A análise procedida nas seções anteriores deste capítulo considerou, sobretudo, as percepções das famílias agricultoras e pluriativas entrevistadas. Nesta seção, a questão da pluriatividade é apresentada e analisada considerando-se especialmente as opiniões dos informantes chaves. É de grande importância para este trabalho e para a discussão sobre a questão da pluriatividade considerarmos as concepções de agentes formadores de opinião e responsáveis ou co-responsáveis (pelo menos em nível local e regional) pela definição e implementação de ações que dizem respeito ao meio rural, neste caso, mais especificamente aos agricultores familiares.
De um modo geral, o entendimento dos entrevistados é de que as transformações a que a agricultura familiar foi submetida, nas últimas décadas, seja em função da maior integração ao mercado, seja pelas ações patrocinadas pelas agroindústrias, ou ainda, pelo Estado, determinaram um quadro pouco promissor para uma parcela significativa de agricultores familiares no contexto estudado, especialmente para aqueles que realizam apenas atividades agrícolas ou não se encontram integrados às agroindústrias.
Nas entrevistas caracterizadas como “história oral” os relatos demonstram que ao longo do tempo houve um processo de perda de rentabilidade nas principais atividades agrícolas na região, sobretudo, no que refere a produção de grãos e, também, um processo de concentração da produção de forma especial na suinocultura e avicultura. Dentre outros, estes seriam uns dos principais fatores de desestímulo em permanecer na atividade agrícola e no meio rural. Esses entrevistados entendem que o interesse no exercício de atividades não-agrícolas, por parte de
membros das famílias rurais, resulta, sobretudo, da maior segurança na obtenção de renda na comparação com as atividades agrícolas.
Quanto aos demais entrevistados (técnicos e outros profissionais) constatou-se que as opiniões não diferem muito entre si com relação à situação social e econômica e as perspectivas para as famílias rurais. De um modo geral, apontam para o entendimento que o êxodo rural na região persistirá, porém em ritmo menor do que vem sendo registrado nos últimos anos. Demonstram, também, entendimento de que o processo de concentração da produção continuará, diminuindo, desta forma, o espaço para a realização de atividades agrícolas tradicionais para uma parcela significativa de agricultores familiares, especialmente para os menos estruturados.
De acordo com os depoimentos, o desestímulo em permanecer no meio rural dependendo unicamente da agricultura e a propensão para a realização de atividades não-agrícolas por parte dos agricultores familiares, resulta da dificuldade para a geração de uma renda mínima que satisfaça as necessidades dessas famílias. Neste aspecto, é importante observar que as opiniões dos informantes chaves (especialmente dos profissionais que trabalham diretamente com os agricultores) e das famílias entrevistadas, não diferem. Isto indica não se tratar de situações isoladas, mas da realidade da agricultura familiar no contexto estudado.
Apontam, também, por um lado, para a necessidade de buscar alternativas para a geração de renda para os agricultores familiares. Essas alternativas, segundo os depoimentos, passam pela agregação de valor à matéria-prima, pela introdução ou incremento de atividades de alta concentração econômica como a fruticultura, floricultura, olericultura e, ainda, a criação de pequenos animais. Por outro lado, apontam para a importância do incentivo ao associativismo e para a necessidade de desenvolvimento de programas de educação e orientação, especialmente para a comercialização.
Embora todos concordem com a necessidade do desenvolvimento de políticas e ações visando o fortalecimento e o incentivo às atividades agrícolas, reconhecem a importância e a necessidades de se pensar em ações com vistas a promover o desenvolvimento territorial, para além do agrícola, como forma de proporcionar oportunidades de trabalho e renda. Neste sentido, o depoimento de um informante chave representante da classe política resume a questão.
O incentivo deve ser dado às iniciativas de geração de oportunidades de trabalho não- agrícola no meio rural. Essa é a principal alternativa que temos hoje para aumentar a renda familiar no meio rural. (IC 02)
Constatou-se que há um entendimento de que o exercício de atividades não-agrícolas representam (para as atuais famílias agricultoras pluriativas) e poderão representar para uma parcela significativa dos agricultores familiares do município, a condição para conseguirem se manter na atividade agrícola e no meio rural mesmo sem a necessidade de adentrar em uma corrida por escala de produção.
Assim, na perspectiva dos informantes chaves, são projetadas mudanças significativas na estrutura de produção agrícola de base familiar e, também, na dimensão social no meio rural do município. Por um lado, pela perda de espaço em atividades agrícolas tradicionais da região como milho e suínos, por exemplo. Por outro, pelo incremento em atividades de alta concentração econômica; pela formação de pequeno e médio capital agroindustrial por meio do associativismo; e principalmente pela mudança na organização do trabalho e da renda no meio rural.
O significado, para a questão central deste trabalho, das percepções desses entrevistados que não são agricultores, mas cujo resultado de sua atuação profissional influencia direta ou indiretamente as famílias que vivem no meio rural, se revela nas demonstrações de consciência de que os resultados econômicos das atividades agrícolas (em muitos casos e no contexto estudado), não mais se apresentam como suficientes para oferecer condições de viver desejáveis ou mesmo aceitáveis. Sua importância se revela também no entendimento da necessidade de aumentar a oferta de oportunidades para o desenvolvimento de atividades não-agrícolas no meio rural e para a necessidade de implementar políticas e ações com vistas a proporcionar o desenvolvimento territorial e não apenas setorial.
Em síntese, este capítulo demonstra que de acordo com as perspectivas dos entrevistados a agricultura tem oferecido cada vez menos oportunidades de renda de forma segura, periódica e suficiente para assegurar a uma parcela significativa de agricultores e suas famílias, o padrão de vida e conforto desejados. O estudo evidencia que em função dos altos custos para a manutenção da unidade familiar de produção, rendimentos periódicos e mais seguros são vitais para a reprodução social dos agricultores familiares. No sentido de alcançar uma condição de maior segurança e estabilidade, as famílias rurais lançam mão de diferentes estratégias, dentre as quais a pluriatividade.
Com relação às questões de cunho mais social constatou-se, por um lado, que existe a preocupação entre as famílias entrevistadas com um processo de individualização e de “erosão
das relações de sociabilidade” no espaço em que as famílias ocupam-se apenas com atividades agrícolas. Por outro lado, observou-se que a presença e realização de atividades não-agrícolas contribuem para a manutenção e ampliação das relações de sociabilidade no meio rural.