corinthians ou São Paulo, Flamengo ou Fluminense, Bahia ou Vitória, entre outros; ser um cantor, advogado, médico, assistente social, doutor, dançarino, professor. Entretanto, somente a sua deficiência visual terá maior destaque na concepção preconceituosa e estigmatizante; deixa-se de lado o sujeito como singularidade, dotado de características próprias para um olhar focado na identificação negativa da deficiência.
Comumente escuta-se em fala de alguns profissionais e pessoas do cotidiano: “eles preferem que seja asssim” ou “os cegos não gostam disso ou daquilo”. Como se existisse uma padronização nos comportamentos das pessoas que são deficientes visuais.
O educador que tem em sua concepção a mesma compreensão do senso comum, prejudica significativamente o desenvolvimento afetivo, emocional, cultural e intelectual de seu educando. Não que despreze os conhecimentos do senso comum, mas, como afirma o professor Paulo Freire (1996) em Pedagogia da autonomia, que o conhecimento intuitivo deve avançar para o conhecimento epistemológico. Portanto, faz-se necessário uma (des)construção em relação a ideia desses professores, que pensam pautados no senso comum, e construir práticas centradas em conhecimentos aprofundados sobre a realidade da educação inclusiva. Assim sendo a sua atuação com os educandos com deficiência visual, permitiria maior e melhor compreensão sobre o contexto sociocultural que envolve a sala de aula a fim de possibilitar uma inclusão satisfatória.
Na procura por uma compreensão mais aprofundada sobre a deficiência, Vigotsky (apud NUERNBERG, 2008) apresenta a ideia de deficiência primaria e secundária, onde a primeira decorre da questão orgânica e a segunda de questões psicosociais, as quais são produzidas no interior de uma cultura em sociedade. Como ele afirma:
Essas limitações secundárias, portanto, são mediadas socialmente, remetendo ao fato de o universo cultural estar construído em função de uma padronização do normal e anormal, do perfeito e imperfeito, do produtivo e improdutivo, que, por sua vez, cria barreiras físicas, arquitetônicas, didática pedagógicas, comunicacionais, educacionais e atitudinais para a inclusão social e cultural da pessoa com deficiência. (VIGOTSKY apud NUERNBERG, 2008, p. 309)
Desta forma, Vigotsky (apud NUERNBERG, 2008) defendeu uma posição crítica em relação às formas de segregação social educacional imposta às pessoas com deficiência. Outro aspecto abordado por Vigotsky (apud NUERNBERG, 2008) refere- se ao fato da escola subestimar a capacidade cognitiva do aluno com DV, considerando apenas a sua limitação visual. Para ele, a restrição do ensino aos conceitos, é uma estratégia equivocada das práticas educacionais da educação especial. Sobre isso ele afirma:
Com base em uma noção estática e retificadora da condição psíquica destas pessoas, a proposição de formas de ensino focalizadas nos limites intelectuais e sensoriais resulta na restrição das suas oportunidades de desenvolvimento. Cria-se, assim, um círculo vicioso no qual, ao não se acreditar na capacidade de aprender das pessoas com deficiência, não lhe são ofertadas condições para superarem suas dificuldades. Em conseqüência, elas ficam condenadas aos limites intelectuais inerentes à deficiência, tomados assim como fatos consumados e independentes das condições educacionais de que dispõem. (VIGOTSKY apud NUERNBERG, 2008, p. 309)
Portanto, para pensar numa educação inclusiva faz-se necessário compreender esta questão conceitual da deficiência visual, não simplesmente pelo prisma da medicina, mas numa perspectiva social, cultural e política com a finalidade de promover a oportunidade de ascensão aos postos mais elevados da sociedade.
Restringir um indivíduo ou um grupo de pessoas a uma única oportunidade ou alternativa de escolha na vida educacional e profissional é enfileirar pessoas para uma única porta de acesso. A entrada que leva ao preconceito, a segregação e ao confinamento sociocultural.