À primeira vista Sílvio Romero nos parece um polemista, dedicado a procurar controvérsias e discordar da opinião e do trabalho de todos, haja vista suas críticas à obra de Machado de Assis e o seu permanente atrito com José Veríssimo devido às fortes divergências de doutrina e método entre os intelectuais.
No entanto, por meio do estudo da História da Literatura Brasileira29, podemos afirmar que sua intransigência vinha do seu acentuado sentimento de brasilidade e de sua disposição ferrenha de defendê-lo daqueles que julgava desinteressados em disseminá-lo por meio da literatura, pois afirmava ( 1888: 955 ):
Em geral os nossos chamados homens de letras lêem livros europeus e especialmente franceses; raros ocupam-se de assuntos brasileiros (...) É preciso deixar de lado o método exterior de julgar os produtos literários por meio de convenções retóricas. É mister procurar em toda a vida nacional o elemento vivo, constante, criador. É urgente investigá-lo na história política e social e na história literária e das artes (...) A história brasileira está em geral quase toda por escrever e sem ela nos perderemos sempre em divagações, não teremos um espírito próprio, nem a consciência de nos mesmos.
Sua pesquisa a respeito da literatura foi a primeira de grande envergadura executada por um brasileiro; por isso mesmo, importante para a época que se propunha a consolidar a cultura brasileira.
Sendo as duas últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX marcadas pelo sentimento nacional e tão próximas à Independência política, é compreensível a maneira quixotesca como o crítico se referia a Portugal quanto à tradição literária e cultural: O Brasil não é, não pode mais ser a cópia de um país medíocre e desorientado, como Portugal.
Assim, nessa obra, Romero discorre a respeito da formação cultural brasileira por meio de cinco fatores: o português, o negro, o índio, o meio físico e a imitação estrangeira, advindo daí a afirmação de que todo brasileiro é um mestiço, quando não no sangue, nas idéias.
Muito preocupado com a consolidação de temas e características nacionais que, realmente, trabalhassem com o caráter do brasileiro declarava ( idem: 135 )
Em crítica literária, nos domina a nós outros a idéia capital de uma revisão franca dos títulos dos nossos escritores, juízo que não trepida
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ante o rigor e não tem medo de algazarra pública, por mais desabrida que se ostente.
Era uma velha teima a de procurar um certo nativismo flutuante e incorreto, que nem mesmo sabia a que visava. O conceito desse nativismo atravessa duas fases.
Na primeira tinha veleidades étnicas e andava a procura de uma raça que nos caracterizasse e, por via de regra dizia mal das outras. Ora era o português, ora o negro, ora o caboclo. Este predominou. Convencidos mais tarde os nativistas do que havia de artificial nessas tentativas, abandonaram a idéia da raça e apegaram-se a de classes fundadas nas grandes divisões geográficas do país.
Não era mais o caboclo, ou o negro, ou o luso, passou-se ao sertanejo, ao matuto, ao caipira, ao praieiro, etc.
Tudo isto, porém, externamente.
Talhavam-se vestes e enroupava-se esta gente, e mais nada. Entretanto o Brasil não é nada disto; porque é mais do que tudo isto. Aqueles são tipos reais, é certo, mas particulares, isolados, e não enchem toda a galeria pátria. Há um espírito geral que os compreende que os domina: é o espírito popular, subjetivo à nação, que não se pode fabricar, que deve ser espontâneo.
O caráter nacional não está em se falar em maracás e tangapemas, tão pouco está em se lembrar o chiba, o bumba-meu-boi, o samba, etc. Deve estar no sentimento original, no sentir especial do brasileiro.
Nesse caráter nacional deveria ser inserido o modo brasileiro de utilizar a Língua Portuguesa. Sílvio Romero possuía as mesmas idéias evolucionistas de Júlio Ribeiro. Dessa forma, afirmava que, sendo as línguas organismos que se desenvolvem e se transformam, era natural surgirem diferenças entre o Português do Brasil e o Português de Portugal, uma vez que, cada um deles começou a partir de 1500 a modificar-se independente do outro. Para o crítico, esse fato lingüístico era alvo de discussões calorosas sem motivo. Ouçamo-lo ( id: 109 ):
As alterações da língua portuguesa na América são um objeto interessante de estudo. Não sei porque as questões lingüísticas são às vezes discutidas com a paixão das questões religiosas e políticas. É assim que, de parte a parte, portugueses e brasileiros se tem maltratado, estudando esse assunto. Entretanto os fatos são simples e não reclamam doestos. A língua portuguesa, cuja origem, fosse qual fosse, não vem aqui o propósito indagar, era falada por um pequeno povo na Europa. No século XVI, descoberto o Brasil, passou ela com os colonos a este solo. A corrente bifurcou-se, portanto.
Como as línguas são organismos que se desenvolvem e transformam, esse fato foi se dando no Brasil e em Portugal ao mesmo tempo, isto é, tanto aqui como lá a língua se foi desenvolvendo, ou alterando, como quiserem.
Em razão dessas alterações, o intelectual, como já dissemos, argumentava a respeito da existência do dialeto brasileiro que contava com alterações fonéticas e sintáticas. Suas palavras eram ( ibidem: 111 ):
As alterações de pronúncia são inúmeras. Temos agora um documento para apreciá-las, sem que os portugueses possam reclamar, e vem a ser o novo Dicionário Português de Caldas Aulette. ( ... ) As alterações sintáticas também já começaram a caracterizar-se. As principais versam sobre a colocação dos pronomes; o emprego das preposições a e em; o uso dos diminutivos; a tendência dos portugueses para confundirem o pronome relativo com o recíproco; o emprego dos possessivos, a perda de alguns sufixos na linguagem do Brasil; o quase esquecimento do mais-que-perfeito simples e do futuro do indicativo; o uso de verbos gerais acompanhados de substantivos; a troca do presente do indicativo pelo imperfeito.
Assim, Sílvio Romero assumia as diferenças, no entanto, não as enfatizava como uma nova norma do Português do Brasil. Na verdade, o que o crítico sentia como necessária era a manifestação dessas alterações nos trabalhos de nossos escritores, ou seja, que as personagens de brasileiros se parecessem com brasileiros e fossem referência desse povo e dessa cultura; como já indicamos É mister procurar em toda a vida nacional o elemento vivo, constante, inovador.
Por tudo isso, Sílvio Romero foi intolerante com os falsos “doutores” da Língua Portuguesa. Ouçamo-lo ( op.cit.: 966 ):
O mais interessante neste assunto é a pretensão de purismo, aqui e no reino, da parte de escritorezinhos que nada valem pelas idéias nem pelo estilo ( ... ) Uma gente que confunde despercebido com
desapercebido, haver com avir-se, que não sabe o emprego do
infinitivo pessoal, que não sabe usar do pronome se ; ( ... ) Quando o escritor é, como Bernardo Guimarães, inteiramente despreocupado de purismos, quando escreve conscientemente em dialeto brasileiro, podem-se-lhe desculpar certos erros. Igual desculpa não merece o pretencioso, que afetando correção, diz toliçadas de toda a marca.
Torna-se transparente a hesitação do período em assumir as reais condições brasileiras de educação e de cultura que, como vimos, estava necessariamente vinculada aos padrões e ao comportamento das principais nações européias, portanto, aceitar o comportamento do brasileiro e seu modo de utilizar o idioma nos afastava da civilização, mas, por outro lado, ignorá-los fez crescer os problemas, pois, segundo o crítico, desconhecendo o país e o povo, nossos literatos mantiveram-se afastados da alma nacional.
Assim, quando no final do século XIX as gramáticas e os livros de leitura nacionais passam a ser adotados nos programas das instituições de ensino brasileiras, eles necessariamente deveriam moldar-se ao objetivo educacional brasileiro: a preservação dos privilégios da sociedade aristocrática, afinal como muito bem afirmou Bittencourt ( 1993: 18 ):
o livro didático constituiu-se em instrumento privilegiado do controle estatal sobre o ensino e aprendizado dos diferentes níveis escolares.