El ‑Rei Sebastião (1949) de José Régio (1901 ‑1969), marca diferenças na
própria dramaturgia do autor, já de si bem específica e singular. Mas marca também diferenças no conceito da sua concepção e conteúdo de expressão.
Em primeiro lugar, temos a expressão baletizada da própria batalha, numa marcação minuciosa que prenuncia a morte simbólica ou real de D. Sebastião – e neste caso, a peça até seria anti ‑sebastianista… – «Apertam ‑se os dois, El ‑Rei e a Aparição, num abraço tão estreito que, por segundos, formam um só vulto. Depois, El ‑Rei escorrega nos braços do outro ao longo do corpo, e molemente cai no chão, para trás». Régio, por vezes suspeito de verbalidade, reclama a existência de «outra modalidade de teatro em que a Palavra está longe de tudo dizer», no prefácio da edição da peça.
Retomamos uma análise sobre que noutro lado fizemos.124
El ‑Rei Sebastião procura nitidamente aproximar ‑se da linguagem ou de
situação simbolista, quanto mais não seja na insistência da validade do «verbo espectacular» que Régio, como vimos, atribui a Patrício: aliás, ao longo da sua doutrina de estética teatral – sobretudo o posfácio do Primeiro Volume de Teatro, o prefácio do Sebastião ou as «Vistas sobre o Teatro» – o autor insiste na dimensão espectacular das suas peças. Já em 1937, no referido Posfácio, Régio qualifica o teatro como «espectáculo complexo, criado por um artista e realizado por vários seus colaboradores», não obstante outra tendência ver no teatro, «principalmente […] um texto literário que não dispensa, porém, a sua realização num palco, perante um público».
E em El ‑Rei Sebastião esse «espectáculo» obviamente subsiste, envolto numa roupagem de mistério, profecia e morte, também caracterizadamente simbolistas: o «fogo de destino», marca o Rei desde o nascimento pois «ferido de morte é que tu nasceste»; «houve sinais extraordinários, enigmas do céu e
124 Cruz, Duarte Ivo – O Simbolismo no Teatro Português, Lisboa, ICALP, 1991, pags. 119 e segs.;
na terra, antes e à hora do meu nascimento». A única noiva que o Rei deseja é a morte, e o Rei é «um homem… marcado a fogo pelo Destino. A grifa começou a voar no meio das cobras, dos crocodilos, das borboletas, das raposas: das cobras que rastejavam; dos crocodilos que bocejavam; das borboletas que valilavam; das raposas que se punham à coca»…ou da águia que principiou a voar…
E a evocação do campo de batalha, numa simbiose espectacular que recorda, como processo cénico, a luta baletizada do rei e do Bobo no Jacob e o
Anjo, surge ‑nos impregnada de processos, recursos, sinais simbolistas:
«SIMÃO – Sonhei… sonhei que estava sonhando… Mas via tudo mais real do que supondo ‑me acordado! E via um imenso campo juncado de cadáveres e destroços.
A manhã é que não chegava a romper! (ao passo que Simão fala, parte do que ele descreve se vai realizando ao fundo: A cortina abre ‑se a meio, cada metade se afasta vagarosamente para seu lado; muito vagarosamente, como às vezes sucedem cousas assim nos sonhos. Para além da cortina, o cenário representa um campo de batalha, numa fosca manhã de néoa […]»
É a profecia do desastre e da morte «devagar» de Alcácer ‑Quibir, na boca do Sapateiro Santo:
«Por momentos, esse heróico ímpeto de uns poucos portugueses, que se não confun‑ diam com os estrangeiros comprados, quase levara de vencida a massa dos adver‑ sários. Já estes se espavoriam, fugindo de roldão perante aquela sanha de leões… Quem lançara o grito de «ter! ter!» E já, no instante seguinte, se cumpria o destino de perdição. Relampejar a espada do louco, vendendo cara a vida, – ainda viram, ainda viram relampejar a espada do louco! “Morrer… mas devagar!”»
(3º acto)
Precisamente: este teor profético, entranhado na essência da peça, sem ser caso único, como temos visto, na dramaturgia de matriz sebastianista, surge aqui reforçado pela própria visão ocultista do autor e pela articulação com o Bandarra (“Simão Gomes, o sapateiro Santo”). António Quadros, pondo embora limites ao sebastianismo de Régio, reconhece que «a linha sebástica
não poderia deixar de emergir na sua obra, como em diversos momentos do seu livro fado e em especial no seu poema Portugal de Todo o Mundo»125.
Estamos aqui no cerne da mística do profetismo e do Encoberto, a partir da ideia de «que Deus possa escolher um homem para realizar um dos seus desíg‑ nios Ilumina ‑lo por isso mais do que os outros? […] Vós me escolhestes […] Vós me aceitastes para vosso capitão desde pequenino» – essa ideia se concilia com o desígnio histórico político: «Senhor da Berbéria… coroado Imperador de Marrocos… Príncipe da Cristandade […] O Príncipe terá conquistado muito mais Portugal para Portugal!».
Ora bem: o contraponto desta visão mística surge no plano político, bem real e concreto, por exemplo nas cenas do Conselho, nos reparos de Cristó‑ vão de Távora ou na fala do primeiro Conselheiro: «Supõe Vossa Alteza, com o seus verdes anos, saber mais, ver melhor do que todos grandes senhores e homens avisados?» O rei acha que sim: «Não credes que Deus possa escolher um homem para realizar os seus desígnios?». (2º acto)
Há aqui uma grande coerência com muitos dos aspectos essenciais da dramaturgia de Régio: «Fazê ‑lo compreender, aceitar e viver [a redenção] é a missão do Bobo de Jacob e o Anjo, […] a mensagem incomunicada do Des‑ conhecido de O meu Caso, o novo Evangelho do profeta de A Salvação do
Mundo, o segredo do sapateiro Santo de El Rei Sebastião» escreveu António
Braz Teixeira.126 A este desígnio torna ‑se difícil contrapor as razões de Estado
enunciadas pela Rainha e pelos Conselheiros.
O desígnio da morte, justa ou injusta, cruel ou caritativa, desejada ou indesejada, mas sempre profética, é uma constante da obra de Régio. Diz bem Eugénio Lisboa:
«Uns morrem de jacto, como é o caso do Rei de Jacob e o Anjo, ou o Poeta de O Poeta Doido, o Vitral e a Santa Morta, ou ainda o personagem Mário [de Sá Carneiro] da peça em um acto com o mesmo nome; outros, sabe ‑se que irão morrer – é o caso de Benilde, a Virgem ‑Mãe, ou o do Rei Desejado do poema espectacular El ‑Rei Sebastião; outros ainda morreram simbolicamente, ou atra‑ vés de um suicídio frustrado, ou por terem mergulhado na loucura – como é o caso, respectivamente, do Rei Pedro de Traslândia e da Rainha Maluca da
125 Quadros, António – Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista, vol. I, Lisboa, Guimarães Edito‑
res, 1982, pags. 170 e segs.
126 Teixeira, António Braz, Sobre o Teatro Religioso de José Régio, Lisboa, Espiral, 1965 e o Prefá‑
tragicomédia A Salvação do Mundo. E até o Pierrot ‑Poeta da fantasia dramática
As Três Máscaras se pode muito bem supor que saia da sua semi ‑bufonaria,
ao abandonar o baile de máscaras, para se atirar do telhado para os braços da Lua».127
Nas Páginas do Diário Intimo José Régio deixou ‑nos uma trajectória muito interessante da criação de El ‑Rei Sebastião, que, em 2 de maio de 1948, um ano antes da publicação, se chamava Sebastião, Rei.128