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E. Evaluation

A Lógica da Filosofia (LF, 2012) foi apresentada em 1950, como tese principal, tendo o júri de avaliação presidido pelo professor Alphonse de Wahl. No mesmo dia, Éric Weil

apresentou o texto Hegel e o Estado como tese complementar.72 A Lógica da Filosofia é o

núcleo do pensamento de Éric Weil, seja porque trata dos temas centrais, que serão desenvolvidos em outras obras, seja porque desenvolve uma metodologia. Weil não pensa uma doutrina em particular, mas uma forma de ler o problema da filosofia. Em outras palavras, a Lógica da Filosofia é uma “filosofia da filosofia”73.

A interpretação da obra demonstrou diversas maneiras de lidar com o texto. A Lógica da Filosofia foi abordada na sua tensão fundamental entre Filosofia e Violência (PERINE, 1987), seja a partir do estudo das categorias do Sentido e da Ação (SOARES, 1998; CANIVEZ, 1998), ou da relação entre a Violência a Sabedoria (SANOU, 2008); seja na dinâmica interna do sistema e sua abertura como característica radical (KIRSCHER, 1989, 1992), ou ainda das relações complexas entre um conceito norteador, como a atitude, um problema fundamental, como a violência e a reflexão política, com o Estado Mundial (COSTESKI, 2009). Finalmente, o pensamento de Éric Weil na Lógica da Filosofia também foi interpretado na sua contemporaneidade seja como abordagem da linguagem e da hermenêutica (BERNARDO, 2003), seja como diálogo vivo com pensadores atuais (GANTY, 1997).

A Lógica da Filosofia, em sua composição, conta com 18 categorias, a saber, Verdade, Não Sentido, O Verdadeiro e o Falso, Certeza, A Discussão, O Objeto, O Eu, Deus, Condição, Consciência, Inteligência, Personalidade, O Absoluto, A Obra, O Finito, A Ação, Sentido e Sabedoria, além da Introdução.

É conhecida a afirmação de que a Introdução à Lógica da Filosofia é um “livro

autônomo” de dimensão inusual74, sendo 86 página na versão original francesa e 128 na

72SOUTENANCE DE THÈSE. Revue de Métaphysique et de Morale 56, 1951, p. 445.

73 Jolif (1970, p. 24) usa a expressão “fenomenologia da filosofia” se referindo à Lógica da Filosofia. O próprio

autor admite que o termo fenomenologia “recebe tantas acepções diversas” e “seu uso encobre um domínio tão heterogêneo” que leva a uma “vulgarização por vezes suspeita até a mais elevada tecnicidade”. Tomamos a expressão filosofia da filosofia na expectativa de alcançar mais clareza e de evitar as conotações que o termo fenomenologia tem. Não compartilhamos com o entendimento do autor de que a Lógica da Filosofia teria o sentido hegeliano. Segundo Jolif, tratando sobre a questão de uma fenomenologia da filosofia: “A obra de Éric Weil é talvez, a única fenomenologia da filosofia de que dispomos atualmente: mas, como assinala o título, esta fenomenologia é uma lógica tomada no sentido hegeliano.” (Id., Ibid., p. 24).

74“A Introdução apresenta o problema da LP sendo, praticamente, um livro à parte.” Nas palavras de Robinet

(2004, p. 278) ou segundo Perine (1987, p. 125): “A introdução da Lógica da Filosofia tem como título geral “Filosofia e Violência”. Para bem compreender essa introdução é importante ter sempre presente que não se trata propriamente de uma introdução à Lógica da Filosofia, mas de um texto que serve de introdução a um outro texto que se chama Lógica da Filosofia. Essa introdução não é uma obra dependente do livro que ela introduz, mas uma

tradução em língua portuguesa e essa, entre outras características, lança a questão de por que tal situação, ou ainda, qual o lugar e importância desse texto?

A Introdução é um texto que não tem dependência direta com o do Lógica, de modo que seja uma introdução, propriamente. Ou seja, ela introduz o filosofar próprio da Lógica, sendo reflexão, exposição mais literária e discursiva do que está na Lógica, enquanto doutrina estruturada de modo concentrado. (BOUILLARD, 1977, p. 545). Ela é caminho pedagógico para o sistema das categorias.

Sabe-se que o texto foi pensado primeiro como um livro à parte com o título de Filosofia e Violência e, só depois, veio a ocupar o lugar de uma Introdução (PERINE, 1989, p. 89). Nas

palavras de Taboni, a Introdução é um “[...] post-scriptum colocado como pré-scriptum.”

(1984, p. 29s)75

Qual o sentido dessa posição? Essa situação leva a uma perspectiva de leitura da Introdução e também da Lógica. Esta, enquanto sistema de categorias, não tem introdução. Há a indicação metodológica de que todo livro filosófico só é compreensível na sua segunda

leitura.76 Então, ao mesmo tempo, a Introdução como uma segunda leitura, leva o leitor ao

problema, sendo ela também introduzida pelo sistema de categorias. Ela é condução ao problema do sistema e é também introduzida pelo sistema. Ocorre que a Introdução à Lógica da Filosofia é uma reexposição, mas não apenas uma nova exposição pedagógica dos problemas. Ela é uma reexposição problemática dos problemas. Seria mais uma problematização da Lógica da Filosofia do que uma hermenêutica, uma interpretação da doutrina.

Tomemos de outro modo a questão: por que uma Introdução como a que foi escrita para a Lógica da Filosofia?

A Introdução trata de uma exposição no modo da vida ordinária daquilo que está no

discurso filosófico. Ela restitui o discurso filosófico à vida corrente77. E essa dinâmica se dá

espécie de obra autônoma, uma espécie de posfácio colocado no início, não para introduzir a lógica da filosofia, mas para iniciar o filosofar.”

75 Acrescentando: “nascida como post-scriptum e posta como prólogo à doutrina das categorias, ela é ao mesmo

tempo condução à doutrina do texto e doutrina ela mesma, texto autosuficiente: ela é na verdade protréptica em relação ao sistema e verdadeira doutrina por ela mesma.” (1984, p. 29s)

76A simples introdução ao sistema se encontra, portanto, em seu fim, e consiste na justificação da escolha que foi

feita no início. Ela se confunde com a prova da circularidade. Isso implica que “todo livro filosófico só é verdadeiramente compreensível na segunda leitura.” (LF, 2012 p. 620).

77Segundo Taboni: "A Introdução restitui o sistema, a filosofia, à vida corrente, ao jogo vivo da linguagem, onde

os conceitos e retomadas estão sempre em movimento, face e depois da exposição na qual o sistema “ categorizou” o todo e a substância desse jogo que continua jogo e sistema aberto, porque segundo Weil – diferente de Kant e como Hegel, ao contrário, já tinha compreendidi – o discurso e os conceitos não param , não se podem pará-los. Cf: Taboni (1982, p. 35).

não porque ela acrescenta algo novo à doutrina, mas pelo fato de ver o outro que a doutrina contém. Ou seja, ela busca relacionar o texto da Lógica à história e ao cotidiano, insere as categorias na história e no contexto, de modo que a Lógica é problematizada em circunstâncias e não em especulação.

O ponto de partida da Introdução é o homem ordinário, partindo Weil de uma questão antropológica (SOARES, 1998, p. 17-19). Como se dá? Weil parte do questionamento a respeito do homem como o próprio homem comum toma esse problema, ou seja, a partir da compreensão que ele tem de si mesmo.

A estratégia é “[...] mediar indivíduo e discurso, elevando linguagem de indivíduo ao discurso coerente de homem que pensa e se pensa.” (KIRSCHER, 1989, p. 20). A dinâmica

própria que apresenta a Introdução parte da questão sobre o “sentido da definição sobre o

homem” (LF, 2012, p. 11-14) e avança até o sistema que tem a peculiaridade complexa de por um lado conter os quadros conceituais que permite a inteligibilidade da história da filosofia e, por outro lado, o traço de impedir que esses mesmos quadros se reduzam a uma apresentação cronológica de sistemas.

O texto da Introdução está intimamente ligado ao sistema. De uma parte, pela relação

circular de introduzir e ser introduzida pela Lógica da Filosofia. De outra forma, fazendo “a

apresentação da filosofia geral”(KISRCHER,1989, p. 15), estando no núcleo mais duro do pensamento weiliano.

Nossa perspectiva heurística para compreender a obra de Weil trata de posicionar conceitualmente o sagrado. Para tanto, partimos de uma leitura da estrutura da Introdução para se obter uma conceituação contextualizada do sagrado.

A Introdução é dividida em três grandes partes78. A primeira trata da Reflexão sobre a

Filosofia (LF, 2012, p.11-36) e subdividida em: 1. O homem como razão e 2. O homem como violência. A segunda grande divisão, Reflexão da Filosofia, e tem as subdivisões: A lógica da comunidade, O discurso do indivíduo e o ser, O saber do ser e a ciência daquilo que é: teoria e práxis e, por fim, a terceira grande parte: Filosofia e Violência, com as respectivas

78 Observe o quadro abaixo:

Reflexão sobre a Filosofia Reflexão da Filosofia Filosofia e Violência

Universal Particular Singular

Nossa hipótese é que o conceito do sagrado, situando-se na particularidade, no momento do conflito, situa-se no momento da Reflexão da Filosofia, na sua inserção na vida da comunidade. De acordo com o que temos apresentado no desenvolvimento do conceito de sagrado nos diversos textos, essa posição e seu significado é uma constante.

subdivisões: A violência e o discurso, A verdade e a violência e A Lógica da Filosofia e a violência da história.

I Reflexão sobre a filosofia: O homem como razão

A discussão sobre o homem como razão trata do ponto de partida antropológico da obra

de Weil, a Lógica da Filosofia. A definição é fundante – o homem como ser de razão e de

linguagem. No entanto, a acentuação que se dá à situação do homem com relação aos elementos da definição não é de posse, antes de grau (LF, 2012, p. 12).

A definição para Weil não tem características descritivas, mas uma caracterização moral. Ou seja, o homem não dispõe da razão, como um posse garantida, como um objeto que tem à mão, mas deve dispor para ser plenamento homem, de modo que o homem desenvolve- se enquanto desenvolve a razão. Enfim, a definição não é dada para que se possa reconhecer, ou conhecer, mas, no caso humano, como definição antropológica, para que se possa realizar.

O homem, embora essencialmente razão, não é concretamente razão, mas deve ser, se quer ser homem pleno. O homem quer, deseja ultrapassar a necessidade de sua natureza e formular novas necessidades, desejos. De outro modo, o homem tem necessidades, marca de sua natureza e desejos, marca de seu ultrapassamento da natureza. Ocorre que esse desejo se volta para o que não o satisfaz absolutamente, ou seja, ele deseja algo para expressar que ele não sabe ao certo o que deseja. O objeto de seu desejo não é definido. Ele é razão, isso é certo, mas ele também é linguagem, como tentativa de expressão ou de definição do objeto do seu desejo.

O homem é o ser que, por meio da linguagem, da negação do dado (negação que ele expressa e da qual, consequentemente, ele dispõe, que não é, ela própria, um modo de transformação dado de uma vez por todas), busca a satisfação; mais exatamente – pois não temos a mínima ideia do que a satisfação poderia ser -, busca libertar-se do descontentamento. (LF, 2012, p. 19).

Razão e linguagem exprimem o ser humano não como um definição, mas como uma abertura. A realidade humana nunca está decidida de uma vez por todas, mas, contrapondo-se à realidade do mundo animal, o homem revela-se como ser essencialmente aberto. Não há um sistema instintivo ou uma predeterminação para compreender o homem. Esse traço é uma experiência originária, ou seja, o homem tem de conquistar seu ser no mundo. Ele se faz e se

compreende, desde que opte por tal, em sua ação no mundo. Razão e linguagem – o homem se

compreende como animal razoável. Com esse traço circular da definição, Weil passa então ao

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