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EVENEMENTS RECENTS ET PERSPECTIVES

III. PRESENTATION D’ATLANTA

III.6 EVENEMENTS RECENTS ET PERSPECTIVES

A propriedade Família Klasen – Queijaria e Artesanato em flores

rodovia RS 265 e andar cerca de 1 km em uma estrada vicinal, na qual podem ser observadas extensões de terra destinadas ao cultivo de fumo.

Ao lado da primeira porteira encontra-se a sinalização turística do roteiro a qual indica a propriedade. Passada a porteira, percorrem-se mais alguns metros até se chegar a um cercado, onde está a residência da família, a agroindústria e outras instalações rurícolas.

O proprietário é casado e reside com sua esposa na propriedade. Sua filha reside na área urbana de São Lourenço do Sul. Ele é agricultor e seu grau de escolaridade é o ensino fundamental incompleto. A família não possui ascendência pomerana, seus ascendentes vieram da Alemanha, no entanto o proprietário não soube identificar de qual região.

Figura 44: Propriedade da Família Klasen

Fonte: Magda M. Spindler (2012)

A propriedade possui 16 hectares, encontra-se há três gerações na família e nunca foi dividida. São exercidas na propriedade atividades agrícolas, agricultura ou pecuária, produção destina ao consumo externo, por meio da comercialização feita junto à feira do produtor rural, na Praça Dedê Serpa, nas quartas-feiras e nos sábados pela manhã na área central de São Lourenço do Sul.

Essa propriedade retrata muito bem o espaço rural: figueiras, açudes, coxilhas50 e uma grande variedade de animais de diferentes portes e espécies como gansos, patos, marrecos, perus, galinhas, angolistas, cabritos, vacas, além de animais domésticos como gatos e cachorros. Estábulo, galinheiro, forno a lenha entre outras instalações características também podem ser encontradas na propriedade.

Figura 45: Área interna ao cercado.

Fonte: Magda M. Spindler (2012)

A visitação turística ocorre desde 2006 e ela acontece principalmente dentro desse cercado, onde além da residência, encontra-se também uma área coberta com dois banheiros e um pequeno espaço destinado ao varejo. Dentro desse cercado há árvores frutíferas, em alguns troncos ocos, galinhas e gansos fazem ninhos para lá depositar seus ovos. Não há canteiros com flores, apenas alguns vasos com flores e folhagens. Também não há gramados neste espaço da propriedade, o chão é batido. Igualmente instalada nesse cercado está a agroindústria destinada à produção de queijos.

Na propriedade da Família Klasen além das atividades agropecuárias, são igualmente desenvolvidas “atividades externas à agropecuária” (VEIGA, 2002, p. 206). Dessa forma, a combinação das atividades agropecuárias, com as da agroindústria e do turismo consolida a presença de pluriatividades

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Extensão de terras com contínuas e pequenas elevações na qual é comum a atividade pastoril (pecuária).

(SCHNEIDER, 2003). A variedade das atividades, agrícolas e não agrícolas, as últimas caracterizadas por sua diversidade frente às atividades corriqueiras do espaço rural, permitem novas oportunidades de renda aos moradores rurais. O proprietário inclusive relaciona os bons resultados da atividade turística na propriedade com as demais atividades que realiza:

Aqui está ótimo! [são ótimos porque] eu faço feira na praça, mas conhecido ficou, a gente já era assim... muita gente, turista, vem lá da cidade turística aí o pessoal tudo já conhece, já conhece sabe, [...] os que vem de fora também já, tudo que é lugar vem... e aqui também, os grupo que vem de Rio Grande compram muito (Proprietário).

Na propriedade, os turistas têm contato com os animais, desde filhotes até a idade adulta, situação que segundo o proprietário atrai os turistas: “o pessoal não vê isso mais, um pátio com tudo assim, tudo que é criação, solto...”

Figura 46: Turistas com os animais da Propriedade Família Klasen

Fonte: SETUR São Lourenço do Sul (2012)

No decorrer da visitação à propriedade, os turistas recebem explicações sobre o processo de fabricação dos produtos coloniais, participam de degustações de sucos, queijos, linguiça, produzidos na própria propriedade ou por outros integrantes da Associação Caminho dos Pomeranos, além de terem a possibilidade de aquisição desses diferentes produtos: “tem bolachinha, linguiça eu pego do açougue ali embaixo e seco elas bem, ovo,

galinha... se tem, e eles querem, tem! Criação eles querem, se tem galinha caipira...” (Proprietário).

Entre as diversas opções de produtos, da propriedade ou de outros associados, está o peito de ganso, produzido na propriedade e considerado como “iguaria para incrementar o turismo” (PGQP, 2007). O ganso chegou a ser cogitado para se tornar símbolo do roteiro:

‘O ganso poderá se tornar um símbolo do Caminho Pomerano’, explica o secretário de Turismo, Indústria e Comércio de São Lourenço do Sul, Zelmute Oliveira. Ele refere-se ao roteiro turístico lançado em novembro de 2006 que exibe a herança cultural de imigrantes da Pomerânia [...] De acordo com o advogado e pesquisador da história de São Lourenço do Sul, Jairo Scholl Costa, o peito de ganso defumado chegou ao município junto com as primeiras levas de imigrantes pomeranos, em 1858. A iguaria costumava ser servida na Europa, juntamente com o caviar e o salmão, nas mesas mais requintadas do Mar do Norte e do Mar Báltico. [...] Os pomeranos [...] sempre foram mestres na arte de preparar a parte mais nobre do ganso. O peito da ave é deixado na salmoura por dois ou três dias e depois é defumado durante o mesmo tempo. A carne assume uma coloração dourada. É servida em fatias, como uma fatia de presunto ou copa (PGQP, 2007).

Nesse sentido, o peito de ganso poderia se tornar o produto símbolo do roteiro como proposto pelo proprietário da Casa da Schimier. Contudo, para isso fazem-se necessários incentivos, de toda ordem, especialmente para a expansão da criação de gansos, pois como relata o proprietário “eu nunca tenho de chega!”.

Ele explica que no decorrer do ano de 2012 abateu mais de uma centena de gansos, mas que a produção já está quase findando: “É eu tinha feito peito de ganso, mas agora só tem coxinha, o resto já... matei mais de cem gansos e já foi tudo! É que ninguém produz mais, muita pouca gente que cria” (Proprietário).

O proprietário destaca apenas a produção feita por uma vizinha, “tem a Romilda que faz pra feira”. Costa (2007, p. 51) explica que ela “é associada à Associação Caminho Pomerano, fornecendo seu produto para consumo no café colonial ou almoço do roteiro, ou para degustação em eventuais feiras de turismo”.

Figura 47: Proprietário com as coxinhas defumadas de ganso

Fonte: Magda M. Spindler (2012)

Independente de se tornar ou não o produto símbolo do roteiro, em São Lourenço do Sul, acontece desde 1980 a Südoktoberfest. A comissão organizadora elegeu a imagem de um ganso como mascote da festa, referenciando mesmo que indiretamente o peito de ganso defumado (spickbost, em pomerano) produzido na área rural do município. A figura 48 apresenta o mascote da festa, referenciando-se assim ao “prato típico da cultura pomerana” (SÜDOKTOBERFEST, 2012).

Figura 48: Cartaz da 25ª edição realizada em 2012

O proprietário descreve também que aprendeu com seus antecessores a preparar a carne do peito de ganso defumado, o qual demanda em torno de 10 dias para ficar pronta.

Isso eu aprendi desde os antigos, desde antigamente. Como eu digo: o cara sempre veio seguindo do tempo, da vó e... [...] como eu digo, se eu to com vontade de comer uma galinha hoje eu mato, só que o ganso não é tão bom, o ganso melhor época é matar em maio, maio adiante, junho, julho, agosto... [...] Porque eles faziam antigamente o peito de ganso? Aquilo eles guardavam, durava o ano inteiro, que nem charque [...] Eles faziam em maio, aí durava o inverno, era mais comido no inverno, eles tinham comida no inverno inteiro [...] o processo é o mesmo [daquele de antigamente], botava no sal, deixava uns 4, 5 dias, uma semana, pendurava, deixava na fumaça que nem linguiça, que nem charque... (Proprietário).

E assim, no final de todo o processo tem-se:

[...] para consumo uma peça dourada pela gordura por fora e cor rubi por dentro, que é cortada em finas fatias e servida sobre fatias de pão preto, acompanhados de vodka, schnapps ou outro tipo de aguardente (COSTA, 2007, p.50).

A preocupação com os alimentos, especialmente durante o inverno pode ser observada na fala dos dois últimos proprietários. Outrora existia o cuidado de manter os alimentos em caldas no caso de frutas, em conservas, na própria gordura ou ainda defumados, como no caso das carnes. Dessa forma aumentava-se a durabilidade dos alimentos, visto que não existia refrigeração. O proprietário conta que o consumo de carne de ganso é um hábito comum em sua família, assim como o de galinhas. Apesar disso, ele relata não ser uma atividade fácil em virtude das particularidades dessa criação:

Sempre fazia pra gente comer, depois comecei com a feira, Caminho Pomerano e seguindo com isso... O grande problema é que o gansinho não é como a galinha, não consegue criar todo o ano, ela põe como agora, chocaram, mas morreram muito dentro da casca, muita tormenta e aí é um grande problema. [...] esse ano tenho trinta filhotes a recém, mas tem um eito chocando também, não é como galinha que tu pode chocar o ano inteiro [...] prá matar também, é de maio até agosto [...] ele não engorda fora de época [...] é cheio de grau o bicho! Risos... (Proprietário).

Em relação à outra atividade anunciada na placa de identificação da propriedade, o artesanato em flores secas, a atividade era realizado pela filha

do proprietário. Em virtude de sua mudança para a área urbana do município ela não deu continuidade à atividade que aprendeu com uma madrinha. A suspensão dessa atividade e a mudança no local de residência muito provavelmente se deram motivadas pela busca de melhores condições de vida como aponta Elesbão (2010).

Na Pomerânia, as agricultoras e as crianças tinham como hábito colher flores entre os meses de maio a outubro (primavera, verão e outono no hemisfério norte), porque depois, o inverno rigoroso tornava as flores escassas no campo. Elas então se dedicavam a secar as flores, para então ornamentar os altares das igrejas e as casas durante todo o ano (POMERANOS, 2012). Atualmente alguns exemplares de arranjos ainda encontram-se expostos no espaço destinado ao varejo. Há também alguns canteiros, designados ao plantio dessas espécies de flores.

Figura 49: Arranjos confeccionados com flores secas

Fonte: Magda M. Spindler (2012)

No que diz respeito à sua inserção no roteiro, o proprietário relata que participa desde o início, incentivado especialmente pelo prefeito na época, destacando que no princípio “tinha curso do SEBRAE51

[...] sobre turismo rural, fizemos também boas técnicas [...]” (Proprietário).

prefeito ajudou e nós já tava meio assim [...] Nossa cidade é turística e aí botaram o Caminho junto. [...] Nós juntamos primeiro a Associação e depois o Roteiro mais ou menos e depois nós fizemos a Associação pra organizar os papeis tudo assim [...] Tem uns quantos associados, são uns, até nem sei mais quantos são, são uma turma, logo na saída tinha uns 40, 50 sócios quase. [...] Os mesmos que estão segurando as pontas são, somos nós do roteiro, que recebemos (Proprietário).

Quando questionado sobre as dificuldades encontradas ao longo dos anos, o proprietário narra que o desenvolvimento foi de maneira lenta “é que nós fomos devagar pra não deixar a peteca cair”, o que pode ser remetido às palavras de Fávero (2004) quando a autora destaca a instrução transmitida aos empreendedores de outro roteiro, no sentido de evitar amplos investimentos na fase inicial, em virtude da incerteza de fluxos turísticos, e do consequente retorno a médios e longos prazos.

E sobre os rendimentos, o proprietário finaliza: “Foi uma boa sim, mas lucratividade não é tanto assim, como eu digo, uma coisa puxou a outra”, referindo-se as diversas atividades, agrícolas e não agrícolas, que ele e sua família desenvolvem.

Na propriedade Família Klasen – Queijaria e Artesanato em flores secas, além de apresentações sobre modos de saber-fazer, correspondentes ao preparo de queijos e processos de defumação, degustações de produtos coloniais, varejo e contato com animais são oferecidos aos turistas. A recepção e condução dos turistas durante a visitação na propriedade é realizada pelo proprietário e sua esposa, que por vezes são auxiliados por vizinhos. A visitação na propriedade tem duração média de trinta minutos.

Para chegar às demais propriedades, precisa-se retornar até a rodovia RS 265, para então alcançar o acesso à localidade de São João da Reserva, localidade que também teve importância no processo de colonização empreendido por Rheingantz.

[...] na Reserva Jacob Rheingantz manda construir um grande galpão de madeira, por isso se chama de Reserva, aquele distrito, porque ali ficava reservado para receber a leva de alemães que chegavam até ser demarcado a sua terra, fazer uma choupaninha, então essas famílias irem para as suas terras, por isso que se chama Re-ser-va. (Sujeito 14).

Já nas últimas décadas do século XIX, o povoado de São José da Reserva foi elevado à condição de freguesia, e posteriormente à condição de vila. Essa condição possibilitou à localidade um desenvolvimento ímpar se comparado às demais localidades que integram o roteiro.

Figura 50: Localidade de São João da Reserva, 6º distrito do município.

Fonte: Magda M. Spindler (2013)

Atualmente São João da Reserva possui um hospital que atende não apenas pessoas da localidade, mas também de outras localidades de São Lourenço do Sul e municípios vizinhos, duas funerárias, posto de correio, farmácias, mercados, entre outros serviços. Como destaca Trevizan, nesta localidade ocorreu a inserção de “serviços públicos que antes eram exclusivos da cidade, [que] vão ocupando espaços rurais como energia elétrica, água encanada, tratamento sanitário, saúde, educação, transporte público” (2006, p. 7). Cabe destacar que, da estação rodoviária de São Lourenço do Sul, partem ao longo do dia, várias linhas de transporte coletivo, as quais atingem diferentes distritos, dentre os quais São João da Reserva.

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