2. DEUXIEME PARTIE / ETUDE
2.2 Matériel et Méthode
2.3.4 EVOLUTION
Considerando o fato de que o foco desta pesquisa incide sobre a atividade docente do professor de inglês da escola pública, encontramos respaldo num arcabouço teórico multidisciplinar que, para nós, se mostrou compatível com o contexto, as variáveis e os objetivos do estudo realizado, a Teoria da Atividade, que, com seus princípios, nos permitirá uma análise criteriosa do significado social e sentido pessoal atribuídos à prática docente.
Conforme elucidado anteriormente, essa teoria surgiu no campo da psicologia, com os trabalhos de Vigotski, Leontiev e Luria, num esforço pela construção de uma psicologia sócio-histórico-cultural fundamentada na filosofia marxista e constitui uma abordagem teórico-metodológica multidisciplinar para pesquisas na área da educação, antropologia, sociologia do trabalho, lingüística e filosofia (DUARTE, 2002). Assim, entendemos que o tipo de conhecimento teórico com o qual precisamos nos envolver para tentarmos teoricamente compreender a questão da presente pesquisa perpassa outras áreas do conhecimento, gerando o que se entende por transdisciplinaridade.
Como faremos uso de conhecimentos advindos de outra área, no caso a Psicologia, e também abordaremos questões de cunho sociológico, político e educacional, consideramos relevante tecer algumas reflexões sobre a transdisciplinaridade da Lingüística Aplicada (LA).
Para iniciarmos nossa reflexão, faz-se necessário, primeiramente, identificarmos o lugar que a LA ocupa atualmente em relação às outras disciplinas com as quais ela se relaciona. Celani (apud PAIVA, 2008, p.6) apresenta uma explicação bastante interessante sobre isso:
Em uma representação gráfica da relação da LA com outras disciplinas com as quais ela se relaciona, a LA não apareceria na ponta de uma seta partindo da lingüística. Estaria provavelmente no centro gráfico, com setas bidirecionais dela partindo para um número aberto de disciplinas
relacionadas com a linguagem, dentre as quais estaria a Lingüística, em pé de igualdade conforme a situação, com a Psicologia, a Antropologia, a Sociologia, a Pedagogia ou a tradução.
Em seu livro intitulado Por uma Lingüística Aplicada INdisciplinar, Moita Lopes (2008a) reúne artigos de pesquisadores que têm procurado ir além da discussão já
envelhecida, sobre a diferença entre a Lingüística e a Lingüística Aplicada, com o propósito
de construir novos direcionamentos e paradigmas para teorizar e fazer LA. Tais pesquisadores, incluindo Moita Lopes, compartilham a necessidade de atentarmos
para teorias extremamente relevantes nas ciências sociais e nas humanidades que precisam ser incorporadas à LA. Tais teorizações, [...] se prendem principalmente a compreensões referentes à natureza do sujeito social, advindas de uma problematização dos ideais modernistas que têm implicações de natureza epistemológica.
[...]
A necessidade de repensar outros modos de teorizar e fazer LA surge do fato de que uma área de pesquisa aplicada, na qual a investigação é fundamentalmente centrada no contexto aplicado onde as pessoas vivem e agem, deve considerar a compreensão de mudanças relacionadas à vida sociocultural, política e histórica que elas experienciam. (MOITA LOPES, 2008c, p.15-21)
Ainda segundo o autor, a transdisciplinaridade no campo de pesquisa em LA nos fornece alternativas que refletem visões de mundo, ideologias e valores de seus proponentes. Desse modo, abordar questões sociopolíticas e pensar alternativas para a vida social são parte intrínseca dos novos modos de teorizar e fazer LA.
Rajagopalan (1997, p.4) defende a idéia da “indisciplinaridade” da LA quando declara não mais reconhecer a necessidade de manter com tanto zelo e ciúme as fronteiras entre as
disciplinas. Segundo o autor,
Já se falou muito na inter- e transdisciplinaridade. Penso que o termo mais apropriado – ao menos no que diz respeito à minha condição atual enquanto pesquisador – deva ser o neologismo “indisciplinaridade”. Indisciplinaridade não significa necessariamente descrença total nas abordagens teóricas que aí estão. Muito menos ainda significa desejo de “bagunçar o coreto” da sinfonia acadêmica, formada pelas diversas disciplinas. Significa, no meu modo de entender, uma certa vontade de trabalhar novas questões ou, por que não, velhas questões sob novas perspectivas. Significa, isto sim, abordar tanto os problemas tradicionais como as soluções consagradas propostas a
cada um deles com um pouco mais daquilo que se pode chamar de “espírito de problematização”, um pouco mais do espírito tão saudável de ceticismo (desde que, é claro, utilizado com prudência) – enfim, temperar tudo o que é oferecido a nós como pontos pacíficos do campo do saber “with a grain of salt”, como dizem os ingleses. (RAJAGOPALAN, 1997, p.4-5)
Da mesma maneira, Pennycook (2008) defende que a LA pode ser informada por outras disciplinas tais como lingüística, psicologia e educação. O autor nos diz que
o trabalho multidisciplinar deve ser entendido não como se estivéssemos sentados à mesa da LA com um menu fixo e escolhendo o que comer (devemos começar com uma tigela de lingüística e, a seguir, tentar psicologia como prato principal?), mas, ao contrário, como se estivéssemos naquele momento em um restaurante quando se está examinando o menu e um prato quente e aromático voa em nossa frente nas mãos de um garçom e me pergunto: o que estão comendo? Interdisciplinaridade tem a ver com movimento, fluidez e mudança. (PENNYCOOK, 2008, p.73)
Desse modo, Pennycook (2008) utiliza-se do termo LA transgressiva para se referir à tendência da LA em ir além do conceito de uma disciplina fixa, para se tornar uma disciplina que gera teoria por si mesma, ou seja, a tendência da LA em atravessar, transgredir fronteiras disciplinares com o intuito de desenvolver uma nova agenda de pesquisa. A noção de transgressão também envolve a necessidade de incluir instrumentos políticos e
epistemológicos que permitam transgredir os limites do pensamento e da política tradicionais. (PENNYCOOK, 2008, p.74). Assim, transgredir estaria relacionado ao mover-se para além das fronteiras, ao desejo de conhecer para além do que está imediatamente perceptível. (PENNYCOOK, 2008, p.75). Portanto, a LA transgressiva está sempre engajada
em práticas problematizadoras.
Moita Lopes (2008b) enfatiza a importância de, como lingüistas aplicados, reinventarmos a vida social, o que inclui reinventarmos formas de produzir conhecimento,
uma vez que a pesquisa é um modo de construir a vida social ao tentar entendê-la (p.85). O
autor propõe uma agenda para uma LA contemporânea, híbrida/mestiça, que atravesse outros campos das ciências sociais e das humanidades, e que tenha como prioridade renarrar a vida social:
O projeto que vejo como parte de uma agenda ética de investigação para a LA envolve crucialmente um processo de renarração ou redescrição da vida
social como se apresenta, o que está diretamente relacionado à necessidade de compreendê-la. Isso é essencial para que o lingüista aplicado possa situar seu trabalho no mundo, em vez de ser tragado por ele ao produzir conhecimento que não responda às questões contemporâneas em um mundo que não entende ou que vê como separado de si como pesquisador: a separação entre teoria e prática é o nó da questão. (MOITA LOPES, 2008b, p.90)
Assim, Moita Lopes (2008b) defende a produção do conhecimento que considere o modo como as pessoas vivem suas vidas cotidianas, seus sofrimentos, seus projetos políticos e desejos, enfim, um conhecimento que supere a divisão entre teoria e prática/aplicação. Como o autor, entendemos que o campo da LA está localizado nas ciências sociais, e que, portanto, seja imprescindível que a LA se aproxime de áreas que focalizam o social, o político e a história, formulando conhecimento que seja relevante à vida social, levando em conta as vozes dos que a vivem. Tal conhecimento é contrário à produção do conhecimento que coloca o sujeito em um vácuo social, no qual sua sócio-história é apagada.
Na mesma linha de pensamento, Rojo (2008) discorre sobre o caráter interdisciplinar da LA, em especial em sua vertente sociocultural ou sócio-histórica, a qual procura enfrentar
e modificar a precariedade da existência em sociedade ou a privação sofrida por sujeitos, comunidades, instituições (ROJO, 2008, p.254). Segundo a autora, tal enfoque da LA,
fundamentado na psicologia social de Vigotski e de seus seguidores, volta-se para as políticas lingüísticas e o ensino de línguas, e busca seus instrumentos na reflexão. No lugar do sujeito atemporal e a-histórico, passa-se a focar o sujeito psicológico historicizado, o sujeito sócio- histórico.
Rojo (2008, p.254) argumenta que o tipo de conhecimento buscado pela LA transdisciplinar é o conhecimento que abrange entender, explicar ou solucionar problemas contextualizados e socialmente relevantes, bem como aprimorar soluções existentes. Não se busca mais “aplicar” uma teoria a um dado contexto a fim de testá-la; busca-se a solução de
problemas com relevância social suficiente para exigirem respostas teóricas que tragam ganhos a práticas sociais e a seus participantes, no sentido de uma melhor qualidade de vida [...] (p.258).
Ressaltamos, portanto, o caráter transdisciplinar que nossa pesquisa possui, por buscarmos respaldo teórico na área da psicologia para abordarmos questões que visam problematizar os valores e atitudes que orientam e fundamentam o ensino da língua inglesa no
contexto da escola pública, bem como inferir o sentido pessoal que o professor de inglês atribui à sua prática, levando em consideração todas as variáveis envolvidas no cotidiano de seu trabalho. Assim, pretendemos produzir conhecimento que seja socialmente relevante, com vistas a uma compreensão mais abrangente e crítica da complexidade relacionada ao processo de ensino-aprendizagem de inglês na escola pública.