As peripécias de Macunaíma são a todo instante marcadas por momentos atemporais e “desgeográficos”, ou seja, momentos os quais não conseguimos medir com exatidão o tempo e o espaço percorridos pelo herói. Esta peculiaridade assumida por Mário de Andrade na construção do ambiente tem sido comumente apontada pelos críticos, como veremos adiante.
A noção de espaço e tempo indefinidos foi pontuada por Tristão de Ataíde em “Macunaíma” (1928). O crítico chama a atenção para a desordem “desejada” dos elementos espaciais, inclusive confirma esta característica da obra com uma passagem do primeiro prefácio de Mário de Andrade: “Um dos meus interesses foi desrespeitar lendariamente a geografia e a fauna e flora geográficas.”.
Ronald de Carvalho (1928), sem citar qualquer trecho da obra que confirmasse sua posição, também tocou neste ponto ao caracterizar o herói: “Macunaíma transcende o espaço e o tempo. Suas dimensões excedem a realidade. Por isso, ele constitui um espetáculo permanente, que se ali- menta da substância universal, e que se desloca em planos espaciais e temporais, [...]” (p. 21).
Nestor Vítor (1928) em seu artigo “Macunaíma, o herói sem nenhum
caráter”, recorre ao mesmo “processo onírico” que utilizou para explicar composição dos personagens em Macunaíma, para justificar a disparatada disposição espacial e geográfica na obra. Comenta que para os personagens que compõem “essa fauna supostamente humana o espaço e o tempo a que vivem sujeitos não existem. De um instante para outro eles se transportam a distâncias enormes”. E esta descaracterização de espaço e tempo, segundo Nestor Vítor (1928), permitiu a Mário de Andrade a desregionalização de sua criação e ao mesmo tempo “o mérito de conceber o Brasil como entidade homogênea, um concerto étnico nacional e geográfico”.
Um dos poucos pontos elogiados por João Ribeiro (1928), é justamente a oportunidade que a obra concede de se realizar uma leitura aleatória dos capítulos por conta da “desordem” temporal e espacial instaurada pelo autor. O crítico assim se expressa:
Não há maior delícia que a de ler, aqui e ali, sem ordem que não há, como se fosse uma coletânea ou seleta de excertos curiosos, de diante para trás ou de trás para diante, sem momento definido.
É um livro voluntariamente bárbaro, primevo, espécie de fragmentos desconexos que escaparam e foram reunidos por um comentador reduzido à inépcia de qualquer coordenação. (RIBEIRO, 1928, p. 21).
Passados cinco anos de espera, Luís da Câmara Cascudo (1934) quebra o jejum. Em “Mário de Andrade”, artigo publicado no Boletim Ariel (RJ), percorre a produção de Mário de Andrade, inicia por Há uma gota de
sangue em cada poema (1917), passa por Amar, verbo intransitivo (1927), encontra com Macunaíma (1928) e elogia a construção sem precedentes, empreitada por Mário de Andrade cujo resultado da obra deixou o erudito, segundo Cascudo (1934, p. 234), “um horror de tempo procurando identificar os tacos de onde Mário erguera o livro esplêndido”. Segue caminho até 1934, para falar da última produção de Mário de Andrade, até então – Música, doce
música – sobre a qual se estende um pouco mais. No trecho abaixo, o crítico comenta rapidamente sobre as tentativas de explicação para a obra e elogia a construção tempo/espaço:
Mário teve o maior trabalho deste mundo em fazer a confusão geográfica do Macunaíma e costurar as estórias gaúchas com as acreanas, as paulistas de Sorocaba com as norte-rio- grandenses de Caicó. Bateu, misturou e serviu. (CASCUDO, 1934, p. 234)
O comentário de Cascudo reitera nossas posições a respeito do despreparo e do estranhamento dos críticos diante de Macunaíma, que acabaram recorrendo a ironias e paradoxos para tentar explicar o que, naquele momento, era inexplicável.
Mota Filho (1946), ao atentar para o tempo histórico, considera Macunaíma atemporal, diferenciando-o de Dom Quixote e Gargantua. Não aponta como ocorre a construção do espaço e tempo nas obras de Cervantes e de Rabelais, apenas mostra que Macunaíma ora está “no canto da maloca, trepado no jirau” (p. 134), ora está “na cidade moderna, entre arranha-céus, nas ruas movimentadas” (p. 134).
A ordem espacial e temporal é reiterada por Florestan Fernandes em seu artigo “Mário de Andrade e o folclore brasileiro” (1946), no qual enquadra Macunaíma como um “herói mítico” que vive num clima onde espaço e tempo são irreversíveis e imponderáveis. Toma como exemplo, a própria morte de
Macunaíma que aparece, assim como nos lembrou Cardozo (1945), como um meio de retorno à vida e eternização heróica – o herói se transforma na Ursa Maior.
2.4 A Obscenidade
Um dos temas menos explorados, pelos críticos, talvez por considerá- lo de caráter secundário, apesar das constantes referências às “brincadeiras”, ou até mesmo pelo contexto da época, a fim de evitar censura. A seguir, pontuamos os comentários sobre a pornografia em Macunaíma, abordados pelos críticos.
Tristão de Ataíde, em “Macunaíma” (1928), com base no primeiro prefácio de Mário de Andrade, procura justificar as excessivas cenas pornográficas apresentadas no livro lembrando que Mário de Andrade estava retratando o comportamento dos indígenas e esse caráter era constante em todas as lendas de primitivos. Comenta ainda que, “Na introdução aos mitos taulipangues e arecunas, Koch-Grünberg avisa logo que há algumas passagens tão obscenas que ele não as reproduz”. Ataíde recorre a outro trecho do segundo prefácio de Mário de Andrade para finalizar o assunto “Minha intenção aí foi verificar uma constância brasileira que não sou o primeiro a verificar [...]”. Contudo, ao final de seu ensaio, Ataíde deixa transparecer a sua própria opinião a esse respeito: “Cheio também de uma pornografia muitas vezes dispensável, e dessa complacência ao instintivismo que é a marca da época”.
Cândido Mota Filho (1928), na seção “As leituras da semana - Literatura” do Correio Paulistano, escreveu “Macunaíma – Mário Moraes de Andrade” e só usou duas linhas para se manifestar sobre este aspecto, deixando bem clara sua posição: “A tendência pornográfica é repetida por demais. Aflige e desagrada.”.
Já Nestor Vítor (1928), em seu artigo “Macunaíma, o herói sem
nenhum caráter”, demonstra não se incomodar com os elementos sensuais empregados por Mário de Andrade, até justifica a presença deles como uma forma de confirmar a falta de caráter de Macunaíma: “O que há de mais novo, porém, em tudo isso é que Macunaíma é mesmo sem caráter nenhum. O que ele quer é viver com mulheres, ‘brincando’, como diz a cada instante o autor.”.
Outra saída nos mostra Ascenso Ferreira (1928), que justifica a presença da sensualidade pelo fato deste tema pertencer ao ideário do folclore, portanto não poderia faltar em uma obra que se utiliza essencialmente do folclore para sua constituição. Ferreira acrescenta, ainda, que Mário de Andrade ameniza a descrição dessas situações: “com o encantador misticismo das lendas e com os circunlóquios [...] a fim de tirar a feição sensualizante dos elementos pornográficos” (FERREIRA, 1928).
Para exemplificar esse cuidado que Mário de Andrade teve ao descrever essas situações, Ferreira destaca o fato de o autor encobrir “referências a órgãos sexuais de personagens, dando ao livro um estilo sagrado, com repetições de frases, com runas, termos cheios de comicidade, tudo formando, porém, um conjunto poemático verdadeiramente harmonioso” (FERREIRA, 1928). Quanto aos circunlóquios, Ferreira (1928) enfatiza que Mário de Andrade “atinge um impossível de delicadeza e de mimo, como quando diz, se referindo às pedras preciosas, ‘que muitas delas eram até as graças das cunhãs’”.