P ARTIE B. É TAT DES LIEUX DE LA CONSOMMATION DE MATÉRIAUX DE CARRIÈRE EN 2012
C.1. Evolution du contexte régional démographique et économique
O processo de empresarização e a grande influência exercida pelo modelo empresarial no mundo de hoje contou com um grande aliado, o qual contribuiu sobremaneira para o entrelaçamento dos pressupostos empresariais, dos seus símbolos, das suas práticas, dos seus valores e da sua linguagem no tecido social. Nesse sentido, destaca-se que o processo de empresarização se acentuou, sobretudo, com o ideário neoliberal – também conjunto discursivo produzido pela
episteme moderna capitalista –, quando, segundo Foucault (2008), uma lente
econômica/empresarial passou a ser utilizada para decifrar os fenômenos os quais não pertenciam estritamente ao campo econômico, estendendo-se, assim, para os fenômenos sociais em geral, e quando se estabeleceu a ideia de que o modelo empresarial é o modelo social universalmente generalizável. Na mesma esteira de pensamento, Laval e Dardot (2016), definem o neoliberalismo como uma racionalidade, a qual tem como característica central a “generalização da concorrência como norma de conduta e da empresa como modelo de subjetivação” (p. 17). Em suma, ao mesmo tempo em que a lógica neoliberal intensifica o processo de empresarização, essa lógica é fortalecida pelo conjunto de saber-poder da empresa. Essa generalização do modelo/forma empresarial, estabelecida nos mais variados campos, perpassa, inclusive, pelo Estado, o qual também passa a utilizar a lente econômica e a se organizar e atuar de acordo com a ordem dominante, tornando-
se, assim, um agente incentivador e disseminador do modelo empresarial. Dito isso, infere-se que a atuação governamental passa a incorporar a lógica empresarial, passando, dessa maneira, a prover os serviços públicos como negócios (PAULA, 2005).
A alteração para esse Estado “eficaz” ou “empresarial”, guiado pelas regras de concorrência e sujeito às exigências de produtividade e eficácia, conforme destacado por Laval e Dardot (2016), começa a ser edificado a partir dos anos de 198020, quando os ideais neoliberais começaram a ganhar terreno, em especial, a partir das críticas ao Estado Keynesiano de bem-estar social. Tais críticas direcionavam-se, principalmente, ao “[...] tamanho do aparelho estatal excessivo, a burocracia estatal ineficiente e suas ações, tanto produtivas como regulamentadoras [...]” (ARIENTI, 2003, p.101).
Nesse contexto, e, tomando como referência o modelo empresarial, o Estado passa a ser amplamente julgado pela sua total falta de eficácia, bem como de produtividade diante do novo cenário mundial de globalização (LAVAL; DARDOT, 2016). Com práticas neoliberais direcionadas à defesa de um Estado mínimo, o mesmo já não se destina com igual afinco para garantir que os diferentes níveis da vida coletiva estejam integrados, mas sim, esforça-se em alinhar a sociedade de acordo com as exigências da concorrência mundial e das finanças globais (LAVAL; DARDOT, 2016).
Conforme destacam Laval e Dardot (2016), “embora o Estado seja visto como o instrumento encarregado de reformar e administrar a sociedade para colocá-la a serviço das empresas, ele mesmo deve curvar-se às regras de eficácia das empresas privadas” (p. 274). A premissa que se instaura, portanto, tanto em governos de esquerda, quanto de direita, é a de que o modelo empresarial “é sempre mais eficaz que a administração pública, que o setor privado é mais reativo, mais flexível, mais inovador, tecnicamente mais eficaz, porque é mais especializado, menos sujeito que o setor público a regras estatutárias” (LAVAL; DARDOT, 2016, p. 290). Ocorre, então, uma mudança na concepção e na ação do Estado, a qual, consequentemente, reflete
20 Com a eleição do governo Thatcher na Inglaterra em 1979, primeiro regime de um país de capitalismo avançado empenhado em aplicar a agenda neoliberal e, um ano mais tarde, com a eleição de Reagan nos Estados Unidos (ANDERSON, 1995). No Brasil, esse processo teve início, ainda que timidamente, nos anos 1990 com Fernando Collor de Mello e Itamar Franco, intensificando-se, mais tarde, no governo de Fernando Henrique Cardoso.
na utilização de um novo vocabulário, no qual passam a figurar palavras-chaves, tal como “governança”. Assim, Laval e Dardot (2016) apontam que,
A governança do estado toma emprestada da governança da empresa uma característica importante. Da mesma forma que os gerentes das empresas foram postos sob a vigilância dos acionistas no âmbito da corporate
governance predominantemente financeira, os dirigentes dos Estados foram
colocados pelas mesmas razões sob o controle da comunidade financeira internacional, de organismos de expertise e de agências de classificação de risco. A homogeneidade dos modos de pensar, a semelhança dos instrumentos de avaliação e validação de políticas públicas, as auditorias e os relatórios dos consultores, tudo indica que a nova maneira de conceber a ação governamental deve muito à lógica predominante nos grandes grupos multinacionais (p. 276).
Paralelo a isso, a questão da soberania do Estado também se reconfigura, tornando-se obsoleta, antiquada e desvalorizada. Dito isso, há uma perda progressiva da importância da capacidade de um Estado em garantir sua soberania sobre um território, devendo ser julgado, agora, pelo seu alinhamento junto às normas jurídicas, bem como às “boas práticas” econômicas ligadas à governança (LAVAL; DARDOT, 2016).
Com predomínio do modelo empresarial, o que muda, portanto, são os princípios e as formas da ação do poder público, perpassando nessa esfera, um modo de racionalização que se curva à lógica empresarial (LAVAL; DARDOT, 2016). Assim,
Concorrência, downsizing, outsourcing [terceirização], auditoria, regulação por agências especializadas, individualização das remunerações, flexibilização do pessoal, descentralização dos centros de lucro, indicadores de desempenho e benchmarking são todos instrumentos que administradores zelosos e decididores políticos em busca de legitimidade importam e difundem no setor público em nome da adaptação do Estado à ‘realidade do mercado e da globalização’” (LAVAL; DARDOT, 2016, pp. 301-302).
Essas ferramentas e métodos, típicos empresariais, assim como a sua linguagem e o seu modelo ideal de funcionamento são transpostos e validados para todos os âmbitos da ação pública, relegando a um segundo plano as finalidades inatas de cada uma das instituições, em nome da eficiência e da otimização dos recursos, impactando, inclusive, naquilo que está legalmente assegurado como direito aos cidadãos (LAVAL; DARDOT, 2016). Posto que o setor privado volta-se amplamente para os resultados, no contexto da atuação governamental, aspectos como a democratização e o interesse público acabam perdendo espaço para aspectos relacionados à eficiência técnica (PAULA, 2005).
Como consequência do processo de empresarização, adicionado ao contexto de expansão da razão neoliberal, a cultura do management, bem como seus símbolos, sua linguagem e suas crenças têm migrado, não somente para o âmbito governamental, como também para as artes, a ciência, a tecnologia, entre outros (PAULA, 2005). Por conseguinte, diversos são os discursos emanados por estas instâncias que possuem uma intrínseca relação com o processo de empresarização por se tratarem tanto de um reflexo como de algo que constitui e que mantém a centralidade e o poder da ideia de empresa nessa contemporaneidade. Dentre os discursos produzidos, pode-se citar o empreendedorismo, a privatização, a pejotização, o gerencialismo, a mercantilização, a financeirização, entre outros.
Esses são os reflexos mais comuns e evidentes do processo de empresarização, mas, atualmente, com a intensificação e o avanço do neoliberalismo sobre o Estado, conforme foi acima discutido, o modelo empresarial tem sido frequentemente utilizado como pano de fundo na formulação, na análise, na intervenção e na implementação de políticas públicas nas suas tradicionais áreas de atuação, como é o caso da educação e, mais especificamente, da educação superior.
Nesse contexto, pode-se citar o livro organizado por Neves (2002) sobre o empresariamento da educação, o qual expõe as mudanças pelas quais a educação superior brasileira tem passado em direção a uma crescente onda de privatização, especialmente a partir da década de 1990, época na qual o Estado brasileiro passou a adotar com mais afinco os ideais neoliberais na sua atuação.
Não obstante a essa tendência à privatização e à mercantilização no âmbito da educação superior, o processo de empresarização também se manifesta de outras formas, tal como na expansão dos rankings acadêmicos e universitários que acabam por se conformar em mecanismos que fomentam a competição entre Instituições de Educação Superior (IES) (LEITE, 2008; DIAS SOBRINHO, 2010; CALDERÓN; MATIAS; LOURENÇO, 2014), assim como o incentivo ao produtivismo no âmbito acadêmico (BERNARDO, 2014; TREIN; RODRIGUES, 2011; ALCADIPANI, 2011), a crescente ênfase nos conhecimentos de ordem técnica e pragmática (NUSSBAUM, 2015), entre tantos outros novos discursos que vêm sendo difundidos.
Nesse sentido, intenta-se, nesta pesquisa, associar tanto o papel do Estado e a sua contribuição na disseminação da ideia de empresa, quanto à mobilização individual – tal como o indivíduo empreendedor de si – suscitada pela produção de novas subjetividades, a partir do estudo de um discurso específico o qual, com a
intensificação do neoliberalismo sobre o âmbito das universidades, tem sido fomentado e amplamente disseminado: o discurso da universidade empreendedora.
3 Discurso da universidade empreendedora: características e reflexos
O processo de empresarização, intensificado pela razão neoliberal, tem influenciado o surgimento de novas construções discursivas no âmbito da educação superior, as quais acabam por perpassar, inclusive, pelas universidades. Dito isso, este capítulo tem como propósito discutir uma das implicações da centralidade da empresa no mundo moderno no âmbito da educação superior e, mais especificamente, das universidades, ou seja, o discurso da universidade empreendedora, um discurso que tem se intensificado nos últimos anos no contexto brasileiro.
Com o intuito de introduzir o debate, bem como para uma melhor compreensão acerca das origens do discurso da universidade empreendedora, apresentam-se algumas considerações contextuais mais amplas que acabaram por impactar a educação superior, favorecendo a construção e a emergência desse discurso. Posteriormente, são apresentados e discutidos os principais conceitos de uma universidade considerada empreendedora, bem como as principais características a ela relacionadas. Por fim, com o propósito de trazer este debate para uma dimensão local, discute-se a construção do discurso da universidade empreendedora lançando- se os olhares para o contexto brasileiro.