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Pensar a coleta de dados nos leva a refletir sobre os diversos momentos que fizeram parte desse percurso, mas também compreender a complexidade que envolveu as partes e suas singularidades no decorrer de trabalho. Parte e todo foram tecendo o caminho percorrido pela pesquisadora.

É importante salientar que nos baseamos em Carvalho (2000) para focar o pesquisado na produção do relato sobre sua trajetória de vida, contando sua história em que serão articulados momentos de descrição, argumentação e relação sobre os fatos, as situações, os problemas e os momentos significativos ocorridos na sua história.

Para isso, no processo inicial, optamos pela utilização da entrevista no sentido de uma estratégia aberta ao diálogo entre pesquisador e pesquisado. Szymanski (2004, p.12) define: “a entrevista face a face é fundamentalmente uma situação de interação humana, em que estão em jogo às percepções do outro e de si, expectativas, sentimentos, preconceitos e interpretações para os protagonistas: entrevistador e entrevistado”.

Nesse contexto, uma das concepções pautadas foi a da entrevista semi- estruturada. Para Lüdke e André (1986, p.34) a entrevista semi-estruturada “se desenrola a partir de um esquema básico, porém não aplicado rigidamente, permitindo

que o entrevistador faça as necessárias adaptações”. Para estas autoras a entrevista como estratégia não se conclui ao terminar o processo de elaboração, mas passa a estabelecer um diálogo vivo entre entrevistador e entrevistado.

Com base na entrevista semi – estruturada, elaborou-se um roteiro que passou a ser o fio condutor dessa conversa. Este roteiro (Apêndice 03) foi baseado nos estudos de Gonçalves e Lisboa (2007), mas com algumas adaptações em relação ao universo da pesquisa.

As entrevistas foram marcadas com antecedência com os sujeitos sociais da pesquisa e coletadas na própria comunidade, nas suas moradias individuais ou no espaço coletivo denominado de galpão comunitário. Esta escolha se dava de acordo com a negociação entre pesquisado e pesquisador.

Principiamos a coleta, experimentando inquietações tanto por parte da pesquisadora como dos pesquisados. Uma delas caracterizou-se pela curiosidade própria da situação de lembrar e relatar sobre aspectos da vida.

Ao iniciar o processo de coleta das narrativas, a pesquisadora produziu uma orientação inicial aos catadores, para que eles entendessem que iriam contar a história de suas vidas, relembrando fatos e chegarem até o momento presente em que se encontravam ali, naquele local.

Uma questão foi identificada logo no percurso das primeiras entrevistas, notamos que eles iam identificando um determinado fato, que lhes parecia significativo, para iniciar o relato, iam agregando e compartilhando a esse outras situações, sem que houvesse a necessidade de interferências da pesquisadora. Mas em algumas situações em que não ficava claro um nome ou um dado transmitido, no decorrer do diálogo, era necessário que a pesquisadora pedisse uma nova explicação. Com isso, a interferência com a utilização do roteiro era feita para retomar a entrevista, em alguns casos, quando era percebida a dificuldade de alguns se lembrarem de fatos das trajetórias de vida.

Outro momento de destaque, uma parte dos pesquisados iniciou seu relato a partir da infância e, em alguns casos, questionavam se podiam começar por esta etapa da vida, outros já iniciavam fazendo uma síntese breve do percurso de suas vidas, citando e enumerando aspectos significativos do itinerário dessa história.

No decorrer das entrevistas a pesquisadora foi desenvolvendo a escuta na perspectiva do acolhimento, demonstrada por meio do olhar, dos gestos e do silêncio, em especial nos momentos das lembranças que vinham acompanhadas de choros. Nestes momentos, a aceitação não se concretizava na história ali relatada como aspecto isolado, mas na aceitação daquele sujeito como um todo, na sua

subjetividade, trazendo contextos e histórias de outros grupos nos quais esteve ou estava inserido. Acreditamos que ali a escuta sensível foi exercitada, de acordo como se posiciona Barbier (2002, p.24): “A aceitação incondicional do outro”. Os gestos e o silêncio como forma de legitimar aquele sujeito seria ouvido independente do que ele trouxesse para o relato.

As entrevistas tiveram uma duração de sete minutos e vin te quatro segundos a uma hora e vinte quatro minutos, sendo que, em alguns casos, foi necessário desligar o gravador. Isto se deu, especialmente, quando os pesquisados quiseram relatar alguns fatos, que vivenciaram, mas que não concordavam que fossem registrados. Assim, constitui-se um diálogo em que o interesse maior foi o da escuta e o do cuidado.

Outra estratégia utilizada, ante a complexidade do fenômeno, foi a do diário de campo como forma de registrar as impressões, expressões, gestos, questões que estiveram presentes no universo existencial da entrevista e do contexto dos sujeitos sociais da pesquisa, os catadores de material reciclável.

Para Macedo R. (2006, p. 133) o diário de campo é considerado uma estratégia reflexiva para o pesquisador compreender o contexto vivido pelos pesquisados.

Jornal de pesquisa, diário de campo, diário de viagem são denominações que conceituam a descrição minuciosa e densa de existencialidade, que alguns pesquisadores despojados das amarras objetivistas constroem ao longo da elaboração do estudo. Trata-se, em geral, de um aprofundamento reflexivo sobre as experiências vividas no campo de pesquisa e no campo de sua própria elaboração intelectual, visando apreender, de forma profunda e pertinente, o contexto do trabalho de investigação científica [...].

O diário de campo serviu para o registro dos diferentes momentos da pesquisa, desde a reunião para pedir autorização para o trabalho, o contexto das entrevistas como também outros momentos em que a pesquisadora se fazia presente na comunidade, quando era convidada a participar de reuniões e outros encontros.

No decorrer das entrevistas, tivemos o cuidado de não fazer anotações no momento do relato, para garantir a escuta. Ao concluir este momento, faziam-se os registros, organizando-os entre os momentos anteriores à entrevista, o presente da entrevista e o momento posterior a ela. No diário de campo, tomamos a decisão por preservar o nome real dos sujeitos sociais.

Como o foco central do trabalho é a trajetória de vida dos catadores de material reciclável da comunidade Reciclo no processo de constituição da cooperativa, decidimos por trabalhar a análise de alguns documentos que fizeram parte deste processo inicial.

Para Phillips (apud LÜDKE e ANDRÉ 1986, p.38) são considerados documentos “quaisquer materiais escritos que possam ser usados como fonte de informação sobre o comportamento humano”. Para fazer o levantamento desses documentos, um fator foi decisivo, o agrupamento dessa comunidade ocorreu anteriormente ao processo da constituição da cooperativa. Em decorrência disso, decidimos coletar os documentos como: as notícias que eram vinculadas sobre a comunidade na mídia escrita e on-line; as notícias publicadas por um dos apoiadores em revistas internas do próprio órgão. As primeiras noticiavam a ilegalidade destes catadores, já as noticias centradas no segundo item se referiam ao contexto destes catadores e as ações executadas pelos apoiadores já do projeto da cooperativa (ANEXO, doc.03).

A análise documental deu-se também em algumas fontes escritas produzidas pelos próprios catadores no decorrer do curso: formação social, política e ambiental, no qual os catadores participaram nos meses de julho, agosto e setembro do ano de dois mil e sete. Foram analisados anotações de trabalhos em grupos e registros individuais. O curso em foco foi coordenado por dois apoiadores com o objetivo de iniciar a formação social, política e ambiental desses catadores; realizado na própria comunidade, nos sábados à tarde. As aulas foram realizadas por professores voluntários, a maioria, profissionais que tinham uma certa relação com o contexto dos catadores de material reciclável, como pesquisadores, educadores ambientais, teólogos, filósofos, movimentos sociais como do movimento nacional dos sem terra, representantes de órgãos do governo federal e representantes legislativos. A pesquisadora fazia parte da coordenação pedagógica e também ministrava e coordenava alguns momentos do curso (ANEXO, doc. 04 e 05).

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