• Aucun résultat trouvé

Evolution de la méthode Lyee

CHAPITRE 6 : APPLICATION A LA METHODE LYEE

5. Evolution de la méthode Lyee

Vimos que Gadamer nega a relação sujeito:objeto pressuposta na Filosofia da consciência, o que significa que o sujeito não apreende e nem dispõe do objeto, pois a abertura do objeto só se realiza no Dasein. Por essa perspectiva, o ser:em:si somente é “em:si” para nós. Por isso, todo conhecer exige antes um autoconhecimento.

Toda consciência que busca compreender já se encontra, portanto, sob os efeitos de dados históricos prévios que lhe condicionam. Ela não é um algo apartado do mundo em que está inserido, porquanto, como vimos acima, toda presença tem a estrutura de ser:no:mundo, ou seja, um estar desde sempre relacionado com o mundo. Aquele que quer compreender deve, então, se perguntar pela forma como essa história atua sobre sua consciência. Gadamer admite, entretanto, que tal tomada de consciência não chega jamais a ser plena, pois, se todo compreender está fundado em preconceitos, não se podem elevar tais preconceitos ao nível da autoconsciência. Isso não impede, porém, que tais

125GADAMER, Hans:Georg. Verdade e Método. Tradução de Flávio Paulo Meurer. 10. ed.

Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p. 389.

preconceitos sejam postos em suspensão, em ordem a serem surpreendidos e até mesmo questionados.

A realização da própria compreensão implica na consciência de que o entendimento está condicionado pela história que lhe precede. E o primeiro passo para a realização da consciência histórica efetiva é a conscientização da situação hermenêutica. Gadamer emprega a expressão situação exatamente para expressar que ela não está posta diante de nós; eis que necessariamente estamos inseridos nela. O conceito de situação está, assim, relacionado ao conceito de horizonte, que pode ser definido como o âmbito de visão, que abarca e encerra tudo o que pode ser visto de um determinado ponto.127

Aquele que se puser a compreender a tradição que o condiciona deve procurar obter os horizontes históricos a partir do qual nos fala a tradição. Isso não significa, contudo, um ato de abstração pelo qual nos transportarmos até o passado para lá conhecer um mundo estranho ao nosso. Já se demonstrou que toda interpretação é um modo de ser da presença. O conceito de horizonte trazido por Gadamer permite exatamente a ideia de uma visão superior e mais ampla necessária àquele que intenta compreender; uma visão que se eleve a um universo acima da particularidade e da alteridade.

É preciso que se tenha em mente, entretanto, que o horizonte do passado está em constante contato com o horizonte do presente. Não podemos assimilar o passado precipitadamente, como meio de satisfazer às nossas expectativas de sentido, como também não podemos tomar o horizonte do presente como um acervo fixo de opiniões e valores. O horizonte presente está sempre em formação, na medida em que nos obriga a pôr à prova nossos

preconceitos. E isso se faz pelo encontro necessário com o passado. Conhecemos necessariamente desde a nossa situação hermenêutica, mas também reconhecemos a alteridade do passado. Os horizontes estão compreendidos no ato mesmo de compreensão, pois não subsistem por si. A compreensão decorre, assim, do que Gadamer chamou de fusão de horizontes.128 À primeira vista, a ideia de fusão pode parecer paradoxal, já que não se poderia falar em fusão de coisas que não estão separadas. Gadamer, contudo,

supera tal questão demonstrando que essa concepção expõe e enfatiza a necessária tensão entre texto e presente, experimentado pela consciência histórica ao se encontrar com a tradição:

A tarefa hermenêutica consiste em não dissimular essa tensão em

uma assimilação ingênua, mas em desenvolvê:la

conscientemente. Esta é a razão por que o comportamento hermenêutico está obrigado a projetar um horizonte que se distinga do presente. A consciência histórica tem consciência de sua própria alteridade e por isso destaca o horizonte da tradição de seu próprio horizonte. Mas, por outro lado, ela mesma não é, como já procuramos mostrar, senão uma espécie de superposição sobre uma tradição que continua atuante. É por isso que logo em seguida ela recolhe o que acaba de destacar a fim de intermediar: se consigo mesma na unidade do horizonte histórico assim conquistado.129

A fusão de horizontes é uma etapa necessária da compreensão. O que não significa, contudo, que estamos presos ao passado. Precisamos apenas reconhecer a conexão que ele guarda com o presente e com o futuro, na medida em que o passado condiciona nossa visão de mundo. E essa conexão se dá

127GADAMER, Hans:Georg. Verdade e Método. Tradução de Flávio Paulo Meurer. 10. ed.

Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p. 399.

128Ibid., p. 405. 129Ibid., p. 405.

justamente através da tradição, a qual é posta em evidência na medida em que compreendemos que somos efeitos de uma interpretação prévia.

A consciência da história efeitual nos propicia a abertura à tradição. Para Gadamer, a tradição “não é simplesmente um acontecer que aprendemos a conhecer e dominar pela experiência, mas é linguagem, isto é, fala, por si mesma, como um tu.”130

A tradição não é, por conseguinte, algo sobre o qual dispomos livremente. Se a presença é mediada linguisticamente, a compreensão, enquanto seu existencial, também só se realiza no seio de uma linguagem. E essa linguagem carreia a tradição, como a alteridade, o interlocutor necessário que nos fala à nossa consciência, não como limitador do conhecimento, mas como seu franqueador.

Ter consciência histórica efeitual é, portanto, estar ciente dos efeitos que a historicidade ínsita ao Dasein exerce na sua consciência; é saber que toda compreensão está necessariamente condicionada pelos pré:conceitos que lhe chegam pela tradição. É por isso mesmo entender como se realiza a interpretação, não no sentido de fixar:lhe limites rígidos, mas conhecer a sua finitude. Até porque

aquele que está seguro de não ter preconceito, apoiando:se na objetividade de seu procedimento e negando seu próprio condicionamento histórico, experimenta o poder dos preconceitos que o dominam incontroladamente como uma vis a tergo. Aquele que não quer conscientizar:se dos preconceitos que o dominam acaba se enganando sobre o que se revela sob sua luz. É como na relação entre o eu e o tu. Aquele que sai reflexivamente da reciprocidade de uma tal relação modifica:a e destrói sua vinculatividade moral. Da mesma maneira, aquele que pela reflexão se coloca fora da relação vital com a tradição destrói o

verdadeiro sentido desta. A consciência histórica que quer

130 GADAMER, Hans:Georg. Verdade e Método. Tradução de Flávio Paulo Meurer. 10. ed.

compreender a tradição não pode abandonar:se à forma de trabalho da metodologia crítica com a qual se aproxima das fontes, como se ela fosse suficiente para proteger contra a intromissão dos seus próprios preconceitos. Na verdade, ele precisa pensar também sua historicidade.131