1.6 Organisation de l'étude
2.1.2 Evolution des flux nets d'IDE et de l'Epargne Domestique Brute (EDB) en pourcentage du
Embora o quadro sociopolítico que se impõe no esporte ponha em jogo elementos que aumentam a dramaticidade e o apelo perante o público, parte fundamental da atratividade do esporte se relaciona àquele que está no centro da cena esportiva: o atleta.
Apesar da “loucura” ou do “desespero” vivido por torcidas e, por vezes, nações diante de um resultado, os componentes ideologia e paixão não são os únicos a mover o esporte. Grande parte do interesse despertado por espectadores e/ou torcedores com relação à disputa esportiva não se distingue do mistério e polêmica que envolvem o protagonista do espetáculo esportivo. (Rubio, 2001, p. 97)
Um fenômeno de massa como o esporte precisa que haja “heróis”, “estrelas” ou “ídolos” para manter seu apelo, já que é a existência de tais figuras que permite que pessoas se identifiquem com o evento (Helal, 1998). Os organizadores, patrocinadores e a mídia, que veem no esporte um produto de consumo a ser vendido, precisam “criar protagonistas para vender um espetáculo esperado e desejado” (Rubio, 2001, p. 103). Isso faz com que seja do interesse da mídia (e também de dirigentes) constituir o que Coakley (2015) chama de uma narrativa novelesca, de forma a gerar tal apelo e identificação a competidores ou equipes. Uma das principais maneiras como isso se dá é por meio da construção de histórias de superação, no caso de atletas que se recuperam de lesões graves ou perda de familiares, para citar dois exemplos.
Outra forma de construção narrativa no esporte é a criação de dualidade entre atletas ou equipes, colocando heróis e vilões na cena esportiva, fabricando rivalidades. Isso se vê, sobretudo, nas competições entre um atleta da nação e um estrangeiro, que muitas vezes é colocado no lugar de alguém frio, quando não propriamente mau, em contraponto ao herói nacional, que leva consigo a honra da nação e de seu povo. Nesse processo estão estrategicamente posicionadas questões nacionais e patrióticas que se revelam em práticas discursivas e que tocam em questões da identidade de um povo ou nação (Coakley, 2015). As narrativas se mostram também em esportes em que há a figura do promotor, como o boxe e as artes marciais mistas. Este busca criar um enredo que aumente a atratividade do evento, como um sentimento de ódio entre os lutadores, a busca por redenção após algum problema pessoal, uma revanche, entre outras possibilidades. Tudo é organizado e apresentado com o objetivo de “entreter audiências da mídia e manter patrocinadores felizes” (Coakley, 2015, p. 393, tradução nossa40).
Um exemplo de narrativa no esporte foi a vitória do Brasil na Copa do Mundo de 1958, que deixou marcas culturais e identitárias na nação. Para a compreensão do impacto de tal conquista e da narrativa associada a ela, é importante contextualizá-la. Em 1950, a Copa do Mundo foi disputada no Brasil, e a seleção nacional chegou à última partida como grande
favorita para a conquista do título, dependendo apenas de um empate contra o Uruguai. Após marcar o primeiro gol, a equipe brasileira acabou derrotada por 2 a 1, e o jogo ficou conhecido como maracanazo, sendo lembrado até hoje como uma tragédia do esporte nacional. Naquele momento, e sobretudo após tal derrota, houve a percepção de que os jogadores brasileiros não conseguiam vencer as principais equipes do mundo, não por falta de capacidade técnica, mas por se considerarem inferiores, o que ficou conhecido como “complexo de vira-lata”, termo cunhado por Nelson Rodrigues, justamente às vésperas da Copa de 1958.
Por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos ‘os maiores’ é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: e perdemos da maneira mais adjeta. Por um motivo muito simples: porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos. (N. Rodrigues, 1993, p. 52)
A conquista na Suécia em 1958 foi vista como uma superação de tal complexo, embora o termo volte a ser empregado com alguma frequência, não se limitando ao meio do futebol. Ainda assim, estabeleceu-se o fim dessa condição em tal partida, o que consequentemente mudou a narrativa a respeito do futebol e dos jogadores brasileiros.
A cobertura da mídia, porém, é focada nos principais atletas dos esportes mais populares, o que não representa a realidade vivida pela grande maioria dos esportistas. Uma consequência desse tipo de abordagem do fenômeno esportivo é que ele passa a ser observado e interpretado por essa ótica romantizada, o que leva a uma visão distorcida do esporte e da vida dos atletas. Pouco espaço e atenção são dados aos casos encontrados mais comumente entre os esportistas – isto é, “aqueles que praticam uma modalidade por uma ou duas temporadas antes de serem cortados ou forçados a abandonar por outros motivos, especialmente lesões” (Coakley, 2015, p. 288, tradução nossa41). É comum que, em esportes coletivos, jogadores assinem um primeiro contrato de curta duração e que este não seja renovado ou até que seja rescindido. “Muito mais típicos que jogadores de 30 anos contemplando mais uma temporada são os de 24 anos encarando o fim de suas carreiras profissionais” (Coakley, 2015, p. 288, tradução nossa42).
41 “Those who play for one or two seasons before being cut or forced to quit for other reasons, especially injuries”
42 “Much more typical than 30-year-old players contemplating another season are 24-year-olds facing the end of their professional sport careers”
No atual estágio do esporte, federações, clubes e mesmo carreiras são geridos num modelo empresarial. Um exemplo é o pai do atacante Neymar, que também administra a carreira do atleta e afirmou em entrevista que o filho era a empresa da família (Espn, 2011). Em tal contexto empresarial, todos esses membros da cena esportiva “precisam de vitórias e conquistas para terem lucro” (Ramos, 1984, p. 66). Essa situação acaba por colocar um elemento a mais na relação entre o esportista, sua prática e a busca por vitórias. É por meio de seu desempenho que conseguem abrir novos mercados e atrair mais investimentos de seus torcedores e patrocinadores. A venda de camisas e produtos, além da renda de bilheteria e direitos de televisão, é parte fundamental desse mercado que movimenta bilhões anualmente. “Hoje o esporte espetáculo atrai multidões e é veículo tanto para a construção de carreiras, quanto para a realização de negócios” (Campos, 2015, p. 60). Tais fatores aumentam a exigência sobre os atletas, já que seus desempenhos muitas vezes afetarão todo esse mercado. O que está em disputa não são apenas vitórias e ganhos financeiros pessoais, mas o de diversas outras pessoas, incluindo aquelas que podem influenciar seu futuro profissional, como dirigentes e empresários. Um aspecto obscuro desse funcionamento se observa nos casos de manipulação de resultados para favorecer apostadores ou outros interessados, o que já levou a escândalos no futebol brasileiro e no italiano43.
Mesmo nos casos em que os atletas obtêm sucesso, “oportunidades profissionais no esporte são de curto prazo, durando entre três e sete anos, em média, em esportes de equipe e de três a 12 anos em esportes individuais” (Coakley, 2015, p. 288, tradução nossa44). Embora haja variação na duração da carreira dependendo da modalidade e de condições singulares de cada atleta, se comparado a outras áreas de trabalho, trata-se de uma carreira breve. Conforme citado anteriormente, o envolvimento com o esporte demanda dedicação em tempo integral, o que dificulta a aquisição de recursos e outra formação acadêmica e profissional. Isso contribui para gerar uma marca singular na relação dos atletas com seu atividade laboral.