Ferdinand de Saussure274 afirmou que o ponto de vista cria o objeto; Karl Marx asseverou que a totalidade concreta como totalidade pensada é um produto do pensamento, do ato de conceber e traduzir as coisas do mundo; Max Weber estabeleceu que são as relações conceituais entre problemas – e não as relações reais entre as coisas – que constituem o princípio de delimitação dos diferentes campos científicos. Todos estabeleceram princípios
271 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 43.
272 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 43. Grifos no original. 273 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 44.
epistemológicos de ruptura com uma concepção mais ingênua do real. A pesquisa científica, observa-se, organizou-se em torno de objetos construídos que não tem nada em comum com a percepção ingênua. A sociologia erudita ainda possui elos que a ligam às categorias da sociologia espontânea, como família, lazer, mundo rural, mundo urbano, jovens, velhice etc.275
Emile Durkheim (sociologia), Galileu Galilei276 (física moderna), Ferdinad de Saussure (lingüistica), aplicaram um golpe de estado teórico ou decisão metodológica original que estabeleceu distinções capitais para apreender verdades – de acordo com cada objeto – que até então não haviam sido tratadas da forma como eles fizeram. Emile Durkheim deixou claro que o cientista social deve “definir uma atitude mental, e não de atribuir ao objeto um estatuo ontológico”. Todos esses cientistas se reproduziram no sentido de asseverar que “a ciência se constitui ao construir seu objeto contra o senso comum, em conformidade com os princípios de construção que a definem”, vale dizer, há uma distinção fundante entre o objeto
275 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 45-6.
276 Galileu Galilei (1564-1642), astrônomo, físico, cientista e escritor italiano, filho de um compositor florentino em cuja casa foram apresentadas as primeiras óperas, na sua mocidade dedicou-se às letras. Observando as oscilações dos lustres da catedral de Pisa, teria descoberto as leis do pêndulo e como um pêndulo pode ser usado para medir intervalo de tempo, ensinando essas leis quando docente de matemática na Universidade de Pisa. Transferindo-se para a Universidade de Pádua, descobriu, em 1602, as leis da queda dos corpos, e que os objetos leves ou pesados caem ao chão com a mesma velocidade – sem os efeitos da resistência do ar –, descoberta fundamental da mecânica. Tendo ouvido da construção do primeiro telescópio, na Holanda, construiu em 1609 um desses instrumentos e fez com ele notáveis descobertas astronômicas: a composição estelar da Via Láctea, os satélites de Júpiter – quatro luas de Júpiter (Io, Ganimedes, Europa e Calisto) em 1610 –, os “braços” de Saturno – não chegou a discernir os anéis –, as manchas do Sol, as fases de Vênus. Todas essas descobertas foram comunicadas ao mundo no livro Sidereus nuntius (Mensageiro das estrelas) em 1610. Assim, no campo da ótica aperfeiçoou o telescópio de refração, que deduziu corretamente que o brilho da Lua é devido à reflexão da luz solar, sendo considerado o fundados do método experimental em astronomia. A observação das fases de Vênus converteu-o ao sistema heliocêntrico de Copérnico, que proclamava que o Sol, e não a Terra, é que seria o centro do Sistema Planetário – Solar. Esse sistema foi considerado pela Igreja como incompatível com os textos bíblicos e Galileu foi chamado à Roma, em 1611, para defender-se da acusação de heresia. Não foi condenado, porém, em 1616, teve de assinar um decreto da Inquisição que declarava ser meramente hipotético o sistema heliocêntrico. Em 1623 publicou a obra Saggiatore (Experimentador) pra combater a física aristotélica e estabelecer a matemática como fundamento das ciências exatas. Na obra Dialogo dei massimi sistemi (Diálogo sobre os grandes sistemas do universo), de 1632, voltou a apoiar e defender o sistema heliocêntrico. Já idoso, acusado perante a Inquisição por ensinar a teoria herética do movimento da Terra, foi condenado à prisão domiciliar, em 1633, e proibido de publicar livros. A lenda afirma que logo em seguida ao julgamento, onde ele teve que se retratar – ter sido forçado a negar a teoria –, ele murmurou nessa ocasião que: “Eppur si muove” (No entanto, ela – Terra – se move). Passou os últimos anos da vida retirado em sua vila, perto de Florença, escrevendo Discorsi e dimostrazioni matematiche in torno a due nuove scienze (Teorias e provas matemáticas sobre duas novas ciências), publicado em 1634, obra essa que é considerada como fundamental da dinâmica. A importância histórica de Galileu é muito grande. Além das suas descobertas em física e astronomia, abalou o prestígio do aristotelismo; estabeleceu o experimento e a formulação matemática do resultado da experiência como fundamentos das ciências exatas. Escreveu tratados didáticos e polêmicos em estilo simples, incisivo e irônico, tendo sido também um dos maiores prosadores da literatura italiana. Em 12 de setembro de 1982, ao visitar a Universidade de Pádua, o Papa João Paulo II retirou as acusações de heresia feitas pela Inquisição contra Galileu e, em novembro de 1992, o “reabilitou” definitivamente, reconhecendo-o como “físico genial”, com 360 anos de atraso. In: GRANDE ENCICLOPÉDIA LAROUSSE CULTURAL. São Paulo: Nova Cultural, 1998, v. 11.; NOVA ENCICLOPÉDIA ILUSTRADA FOLHA. São Paulo: Empresa Folha da Manhã, 1996. v. 1.
pré-construído pela percepção simples ou ingênua e o objeto da ciência, que é fruto de um “sistema de relações construídas propositalmente” ou intencionalmente.277
Não basta, assim, adotar como pesquisa um objeto dotado de realidade social para ser imediatamente concebido como dotado de realidade sociológica, pois se estaria cometendo o equívoco de elevar a grau científico um problema percebido pelo senso comum ou consciência ingênua e muito circunstancial. Como construir um objeto sociológico abandonando os objetos pré-concebidos, problemas sociais, fatos sociais distinguidos, percebidos e nomeados pela sociologia espontânea? Por exemplo, quando se estuda os meios modernos de comunicação ou as diferentes formas de lazer na sociedade – temas de conversação comum na sociedade moderna –, o intelectual e cientista praticamente não se encontra plenamente ciente de que a sua específica relação com a cultura contém a “verdadeira questão da relação do intelectual com a condição intelectual”; é com a carga ideológica de sua condição – esse praticamente imperceptível inter-relacionamento entre intelectual e ideologia de seu meio, que estabelece uma relação primeira antes dele se debruçar sobre o objeto –, que o intelectual estabelece uma estudo da relação das classes populares com o cultura. Somente quando se estuda a relação mantida pela classe intelectual com as classes populares como classes desapossadas de cultura é que normalmente vem à tona essa verdade.278
Na busca do alcance de uma dignidade de objeto cientifico, não basta – ou não é suficiente – que um objeto comum seja adequando ou sirva à aplicação das técnicas científicas. Para superar essa situação, criam-se novas nomenclaturas – tais como consumo
conspícuo ou crime do colarinho branco – que constroem objetos específicos e irredutíveis
aos objetos comuns, dando novo sentido a fatos conhecidos, mas essa “necessidade de construir designações específicas que, até mesmo formadas com as palavras do vocabulário comum, constroem novos objetos ao construírem novas relações entre os aspectos das coisas, não constitui mais do que um indício do primeiro grau de ruptura epistemológica com os objetos pré-construídos da sociologia espontânea”.279
Observa-se que, em estado isolado, os conceitos mais capazes de descompor as noções comuns não resistem sistematicamente à lógica sistemática da ideologia. Ao “rigor analítico e formal dos conceitos ditos ‘operatórios’ opõem-se o rigor sintético e real dos conceitos que receberam a designação de ‘sistêmicos’ porque sua utilização pressupõe a referência
277 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 46.
278 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 47 e notas de rodapés n. 5 e 6. 279 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 47.
permanente ao sistema completo de suas inter-relações”. Os conceitos e proposições
operatórios podem limitar-se a ser prenoções, significando isso o equivalente a um objeto
pré-construído frente a um objeto construído – que no paralelo, seriam os conceitos sistemáticos e proposições teóricas. Ao se apostar no caráter operacional das definições pode- se chegar a considerar uma terminologia classificatória como teoria, sem saber acerca da sistematicidade dos conceitos propostos e se eles são fecundos ou produtivos teoricamente; deixando as exigências teóricas de lado, e privilegiando definições operacionais, as ciências sociais correm o risco de formar conceitos científicos separados da respectiva elaboração teórica, esquecendo-se que progressos científicos ocorrem quando são formulados sistemas conceituais dotados de pertinência teórica. Trata-se de invenção teórica não limitada a imperativos empiristas ou operacionalistas vocacionados a estabelecer sempre uma pertinência empírica.280
Um objeto de pesquisa “só pode ser definido e construído em função de uma
problemática teórica que permita submeter a uma interrogação sistemática os aspectos da
realidade colocados em relação entre si pela questão que lhe é formulada”.281
a) AS ABDICAÇÕES DO EMPIRISMO
Para o entendimento de que a observação ou experimentação implica em hipóteses a serem formuladas, não se pode olvidar que o real somente dá respostas ao ser questionado; o real, em si, não fornece nada. Gaston Bachelard defendia que o vetor epistemológico é sempre do racional para o real, observando que, de Aristóteles até Francis Bacon,282 a concepção vigorante era a inversa, vale dizer, era de que o conhecimento e a verdade das coisas – e fatos – deveria ser buscado da realidade às concepções gerais. Entretanto, é forçoso observar que a teoria já está presente antes do trabalho experimental em laboratório; sem ela não é possível estabelecer os instrumentos que serão utilizados e como eles serão utilizados, assim como de que forma será feita a interpretação das leituras ou mensurações observadas.283
Assim, é necessário abandonar o entendimento de que o conhecimento ou verdade descoberta é isenta de qualquer relação teórica prévia do pesquisador. Foi Claude Lévi-
280 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 47-8 e nota de rodapé n. 8. 281 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 48. Grifos no original.
282 Francis Bacon (1561-1626), político e filósofo francês. In: HUISMAN, Denis. Dicionário de obras filosóficas. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 576.
Strauss284 que observou que os fatos, abandonados pela teoria que os reuniu, tornam a ser nada, podendo adquirir outro sentido tirado por outra teoria. Os dados em si não respondem a nada, necessitando de uma teoria prévia que dê significado a eles; eles foram construídos para serem respostas a questões prévias delimitadas e estabelecidas. O uso de um material científico já anteriormente utilizado é válido na medida em que se fixe nas condições – ou relevantes aspectos – epistemológicas que construiu a reunião dos fatos, enfim, que não seja uma retradução que recaia somente e apenas sobre os dados em si reunidos. “Semelhante trabalho de interpretação (...) [seria] o melhor treino para a vigilância epistemológica na medida em que exige a explicitação metódica das problemáticas e princípios de construção do objeto que são investidos tanto no material, quanto no novo tratamento que lhe é aplicado”.285
Tais preliminares epistemológicas, quando na observadas, levam o cientista a tratar como diferente o idêntico, como idêntico o diferente, comparar o incomparável, não comparar o comparável. Na sociologia, observa-se que os dados mais objetivos levantados são obtidos por aplicação de grades como faixa etária, remuneração e assim por diante, mas que implicam pressupostos teóricos que deixam escapar informações que poderiam ser apreendidas por outra prévia construção teórica dos fatos. Desta forma, o positivismo ao tratar os fatos como dados, acaba realizando reinterpretações inconseqüentes, ou a simples confirmações obtidas através de verificações realizadas em condições técnicas semelhantes, justamente por ignorar que está procedendo sem considerar a questão epistemológica – que se relaciona com o método e princípios de construção do objeto – relacionada com cada interpretação e reintepretação dos fatos construídos.286
Portanto, a submissão aos fatos, como imperativo científico único leva à renúncia pura e simples – de qualquer atitude de vigilância epistemológica – perante o dado. A experiência rudimentar que evoca uma percepção ingênua – ou espontânea – dos fatos e coisas, segundo uma lógica de verdade que os próprios fatos levantados trariam em si, esquece-se que os cientistas que revolucionaram a ciência, através de um golpe de estado epistemológico, somente assim procederam com suas experiências porque elas foram, antes de tudo, experiências de pensamento, vale dizer, concebidas epistemologicamente, antes de
284 Claude Lévi-Strauss (1908), antropólogo francês, foi quem primeiro aplicou à antropologia os princípios teóricos e metodológicos do estruturalismo; estudando sistemas de parentesco e casamento em diversas sociedades, analisou-os como estruturas de trocas entre grupos. Expôs as relações entre o estruturalismo e lingüística e antropologia e analisou sistemas de classificação e mitos dos povos, afirmando que os diferentes relatos míticos e crenças aparentemente irracionais ou pré-científicas sobre o mundo são expressão de formas sofisticadas de pensamento, cujas propriedades estruturais básicas são comuns a toda espécie humana. In: NOVA ENCICLOPÉDIA ILUSTRADA FOLHA. São Paulo: Empresa Folha da Manhã, 1996. v. 2.
285 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 49. 286 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 49-50.
efetivamente e concretamente. Assim, um certo empirismo radical, sustentado por profissionais cientistas de campo, não pode olvidar o que Henri Poincaré287 já havia assinalado: “os fatos não falam”.288
Quando “o sociólogo pretende tirar dos fatos a problemática e os conceitos teóricos que lhe permitam construir e analisar tais fatos, corre sempre o risco de se limitar ao que é afirmado por seus informadores. (...) [Também] corre o risco de substituir pura e simplesmente suas próprias prenoções pelas prenoções que ele estuda, ou por um misto falsamente erudito e falsamente objetivo da sociologia espontânea do ‘cientista’ e da sociologia espontânea do seu objeto”, que no caso, trata-se de um objeto – ser humano – que fala e concebe sua existência. Desta forma, o sociólogo que não controla conscientemente sua distância do real e sua ação – por seus próprios julgamentos internalizados ou formulados por outros sujeitos – sobre o real, pode acabar impondo questões não afetas ao cotidiano dos sujeitos e deixar de formular as questões pertinentes suscitadas pelas experiências reais desses sujeitos. Pode também formular questões que o próprio cientista se formula a respeito deles, não enxergando a diferença entre “questões que se colocam objetivamente aos sujeitos e questões que eles se formulam de forma consciente”.289
A defesa dos empiristas extremistas – que negam a necessidade de uma construção teórica prévia no seu exercício científico de campo, em favor de uma sociologia espontânea – funda-se na filosofia espontânea da ação humana “como expressão transparente a si mesma de uma deliberação consciente e voluntária”. Assim, em pesquisas de motivação – especialmente as retrospectivas – há um pressuposto sempre presente de que os sujeitos pesquisados retém a verdade objetiva de seu comportamento, nada devendo – em suas decisões e ações – às racionalizações passadas. Para sair da sociologia espontânea, o sociólogo deve assumir o seu privilégio epistemológico.290
b) HIPÓTESES E PRESSUPOSTOS
287 Henri Poincaré (1854-1912), matemático, físico e astrônomo francês, considerado um dos últimos matemáticos universais, tendo estabelecido as bases para a topologia algébrica. A amplitude de seu conhecimento era vasta, o que lhe permitia ensinar diferente assuntos a cada ano. Ele publicou mais do que quase todos os outros matemáticos que lhe eram contemporâneos, tanto trabalhos destinados aso estudiosos da área quanto direcionados ao público em geral. In: NOVA ENCICLOPÉDIA ILUSTRADA FOLHA. São Paulo: Empresa Folha da Manhã, 1996. v. 2.; HUISMAN, Denis. Dicionário de obras filosóficas. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 601.
288 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 50. 289 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 50-1. 290 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 51-2.
Toda prática científica, mesmo o empirismo mais arraigado, implica em pressupostos teóricos, e ao sociólogo restará a escolha entre questionamentos inconscientes, incontrolados e incoerentes sobre seu objeto de pesquisa ou um conjunto de hipóteses metodicamente construído para ser verificado experimentalmente. Recusando formular um elenco de hipóteses baseado numa teoria, o pesquisador acaba aplicando pressupostos que são prenoções da sociologia espontânea e da ideologia; mesmo utilizando-se de ferramentas e instrumentais que indicariam uma prática isenta de pressupostos, como as técnicas de gravação, torna-se necessário compreender a extensão e alcance do que disse Max Planck291 que “estabelecer um dispositivo tendo em vista uma medição é formular uma questão à natureza”.292
A medida, os instrumentos de medição, todas operações da prática sociológica, constituem teorias em ato ou ação, “enquanto procedimentos de construção, conscientes ou inconscientes, dos fatos e das relações entre os mesmos”. A metodologia – a escolha da técnica metodológica e a respectiva reflexão presente desse ato – está presente realmente quando é pensada quanto à significação epistemológica do tratamento que um objeto de pesquisa será submetido e a relevância teórica das questões que se formula e se aplicará ao objeto. A escolha de uma amostragem pode esconder uma teoria implícita do social, pois pode conceber uma massa atomizada como um segmento social constituído; todas as operações estatísticas devem ser submetidas a interrogações epistemológicas, quais sejam, “em cada caso, o que ela diz e pode dizer, dentro de quais limites e sob quais condições”.293
c) A FALSA NEUTRALIDADE DAS TÉCNICAS: OBJETO CONSTRUÍDO E ARTEFATOS
Max Weber propugnou uma neutralidade ética nas ciências sociais e daí originou-se a ilusão de que operações axiologicamente neutras seriam também epistemologiacamente neutras. O debate da neutralidade axiológica escamoteia a discussão – própria e fundamental – epistemológica sobre a neutralidade metodológica das técnicas, assim, se “evita o exame crítico da teoria do conhecimento sociológico que está implicada nos atos mais elementares da prática”, optando por pressupostos éticos e valores e fins últimos. Não se pode olvidar que as
291 Max Karl Ernst Ludwig Planck (1858-1947), físico teórico alemão, criador da teoria quântica que, juntamente com a teoria geral da relatividade de Albert Einstein (1879-1955), físico e matemático alemão, forma os fundamentos da física do século XX. In: NOVA ENCICLOPÉDIA ILUSTRADA FOLHA. São Paulo: Empresa Folha da Manhã, 1996. v. 1 e 2.
292 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 52-3. 293 BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON. A profissão..., p. 53-4.
técnicas de pesquisa são outras das técnicas de sociabilidade qualificadas do ponto de vista social – o que dizer, quando calar, conforme classe social, região e grupo étnico; exposição da moral de um grupo; cuidados para não exposição e solicitude protetora; entre outros – revelando que as técnicas não são neutras, nem a observação, o instrumento utilizado e os questionamentos elaborados.294
Um simples pergunta de um pesquisador necessita que, antes – ou revendo-a depois –, ele se interrogue sobre o sentido da indagação elaborada e se é transparente a ponto de não obnubilar o objeto pesquisado. Submeter as próprias interrogações à interrogação sociológica é necessário para fazer uma análise sociológica neutra das respostas suscitadas. Na ausência de uma teoria que fundamente o questionário, o resultado fia-se na garantia do realismo das perguntas feitas escudado na realidade das respostas recebidas; é na medida que o sociólogo seja mais consciente quanto à problemática implicada em suas perguntas que compreende a problemática dos sujeitos e suas respostas. Um pergunta feita para sujeitos sócio-econômico- culturais diferentes não tem o mesmo sentido, pois aqui se deparam diferentes linguagens, temáticas e problemas.295]
Para escapar a esse etnocentrismo lingüístico – libertar-se de pré-construções de linguagem – referido aqui tanto à linguagem que utiliza o cientista, quanto à linguagem de seu objeto, somente dialeticamente compreendendo os dois sistemas de pré-construções lingüísticas em jogo, ao estabelecer um confronto metódico que leve às construções adequadas dos significados e traduções possíveis levantados na pesquisa.296
Em relação ao questionário, como técnica restritiva de coleta de dados, é onde ressalta-se a grande necessidade de “restituir à observação metódica e sistemática seu primado epistemológico”. O questionário pressupõe todo um conjunto de exclusões que acentuam seu defeito na medida que as mesmas permanecem mais inconscientes; é necessário saber o que faz um questionário e o que não pode fazer. Observa-se que as perguntas mais objetivas que incidem sobre as condutas pesquisadas acabam se limitando a coletar resultados da