II. Matériel et méthodes
2. Méthodes
2.4. Evaluation de l’activité antioxydante in vitro
Consegui o contato com Janaína a partir de uma participante do projeto Café com bolachas, que acabou tornando-se uma grande amiga. Como o público participante do projeto era composto principalmente por mulheres jovens, foi difícil encontrar mulheres acima de 40 anos. Minha amiga indicou Janaína, uma mulher que eu conhecia, contudo nunca havia conversado além de trivialidades em uma mesa de bar, junto a outras amigas e conhecidas. Liguei para seu celular explicando sobre a minha pesquisa, sobre a qual ela já sabia por parte dessa amiga em comum. Fiz o convite de participação e ela aceitou, dizendo que retornaria a ligação para marcar uma data que fosse boa para ela. Na ocasião, já adiantou que provavelmente seria na terça-feira seguinte, no período da noite. Perguntei sobre o local da entrevista, falando sobre as possibilidades, e ela deixou que eu decidisse. Aguardei sua ligação até a terça-feira e, como ela não me retornou até o meio-dia, liguei novamente. Nessa segunda conversa, Janaína sugeriu que a entrevista fosse feita na sua casa, de onde me passou o endereço. No dia e horário marcados, eu estava lá. Quem me recebeu foi sua companheira, Alice, que eu conhecia havia alguns anos, quando cheguei a Assis no início de minha graduação. Janaína apareceu logo em seguida, na sala de estar.
As duas me mostraram a casa e me ofereceram algo para beber e comer, o que não aceitei. Sentamos, eu e Janaína, em uma sala que tinha sofás, um bar no canto, uma mesa de centro e um móvel grande com uma TV, um aparelho de som e muitos CDs. Janaína convidou sua parceira para acompanhar a entrevista, mas esta preferiu ficar no quarto, o que ainda não impossibilitaria sua escuta. Janaína contou que tinha 47 anos, me pareceu bastante reservada, séria e com respostas bastante racionalizadas; contudo, extremamente calma e doce. A sensação, ao fim da entrevista, foi de leveza, como ter estado conversando com alguém feliz.
Para Janaína, a infância é pureza, não ter malícia e viver sem preocupações, com liberdade. Colocou que essa criança permanece em nós a vida inteira. Afirmou que se deixa de ser criança quando se deixa de sonhar, resgatar as belezas dos acontecimentos da vida. Disse que foi uma criança muito arteira e teve experiências eróticas com amiguinhas e amiguinhos, das quais ela não tinha consciência do que era, mas que sabia não ser algo aceito. Janaína não ouvia nada a respeito da relação entre pessoas do mesmo sexo ou de sexo diferente, tendo acreditado em cegonha até os 12 anos.
A adolescência é, para Janaína, um momento complicado e de transformação. Disse que, diferente do que ela vê hoje nos adolescentes, ela não teve “revolta” ou “neuras”. Sentiu como um período corrido e de gostosas mudanças no corpo. Para ela, o que mais se anseia na adolescência é chegar à maioridade, para fazer o que não se pode então. É um período que acaba quando se assume um primeiro relacionamento sério com alguém, morando junto, compartilhando os momentos e estabelecendo limites.
Durante a adolescência, disse que não pensava sobre a relação entre pessoas do mesmo sexo. Teve amigos gays, ouvia poucos comentários da mãe sobre casais de mulheres, e respondia: “Mãe, deixa de falar da vida do outro”. E o pai dizia: “Não, e se ela deixou é porque alguma coisa ela viu na mulher. E mulher é bicho bom mesmo”. Era muito paquerada por mulheres, contudo não via malícia e entendia como uma brincadeira. Relatou que existiam algumas mulheres das quais gostava de estar perto e achava bonitas, porém não colocava um significado sexual nisso. Disse que nunca julgou ou teve preconceitos com qualquer tipo de relacionamento, mas que muito pouco se ouvia falar sobre a relação entre mulheres, não tendo conhecido nenhuma mulher assumidamente lésbica.
Antes de ficar com uma mulher pela primeira vez, ela simplesmente não pensava no assunto. Janaína teve namorados durante a adolescência. O último relacionamento com um homem teve duração de seis anos: quatro de namoro e dois de noivado. Com o casamento marcado, aos 18 anos, ao discutir sobre a maternidade, ela sentiu que não estava preparada para assumir o compromisso com o noivo.
Nessa mesma época, em uma festa de Santo Reis num sítio vizinho à casa de sua irmã, Janaína teve a sua primeira experiência lésbica. Falou que foi muito intenso e gostoso, mesmo que tenha sido uma única vez com essa mulher. Janaína não teve restrições pessoais ou dificuldades de aceitação de tal vivência, foi para ela como “uma sementinha que quando ocorre isso, acorda”. A preocupação de Janaína foi então terminar o noivado, o que foi extremamente difícil para ela, devido às chantagens que o noivo fez. Também difícil foi, posteriormente, lidar com sua família diante da ira do noivo, que delatou que ela havia estado com uma mulher. Apesar disso, a aceitação de Janaína por sua família foi total e sua relação com o pai melhorou. Houve pequenos contratempos como o ciúme da mãe em relação às suas namoradas e a inconformidade de um dos irmãos, mas, como ela relata, “ele não discrimina, ele não briga”:
Namoradas todas eu posso chegar e apresentar. Sempre foram todas muito bem tratadas por eles. Minha família toda teve muito respeito por esse lado meu. Porque tanto o meu pai e a minha mãe deixaram bem claro que deveria ser respeitada a minha vontade e se eu trouxesse alguém dentro de casa seria respeitado, tal qual eram respeitados os namorados das minhas irmãs ou as namoradas dos meus irmãos.
Janaína disse ter tido muitos namorados, mas nunca uma relação sexual “por completo”, por receios familiares e sociais. Sempre namorou muito e sentia-se apaixonada. Contudo, disse considerar sua experiência com mulheres como muito intensa: “Aquela coisa que te dá um arrepio, que te dá um frio, que te dá um gelo. E isso eu não sentia com os namorados que eu tinha”. Ela acredita que era lésbica desde criança, algo que despertou quando ela se interessou pela primeira mulher: “Aí eu comecei a ver o mundo que eu não conhecia”, o que foi difícil, por não ter com quem se abrir:
Aí eu passei a olhar a mulher de forma diferente. Mesmo no meu trabalho, quando eu tava, que a gente ia pra um baile – era época das discotecas – eu já não olhava mais pros meninos. Eu olhava pras meninas. Eu já não via mais os meninos, eu só via as meninas. E eu procurava em alguma delas que fizesse com que eu sentisse aquilo que eu senti.
Disse que depois que assumiu sua lesbianidade, nunca mais teve outras relações afetivo-sexuais com homens e não sente vontade. Quando teve uma primeira namorada, ocorreram comentários discriminatórios no colégio, o que, por ironia, possibilitou o aparecimento de novas amizades: “começaram a aparecer as pessoas que realmente jogam,
que são do mesmo time. Então você já começa a formar um grupinho, uma turminha. Aí já dá pra falar mais abertamente, aí facilita as coisas”.
Vários amigos do sexo masculino que tinham intenções afetivo-sexuais com ela se afastaram, e o rol de amizades femininas aumentou. Disse que não passou por muitos preconceitos, mas sofreu alguns olhares discriminatórios, em festas na juventude, e, também, ameaças, dano patrimonial e quase uma agressão física do irmão de uma namorada.
Disse ser uma pessoa reservada, que prefere não expor sua orientação sexual em locais públicos, apenas em boates GLS, onde se sente à vontade para beijar, abraçar ou pegar na mão da parceira. Conduto, ela fala sobre uma repressão de sua liberdade e desejo de expressão:
Que às vezes você tá num lugar e dá uma vontade de você dar um abraço, dar um beijo. Ficar mais perto. Às vezes até de conversar mais de perto. Mas o ambiente não é propício, sinto que o ambiente não é propício, e pra não ter um problema mais sério depois, então... [E você age dessa forma até hoje?] Sim. Isso. Se eu não me sentir segura a ponto de me mostrar, não [me mostro].
Janaína disse que seu ciclo de amizades é bastante limitado, com poucos amigos e muitos conhecidos. Ela afirmou que se relaciona com heterossexuais e homossexuais na mesma proporção. Só freqüenta a casa de quem ela sente que a aceita e à sua parceira, sabendo de sua relação afetivo-sexual. Ainda assim, é uma pessoa que assume sua lesbianidade verbalmente a qualquer pessoa que questione. Ela disse que maioria das pessoas que convivem com ela sabe de sua orientação sexual.
Para ela, ser lésbica hoje é “uma coisa maravilhosa”, especialmente devido a todas as mudanças que ocorreram em relação à liberdade de expressão e de processos de subjetivação das sexualidades comparativamente à época em que era jovem, e à mudança da visão social sobre os casais homossexuais:
Eu posso chegar, montar uma casa hoje, com a pessoa que eu tenho, com a minha parceira. Houve uma época que se você fosse alugar, eu passei por esse tipo de preconceito, de alugar uma casa, eu tinha que ir alugar primeiro e com o tempo trazer a pessoa. E, às vezes, chegou época assim de chegar o proprietário da casa: ‘Mas quem que é?’, ‘É uma prima minha’. A prima pegou. Porque se soubesse que a gente era um casal: ‘Ah não, não pega bem, o quê que os vizinhos vão falar’?.
Para Janaína, o futuro é o dia de hoje, mas ainda pretende fazer faculdade de psicologia, depois que se aposentar, para fins sociais. Pretende ainda, junto com sua parceira, fazer uma comemoração de seu relacionamento – uma festa de casamento. Programam um
filho ou uma filha por meio da gestação de Alice. Segundo disse: “Se vier da parte dela eu vou me sentir mãe do mesmo jeito”. Janaína falou que teria o filho, se não houvesse problemas por conta de sua idade. A programação é que Alice, por inseminação artificial, geste um óvulo de Janaína, se isso for possível. Não pensa em adoção e tem receio, por falta de esclarecimentos em relação ao assunto.
Para ela, pessoalmente, a única coisa que mudaria em sua vida seria ter descoberto antes a experiência da lesbianidade: “Pra poder ter trabalhado até melhor esse lado meu antes. Porque, no começo, quando você descobre, você sabe que é todo um trauma, tudo aquilo”. Janaína relata que se tivesse tido a oportunidade de entrar em contato com essas questões antes, por meio de informações de pais e professores, novelas e filmes,
[...] teria sido muito mais fácil pra mim. Eu só agradeço a Deus não ter feito a besteira de ter me casado, porque eu seria muito infeliz. Mas ainda consegui me descobrir a tempo, sabe? Mas eu acho que eu fui lésbica uma vida inteira, eu acho que eu já nasci lésbica. Eu só não havia me descoberto mesmo. E eu acho que é muito importante que se haja toda uma liberdade, uma abertura pra pessoa realmente poder escolher a sexualidade dela. De que forma ela se realiza melhor.