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Evolution des paramètres électriques de la décharge : courant de dé-

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3.2 L'étude du PPI-Mag avec une conguration magnétique B élargi

3.2.1 Evolution des paramètres électriques de la décharge : courant de dé-

Perseguindo um delineamento objetivo para a História do futuro, Vieira resume assim o percurso da obra:

Divide-se a História do futuro em sete partes ou livros. No primeiro se mostra que há de haver no mundo um novo império; no segundo, que império há de ser; no terceiro, suas grandezas e felicidades; no quarto, os meios por que se há de introduzir; no quinto, em que terra; no sexto, em que tempo; no sétimo, em que pessoa. Estas sete coisas são as que há de examinar, resolver e provar esta história nova, que oferecemos, do Quinto Império do mundo (VIEIRA, [1649], 2015, p. 72 – 73).

O número sete, cabalístico, é uma espécie de álgebra que remete ao dia do Senhor, dia de seu descanso, e glória. Antonio Vieira inicia assim a especulação discorrida no sentido do que entende por “mundo”. Evoca José, filho de Jacó, governador do Egito, após ser vendido como escravo pelos irmãos, por conta do sentimento da inveja. Nominado “Salvador do mundo” na língua egípcia, e com ideias progressistas de contenção das pragas, implantação de técnicas agrícolas e distribuição de renda e alimentos, José faz o Egito alcançar sete anos de

abundância, após sete anos de escassez, além de suprir a necessidade de povos circunvizinhos, inclusive dos filhos de Canaã. Com outro exemplo, o Édito de César – “Aliste-se o mundo” –, Vieira delimitaria que “pelo Oriente se fechava com o rio Tigre, pelo Ocidente com o mar de Cádis, pelo Meio-Dia com o Nilo, e pelo Setentrião com o Danúbio e o Reno” (VIEIRA, [1649], 2015, p. 75).

O vocábulo “mundo”, no sentido em que o emprega Vieira, alcança ora limitação significativa, ora estende-se e amplifica-se. E aos que tentarem tolher a interpretação concernente ao termo, subestimando-a e reduzindo-a a meras figuras, ou à verbosidade retórica, previne-se o jesuíta ao considerar que

O título desta História não fala de hipérboles nem sinédoques, não chama a um pigmeu ‘gigante’ nem a um braço ‘homem’. O mundo de que falo é o mundo, aquele mundo e naquele sentido em que disse São João: Mundus per ipsum factus est, et mundus eum non

cognovit83: O mundo que Deus criou, o mundo que O não conheceu,

e o mundo que O há de conhecer. Quando O não conheceu, negou- lhe o domínio; quando O conhecer, dar-lhe-á a posse (VIEIRA, [1649], 2015, p. 75).

São notórios a apócope e o acréscimo de significantes à construção textual em latim, que, em seguida, Vieira traduz em expressão superlativa. A palavra mundo implica o desconhecido. Haverá uma fronteira, um povo, uma comunidade que não tenha conhecimento de seu criador? Vieira parece julgar o mundo proposto pelo próprio discurso do futuro, à medida que confunde, em algum momento, o clítico ao substantivo, supondo ser o mundo português o mundo da História do futuro. Logo, após referir-se à Europa e aos três “A”, faz emergir um quarto “A”, de Austral, a “terra incógnita”, o espaço da esperança, o lugar do mistério, o mundo agostiniano, ou seja, da imutabilidade, haja vista que “foi o mundo do passado, este é o mundo presente e este será o futuro; e destes três mundos unidos se formará (que assim o formou Deus) um mundo inteiro” (VIEIRA, [1649], 2015, p. 76), não obstante tente afastar, por sua vez, de sua História a mera eloquência, a fim de estimular o discurso da esperança, da legitimidade e credibilidade científica e teórica. Reforça, então, o cisne barroco a teleologia agostiniana de concepção de mundo e tempo, quiçá de mistura entre os conceitos. Vejamos:

Por isso, como as Sagradas Letras, que gozam de máxima veracidade, dizem que no princípio fez Deus o céu e a terra, dando a entender que antes nada fez, pois, se houvesse feito, o mundo não foi feito no tempo, mas com o tempo84. O que se faz no tempo faz-se

depois de algum tempo e antes de algum, depois do passado e antes do futuro. Mas não podia haver passado algum, porque não existia criatura alguma, cujos mutáveis movimentos o fizessem. O mundo foi feito com o tempo, se em sua criação foi feito o movimento mutável (SANTO AGOSTINHO, 2005, p. 25, v. 2).

Mundo e tempo, em síntese, representam a história que se desembrulha num contínuo, numa única tessitura. A história em Santo Agostinho distingue-se do cíclico pensamento dos gregos, por exibir um começo, através da criação, e um fim, no que se refere ao tempo de julgamento dos indivíduos. Validam-se, assim, dois pontos cruciais para a perspectiva agostiniana, relativos à história: a encarnação e a ressurreição. A encarnação é consequência do pecado original, e, portanto, foi necessária por causa da queda do homem, ou a encarnação acontece por conta da entrada do pecado no mundo. De outra sorte, manifesta-se a ressurreição, inaugurada por Cristo em habitat distinto, novo, inusitado, fundando a Nova Jerusalém celestial, ou seja, o império espiritual do Cristo.

Pressupõe-se assim uma sensível influência em Vieira das concepções do teólogo Agostinho. Não obstante, quando o jesuíta projeta um fim histórico, sua teleologia, no dito mundo, naquela terra absconditas, encoberta, sígnica, comandada por um homem, D. João IV, destoa do filósofo medieval, o qual acredita que a cidade terrena vive segundo os conceitos e ações dos indivíduos – amantes de si mesmos. Logo, cumprirá ao morador da cidade terrena o domínio e, consequentemente, a danação. Ao peregrino, em contrapartida, é oferecido o solo celestial, porque é o amor a Deus que se toma como primazia. As duas cidades mantêm uma estreita relação no céu. Encerra-se a cidade terrena e dela nasce um novo espaço, onde a Deus se reservarão a glória, a honra e o louvor. Em contrapartida, para Vieira, os louros humanos serão destinados à nação portuguesa.

À sombra bíblica se segue a figuração dos filhos de cada uma das cidades, os da carne ou da desonra, e os filhos da divina promessa. Àqueles sucedeu o dilúvio. Deus mandou Noé construir uma arca, “figura da Cidade de Deus peregrina

84 Aqui pode ser parte de uma reflexão a posteriori a respeito do problema e da possibilidade de

“eternidade do mundo” afirmada pelos pagãos Platão e Aristóteles. Somente como contextualização, para Tomás de Aquino é possível que Deus tenha criado o mundo e ainda assim o mundo ser eterno. Para Vieira, a noção de creatio do universo é um dado revelado, pois racionalmente é impossível à razão concluir algo por sua luz natural.

neste mundo, quer dizer, da Igreja, que se salva pelo lenho de que pendeu o Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus” (SANTO AGOSTINHO, 2005, p. 212, v. 2), com o fim de salvar Noé e sua família, porque eram justos, ou, como assegura Santo Agostinho, ao referir-se a Noé, “perfeito em sua geração”. Sacramentando com o dilúvio um meio de punição divina para castigar a maldade do homem que se multiplicara na terra, salienta-se nas Escrituras o estatuto da imaginação profética85, provedora da futura cidade Santa reservada aos habitantes considerados justos.

No desejo de tornar santa a nação portuguesa, Vieira, com estudada perícia argumentativa, empenha-se em dissociar o conteúdo (que defende) da falácia, ou astúcia da enunciação, da retórica, do mero discurso, prevenindo-se, também, de futuras acusações. Afinal,

Os discursos da esperança (que é a última apelação de Castela) são os que mais lhe mentiram, porque os homens (quando assim lho concedamos) discorrem com a razão, e Deus obra sobre ela. Todos os que na matéria de Portugal se governaram pelo discurso erraram e se perderam (VIEIRA, [1649], 2015, p. 107).

De todo modo, a esperança se deve basear na fé, conclui Vieira. Arguto, o jesuíta se apodera da tática da aparência, do “cortinamento”, para afastar a relação direta existente entre a ideologia e a hermenêutica. Ou seja, sustentando a possibilidade de distanciamento do seu produto final, a História do futuro, no intuito de que sua narrativa equivalha, enquanto prova substancial, à incontestável ciência histórica e teológica, conforme a resistência que faria no Tribunal a partir de 1661 e com a carta – Esperanças de Portugal, enviada ao bispo do Japão –, embora se saiba da existência de trivialidades esboçadas em papéis e um plano arquitetado apenas na mente prodigiosa. O que se percebe, então, é o enraizado raciocínio espiralar, labiríntico, metamorfoseado em afirmativas do não dizer. Noutro momento,

digo, no discurso da História do futuro as vitórias, os triunfos, as conquistas, os reinos, as coroas, e o domínio e sujeição de nações

85 Os livros, depois do Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia), constroem uma linha temporal

e histórica sobre a realeza celestial. A constituição de um novo sacerdócio por Samuel e juízes fiéis à causa de Deus, Caleb e Josué, bem como reis, como Davi, Neemias e os profetas Isaías, Ezequiel, Daniel, Jeremias e João Batista, culmina por referendar não só a chegada de um Salvador da Humanidade e intermediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus homem, mas a anunciação de uma terra prometida por Deus aos pais do antepassado, terra de Canaã, Jerusalém terrestre e, com o Cristo, a Nova Jerusalém ou Cidade de Deus.

tantas e as dilatadas, que lhes estão prometidas, na fé e confiança das mesmas promessas se atreverão animosamente a empreendê- las; sendo certo que, medidas só as forças da potência humana, sem ter por fiador a palavra divina, nenhuma razão haveria no mundo que se atrevesse a aconselhar, nem ainda temeridade que se arrojasse a empreender a desigualdade de tamanhas guerras e a desproporção de tão imensas conquistas. Mas as promessas e disposições divinas, antecedentemente conhecidas na previsão do futuro, tudo facilitam e tudo animam (VIEIRA, [1649], 2015, p. 92).

Talvez cultivando, no desenrolar do livro, a potencialidade bilateral da coisa – isto é, “A coisa que pode ser (é possível de ser) pode, contudo, não ser” (ARISTÓTELES, 2005, p. 105) –, Vieira diligencia-se em conter a ambiguidade exatamente para outorgar potência à argumentação, purificando as duas supostas inserções da dúvida nos moldes cartesianos, e convertendo em prova irrefutável, com brilho escolástico, suas teses bem fundamentadas. Leitor astuto, conhecedor das técnicas da boa condução propositiva desde Homero, o jesuíta balancearia seus argumentos entre fortes e fracos.

Apesar do arrimo da ciência, Vieira não parece oscilar, nem poderia, pois, afinal, sua tarefa teologal e até sua vida estariam em risco. Como se sentia injustiçado, vítima de conspirações, indignava-se com seus coetâneos, pois “paga- se as interpretações felicíssimas com calúnia e injúria” (VIEIRA, [1649], 2015, p. 446), de sorte que minimiza as fracas proposições no que se refere às histórias passadas, e as do presente, em detrimento das não reveladas. Estas últimas estariam próximo de desvelar-se, talvez não naquele momento, haja vista sua maior proposta recair sobre a esperança e a fé, melhores respostas aos anseios da alma portuguesa.

Vieira não escreveu um tratado teológico na História do futuro. Sua teologia encontrava-se disseminada tacitamente, se bem que esparsa, revelando-se como pano de fundo, fundamental para o embate travado no Tribunal do Santo Ofício. Em homilia própria, resgatando a máxima de que tudo vem de Deus, quando expõe a “Primeira Utilidade” da história que alguns desdenham. Encontra justificativa maior e primordial para a História, vista esta como um motor, ex machina a movimentar e induzir o leitor não atento a pensar em um conjunto linear, embora aparentemente confuso e cheio de miscelâneas, que envolve concepções de mundo, história, tempo, presente, passado e futuro, e das próprias interpretações naquele período. Todas as coisas compõem partes de um todo e, contingencialmente,

desencadearão, no propósito da Divina Providência, da Sabedoria Eterna, a predestinação, atrelada ao livre arbítrio.

É difícil conceber essa união, evocada por Pécora em seu Teatro do

sacramento (1994), pois nos parece provir de teses antagônicas. O livre arbítrio

tende ao processo de livre escolha do indivíduo frente à vida, aos fatos da inserção histórica e da responsabilidade moral, ou seja, a criatura humana possui a liberdade de escolha independente da vontade divina. Por outro lado, a predestinação consiste na prévia escolha divina para a salvação de uns, pela graça, e a condenação de outros pelos motivos opostos – o que implica nítido determinismo teleológico.

Segue-se apenas um caminho determinado, líquido e certo, outrora estabelecido por Deus, incompreensível à mente humana, “porque, quando chega o tempo determinado e predefinido por Deus, para que seus segredos se descubram e conheçam no Mundo só então, e de nenhum modo antes, se podem manifestar e entender” (VIEIRA, [1649], 2015, p. 147) conceitos a que se prende Vieira. Certo será, então, a finalidade primeira: a glória portuguesa, já pré-anunciada divinamente e por homens doutos, respeitados ou humildes, e também pelas Escrituras, quando Portugal se faz herdeiro por intermédio do descendente de Jafé, Tubal, que povoou a Espanha. A hora de acontecer se fez, por conseguinte, determinada por Deus, resultando em quebra de modelos, mitos, ditados, do senso comum – “quem passar o Cabo de Não, ou tornará ou não”86 (VIEIRA, [1649], 2015, p. 147) –, disposto nos anais da navegação portuguesa, que transpunha o Cabo das Tormentas, “por mares nunca dantes navegados”, vez que

falemos e ouçamos como católico. O que Deus faz, só Deus o pode desfazer; o que Ele levanta, só Ele o pode derrubar. Bem sabe Castela (sinal é que o sabe bem, pois chega a o confessar, e no mesmo ano em que Portugal se havia de levantar, o estamparam assim seus escritos), bem sabe Castela (digo) que Portugal com singularidade única entre todos os reinos do Mundo foi reino dado, feito e levantado por Deus [...] (VIEIRA, [1649], 2015, p. 128).

Assim é que Deus, fiel provedor de Portugal, cumprirá os intentos projetados e enunciados, consoante Vieira, que destina a ciência de que todo aquele que procede de Deus será digno de conseguir sucessos, glórias, riquezas, triunfos,

86 Provérbio entre os navegantes, conforme João de Barros. (apud VIEIRA, Antonio. História do

terras, e repasse à responsabilidade pela fé de angariar os frutos da promessa, o que significa dizer que Deus subsiste em si mesmo e guarda Onipotência, fazendo-o pelo princípio do ordenamento, destinando aos descobridores dos sete mares um reino distinto dos demais, os que já existiram e, presentemente, não mais persistem. Logo, aos olhos do pregador, seria algo previsível tal evento, uma vez que Bandarra pressentira, as circunstâncias ratificariam e os escritos vieirianos se justificariam. Conclui-se daí que toda a análise de Vieira será mesclada de prognósticos, e preditos, e, consequentemente, reconhecidos por Deus.

Assim é que recorre ao testemunho de Palafox87, que se funda no registro de três circunstâncias acerca da assunção de D. João, o Quarto, ao reino de Portugal, sob nome e análise do israelita rei Saul:

As mesmas intervieram e sucederam na eleição e unção de Saul. Primeira, haver profecias de ser Saul o destinado de Deus ao Império; segunda, que a profecia não seja só uma, senão algumas; terceira, que essas profecias sucedam depois, assim como estavam preditas e profetizadas (VIEIRA, [1649], 2015, p. 122).

Reiteradamente Vieira condiciona sua proposta de História do futuro como “escudo da presciência”, e contributo da vigência da profecia. Infere, além disso, outra noção da escatologia cristã, afirmando-a também antropológica. In principium, “na confiança das mesmas profecias, porque uma boa parte da nossa História (como veremos em seu lugar) são as do mesmo Apocalipse” (VIEIRA, [1649], 2015, p. 177), equiparando-se acintosamente às palavras de João, o evangelista, e logo canonizando as próprias assertivas, e a si mesmo enquanto membro da ordem da Santa Sé, jesuíta, missionário, defensor dos índios e audacioso e incontinente vociferador dos sacramentos e da liturgia católica, confirmando o quanto se suspeitava de suas ações.

Decorre, daí que parte das obras de Vieira se assenta no livro do Apocalipse, contingenciado por vaticínios. Mas em que consiste a outra parte, senão da história? E mais, dado que uma parcela esteja no livro das últimas coisas, terá sido Vieira quem a designaria? Entendendo-se que o Apocalipse narra os últimos instantes da Igreja e do mundo no derradeiro livro bíblico, seria História do futuro uma ramificação e, consequentemente, continuidade ou complemento àquele? Por

87 Don Juan de Palafox y Mendoça, Bispo de la Puebla de los Angeles, del Consejo Supremo de

fim, se o último livro das Escrituras contém porção da História do futuro, supõe-se ser este resultado daquele. Talvez seja essa a conclusão do próprio Vieira, que considera:

Daqui inferimos sem injúria nem agravo de quantas histórias até hoje estão escritas no Mundo, que esta História do futuro é mais certa e mais verdadeira que todas elas (exceto somente as Histórias Sagradas); e ainda esta exceção se não deve entender em todo senão em parte; porque grande parte da História do futuro igualará na verdade e na certeza, ou, por melhor dizer, se não distinguirá delas, por ir toda (como vai) não só fundada nos mesmos textos e sentenças da Escritura Divina, mas formada e como tecida deles (VIEIRA, [1649], 2015, p. 142).

Em verdade, o trecho acima assinala mais uma artimanha de um Vieira exposto em cena, praticando entrecruzamentos entre o todo e a parte, a parte e o todo. Vem à tona uma leitura configurada pelo discurso entrecortado, fracionado, de raciocínios agudos ou breves, encaixados para suprir momentaneamente uma necessidade humana, do ouvinte, bem como possibilitar a compreensão do indivíduo, que representa o todo humano mimetizando paixão, emoção, sentimento, razão, religião, cultura e carência. Pela exuberância espiritual e parcimônia científica, o jesuíta percorre a condição humana incidindo em mistério, apelo ao futuro, o lugar escuro iluminado pela luz dos presságios e despontando pelo sol, segundo prognostica Gracián:

Servir-se da ausência ou para aumentar o respeito ou a estima. Se a presença diminui a fama, a ausência há de aumentá-la; quem, ausente, foi tido por leão, presente, foi ridículo parto da montanha. Tocadas, as prendas perdem o brilho, pois se verá antes a rusticidade do exterior do que a grande substância espiritual (GRACIÁN, 1979, p. 183).

Aliás, Vieira intensifica, por meio de arguta enunciação, a técnica da reinvenção da história e do experimento exegético. Por caminhos tortuosos, revistos com a edição mais recente, 2015, de seu livro da História do futuro, organizada por José Eduardo Franco e Pedro Calafate, admite-se um encadeamento, tosco a bem da verdade, mas corroborando a tese não só da incessante aplicação dos textos das Escrituras, bem como do intrincamento de uma genealogia teológica da história de Portugal. Dado o exposto, a falta da verdadeira e exata cronologia, na nova edição da

truncamento linguístico, o que suspeitamos tenha sido redigida por algum amanuense de Vieira. A bem da verdade, o esqueleto textual do livro lembra momentaneamente o traçado de Israel (1650), referindo-se à história dos indígenas derivada das tribos de Israel. Talvez Vieira se identificasse com a premissa de que a imaginação precede a realização. Donde o acúmulo de profecias na História do

futuro.

Pontua-se, por outro viés, que o caráter profético vieiriano contenha elementos exibidos com o fim de despertar os sentimentos de um povo, mover a tradição e agir socialmente. A profecia geralmente emerge em momentos em que a cidade está dispersa, em desespero, sob opressão inimiga, e o visionarismo torna possível o sonho, a imaginação, a expectativa de dias melhores, no caso entoando novos cânticos de louvor ao rei ou a Deus por conta de novos vislumbres de futuro. Por esse ângulo, o povo de Israel manteve-se firme no propósito de chegar à terra de seu descanso, Canaã. Do cansaço de exílios, das desesperanças, aponta-se para um Deus capaz de redimensionar a trajetória de falência de um povo, restituindo-lhe seu esplendor, modificando as situações política e cultural antes vexatórias e doravante reservadas à dignidade e à honra. Face à crise, por conseguinte, o profeta tem recuperados seus lugar e papel na retomada de uma possível alegria e renovação da esperança do povo, tal como o fizera Isaías:

Ouvi-me, vós da casa de Jacó Tudo que resta da casa de Israel

Vós a quem carreguei desde o seio materno, A quem levei desde o berço

Até a vossa velhice continuo o mesmo, Até vos cobrirdes de cãs continuo A carregar-vos

Eu vos criei e eu vos conduzirei

Eu vos carregarei e vos salvarei (Isaías, 46, 3 – 4).

Da mesma maneira que Isaías, Vieira ressalta o categórico valor da profecia

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