A história de Bom Jesus da Lapa está diretamente ligada ao Santuário e à Romaria, fator principal que desencadeia o desenvolvimento local. Segundo Lucas
Kocik ( 1987, p. 25), “o nome da Lapa procede da língua latina, mãe da portuguesa,
deriva-se da palavra ‘lápis’ que significa pedra”. É considerada como a “Meca dos sertanejos”, no livro Os Sertões, de Euclides da Cunha (1985, p. 375). Bom Jesus da Lapa é o mais celebrado dos santuários sertanejos de peregrinação popular, o que
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Segundo comentário de Frozoni (2012, p. 59-60), a respeito dos relatos de Steil sobre a romaria do Bom Jesus da Lapa, pequena porção dos romeiros diz estar “pagando uma promessa. A grande maioria relaciona a romaria a um voto para com o Bom Jesus. Ao que nos parece, para os romeiros a promessa seria um compromisso de curta duração. Ao contrário, assumir um voto para com o santo traz para o romeiro uma responsabilidade de longa duração, que se renova a cada ano, a cada romaria. É uma relação de amizade, confiança, gratuidade e carinho que dura para a vida inteira. Às vezes, este compromisso ultrapassa os limites da própria vida do romeiro: não é raro encontrar romeiros e peregrinos que “herdaram” os votos de seus pais, maridos ou esposas já falecidos, e se mantêm firmes no mesmo propósito assumidos por seus familiares”.
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transforma a cidade em um berço cultural baiano, também referendado como uma das sete maravilhas do Brasil.
FIGURA Nº 2: Mapa do Brasil/localização Bom Jesus da Lapa – Fonte: Google.mapa
Segundo dados do IBGE (2010), expressos através do mapa acima, a cidade de Bom Jesus da Lapa está localizada no Centro-Oeste do Estado da Bahia, a 796 km da capital, Salvador, em direção ao oeste, e a 625 km de Brasília, dentro do polígono da seca. A população local está em torno de 63.480 habitantes, muitos dos quais vivem ao pé do morro. A origem da romaria se confunde, em grande parte, com o surgimento da cidade, razão de o nome e o desenvolvimento até hoje estarem relacionados à organização e ao crescimento do culto.
FIGURA Nº 3: Santuário de Bom Jesus da Lapa – Fonte: Acervo do Santuário de Bom Jesus da Lapa
O Santuário de Bom Jesus da Lapa está situado no Médio Vale do São Francisco, onde a terra é arenosa, com uma vegetação baixa e rala, características
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da caatinga e do cerrado. O clima é tropical, quente e seco. No período da estiagem, entre abril e outubro, toda a paisagem se reveste de uma coloração cinza-claro, dando um aspecto de tristeza. A bacia hidrográfica da região, no entanto, é formada por muitos rios permanentes que correm em meio ao sertão, banhando cidades, vilas e povoados que se formaram às suas margens.
O vale do São Francisco teve uma grande importância econômica no século XVII, durante o ciclo do ouro, ocupando uma posição estratégica na ligação entre o litoral e o interior do país, quando grande número de pessoas das Províncias de beira-mar se transportava com seus escravos para Minas. Essa migração foi tão intensa que chegou a ameaçar o povoamento do litoral, levando as autoridades a proibirem as comunicações da Bahia para Minas e a considerar contrabando o movimento de gado. Mas as leis não foram respeitadas, porque na Bahia estava o alimento com boi e nas Minas Gerais a riqueza com ouro (STEIL, 1996).
O Santuário se traduz em termos econômicos para a cidade, que vive basicamente do fluxo anual de romeiros. A romaria não apenas colocou Bom Jesus da Lapa como uma das principais cidades religiosas do Brasil, como também constitui a base da sua economia (STEIL, 1996). A cidade vive em torno do santuário, que, de certa forma, é responsável pela sua diferenciação em relação aos demais municípios da região.
A cidade de Bom Jesus da Lapa começou sua existência à sombra do Santuário do Bom Jesus. Na data em que o Monge Francisco Mendonça Mar chegou àquele lugar, havia entre o morro e o rio São Francisco apenas algumas palhoças de índios Tapuias. Mas, com o tempo, foram agregando-se devotos que resolveram fazer sua moradia perto do lugar, onde se achava a imagem do Bom Jesus. O Monge construiu, junto ao Santuário, um hospital e um asilo para os pobres e doentes, dos quais cuidava. Assim começou a crescer, ao lado da lapa do Bom Jesus, um povoado, que assumiu o nome de Bom Jesus da Lapa.
Graças às constantes peregrinações que se transformaram em grandes e permanentes romarias de fiéis ao Santuário do Senhor Bom Jesus da Lapa, o povoado foi se desenvolvendo, transformando-se em vila em 1870, atingindo a categoria de cidade em 1923 e chegando a ser município em 1953. Ainda hoje a crença católica é muito forte na cidade e isso se reflete nas inúmeras igrejas espalhadas por todos os bairros. Por isso ela é considerada “Capital Baiana da Fé”.
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Bom Jesus da Lapa se destaca não só por ser centro turístico, comercial, ou mesmo industrial. Sendo um lugar não avantajado no sertão baiano e um tanto descuidado, é conhecido, entretanto, no Brasil inteiro, pela manifestação religiosa que ali acontece, sobretudo as romarias. Portanto, sua visibilidade nacional se deve ao Santuário que abriga sua milagrosa imagem agasalhada na gruta, que se tornou famosa graças às romarias que acontecem todos os anos, sendo visitada por milhares de romeiros oriundos de diversos estados do País, sobretudo Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo, além do próprio estado da Bahia. A gruta do Bom Jesus da Lapa é formada por rochas calcárias, que, em conjunto com as estalactites, compõem um visual único, natural, muito bonito de se ver, conforme demonstra a figura abaixo
FIGURA Nº 4: Parte interna da gruta do Bom Jesus da Lapa - Fonte: A autora
Falar do santuário e não citar a gruta próxima a ele, seria cometer um grande erro. A gruta se destaca por toda a riqueza mítica que esconde em seu interior. Trata-se de um lugar que impressiona quem o visita pelas pedras e estalactites multiformes que se precipitam desde o teto, deixando uma sensação de estar num lugar de refúgio, de paz, certamente, para muitos, de se estar realmente num lugar sagrado. A Gruta do Bom Jesus da Lapa está localizada numa caverna natural de acesso à esplanada e funciona como a matriz e catedral da cidade, onde são celebradas as missas e os sacramentos fora do período mais intenso da romaria. Formada pela infiltração das águas da chuva que durante milênios foram penetrando pela rocha porosa, formando as estalactites, essa gruta teria sido descoberta no
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século XVII por um vaqueiro ou pelo Monge Francisco de Mendonça Mar, de acordo com duas versões mais recorrentes sobre as origens do santuário. (STEIL, 1996).
No interior da gruta se encontra a imagem do Cristo crucificado, principal objeto do culto da romaria. Nos dias de romaria forma-se uma extensa fila de devotos que passam diante da imagem para rezar, deixando ali sua oferta em dinheiro ou apresentando, por escrito, ao santo, seus pedidos ou os de parentes e vizinhos que lhes confiaram tal missão, quando partiram em romaria. Mas, o seu momento apoteótico é a procissão, quando a imagem do Bom Jesus sai pelas ruas da cidade, acompanhada pela multidão.
Entranhada no morro, além da Gruta do Bom Jesus, existe a gruta de Nossa Senhora da Soledade, que com outras pequenas grutas formam um conjunto, constituindo-se locais de concentração em massa de romeiros e turistas que ali vão frequentemente, no período, ou não, de romarias. Ali, durante o período de romaria, são celebradas diversas missas todos os dias, em todos os turnos. É comum encontrar, logo à porta, do lado de fora, inúmeras barraquinhas, com diversos artigos religiosos, sobretudo terços, imagens, fitinhas, camisetas com estampas que evidenciam a piedade dos romeiros, com destaque para os DVDs que contam a história do Bom Jesus, tudo isso responsável por sustentar a economia informal de muitas pessoas que sobrevivem graças a esse tipo de comércio.
Outro evento turístico de significativa repercussão são as subidas ao morro da Lapa. Há dois caminhos e ambos dão acesso ao topo do morro, onde se encontra o cruzeiro e estátuas de tamanho natural relatando a última estação da Via Crúcis. Mas esse trajeto é aconselhável apenas a pessoas que tenham boas condições físicas, pois o caminho do morro é extenso e um pouco cansativo devido às pedras irregulares e lisas. A figura a seguir mostra os romeiros subindo o morro. Trata-se também de uma forma de pagar promessas. Nesse sentido, a subida ao morro é um dos elementos importantes da peregrinação, pois ir a Bom Jesus e não subir o morro, não tem nenhum significado para essas pessoas.
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FIGURA Nº 5: Subida ao morro do Bom Jesus da Lapa - Fonte: Acervo Santuário Bom Jesus da Lapa
O grande diferencial entre Bom Jesus da Lapa e as outras cidades da região certamente é esse morro11 em estilo gótico com suas grutas que lhe conferem um clima místico e ímpar. A cidade de Bom Jesus da Lapa abriga ainda outros pontos turísticos importantes, com destaque para a Praça Marechal Deodoro da Fonseca (praça da antiga Prefeitura Municipal) e o rio São Francisco, com o tradicional passeio de lancha, passando debaixo da ponte Gercino Coelho, pela Barrinha (lado oposto do rio), onde se pode descer e saborear um delicioso peixe frito. Ali é possível ter uma vista deslumbrante e panorâmica do Rio São Francisco, podendo- se também tomar banho às suas margens. A programação noturna da cidade é muito animada, principalmente no período de romaria, que vai de julho a setembro. Há muitos restaurantes, bares, lanchonetes, pizzarias, parque de diversão, barraquinhas que vendem diversos tipos de coisas e geralmente são realizados shows de pequeno porte, com artistas locais ou da região circunvizinha.
É importante ressaltar que o Santuário do Bom Jesus da Lapa desempenha um importante trabalho social para a sociedade lapense e região, desenvolvendo campanhas educativas e trabalhos sociais que ajudam centenas de pessoas carentes através do Asilo, do Centro Comunitário, da Escola da Fé, dentre outros. O dinheiro arrecadado, através da campanha dos romeiros, tem como objetivo cooperar com a realização dessas atividades, que envolve melhorias na
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O morro da Lapa é maciço calcário com uma estrutura singular e extraordinária. Segundo opinião baseada nas ciências naturais, o Rio São Francisco foi, há centenas de milhares de anos, um mar interior, cujas águas esculpiram as formas góticas, piramidais, que hoje todos admiramos (MICEK, 2006, p. 11).
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infraestutura do Santuário, visando a um melhor acolhimento do romeiro. Preocupado em resgatar a cultura local, o Santuário criou, em 2012, o Museu Memorial Pe. Lucas Kocik, que retrata a história do primeiro peregrino, Francisco de Mendonça Mar, e do Santuário do Bom Jesus da Lapa.
O fenômeno geográfico e cultural constituído pelas grutas que formam o conjunto arquitetônico do Santuário de Bom Jesus da Lapa, incrustadas no coração do morro, adquiriu dimensão sociológica e religiosa por relacionar-se àqueles que a ele se encaminham e nele projetam toda a sua mística, daí, Bom Jesus da Lapa possuir um significado todo especial para as mulheres romeiras entrevistadas, como é o caso da romeira do Estado de Minas Gerais, que assim exclama: “Ah! eu vejo a romaria como uma coisa perto de Deus, assim o povo gosta, nem sei como explicar, é maravilhoso demais!” (RMG2).
De acordo com Micek (2006), em 1991, o Santuário de Bom Jesus da Lapa celebrou o seu jubileu de 300 anos de romaria. Atualmente, graças às boas condições das estradas, a Romaria estende-se o ano inteiro, embora o maior movimento se concentre de julho a outubro. Nesse período, há um esquema especial de atendimento aos romeiros com diversas celebrações eucarísticas, palestras, confissões, dentre outros eventos. No tempo de maior afluência de romeiros, chegam a trabalhar vários sacerdotes, de diversas regiões do país, para atender à demanda dos fiéis. A seguir, as principais Romarias realizadas no Santuário de Bom Jesus da Lapa.