CHAPITRE IV - LES COMPORTEMENTS ET LES ATTITUDES
III- LE QUESTIONNAIRE D’ENQUETE SOCIOECONOM IQUE
2. Evaluation du questionnaire
A falta de vitalidade grassava em todos os domínios no Ocidente muçulmano. A história do Magreb sob os Marínidas, os Zaiânidas (‘Abd al -Wādid) e os Hafés- sidas, isto é, até as últimas décadas do século XVI, é de uma lenta paralisação. Não nos cabe aqui seguir a evolução dessa letargia geradora de decadência, fenômeno capital, porém ainda não suficientemente estudado. No entanto um fato é certo: enquanto no Ocidente cristão ocorria verdadeira explosão demo- gráfica, o Ocidente muçulmano se despovoava. Esse declínio demográfico já era sensível em meados do século XI e parece ter atingido seu nível extremo na metade do século XIV. Ibn Khaldūn observou o fenômeno e apontou -o, com
razão, como um dos elementos decisivos da regressão e da morte das civilizações. A agricultura e principalmente a arboricultura recuavam; o nomadismo se alas- trava. Cidades e aldeias desapareciam ou se despovoavam. Kayrawān, que contava centenas de milhares de habitantes nos séculos IX e X, transformou -se numa cida- dezinha. Leão, o Africano12, assinala que em Bidjāya só havia 8 mil lares, quando
a cidade podia comportar facilmente 24 mil. Extrapolando – por não dispormos ainda de estudos de demografia histórica, indispensáveis para o entendimento desse período –, podemos estimar que a população do Magreb reduziu -se a um terço. Por quê? As pestes – que não são apenas causas, mas também efeitos – não constituem motivo suficiente. Em todo caso, o declínio demográfico violento sofrido pelo Magreb explica melhor do que qualquer outro evento – que certa- mente seria apenas um epifenômeno – o crescente desequilíbrio entre o norte do Mediterrâneo, onde, como notou Ibn Khāldun13, despontava a Renascença, e o sul,
progressivamente mergulhado nas sombras até a Nahda contemporânea, acom- panhada – fortuitamente? – por uma explosão demográfica, que ainda prossegue. A arquitetura do Magreb, principalmente a do Marrocos e da parte ocidental da Argélia, continuou a sofrer influências andaluzas (de Granada). Estas influên- cias são menos manifestas na IfrĪkiya, onde se conservam relativamente poucos monumentos haféssidas. Os grandes construtores da época foram os Marínidas. É impossível citar todas as suas obras. Observemos apenas que o século XIII foi marcado pelo surgimento de novo tipo de monumento de inspiração oriental: a madraça, instituto de estudos islâmicos. Em geral, seu projeto é bastante simples: um pátio interior, cercado de galerias, com uma fonte no centro, para onde se voltam os quartos dos estudantes. Num dos lados há um grande salão dotado de um mihrāb, que servia como sala de aula ou oratório. Todas as capitais do Magreb e muitas cidades importantes tiveram suas madraças. A mais monumental é a Abū ‘Ināniyya de Fés (1350–1357). Outro tipo de edifício que surgiu na época foi a zāwiya, sede de congregação e santuário fúnebre do santo fundador. A arte magrebina pós -almóada pode ser considerada da maturidade; representa certo classicismo. Embora tecnicamente perfeita, não aponta nenhuma evolução, per- manecendo num estado de estagnação rígida, que anuncia sua decadência.
A cultura sofre do mesmo mal. Ibn Khaldūn observa, com sua perspicácia habitual, que em seu tempo o “mercado do saber estava em pleno marasmo no Magreb”; adiante, no capítulo consagrado às ciências exatas, acrescenta que estas, principalmente, “haviam quase desaparecido e só eram cultivadas por raros indi-
12 LEÃO, o Africano, trad. francesa, 1956, v. 2, p. 361. 13 IBN KHALDūN, trad. francesa, 1956 -1959, p. 700, 866.
víduos, que sofriam a censura dos doutores ortodoxos”14. Atribuía esta situação
ao declínio da civilização e à diminuição da população (tanākus al -‘Umrān). O marroquino Ibn al -Bannā’ (1256–1321) foi o último matemático de valor, e Ibn al -Kammād, da IfrĪkiya, o último astrônomo. Na filosofia, pode -se citar al -ābilĪ (1282 -1356), de Tlemcen, cujo principal mérito foi ter contribuído para a formação de Ibn Khaldūn. O mestre da geografia descritiva na forma de relato de viagem (rihla) – foi o marroquino Ibn Battūta (1304- c. 1377), que visitou a Índia, a China e a África, e cuja competência ultrapassava, de longe, a de seus êmulos e contemporâneos al -‘AbdarĪ, Khālid al -BalawĪ e al -TĪdjanĪ. Não é possível citar todos os historiadores – entre os quais se destaca a figura de Ibn Khaldūn (1332 -1406) – nem todos os hagiógrafos, biógrafos e antologistas. Não faltaram poetas nem tampouco prosadores, mas a época que ora tratamos, apesar de alguns trabalhos bem-sucedidos, foi marcada pela decadência. Continuava -se, naturalmente, a compor kasīda, panegíricos cada vez mais pomposos, que hoje nos parecem ainda mais ridículos por deformarem grotescamente a realidade. Também se escreviam rithā15, uma efusão de lágrimas de crocodilo derramadas
sobre os poderosos, raramente de inspiração em dor verdadeira. As pessoas se deliciavam com o gênero descritivo. Adorava -se evocar a beleza efêmera de um lírio ou flor de amendoeira e gemer com a na’ūra (roda -d’água). Cantava -se o amor místico, mas também o vinho, e as pessoas deixavam -se embalar pelo charme equívoco da poesia erótica, onde, com frequência, a silhueta da amante confundia -se com a de um jovem efebo. Temas que há muito haviam se tor- nado clássicos eram tratados sem nenhuma originalidade. Faziam -se “versos antigos” sem “novos pensadores”. Havia -se esgotado a seiva, mas o ofício con- tinuava perfeito. O que as pessoas saboreavam era a delicadeza do artista ou a habilidade do menestrel. Gostavam de ouvi -lo desfiar lugares -comuns, que consideravam, de boa vontade, obras -primas, desde que a forma fosse perfeita. Era a literatura de uma classe refinada, refugiada nos perfumes, ou no éter do passado. Literatura onde o verso e a prosa – frequentemente misturados em ternas epístolas – eram bibelôs finamente cinzelados, bibelôs cujo desenho e graça evocavam irresistivelmente os frágeis e graciosos arabescos que ornavam os palácios e as habitações burguesas. Formas estagnadas e decadentes, porém reflexos de uma cultura real, a da burguesia urbana. Nunca, talvez, os livros e as bibliotecas foram tão apreciados. O ensino, incluindo -se aí a educação das
14 Ibid., p. 789 e 866.
15 A palavra rithā designa um gênero elegíaco, de estilo muitas vezes convencional; esse gênero triste e lamentoso é mais conhecido como marthiya.
mulheres, era bastante difundido. Adorava -se a música, com certeza já dominada pela influência andaluza – o mālūf. Leão, o Africano, observa a respeito de Tadelles (Dellys): “As pessoas são amáveis e levam vida alegre. Quase todos tocam bem o alaúde e a harpa”16; e acrescenta adiante: “Os homens
de Bidjāya são homens agradáveis. Adoram divertir -se: todos sabem fazer música e dançar, principalmente os senhores”17. Foram os últimos raios de
uma civilização crepuscular.