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RESSOURCES, INSTRUMENTS, OUVERTURE Modélisation d’un dispositif pour la formation ouverte et à

D. Evaluation du modèle FOCAD

A cartografia como método emergiu a partir de um dos princípios presentes no conceito de rizoma, ganhando contorno no território brasileiro através da pesquisadora e colaboradora de Félix Guattari, Suely Rolnik, no livro conjunto dos autores: “Micropolítica: Cartografias do desejo” (1986). Esse encontro surtiu na defesa de sua tese em 1987 e ganhou

61 a versão de livro em 1989, chamado “Cartografia Sentimental. Transformações Contemporâneas do Desejo”.

Desde esse encontro, a cartografia como método ganhou o território brasileiro. Sua orientanda, a então doutora Virgínia Kastrup conjuntamente aos pesquisadores Eduardo Passos e Liliana da Escóssia, foram importantes mapeadores dos estudos cartográficos contemporâneos no Brasil, organizando o livro “Pistas do Método da Cartografia: Pesquisa- intervenção e produção de subjetividade” (2010).

Contanto, foi demonstrado nessa linha, apenas o apontamento ao que refere à composição da pele como local de afecção, já que foi uma imagem usada como artifício por Suely Rolnik. O que se tende fazer ao trazer a intercessão da autora é mapear a similaridade com o uso desta imagem como enunciado, por menos que a autora tenha denominado seu uso como imagem, fazendo coincidir com a Pesquisa Somático-Performativa, a ênfase de leitura sobre a produção subjetiva como objetivo de criação artística, bem como de escrita.

A cartografia como método para Suely Rolnik teve como tema a passagem por mecanismos da política de subjetivação do desejo no Brasil, atentando para seus processos de constituição: “[...] a cartografia é um método com dupla função: detectar a paisagem, seus acidentes, suas mutações e, ao mesmo tempo, criar vias de passagem através deles.” (ROLNIK, 1987, p.6). Portanto, foi uma proposta que visou o acompanhamento dos processos de constituição da subjetividade, em que a pesquisa também se fez através do acompanhamento e implicação subjetiva do pesquisador.

A proposta de cartografia fez conexão com a produção da autora no que diz respeito à afecção da pele como suporte de onde emergem relevos, saltando efeitos subjetivos por essa superfície que foram cartografados pela autora no artigo “Uma insólita viagem à subjetividade: fronteiras com a ética e a cultura.” (ROLNIK, 1997). Nesse, a autora usou a imagem da pele como local de reações que resultam da emergência de forças internas, invisíveis e de forças externas que agem no corpo, como modo de construção da subjetividade. A partir desse embate, ao enfocar na superfície da pele, aparecem reações subjetivas que são externalizadas e tornadas visíveis.

Para amparar o efeito de território subjetivo que compõe a proposta cartográfica, Suely Rolnik trouxe para a cena uma imagem corpórea: a imagem da pele, através de um processo de extensão da pele em uma superfície plana. A partir dessa imagem, ela aproximou a produção subjetiva em conexão com a produção sensorial gerada no corpo, fazendo saltar a construção da subjetividade em relação afetiva com a matéria. No entanto a autora não

62 nomeou o enunciado dessa produção enunciativa como imagem ou metáfora, e, sim como um “[...] artificio insólito”. Toda vez que uma força age sobre a pele ela forma uma dobra, um relevo que é a reação entre as forças externas e a resposta interna. Sendo assim, a subjetividade emerge de fluxos entre as forças externas (demandas exteriores ao sujeito) e as forças internas (demandas e respostas do sujeito). Estas forças produzem relevos que saltam e se alisam novamente na superfície da pele, através de um fluxo que não é controlável:

Nesta dinâmica, onde havia uma dobra, ela se desfaz; a pele volta a estender-se, ao mesmo tempo que se curva em outro lugar e de outro jeito; um perfil se dilui enquanto outro se esboça. O que fica claro é que cada modo de existência é uma dobra da pele que delineia o perfil de uma determinada figura da subjetividade. (ROLNIK, 1997, p.2).

A pele aparece como local de permeabilidade entre esses dois fluxos que muitas vezes não percebemos como distintos, por estarmos demasiadamente atuando em um mundo onde as demandas cobram um estado de constante resposta. Cotidianamente, adequamo-nos às figuras que nos demandam ser e que também nos demandamos ser, perdendo o potencial singular e a escuta às forças que acontecem em nosso corpo. Esta perda da força se dá em consonância com os processos que traçamos para estabilizar as relações, prevalecendo assim, uma demanda recíproca de manutenção de uma “[...] figura da subjetividade”, que age como uma máscara, uma identidade.

O problema não é passar pelas máscaras que atuam como representação de estados, mas de congelar a criação destas figuras, pretendendo-lhes uma implicação unívoca, que visa estados de manutenção, pois a vida acontece através da pulsão e de fluxos que não são controláveis. Isso não quer dizer que a dinâmica ocasione efeitos abruptos de mudança no movimento e na construção do sujeito, atuando de modo sutil, por menos que os sujeitos identifiquem-na, ao pretenderem fixar em uma identidade única.

Por exemplo, nota-se ao longo das sessões de Movimento Autêntico a recorrência de movimentos. Esta recorrência é sutil, pois aparecem constantemente diferenças entre os movimentos, no entanto, Ciane Fernandes observa que, durante anos de prática, existem movimentos que sempre reaparecem. Estes são os “[...] padrões de mudança” (FERNANDES, 2011a, p.17): as mudanças sutis de expressões recorrentes.

De outro modo, para Suely Rolnik, apesar de estarmos em constante mudança, a autora cartografou a existência de efeitos de identificação unívoca nos sujeitos. Estas reações se opõem tanto às diferenças existentes no mundo, quanto às mudanças que ocorrem cotidianamente em nossas vidas, por mais que sejam mudanças sutis. Esta oposição tem se

63 demonstrado cada vez mais violenta diante de um tempo em que a dinâmica passa a ser construída por procedimentos de rede. Esses, por sua vez, refletem estados de simultaneidade entre tempos e espaços onde o sujeito pode se conectar a esta proposta, e/ou se separar, fragmentando cada vez mais esta relação, já que o corpo e a subjetividade não estão separados.

Durante as sessões de Movimento Autêntico houve justamente uma quebra na relação de separação entre corpo e ambiente, onde a pele foi a superfície conectora. A atenção focada na superfície corporal experimentada durante aquela prática tinha justamente a implicação de observar, bem como performar, os efeitos entre o acompanhamento dos impulsos internos do corpo, e, também, os efeitos e forças do ambiente que agiam como estímulos externos. A pele fora superfície de mediação nessa vivência, que acabou reverberando na formulação conceptiva da intervenção Teia.

Aproximada à leitura de Suely Rolnik, a proposta da intervenção Teia pode ser lida como um artifício material de manutenção da atenção dos performers à superfície, em que a conexão acontece como modo de ampliar as sensações que estão inscritas na pele, na experiência dos performers. Aos poucos, esse corpo conectado e codependente, foi pensado para se abrir à dimensão do encontro no corpo coletivo, em movimentos que poderiam reativar efeitos cotidianamente imprimidos na pele, composta como um registro móvel de afecções de nossa passagem e habitação pela vida, já que:

A pele é um tecido vivo e móvel, feito das forças/fluxos que compõem os meios variáveis que habitam a subjetividade: meio profissional, familiar, sexual, econômico, político, cultural, informático, turístico, etc. Como estes meios, além de variarem ao longo do tempo, fazem entre si diferentes combinações, outras forças entram constantemente em jogo, que vão misturar-se às já existentes, numa dinâmica incessante de atração e repulsa. (ROLNIK, 1997, p.2).

Atração e repulsa, como as forças de contração e relaxamento presentes no elástico, compõem planos de oposição que convivem e se dão em simultaneidade, como efeitos de nossa passagem pela vida. Esses efeitos foram mapeados por causa da atenção na superfície da pele, experimentada de um modo prático (nas sessões de Movimento Autêntico) e, também a partir do encontro teórico com a autora e a cartografia. Desse modo, o contato com a cartografia aproximou-me também ao conceito de rizoma, devido ao fato de que ela surgiu como um dos princípios desse conceito que também enfoca em relações de conexão. As relações presentes nesse conceito, como explicitado, têm foco na conexão, e, distingue da condição segmentária. Foi, portanto, realizado o mapeamento sobre o contexto do projeto

64 filosófico, científico e político no qual a cartografia como método de pesquisa está atrelada. Durante o encontro com esse conceito, a relação que havia denominado intuitivamente por literalização ganhou contingência, dando suporte à razão pela qual o uso da imagem da intervenção como modo de estruturar a dissertação, não fora lido como representação.