De acordo com Alberti (2005), a ciência positivista contribuiu para o preconceito com a história oral. Numa relação com as ideias eliasianas, é possível inferir que devido o seu controle e domínio, os estabelecidos positivistas durante muito tempo menosprezaram as teorias, vistas por eles como outsiders, numa estratégia de consolidar suas ideias, políticas e paradigmas dominantes. No século XIX, a história oral era considerada como uma prática que não tinha rigor científico, por não conter documentos escritos que pudessem ser
comprováveis. Tal preconceito só veio ser amenizado no período pós-guerra, segunda metade do século XX, quando a pesquisa qualitativa começa a ser valorizada na sociedade científica/acadêmica.
Hoje, a história oral, incluindo a história de vida, é utilizada por diferentes áreas das ciências humanas. A pesquisa na perspectiva metodológica da história oral vem se aprimorando e se destacando desde as experiências registradas na escola de Chicago, início do século XX, passando pela década de 60 do século XXI, até os nossos dias com experiências realizadas em países da Europa e na América Latina. Cada área, a partir de seus objetos e objetivos realiza suas pesquisas adequando os princípios metodológicos da história oral.
No Brasil, a iniciativa se consolida a partir do início da década de 70, do século XX, com o programa de História Oral do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV). Esta instituição funciona desde 1973 no Rio de Janeiro, tendo como um dos seus objetivos abrigar documentos para a história brasileira31. A princípio, as pesquisas do CPDOC estavam direcionadas a colher depoimentos da elite política nacional; hoje podemos encontrar em seus documentos assuntos sobre vários aspectos da história nacional e de personalidades de diferentes situações sociais, culturais e históricas das regiões geográficas do Brasil.
Após esta iniciativa e experiência da Fundação Getúlio Vargas acontece uma significativa expansão da história oral no Brasil a partir dos anos de 1990, com produções, publicações e, especialmente, a criação da Associação Brasileira de História Oral (ABHO). Esta associação foi fundada em 1994, com realizações de seminários e com divulgações de pesquisas realizadas através desta metodologia. Na atualidade, esta associação tem realizado o Encontro Nacional de História Oral que está em sua 11ª edição.
Foi o uso do gravador para realização de entrevistas, em 1960, que mais contribuiu para o método de pesquisa da história oral se consolidar, pois é um momento em que o depoimento de uma pessoa, que viveu um determinado acontecimento, começa, no momento da entrevista, a se transformar em documento gravado e posteriormente arquivado para que outros pesquisadores possam utilizar como fontes em suas pesquisas, na medida em que tal registro se aproxima do seu objeto de estudo.
Mas, é importante destacar que, para o estudo em voga, de acordo com a concepção europeia de história oral, não houve necessidade de arquivar suas fontes, suas gravações, para outras investigações. Quando lemos os manuais ou outras produções sobre a metodologia da história oral para realização de uma pesquisa acadêmica, como uma tese, é necessário
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perceber algumas diferenças no percurso metodológico, pois algumas exigências desta metodologia, encontradas nesses manuais, por exemplo, estão destinadas, mais precisamente, a um programa de história oral, o que não é o caso de vários programas de pós-graduação.
Nesta tese não houve necessidade de banco de dados, arquivamento, pois este tipo de pesquisa não faz parte de um programa de história oral, como é o caso do CPDOC. Também, numa tese, são desnecessários alguns passos que um programa de história oral pode exigir. O pesquisador fica livre para utilizá-los ou não. Porém, a grande característica de uma pesquisa desenvolvida pelos aspectos metodológicos da história oral é a realização das entrevistas como fontes orais que vão subsidiar este pesquisador a encontrar seus objetivos.
Os autores Paul Thompson, Verena Alberti e José Carlos Sebe Bom Meihy, que muito nos subsidiaram nesta pesquisa e, juntos, seguem um mesmo pensamento com poucas diferenças, destacam nas suas obras destinadas a divulgar esta metodologia que o principal recurso da história oral é sua identificação com a “outra história”. A pesquisa com esta abordagem metodológica se propõe a dar voz a uma memória e uma história que constantemente é ou foi silenciada nos espaços sociais e educacionais. A pesquisa se vale das suas narrativas visando destacar as experiências vividas por uma pessoa comum e por um coletivo do meio social, que se propõe a transformar suas experiências em documentos históricos. É assim que as fontes orais se transformam em documentos escritos e é desta forma que a história oral se materializa.
Para Alberti (2005, p. 23), “a história oral privilegia a recuperação do vivido conforme concebido por quem viveu”. A história oral, nesta pesquisa, ajudou a recuperar e produzir a versão do que foi vivido pelas pessoas entrevistadas sobre o processo de construção de sua identidade negra, identificando as influências da configuração educacional neste processo.
Para isto, a realização de entrevistas do tipo narrativa foi o ponto central, denominadas como fontes primárias, para a coleta de dados e para responder os objetivos desse estudo, apresentados na introdução desta tese. E, para obtenção de maiores contribuições e informações sobre a história dessas pessoas, ou mesmo como complementação de suas narrativas, tem-se as fontes secundárias, denominadas de fontes escritas ou impressas.
Buscou-se captar experiências vividas pelas pessoas negras que foram destacadas pelas fontes primárias e secundárias através de sua memória individual que interessou a este estudo “por permitir o conhecimento do fenômeno social mais amplo por onde se firma a memória coletiva” (MEIHY, 2005, p. 64). Sobre isto, o referido autor destaca:
fenômeno construído pela força de fatores externos que circunstanciam um determinado grupo, marcando sua identidade. A memória coletiva é reconhecida no cruzamento de temas comuns – identidade – das narrativas individuais (MEIHY, 2005, p. 64).
A partir dessas ideias foi possível entender o que é dito por vários autores: “a história oral é sempre social”, pois é na vida social, na vida comunitária, na relação de interdependência, na relação eu-nós, que as pessoas existem. “As experiências de cada um são autênticas e se relacionam às demais por meio da construção de uma identidade comum”. (MEIHY, 2007, p. 28).
Nesta pesquisa, a opção pela história oral se concretizou, além das características já abordadas, por sua aproximação com as discussões sobre identidade – que é sempre uma construção. Nesta construção, que sofre influência do vivido nos tempos e espaços, uma pessoa pode se apresentar e se identificar através de uma pluralidade de aspectos identitários (ser mulher, ser negra e ser nordestina, por exemplo).
Com este entendimento, através da história de vida fomos à busca da subjetividade atenta ao que foi vivido e percebido pelas pessoas negras doutoras nas suas relações de interdependências, muitas vezes constituídas pela cor da pele, pelos preconceitos sofridos, pelas opções políticas ou por tantos outros aspectos de identificação destes indivíduos na sociedade.