Conclusions sur la première approche qualitative du fonctionnement intellectuel chez les SE+ et les SE-«
I. EXAMEN QUAIWITATIP ST QUALITATIF DE LA MANIPULATION DES CARTONS,
Desde abril de 1972, os militares estavam na região. Há consenso entre os dois lados envolvidos, PC do B e Forças Armadas, em dividir a guerrilha em três fases distintas Primeiro enviaram um punhado de recrutas de Belém, garotos entre 18 e 19 anos, 125 no total, comandados por tenentes temporários – enfim, um grupo de “conscritos bisonhos”, nas palavras de Jacob Gorender162
- com a missão de investigar “atividades subversivas” no sul do Pará163. Foram embora em 40 dias, deixando o saldo de nove guerrilheiros presos164, um soldado morto165 e um camponês que teria cometido suicídio na prisão166.
162 Jacob Gorender. Combate nas Trevas. São Paulo: Ática, 1999.
163 O comando operacional dessa missão foi entregue ao chefe do Estado-Maior da 8ª RM, coronel Alair
de Almeida Pitta. Citado em: Studart. A Lei da Selva, op. cit., pág. 111 a 117; e também no documento CIE: “Relatório Sumário de Operações – Operação Peixe (Confidencial)”, 10 de maio 1972. Contudo, a maior parte dos oficiais que cumpriram missões na mata, eram tenentes temporários, universitários cumprindo o serviço militar obrigatório, os chamados CPOR (sigla de Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), à testa de recrutas também cumprindo o serviço militar obrigatório.
164 São eles, pela ordem das prisões: Danilo Carneiro (codinome Nilo), Eduardo José Teixeira Monteiro,
Rioco Kayano, Dower Moraes Cavalcanti (Domingos), José Genoíno Neto (Geraldo), Dagoberto Alves Costa (Miguel), Glênio Fernandes de Sá (Mário), Luzia Reis Ribeiro (Lúcia), Regilena da Silva Carvalho (Lena). Eduardo Monteiro e Rioco Kayano foram presos antes de conseguirem entrar para o grupo guerrilheiro, não chegando, portanto, a receber codinomes no Araguaia.
A partir de então, exatos 23 soldados profissionais da Brigada Paraquedista do Rio de Janeiro seriam deslocados para o Araguaia, a fim de reprimir os guerrilheiros167. Ficaram na região entre maio e setembro de 1972, quando quatro guerrilheiros seriam mortos168, mas nenhum foi aprisionado. Os guerrilheiros batizaram esse período de Primeira Campanha169.
Em setembro, chegaram ao Araguaia nada menos que 3.250 militares das três Forças Armadas, egressos de quartéis de nove estados170. Realizaram a grande manobra anual conjunta, dessa vez em cenário real, quando mais oito guerrilheiros seriam mortos171 - e nenhum guerrilheiro seria feito prisioneiro. Os guerrilheiros batizaram esse período de Segunda Campanha, ou Manobrão172. Os militares foram embora 20 dias depois de chegarem, conforme o previsto no
166 O barqueiro Lourival Moura Paulino, preso e morto nas dependências da Delegacia de Xambioá, após
um interrogatório conduzido pelo delegado Carlos Teixeira Marra, sargento da Polícia Militar do Pará. No laudo oficial, Lourival teria cometido suicídio. Em A Lei da Selva, op. cit., dedico o Capítulo 3, “A Primeira Campanha”, para descrever esse período.
167 Comandados pelo major Thaumaturgo Sotero Vaz, do Grupo de Operações Especiais da Brigada de
Paraquedistas no Rio de Janeiro. Foi enviado no início de maio de 1972 para resgatar o corpo do cabo Rosa. Com a retirada dos recrutas da 8ª RM de Belém, passou a comandar todas as operações do Araguaia, buscando guerrilheiros. Além de seus homens, 23 no total, incluindo o comandante, Thaumaturgo recebeu apoio logístico de cerca de outros 100 militares de Goiânia e de Brasília, que ficaram estacionados na Base Militar de Xambioá, em Goiás. Mas apenas os paraquedistas, tropas federais, tinham permissão legal para entrar nas matas do sul do Pará a fim de combater os guerrilheiros. As tropas de apoio da 3ª Brigada de Infantaria ficavam estacionadas em Xambioá. O major Thaumaturgo permaneceu na região até setembro de 1972. Mais tarde, seria promovido a general.
168 Em ordem cronológica: Bergson Farias Gurjão, codinome Jorge; Maria Lúcia Petit, a Maria; Kleber
Lemos da Silva, o Carlito; e Idalísio Soares Aranha Filho, codinome Aparício. Detalhes adiante, no Capítulo 8, “A Luta na Floresta”.
169 É o nome que está registrado no “Relatório Arroyo” e, portanto, que vem sendo utilizado há 40 anos.
Para os militares, contudo, foram três operações distintas, Operação Peixe, desencadeada pelas tropas da 8ª Região Militar, de Belém; Operação Ouriço, das equipes de inteligência da Brigada de Infantaria de Brasília em conjunto com agentes do Centro de Informações do Exército, CIE, que correu de forma paralela e independente da primeira; e, por fim, a Operação Presença, no qual o governo federal enviou tropas de paraquedistas do Rio de Janeiro e, ao mesmo tempo, médicos, dentistas, agentes de saúde (para combater a malária) e agrimensores (para demarcar terras), enfim, agentes do Estado para dar assistência social às populações do Araguaia.
170 O comando-geral da operação foi entregue ao general-de-divisão Olavo Viana Moog, Comandante
Militar do Planalto, em Brasília e o comando operacional na área, por sua vez, foi entregue a seu subordinado, o general-de-brigada Antônio Bandeira, comandante da 3ª Brigada de Infantaria, sediada em Brasília. Mais detalhes no Capítulo 7, item 7.6 – “A grande manobra”.
171 Em ordem cronológica: Miguel Pereira dos Santos, codinome Cazuza; Francisco Manoel Chaves, Zé
Francisco, ou Preto Chaves; José Toledo de Oliveira, Vítor; Antônio Carlos Monteiro Teixeira, Antônio da Dina; Helenira Rezende de Nazareth, Fátima Preta; João Carlos Haas Sobrinho, Dr. Juca; Manoel José Nurchis, Gil; e Ciro Flávio Salazar de Oliveira, Flávio. Ressalto que também morreram dois militares e um camponês que lhes servia de guia.
172 Tanto o “Relatório Arroyo” quanto o “Diário do Velho Mário” registram esses nomes. Para os
militares, contudo, foi a chamada Operação Papagaio. Ver detalhes em: Studart. A Lei da Selva. Op.cit., Capítulo 4, “Segunda Campanha”.
planejamento da manobra. Os guerrilheiros, por sua vez, celebraram a vitória173.
Depois disso, a guerrilha atravessou um ano sem combates com os militares, entre outubro de 1972 e outubro de 1973. Os guerrilheiros batizaram esse tempo de Período de Trégua, no qual tomaram conta do território174.
Até esse ponto, a historiografia é rica em fontes e no desvelar dos fatos. Há cerca de 3 mil documentos militares disponíveis sobre essas duas campanhas e as circunstâncias das mortes dos guerrilheiros – 12 até então – estão relativamente esclarecidas 175.
Em outubro de 1973, os militares retornariam à região do Araguaia pela terceira e última vez. Chegaram com armas leves, roupas civis e identidades falsas, e com uma nova estratégia – a da guerra de partisans, ou seja, combater os guerrilheiros com táticas de guerrilheiros. Chegaram, sobretudo, com a ordem expressa de não fazer prisioneiros176. Outra inovação é que, pela
primeira vez, os militares não estavam vinculados a uma tropa regular. Mas o comando da operação passou a ser do Centro de Informações do Exército, CIE177.
173 Maurício Grabois, comandante-em-chefe das Forças Guerrilheiras, registrou em seu diário que “é
possível afirmar que os nossos combatentes realizaram uma grande façanha. É certo que tivemos baixas, mas o inimigo não nos pôde liquidar e teve também suas perdas”. In: Grabois. “Diário do Velho Mário”, anotação de 10 Out 1972. Ele também chegou a redigir uma carta à população local, o “Comunicado nº2”, no qual informa que “a campanha montada pela ditadura redundou em fracasso”, pois “os soldados revelam medo” e o Exército “viu-se impotente diante da tática de Guerrilhas usada pelos revolucionários armados”. In: [carta] 20 out. 1972, Araguaia. 1f. Forças Guerrilheiras do Araguaia – Comunicado nº 2.
174 Os militares, por sua vez, estavam deflagrando uma ação de inteligência, a Operação Sucuri, na qual
infiltraram 35 agentes do CIE entre os moradores da região do Araguaia com o objetivo de mapear os guerrilheiros. Ver: Studart, idem, Capítulo 5, “A Guerra Invisível”, e Capítulo 6, “A Era dos Extremos”.
175 Praticamente toda a historiografia referente ao Araguaia, incluindo livros e pesquisas acadêmicas,
refere-se a esse período. Entre as exceções, a obra de Taís Morais e Eumano Silva, Operação Araguaia,
op. cit., e minha obra A Lei da Selva. Também praticamente toda a documentação revelada até a presente
data refere-se a esses três períodos, a Primeira Campanha, a Segunda Campanha e o Período de Trégua. Da Terceira Campanha, até a presente data, só apareceram dois fragmentos de documentos. Um deles, obtido por Taís Morais; o outro, obtido por mim junto ao acervo pessoal de um militar, documento este que foi utilizado nesta pesquisa.
176 A decisão teria sido tomada, em conjunto, pelo presidente Emílio Médici e pelo ministro do Exército,
general Orlando Geisel. Em: Studart. A Lei da Selva. Op. Cit., detalho essa decisão no item “Quem deu a ordem?”.
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O CIE estava na ocasião sob o comando do general Milton Tavares, um dos próceres da chamada “linha dura”. Mas logo ele passaria o bastão de comando para o general Confúcio de Paula Avelino. Entretanto, a coordenação dessa terceira investida do Exército no Araguaia coube ao tenente-coronel Carlos Sérgio Torres, chefe da Seção de Operações do CIE em Brasília. Contudo, o comando direto das operações na região coube a dois oficiais distintos, que tinham o cargo de Chefe do Estado Maior da Operação Marajoara. Entre outubro de dezembro de 1973, o chefe na área foi o tenente-coronel Wilson
Para os guerrilheiros, foi a Terceira Campanha178. Mais quatro morreriam logo nos primeiros dias, em episódios registrados pelo “Relatório Arroyo” e/ou pelo “Diário do Velho Mário”179. Enfim, a historiografia já havia registrado a morte e suas circunstâncias de 18 guerrilheiros. Ari foi o 19º - e o primeiro a ser tragado pelas fissuras da Histórias, segundo o conceito de Benjamin.
* * *
Ao longo desse período de quase dois anos, exatos 20 meses de combate, apenas um ato de barbárie havia ocorrido: a guerrilheira Maria fora enterrada viva. Era professora primária em Vila Nova Cachoeirinha, zona norte da capital paulista. Nascida em Agudos, São Paulo, entrou para o movimento estudantil ainda adolescente. Tinha dois irmãos mais velhos, Lúcio e Jaime, que já militavam no PC do B. Um dia, ambos foram convocados à revolução. A caçula seguiu atrás. Adotou o codinome Maria.
Em uma manhã ensolarada de junho de 1972, Maria (foto) caminhava despreocupada por uma trilha na mata quando o Acaso a colocou diante do gatilho aflito de um jagunço180. Foi enterrada em cova rasa,
Brandi Romão, que duas décadas mais tarde seria nomeado diretor-geral da Polícia Federal pelo presidente Itamar Franco. No Araguaia, usava o codinome de Dr. Zico. De seu período na coordenação, restam nove guerrilheiros desaparecidos. A participação de Wilson Romão na repressão à guerrilha foi revelada por Maklouf Carvalho. O Coronel Rompe o Silêncio, op. cit., pág. 137; mas suas exatas funções como coordenador-geral, como o detalhamento das práticas, foram reveladas por Studart. A Lei da Selva,
op. cit., págs. 228-229. O segundo chefe das operações na área foi o tenente-coronel Flávio Demarco. No
Araguaia, usava o codinome de Tio Caco. De seu período na coordenação-geral, restam 32 guerrilheiros mortos ou desaparecidos. Cerca de 25 deles teriam sido presos e depois executados. Seu nome e funções foram revelados por Studart. A Lei da Selva, op. cit., págs. 228-229 e 255-260. Esta pesquisa avançou no detalhamento da cadeia de comando. Ver: Anexo III – Militares no Araguaia.
178 Também registrada com essa nomenclatura no Relatório Arroyo e no Diário do Velho Mário. Taís
Morais e Eumano Silva, em Operação Araguaia, op. cit. revelaram que os militares batizaram essa fase com o nome de Operação Majaroara. Em A Lei da Selva, op. cit., por sua vez, revelo detalhes inéditos da Marajoara, como a formação das tropas, a cadeia de comando, o nome de seus comandantes, o modus
operandi e a execução de prisioneiros por duas equipes de operações de inteligência, a Zebra e a Jibóia. 179 São eles: André Grabois, o Zé Carlos; João Gualberto Calatroni, Zebão, Divino Ferreira de Souza,
Nunes, além do camponês Antônio Alfredo Campos, que havia aderido à guerrilha. Esses quatro morreram em um único combate. Logo depois, em outro episódio, morreu a guerrilheira Lúcia Maria de Souza, a Sônia. Registro ainda que, em agosto de 1973, durante o chamado Período de Trégua, os próprios companheiros teriam julgado e executado o guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza, o Mundico, episódio que será narrado adiante.
180 Trata-se de Júlio Santana, que na ocasião estava servindo de guia do Exército. Ao fim da Guerrilha do
com um saco plástico na cabeça. Ainda conseguiria levantar um braço para fora da terra e abrir a mão em direção ao céu. Tinha 22 anos, mas aparência de adolescente181.
Mas os camaradas de luta jamais souberam das circunstâncias da morte da jovem Maria. Por isso, esse episódio, macabro e chocante no tempo do agora, no tempo do outrora não teve relevância para a guerrilha. Aliás, para os próprios guerrilheiros, todas as 18 mortes anteriores à de Ari teriam sido épicas, com os guerrilheiros, de armas em punho, atirando, lutando como bravos revolucionários contra um Exército fardado, organizado e muito superior em homens, recursos e armas.
Ademais, todas as 18 mortes anteriores foram registradas pelos próprios guerrilheiros182, como também em documentos militares já tornados públicos, reportagens e livros. As narrativas tanto de Arroyo quanto de Grabois têm conotações de epopeia, tendendo a apresentar os guerrilheiros, todos eles, como heróis que tombaram em lutas épicas, tal qual os personagens de A
Odisseia, de Homero183. A partir da morte de Arildo Valadão, a 19ª morte, nenhum outro episódio fatal ficou registrado em quaisquer documentos, criando, assim, uma grande fissura para 41 guerrilheiros desaparecidos184.
Ressalte-se que até a decapitação de Ari, a 26 de novembro de 1973, as Forças Armadas vinham combatendo segundo as Leis da Guerra e de acordo com as Convenções de Genebra185. A barbárie contra a jovem Maria fora uma
de um livro no qual confessa ter matado mais de 450 pessoas, dentre eles, Maria Lúcia Petit da Silva. In: Klester Cavalcanti. O Nome da Morte. São Paulo: Planeta do Brasil, 2006.
181 Este episódio macabro não está registrado em documento ou livro algum. Júlio Santana chega a revelar
no livro que matou Maria Lúcia, contudo, sem detalhes. O fato de ter sido enterrada viva foi desvelado durante esta pesquisa, a partir da narrativa oral de um militar – depois confirmado por outros militares. A morte de Maria Lúcia Petit está narrada adiante, no Capítulo 8, “A Luta na Floresta”, com o detalhamento dos fatos e fontes.
182 Ou no “Relatório Arroyo”, ou no “Diário do Velho Mário”, ou em ambos os documentos, como já dito. 183 Adiante, estão narrados os episódios que resultaram nessas mortes, com as respectivas narrativas de
Arroyo ou de Grabois.
184 Eis a principal razão para que eu inicie esta narrativa justamente pelas ausências.
185 Essa é a hipótese central da minha pesquisa de Mestrado, publicada em livro, A Lei da Selva, op. cit.
Qual seja, a de que os militares chegaram ao Araguaia combatendo segundo as Leis da Guerra e em consonância com as Convenções de Genebra. Em determinado momento, a partir da Terceira Campanha, deflagrada em outubro de 1973, passaram a combater segundo a “lei da selva”, cometendo atos de exceção e violações dos Direitos Humanos, como a tortura e a execução sumária de prisioneiros. Tanto que a quase totalidade dos guerrilheiros mortos ao longo de 1972 tombaram em combate na mata, armados e atirando, e depois foram quase todos enterrados em cemitérios públicos. Maria Lúcia Petit, por exemplo, foi exumada de sua cova rasa na mata, assim que os militares souberam do caso, e depois
exceção, cometida por jagunços privados – ainda que estivessem a serviço do Estado. Alguns guerrilheiros também tiveram suas mãos decepadas pelas tropas oficiais e levadas às bases militares para posterior identificação, por impressão digital. Mas já estavam mortos quando suas mãos foram separadas dos punhos, todos eles mortos em combate na mata.
Depois que a cabeça de Ari foi entregue na Base de São Raimundo, nos dias subsequentes, os militares divulgaram entre os moradores da região uma espécie de tabela de preços pelas cabeças dos guerrilheiros. Osvaldão e Dina eram os mais valiosos. Valiam 5 mil cruzeiros se apanhados vivos, e 10 mil cruzeiros se mortos. Com 5 mil cruzeiros, dava para comprar 10 vacas, ou um sítio de 20 hectares na região. Com 10 mil cruzeiros, dava para comprar um Fusca, o automóvel mais vendido na ocasião. Os comandantes Mário e Joaquim, por sua vez, valiam um pouco menos – 3 mil cruzeiros vivos, ou 5 mil cruzeiros mortos. Quantos aos demais, valiam entre 1 mil e 3 mil cruzeiros cada, independente de vivos ou mortos186.
Portanto, a morte de Ari é um ponto de inflexão histórica. Primeiro, representou a terceirização da luta, o fato de o Estado ter recrutado camponeses, transformando pacatos trabalhadores e pais de família em matadores de aluguel. Significou, sobretudo, a oficialização da barbárie pelo Estado constituído.