CHAPITRE 4 : BANANE-PLANTAIN A AMBAM : BILAN ET
C- Les types de champs
1- L’action de l’administration
Após o assassinato do padre, a polícia fugiu, as duas mulheres foram libertadas e a cadeia destruída pela população do local. Em seguida foi fincada uma cruz e erguido um memorial para homenagear os mártires da América Latina.
Desde então é celebrada no local a Romaria dos Mártires, inicialmente realizada a cada 10 anos e desde 2001 a cada 5 anos. As primeiras edições aconteceram no mês de outubro, data do assassinato, e depois passaram a ser realizadas em julho, para possibilitar a participação de um maior número de pessoas em razão das férias escolares. No entanto, em 1977 houve uma grande concentração de pessoas naquele local, o que poderia ser considerado uma primeira caminhada, conforme contaram as Irmãs Marie Madeleine Hausser e Béatrice Kruch, conhecidas como Mada e Bia
Edimilson: então a primeira grande celebração foi em 1977, um ano depois do
assassinato do padre João?
Béatrice: Foi um ano depois, já com a inauguração da igreja [Santuário dos
Mártires]. A polícia estava toda deitada lá atrás dos sacos [espécie de trincheiras], prontos para atirar, mas tinha muita gente.
Madeleine: Tinha mais de 400 pessoas.
Béatrice: Aí já foi a caminhada de Cascalheira para o Ribeirão.
Madeleine: Veio toda a Prelazia [de São Félix do Araguaia], a representação
de todas as comunidades da Prelazia, eram mais de 400 pessoas só da Prelazia, fora os de fora, bispos, muitos padres (Irmãs Marie Madeleine Hausser e Béatrice Kruch, entrevista concedida em 01/05/2017, no Assentamento Lagoa da Onça, Formoso do Araguaia-TO).
Ainda que esta primeira concentração de pessoas não seja considerada oficialmente a primeira Romaria dos Mártires, ela é sem dúvida o ritual que possibilitou a formulação da caminhada de 1986, em memória aos 10 anos de martírio do padre João, quando foi inaugurado o Memorial-Galeria dos Mártires da América Latina50. A
50O escopo deste memorial, que se estende para toda a América Latina, apesar de estar localizado no
Brasil e possuir majoritariamente imagens e relíquias de mártires brasileiros, justifica-se porque os idealizadores estavam naquele momento fortemente ligados aos setores progressistas da Igreja Católica Romana, motivados por valores disseminados pela recém-criada Teologia da Libertação. A amplitude para todo o território latino-americano estava relacionada à este movimento de renovação da prática pastoral e teológica do catolicismo latino-americano, a opção preferencial pelos pobres.
construção deste local é um marcador histórico da Romaria, ainda que a caminhada da população em direção à cadeia sete dias após o assassinato do Padre, e a concentração para fazer memória daquele episódio um ano depois, sejam elementos importantes para a processo de sacrificalização do líder morto, transformado em mártir e multiplicado nos caminhantes.
Padre Mirim, Laudimiro de Jesus Borges, participa das romarias desde 1986. Morou em Ribeirão Cascalheira por quase cinco anos, e compõe a equipe que organiza o evento desde então. É ele quem conta um pouco da história da caminhada
Edimilson: Eu queria que você falasse um pouco sobre a trajetória da Romaria
dos Mártires: de quem foi a ideia, como que ela surgiu?
Mirim: A história da romaria está entrelaçada com a história da prelazia [de
São Félix do Araguaia]. Não separa esses dois olhares. Então, é por causa dessa história de igreja povo de Deus, igreja da base, igreja dos pobres, que também celebra o mártir Jesus e sua paixão; mística de Pedro [Casaldáliga]. Com a questão dos mártires, dessas vidas doadas, de experimentar o martírio em sua vida, de experimentar o martírio diante da morte do padre João Bosco, que era para matá-lo [referindo-se a Dom Pedro], mas a proteção de Deus, não sei... a igreja precisava dele ainda por muitos anos. A chegada de João Bosco naquela tarde de outubro de [19]76, onde Pedro tinha chegado em Ribeirão bonito para celebrar a festa de Nossa Senhora Aparecida. Era um momento que estava tendo confronto muito grande, questão de terras, posseiros, fazendeiros, grileiros. Duas mulheres estavam presas - Margarida e Santana - , torturadas para contar onde estavam os maridos que houve um confronto com a terra e eles fugiram depois de ter um confronto com um policial. O policial morreu. E elas foram trazidas para a delegacia e eram torturadas para contar onde estava o marido. E diante dos gritos, tortura, Pedro, em uma indignação dizendo que não era possível deixar daquele jeito sem fazer nada, falou que ia na delegacia para pedir para eles pararem com aquilo. E Juarez que era agente de pastoral falou, “olha, eu vou também com você. Você não vai só”. Pedro argumenta que não, que não era bom, porque depois eles poderiam perseguir Juarez, que ele ia embora no outro dia, que seria mais tranquilo. E o João Bosco se colocou à disposição para ir com Pedro. A distância da casa até onde é a delegacia não é longe. E eles foram, os dois. Chegando à delegacia com poucas conversas um dos policiais tira um revólver dá uma coronhada em João Bosco, eram policiais novos que estavam lá por causa desse conflito, não conheciam Pedro e acabou tirando o revólver e dando um tiro fatal em João Bosco (Padre Laudimiro de Jesus Borges, entrevista concedida em 26/03/2017, em Belo Horizonte-MG).
Neste trecho Padre Mirim remontou a história da Romaria em relação direta com a história da Prelazia de São Félix do Araguaia e a atuação de Dom Pedro
Estas concepções de prática pastoral, como explicado no capítulo 01 desta tese emergem das mudanças no catolicismo formuladas durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), e nas Conferências do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), de Medellín e Puebla, realizadas em 1968 e 1979, respectivamente, nas quais as mudanças propostas por aquele Concílio foram aprofundadas à luz do contexto específico da América Latina (POMPA, 1987; LENS, 1992; IOKOI, 1996; RUFINO, 2006).
Casaldáliga, Bispo nesta Prelazia àquela época. Relembro que estes eram ainda os anos do regime militar brasileiro, marcado por muitos episódios de violência policial, que conjugavam perseguições, prisões e torturas, por isso o receio de que o agente pastoral naquele povoado fosse à cadeia para pedir que as mulheres presas fossem liberadas. E como não seria seguro que o Bispo fosse sozinho, aceitou a companhia do Padre João Bosco, que passava por ali a caminho da aldeia dos Bakairi (Kurâ), no munícipio de Paranatinga, aproximadamente 400km de Ribeirão Cascalheira. Como o Padre João não permaneceria naquela localidade não havia risco de perseguição por parte dos policiais. No entanto, o inesperado aconteceu, Padre João foi confundido com o Bispo Pedro, que estava sob a mira dos policiais, como descrevi alhures, e foi atacado pelo policial. Continuemos com Mirim:
Teve a noite da agonia de João Bosco, as palavras dele oferecendo tudo aquilo pela causa da terra, dos peões, dos pobres, dos indígenas, consegue sair naquela madrugada na alvorada, no amanhecer do dia 12 de outubro [de 1976], vão para Goiânia e João Bosco morre. Então já tinha toda a história da prelazia, dessa vida, desse sangue com o sangue de João Bosco. A missa de sétimo dia a igreja reúne, vem gente de várias regiões, de regionais. Celebram o sétimo dia que já é uma celebração martirial, pascal. Já é uma celebração do mártir João Bosco e faz uma caminhada, do lugarzinho da capela até a cadeia, cantando com velas e cruz. Plantam a cruz e no meio do povo uma mulher pergunta “de que lado iremos ficar: da cruz ou da cadeia? Cadeia é escravidão, só prende aqui pobres, prostitutas, pretos, negros. De que lado nós queremos ficar? A cruz é a libertação. A cruz é a vitória”. E o povo derruba a cadeia, coloca fogo. Depois de um ano, reúnem de novo o povo já em um grande mutirão para construir a igreja, o santuário e continuou todo ano, 11, 12 de outubro uma caminhada; procissão com cantos, parando no Ribeirão, mulheres recolhendo água, colocando nos potes para o batismo no outro dia. No outro dia a celebração batismal, da ceia, creio que é o chão onde nasce a romaria (Padre Laudimiro de Jesus Borges, entrevista concedida em 26/03/2017, em Belo Horizonte-MG).
Note-se, ainda que o Padre Mirim afirme que a primeira romaria só aconteceu em 1986 ele indica que os primeiros movimentos em protesto pelo assassinato do Padre João, as caminhadas realizadas pelas pessoas que viviam naquela localidade e em locais próximos, foram marcados por muita simbologia e ritualística, i.e., mística: cantos, velas acesas, água e cruz. Símbolos que compõem o rito da Romaria em todas as edições.
Depois de dez anos desse caminhar da prelazia; da igreja do Brasil cresce o número de pessoas que entregaram as vidas pelo reino, que foram assassinadas no campo e na cidade. E aí é proposto que o ano de [19]86 seja o ano dos mártires latino-americanos; dos mártires da caminhada. E foi o ano
que teve a inauguração do santuário [Galeria dos Mártires], do jeito que ele é (Padre Laudimiro de Jesus Borges, entrevista concedida em 26/03/2017, em Belo Horizonte-MG).
Se no ano seguinte ao assassinato do Padre João a caminhada apresentava matizes de um ritual estrito, em memória do acontecimento local. Com a construção do Santuário no lugar da cadeia destruída, em 1986, os agentes da Prelazia motivados por Dom Pedro começam a pensar num ritual mais extensivo, que pudesse reunir outros episódios de assassinatos ocorridos na América Latina. É então, realizada uma romaria não exclusivamente em memória do martírio do Padre João, mas povoada por outros mártires. Neste momento familiares e amigos dessas outras lideranças violentamente assassinadas foram convidados a participar e a trazer consigo imagens e objetos destes mártires para povoar o Santuário-Galeria.
Era uma coisa muito localizada que fazia todo ano essa memória do martírio do João Bosco e de outros mártires, mas aí em [19]86 ele se torna o santuário dos mártires da América Latina e nesse ano de [19]86 já tinha a pintura de Cerezo [Mural “O maior amor”, pintado por Cerezo Barredo – figura 37], foi o ano que os familiares dos mártires trouxeram os quadros, tanto do Brasil e também de alguns países da América Central, da América do Sul. Trazem quadros, relíquias, símbolos – sinais para o santuário. Então penso que a romaria nasceu no nascer da igreja da prelazia. E elas tem esses momentos fortes. Que foi no momento do martírio do João Bosco, o sétimo dia, o primeiro ano. Dez anos fazendo essa memória. [19]86 uma grande romaria latinoamericana. No começo não foi definido cinco ou dez anos [entre uma romaria e outra], mas aí resolvemos em uma dessas reuniões da assembleia do povo que a romaria se organizaria para ser então de cinco em cinco anos (Padre Laudimiro de Jesus Borges, entrevista concedida em 26/03/2017, em Belo Horizonte-MG).
O Cacique Marcos Xukuru do Ororubá que encontrei na Romaria dos Mártires de 2011 contou sobre a experiência em participar da caminhada em Ribeirão Cascalheira, acentuando este caráter de encontro e de partilha que os organizadores deste evento estimulam:
Na Romaria dos Mártires nos encontramos com outras pessoas e familiares de tantas outras pessoas dos movimentos sociais que também tem essa mesma história de lutadores que defendiam os direitos humanos, seja ele no seu campo de atuação na terra, enfim em várias ações. Aqueles que lutam em defesa do meio ambiente como a irmã Dorothy. Enfim, são muitos mártires que encontramos nesse momento, nessa reunião com seus familiares e os adeptos à luta, que para nós é um momento muito importante de fortalecimento da luta. Mostra que nós não estamos sozinhos, que nós temos muitos lutadores e lutadoras que fazem a defesa da vida (Cacique Marcos, entrevista concedida em 24/01/2013, na Aldeia Santana, Terra Indígena Xukuru do Ororubá).
Desde 1986 foram realizadas seis Romarias dos Mártires da Caminhada, todas aconteceram em Ribeirão Cascalheira. De acordo com os organizadores os temas de cada romaria são decididos de forma coletiva em reuniões de preparação, sempre inpirados pelas ideias-força que orientam o martírio “vidas doadas pelas vidas”. Participei de duas edições desta caminhada em 2011 e 2016, mas em diálogo com os organizadores foi possível recuperar os temas das demais edições:
1986: Romaria dos Mártires 1996: Vidas pela Vida 2001: Vidas pelo Reino
2006: Vidas pelo Reino da Vida 2011: Testemunhas do Reino 2016: Profetas do Reino 2021: Tudo pelo Reino
A palavra “reino” que se repetiu nos temas das quatro últimas edições da Romaria – 2001, 2006, 2011, 2016, e que figura no tema da próxima, prevista para 2021 – tem correspondência direta com a ideia de igreja-reino do povo de Deus, que se distancia da proposta de Igreja Católica tradicional romana, entendida pelos agentes inspirados na Teologia da Libertação como distante das causas e da opção preferencial pelos pobres. Não é mera coincidência o fato de que a biografia de Jesus Cristo – do modo como foi narrada nos evangélicos de Mateus, Marcos, Lucas e João – apresenta um Cristo que vem para anunciar “dos pobres é o Reino (o Projeto) de Deus”51 (FAUS, 2009, p. 142). Estas são as razões pelas quais os religiosos e leigos52
ligados à Teologia da Libertação, com os quais trabalhei durante a etnografia que dá origem a esta tese, narram-se como cristãos mais próximos ao evangelho de Cristo e mais distantes da Igreja Católica Romana institucional, descrita por eles como “vaticanista” – fazendo referência à sede administrativa e política da igreja Católica, no Vaticano. Nesta direção a “Igreja da Libertação” é narrada como igreja povo- comunidade, portanto, mais próxima, na perspectiva deles, à causas dos pobres e à
51 No original: “de los pobres es el Reino (el Proyecto) de Dios” (FAUS, 2009, p. 142).
52 Como são nomeados os cristãos batizados, que embora sejam membros da Igreja Católica Romana,
realidade latino-americana. Ao tratar do trabalho desenvolvido por Pedro Casaldáliga na Prelazia de São Felix do Araguaia, num livro em sua homenagem, José Ignacio González Faus53, descreve nestes termos o Reino:
Mas o chamado do Reino sempre estará presente, mais divino e mais jesuânica que a própria Igreja, embora a Igreja insista em reduzir esse “reino de Deus” ao prêmio do céu na vida após a morte (coisa teológica e cristologicamente falsa). E como o chamado do Reino continuará sendo mais forte, e o anúncio jesuânico do Reino é confiado ao mundo à comunidade de crentes em Jesus Cristo, então creremos no Reino “caminhando na Igreja”54 (ibid., p. 148). O tema da próxima romaria, que ocorrerá em 2021 foi definido, e como contou o Padre Mirim foi escolhido por Dom Pedro, quando esteve presente na caminhada de 2016, ainda que de forma muito restrita em razão da saúde bastante debilitada. Dom Pedro, atualmente com 91 anos, é desde 2005 Bispo Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, local onde ainda vive. Ele é narrado por muitos caminhantes com os quais conversei durante a etnografia que realizei no Brasil e em Vic-Espanha como um mártir vivo.
E eu ainda perguntei, “Pedro, qual vai ser o tema da próxima romaria”? Criou- se um silencio, parece que interminável, poucos segundos, era uma coisa grande demais. Ele olhou, com aquele olho dele, muito forte, e falou assim, “Chegando em São Felix eu vou pensar”. E depois ele disse, “Tudo pelo Reino”. Então, já começamos a gestar a próxima romaria, e essa fala dele, “vou pensar em São Felix”, mas depois ele diz, “Tudo pelo Reino”, então a gente já está pensando em algumas questões (Padre Laudimiro de Jesus Borges, entrevista concedida em 26/03/2017, em Belo Horizonte-MG).
Em 2019 fui convidado pelo Padre Mirim para participar do I Encontro da Irmandade dos Mártires da Caminhada, realizado na Cidade de Goiás-GO, entre os dias 05 e 07 de julho. Naquela ocasião reencontrei muitas das pessoas com as quais trabalhei durante o período mais extenso da etnografia, entre 2016 e 2017.
Padre Mirim explicou que esta irmandade é formada por um grupo de pessoas que querem “manter vida a memória dos mártires, suas causas e as lutas pela vida, justiça e dignidade”. É formada por pessoas de todas as regiões no Brasil, além de
53 Padre Jesuíta e professor de Teologia na Facultat de Teologia de Catalunya, Barcelona, e na Universidad Centroamericana (UCA), San Salvador.
54 No original: Pero siempre estará ahí presente la llamada del Reino, más divina y más jesuánica que
la misma Iglesia, aunque ésta se empeñe en reducir ese “reinado de Dios” al premio del cielo en la otra vida (cosa teológica y cristológicamente falsa). Y como la llamada del Reino seguirá siendo más fuerte, y el anuncio jesuánico del Reino está confiado para el mundo a la comunidade de creyentes em Jesuscristo, entonces creeremos em el Reino “caminando en la Iglesia”
alguns países da América Latina e Europa. A atuação está concentrada na luta por direitos coletivos, no interior de pastorais e movimentos sociais ligados aos setores progressistas da Igreja Católica Romana. Alguns dos participantes deste encontro, com os quais conversei mais diretamente, reforçaram que os dispositivos de motivação no interior destas pastorais e movimentos sociais são a “busca para manter vida a memória daqueles e daquelas que tombaram, i.e., foram assassinados, lutando por justiça e por vida digna para os mais pobres e sofridos.
Os organizadores deste encontro reforçaram que o objetivo da irmandade é que a causa desses mártires não seja esquecida, mas que a memórias deles dê continuidade às lutas por eles lideradas, para que todos possam ter casa, comida, terra e trabalho.
O encontro reuniu aproximadamente 100 pessoas, oriundas de Pernambuco, Tocantins, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso, Distrito Federal, Acre, Maranhão, Bahia, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, além de uma pessoa vinda da Alemanha.
Assim como nas romarias e assembleia que acompanhei, o local do encontro da Irmandade do Mártires foi ornamentado com flâmulas decoradas com imagens de alguns mártires.
A mística inicial foi realizada na primeira noite do encontro, quando cada participante, que foi anteriormente convidado a trazer um punhado de terra dos locais de origem, utilizou estas terras para preencher uma mandala, anteriormente desenhada no centro do local onde se realizaram as rodas de conversa. Ao final do encontro, na tarde do dia 07 de julho, as terras que preenchiam a mandala foram misturadas e distribuída como terra única, para que cada participante pudesse levar para casa, como um objeto de lembrança do encontro.
Ao final do encontro da irmandade dos Mártires foi lida uma carta, elaborada na noite anterior, por uma das equipes de organização. Cito abaixo apenas um pequeno trecho desta carta, para mostrar a maneira como a ideia de martírio tem se sido pensada por alguns interlocutores não apenas na chave da transformação de lideranças assassinadas em mártires e encantados, mas também pela gramática do sofrimento.
Testemunhamos a dor e as lutas daqueles e daquelas que sentem no próprio corpo e nos seus territórios o peso de uma política de morte, que deseja impor um único modo de viver. Testemunhamos o martírio da Terra que geme em
dores, sentindo o avanço violento do capital sobre todas as formas de vida. São comunidades atingidas por rejeitos tóxicos; pessoas forçadas a saírem de seus territórios; indivíduos para os quais a casa e a terra não se consolidaram como direito; sujeitos aprisionados em seus próprios corpos por uma heteronormatividade imposta, pelo machismo, ou em cárceres; mulheres negras, mães, vítimas das violências que perpassam o simbólico, físico e estrutural; jovens negros exterminados que precisam lutar pela vida todos os dias; povos de fé perseguidos por sua espiritualidade; povos originários que teimam em viver diante do fim dos seus mundos.
No espírito das mártires e dos mártires, que foram mortos e que deram suas vidas pela causa de Jesus, seguimos com uma fé inquieta, que denuncia um sistema com lógicas sacrificiais e anuncia a luz da pedra removida [fazendo referência ao texto bíblico que narra a ressurreição de Cristo], que é sinal da vida que insiste e grita, que não se deixa tomar completamente. Compartilhamos uma fé capaz de criar aquilo que ainda não vemos plenamente, mas vamos inventando, bordando horizontes de resistência e encontrando nos pequenos gestos de vida, de cuidado, na organização de pequenas comunidades de amor-compromisso, gestadas no eco das vozes das mulheres que testemunharam tantas páscoas.