PÁSSARO AZUL
1Jair Zandoná
Meu mundo era o pesadelo unânime de que falava João. Nele, os meninos comiam barro, os rapazes obstinados apodreciam no fundo das prisões por afirmar que os pardais são pássaros azuis. (STUDART, 1981:16) A temática geral da terceira edição das Jornadas do LEGH – feminismo e democracia – convida à reflexão sobre o período da ditadura civil-militar no Brasil. Para tanto, proponho pensar a partir da trajetória de Heloneida Studart, em especial a de romancista e a de ensaísta, como sua produção contribui(u) para pôr em cena questões prementes nesse e sobre esse período. Nesse sentido, minha leitura tem como ponto de partida os estudos literários e vai ao encontro do que afirma Jaime Ginzburg, em “O narrador na literatura contemporânea”, sobre o fato de que:
Há muito a ser compreendido em termos das perspectivas adotadas pelos escritores para lidar com o impacto social do processo ditatorial, tendo em vista as práticas de política do esquecimento, a hegemonia do 1. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.
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discurso militarista e as recentes contribuições de pesquisas históricas. (GINZBURG, 2012:217)
O “pesadelo unânime”, mencionado na epígrafe deste texto pela personagem-narradora de O pardal é um pássaro azul, diz respeito a um mundo repleto de lugares sem esperança, habitado por meninos pobres e por obstinados rapazes presos sem haver nenhum procedimento judicial. O pesadelo unânime parece sintetizar bem sobre as implicações do processo ditatorial na literatura e como o ficcional pode ser – e é – espaço de resistência, posto que contribui para a construção de outras interpretações e compreensões da História, de sentidos diversos dos discursos hegemônicos/oficiais.
Para fins de contexto quanto à trajetória de Heloneida Studart, é oportuno recorrer a uma entrevista que a autora concedeu a Marieta de Moraes Ferreira e a Américo Freire, em 1999, quando cumpria mandato como deputada estadual. Na ocasião, foi questionada sobre suas origens, família, atuação no sindicato, prisão – pouco depois da promulgação do AI-5 –, sua atuação no movimento feminista, a criação do Centro da Mulher Brasileira, em 1975, e seu ingresso na política, em 1978. A narrativa em primeira pessoa construída por meio das perguntas elaboradas é bastante significativa:
fui criada, como qualquer moça das velhas famílias, para ser mãe de família e dona de casa. Todas as manifestações de que eu ia ser escritora e jornalista – porque eu sempre quis ser escritora e jornalista, como sou – eram levadas na brincadeira. Eram vistas como veleidades de menina: “Quando você crescer, quando arranjar o primeiro namoradinho, isso passa...” Não passou. (STUDART, 2003:57)
Tanto nessa entrevista como na concedida a Roselane Neckel em 2005 para o LEGH – Laboratório de Estudos de Gênero e História da UFSC – recuperam sua trajetória como jornalista, envolvida na fundação do Sindicato das Entidades Culturais (SENAMBRA)2, do qual foi presidenta de 1966 até sua
2. O sindicato englobava o “pessoal do Sesi, Sesc, Senai e Senac, LBA, Clube de Engenharia,
Academia Brasileira de Letras... Entidades assim. Eu e o José Cândido fomos levando o sindicato, até que em 64 veio o golpe. Nessa ocasião o sindicato teve um trabalho muito relevante, porque, como era uma entidade nova, não tinha feito grandes campanhas, não foi muito visado. Não era um sindicato de classe operária, era mais de camadas médias, e
destituição do cargo em março de 1969 pelo AI-5, destacando-se sua militância política como feminista e como parlamentar. No cargo de deputada3, por
exemplo, conseguiu garantir a aprovação da lei para a realização do teste de DNA gratuito e também para a realização de exame de mama para mulheres de baixa renda.
Como ensaísta, é autora do best-seller Mulher objeto de cama e mesa (1974)4 – e de outros como A mulher, brinquedo do homem? (1969) e Mulher, a quem pertence teu corpo? (1990)5 – lançado pela Editora Vozes e que
passou a ser leitura obrigatória para a militância do movimento feminista. É interessante situar a importância dessa editora na década de 1970, posto que Rose Marie Muraro era editora da Vozes e que lançou em 1971 a tradução do livro Mística Feminina, da feminista norte-americana Betty Friedan, em cujo volume traz como texto de abertura o contundente “A mulher brasileira e a sociedade de consumo”, de Muraro. Mulher objeto de cama e
mesa integra a coleção “Cosmovisão”, a qual tinha como propósito oferecer
ao leitor uma nova visão do “nosso” tempo, na medida em que se entende
foi não digo nem preservado, mas esquecido. Enquanto isso, o Sindicato dos Têxteis era invadido, sofria intervenção, o Sindicato dos Bancários era destroçado – até o gabinete dentário foi destruído –, Hércules Correia era procurado vivo ou morto, Palhano também. Nos sindicatos poderosos, houve uma repressão violentíssima em cima das entidades e dos dirigentes: muitos foram presos, outros se exilaram, e nós ficamos. Era rigorosamente proibido pela ditadura reunir num sindicato categorias diferentes. Só se podia se reunir bancário com bancário, têxtil com têxtil, porque de outra maneira era encarado como subversão. Mas eu disse: “Zé Cândido, vamos romper com isso, não vamos aceitar isso, não. O governo já decretou o arrocho salarial, os trabalhadores vão ficar sem aumento... Vamos reunir aqui, no nosso sindicato que é pequeno, que não está dando na vista, as categorias mais diferentes, mesmo ao arrepio da lei deles – porque a lei deles não é a lei, é a lei deles.”
(STUDART, 2003:59-60)
3. Em 1978, com 60 mil votos, foi eleita deputada estadual do Rio de Janeiro, pelo Partido
do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), reelegendo-se em 1982, novamente pelo PMDB, atuando como vice-líder da bancada de 1979 a 1988, ano em que deixou o Partido. Participou da fundação do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). No ano seguinte, saiu do PSDB e entrou no Partido dos Trabalhadores (PT).
4. Na homenagem publicada a Heloneida Studart da Revista Estudos Feministas, em
2008, pouco tempo após o falecimento da escritora, há, sobre o livro, o seguinte: “Em 1974, Heloneida Studart, a convite da Editora Vozes, lançou o pequeno livro Mulher, objeto de cama e mesa. Essa publicação de 53 páginas, composta de textos concisos, geralmente frases bem chocantes, em forma de colagens, tornou-se um sucesso editorial ao longo dos anos e, atualmente, já está na 27ª edição com quase 300 mil exemplares vendidos.” (CUNHA,
2008:271)
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que o “mundo não é nenhuma máquina de precisão, em que cada parte age no todo de maneira determinada, única, perpétua, imutável. [...]”; pelo contrário, entende-se que “cada fenômeno se estrutura num conjunto de relações onde tudo interage, tudo influencia e sofre influência, nada é estático nem constituído uma vez por todas.” (STUDART, 1980).
O ensaio em primeira pessoa delineia o caráter reflexivo e combativo quanto às diferenças entre homens e mulheres. O início do texto é significativo, pois a autora situa sua escrita a partir do ano de 1969, não apenas pelo fato de ser a virada da década e de quando publicou A mulher, brinquedo
do homem?, mas também pelo fato de que se encontrava, pela primeira
vez, desempregada “por motivo de força maior” (STUDART, 1980:7), saiu de seu emprego e passou a conviver “no mundo gelatinoso e povoado de ninharias em que vive a maioria das mulheres que não trabalha.” Parte, então, desse universo para elaborar sua reflexão: “vivi como qualquer dona de casa, como a mulher doméstica comum, de classe média. Conversei com dezenas de moças na pracinha onde elas e eu levávamos os nossos filhos. Troquei receitas de bolos com as vizinhas. Fui a chás e pequenas reuniões femininas.” (STUDART, 1980:8). No ano seguinte, retorna ao jornalismo como redatora da Manchete6, cujos assuntos – graficamente destacado no
volume – centravam-se em: “como prender um homem para toda a vida; a melhor maneira de aproveitar os vestidos do ano passado, além do teste: Você se considera bonita?” (STUDART, 1980:8). A provocação está justamente no fato de que enquanto as mulheres eram estimuladas a dedicarem seu tempo à moda, à beleza e ao casamento, os homens iam à lua, mandavam sonda a marte, os cientistas pesquisavam sobre a reprodução in vitro... tais temas não ocupavam as páginas das revistas femininas. Às mulheres deveria
6. Sobre isso, vale a pena conferir o artigo de Marlene de Fáveri: “Na época em que Heloneida
escrevia seus artigos e comentários, modelos prescritos para o feminino e para o mascu- lino estavam sendo questionados. As reivindicações que se manifestavam na cena pública articulavam as narrativas sobre a crescente visibilidade das mulheres e suas lutas contra a violência e os preconceitos. Abria-se o debate acerca dos ditos ‘papéis femininos’ tradicionais e as novas subjetividades. Acontecimentos e temas como a aprovação da lei do divórcio; a afirmação do movimento feminista; o assassinato de Ângela Diniz; a contracultura; o aborto; a contestação de normas e modos de vida; a denúncia da opressão sobre as mu- lheres; a popularização da pílula anticoncepcional, dentre outros, são temas presentes em reportagens da Manchete.” (FÁVERI, 2014:105).
importar assuntos sobre: “como prender o marido para toda a vida e quais as 10 melhores maneiras de conquistar um homem?” (STUDART, 1980:9).
No que se diz respeito à sua carreira literária, iniciou ainda em Fortaleza com o romance A primeira pedra, quando decidiu, segundo conta, mudar- se para o Rio de Janeiro com o intuito de conseguir publicar seu inédito e para tornar-se jornalista, como desejava desde menina. No Rio tinha um tio, Osvaldo Studart, que na época era deputado pelo Partido Social Democrático (PSD). O livro foi publicado pela Saraiva em 1952. Três anos depois lançou
Diz-me o teu nome, romance que recebeu prêmio Júlia Lopes de Almeida,
da Academia Brasileira de Letras, e também o Orlando Dantas, organizado pelo Diário de Notícias7. Em 1964, publicou A Culpa e, em 1968, Deus não Paga em dólar (livro que foi retirado das livrarias durante a repressão)8.
No tocante à produção literária das décadas de 1960 e 70, o brasilianista Malcolm Silverman, em Protesto e o novo romance brasileiro, pondera em sua extensa pesquisa publicada na década de 1990, que “a influência do escritor sobre a opinião pública era minguada e insignificante.” (SILVERMAN, 2000:32). Segundo ele, isso se devia ao fato do baixo número de leitores de ficção somado à queda do poder aquisitivo. Por esse motivo, afirma que não surpreendia que a literatura socialmente engajada – exceto o teatro – notadamente permanecesse isenta de censura, mesmo após a promulgação do AI-5. Entretanto, pesquisas mais recentes nos arquivos do DCDP – Departamento de Censura de Diversões Públicas – indicam que há três figuras importantes que tinham seus livros sistematicamente censurados pelos órgãos responsáveis: Adelaide Carraro, Cassandra Rios e, posteriormente, Plínio Marcos – todos publicados pela Global Editora. Eram escritores “malditos” que “abordavam temas considerados tabus e imorais, como sexo,
7. “O livro seguinte, de 55, foi um romance chamado Diz-me o teu nome e logo de saída
tirou dois prêmios, o da Academia Brasileira de Letras e o Orlando Dantas. Sendo que ao prêmio Orlando Dantas, que era organizado pelo Diário de Notícias, concorriam Gerardo Mello Mourão, que é um tremendo escritor – o povo não gosta dele porque diz que é de direita, mas é um tremendo escritor –, e outro que naquele tempo fazia muito sucesso, cujo nome não me ocorre agora. Mas o meu livro, que era um livro de estreante, de uma jovem nordestina desconhecida, tirou esses dois prêmios. E quem fez o prefácio foi Alceu Amoroso Lima, que prognosticava para mim uma excelente carreira.” (STUDART, 2003:57).
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lesbianismo, miséria e marginalidade” (MAUÉS, 2016:42)9. Interessa, de
Silverman, a observação que faz sobre a escrita de romances naquele período: Desde a ditadura de Vargas, o romance jamais serviria tanto de veículo para disseminar a realidade nua e cruel na qual estava imerso o país, e onde buscava sua inspiração. Nisto reside sua importância, pois o romance se desenvolveu de forma vertiginosa, enquanto os meios convencionais de comunicação estavam bloqueados; ele apresentava um
outro Brasil, através de duro realismo, autobiografia semificcionalizada,
tratamento cômico dos costumes urbanos, introspecção constrangida, épicos desmistificados, paródia, alegoria, sátira flagrante e surrealismo. (SILVERMAN, 2000:33)
É, portanto, no espaço da ficção que localizamos muito do que não podia ser dito de outra forma que não pela literatura – porque envolvido pelo “faz-de-conta” – embora Deus não paga em dólar tenha sido proibido de circular, bem como outros textos de outros escritores e escritoras mencionados acima. Nesse sentido, não por acaso é que os romances O pardal é um pássaro
azul (1975), O estandarte da agonia (1981) e O torturador em romaria (1986)
foram, após o período de redemocratização, provocativamente nomeados, quando relançados, como “Trilogia da tortura”. Sobre O estandarte da agonia, Heloneida, na entrevista de 1999, ao falar sobre o período de sua prisão10 e
como, já trabalhando na revista Manchete, conheceu Zuzu Angel, que estava em busca de seu filho desaparecido11. Conforme menciona, sua jornada
9. Cf. também: Reimão, 2014; Portal Memórias da Ditadura. Disponível em: http://memo-
riasdaditadura.org.br/literatura/index.html. Acesso em: 12 jun. 2018.
10. Sobre o período em que esteve presa, Heloneida menciona que: “Fui presa, no presídio
São Judas Tadeu, onde tinha estado ali o Márcio Sodré [...] e houve até aquele episódio muito
interessante, em que a roupeira da prisão disse ‘Ah, quando a doutora Niomara [...] Sodré
veio aqui, deram pra ela o uniforme das presas, e ela caiu desmaiada.’ E eu respondi pra ela,
‘ela está desmaiada porque ela se veste em Paris, mas como eu me visto na Mesbla, eu não
vou cair desmaiada, pode me dar o uniforme’. Lá no presídio, eu vi coisas que me habitaram
pelo resto da vida. Na convivência com eles. Na convivência no presídio. Inclusive dessa minha convivência com essas mulheres, eu escrevi dois roteiros para a TV Globo, um se
chama ‘Eu quero meu filho’, que era a história de uma das presidiárias, a [...] e a outra era
o ‘Não roubarás’, sobre a história [...]. Todos os dois episódios foram levados pela Globo,
exibidos, naqueles ‘Casos Verdades’, e fizeram muito sucesso.” (STUDART, 2005:4).
11. Sobre essa questão, Wikileaks tornou público documentos da embaixada dos EUA em
na tentativa de encontrá-lo “teve uma grande força na minha vida, tanto que [o segundo romance da trilogia] é inspirado nela, na mãe que um dia espera o filho para jantar e o filho não vem. Esse romance foi até cogitado para virar uma minissérie na Globo, mas depois disseram que ainda não era tempo. Quer dizer, não vai chegar o tempo nunca. Há quanto tempo a ditadura acabou?” (STUDART, 2003:67), questiona seus entrevistadores em fins de 1999.