Extended Abstract in French
B.5. LES ´ EVALUATEURS SPARQL D ´ EVELOPP ´ ES 119
Perante a diversidade e o volume de dados etnográficos que consegui recolher tornou-se importante, a dado momento, munir-me de um conjunto de ferramentas analíticas (Strauss & Corbin, 2008, p. 91) que me auxiliassem no processo de redução dos dados (Bogdan & Biklen, 1994, p. 234; Cohen et al., 2000, p. 265), isto é, na preparação da codificação com vista à sua análise e, em última instância, à construção de uma teoria fundamentada. Mas por reconhecer a possibilidade de “perda massiva de dados, distorção e redução da complexidade” da realidade social (Cohen et al., 2000, p. 281) durante este processo, tentei que esta análise fosse cumprida com o máximo rigor possível. Assim, uma das primeiras tarefas consistiu, desde logo, na transcrição das entrevistas. Beaud e Weber (2007 [1997], p. 159) referem que “uma boa entrevista aprofundada é uma entrevista bem transcrita”. Isto significa que o modo de se efetuar a transcrição “pode enriquecer ou empobrecer consideravelmente a entrevista”. Na intenção de as favorecer e as tornar mais interpretáveis, as gravações efetuadas foram alvo de um cuidadoso procedimento de transcrição integral por meio da sua escuta atenta e minuciosa. Com vista a reconstituir, por escrito, a tonalidade das entrevistas, mantendo toda a riqueza e a complexidade produzida, tentou-se que essa transcrição fosse o mais fiel e precisa, respeitando a pontuação, as pausas, os silêncios (longos e curtos), as hesitações, as interrupções, a entoação da voz, as manifestações de sentimentos (incómodo, nervosismo, tranquilidade) e, inclusive, a comunicação não verbal.157 Todo este procedimento foi, pois, realizado com o auxílio de um pequeno documento de normas de transcrição, que construí para o efeito. É interessante verificar que, graças à escuta atenta das gravações, consegui realizar diferentes tipos de “descobertas”: descobri passagens e detalhes que, na altura da realização das entrevistas, não me tinham chamado a atenção; encontrei aspetos que tomaram um sentido bem diferente daquele que inicialmente tinha compreendido; observei contradições nos discursos e mudanças de postura no registo de linguagem, bem como reconheci tópicos que foram omitidos e outros longamente abordados. Deste modo, o procedimento de transcrição possibilitou-me “mergulhar” a fundo no mundo subjetivo das travestis e prestar maior atenção aos seus detalhes e, com isso, tentar formular as primeiras interpretações de significados com base na relações entre os dados, através de indícios que me serviram de guias ao longo do processo de análise. É neste contexto que Beaud e Weber (2007 [1997], p. 162) afirmam que “transcrever é já interpretar”.
157 Uma vez que todas as entrevistas foram realizadas por mim, a menor informação sociológica verbal (como interjeições, suspiros, risos) e não verbal (olhares, gestos e comportamentos) que acompanharam o discurso das entrevistadas foram sendo registadas à medida que a escuta da entrevista ia evocando à minha memória a lembrança das suas ações.
Após ter procedido à transcrição integral das entrevistas efetuadas às travestis, deparei-me com um acervo total de 653 páginas de dados brutos. Para os analisar, procedi, numa primeira etapa, a uma segunda escuta das gravações de forma a identificar eventuais lacunas de transcrição e, posteriormente, a uma leitura atenta a cada entrevista (cf. proposto por Guerra, 2010 e Maxwell, 2005), o que me conduziu a um conhecimento da totalidade do discurso e à identificação de novas temáticas e problemáticas que, naturalmente, emergiram. Com base neste procedimento de análise “horizontal” (Bardin, 2013) centrado em cada entrevista individual, construiu-se, numa segunda etapa, as sinopses das trajetórias de vida das travestis (anexo H). Ao me ter apropriado do seu discurso, tentei, pelas minhas próprias palavras, sintetizar e reconstruir o encadeamento da cronologia de vida por meio da enumeração e descrição dos turning points presentes nas narrativas. Foi a partir do interior de cada fala que procurei compreender a subjetividade individual e identificar os vários factos que constituíram os “pontos de viragem” no curso das suas trajetórias, assim como as causas a eles atribuídos. Esta ação revelou-se, assim, como um primeiro esforço de análise e interpretação. Numa terceira etapa, e com o objetivo de interpretar propriamente o sentido dos discursos narrados, as entrevistas foram submetidas a técnicas de análise de conteúdo (Bardin, 2013; Guerra, 2010; Vala, 2014). Estruturaram-se, a priori, algumas categorias e subcategorias provisórias,158 suportadas por referências teóricas, relacionadas com os temas desenvolvidos durante a realização das entrevistas. Porém, atendendo a que a presente investigação se apoiaria em abordagens indutivas, sabia que se me fixasse rigidamente nestas categorias pré-elaboradas, escapar-me-iam importantes dimensões de análise uma vez que “os dados empíricos são o ponto de partida e a matéria-prima de qualquer teoria” (Guerra, 2010, p. 66). Neste sentido, a fase da releitura e análise das entrevistas, bem como de todo o restante material proveniente das observações ou da recolha documental tornou-se fundamental, porque a partir dos seus dados emergiram novas subcategorias que, até então, não estavam identificadas. Estas foram, assim, incorporadas a posteriori ao “dicionário de categorias”,159 construído com o propósito de se elaborar uma análise categorial (Bardin, 2013; Guerra, 2010) desse mesmo material. Esta análise funcionou, primeiramente, através de uma operação de desmembramento do corpus constituinte desse material em pequenas unidades de contexto (fragmentos de dados) (Vala, 2014) e que, em seguida, foram agrupados de acordo com a temática de cada subcategoria (e, por tal, considerada uma análise temática). Esta ação, auxiliada pelo software MAXQDA, ajudou claramente a reduzir, condensar e simplificar a complexidade dos dados e a introduzir uma classificação e ordem no material que, até então, se encontrava desorganizado. Porém, uma vez que a apreensão exata do significado dos dados (agora “arrumados” em subcategorias) requer
158 Laurence Bardin (2013, p. 145) refere que as categorias são “rubricas ou classes, as quais reúnem um grupo de elementos sob um título genérico, agrupamento esse efetuado em razão de características comuns destes elementos”.
159 A elaboração do “dicionário” – denominado por Jorge Vala (2014, p. 111) como “sistema de categorias” – resultou de um processo de construção progressiva de categorias e subcategorias proveniente da análise sucessiva dos dados, pelo que algumas categorias acabaram por ser reformuladas e outras rejeitadas em função de outras. Este “dicionário” foi constituído por uma lista final de 60 subcategorias distribuídas por sete grandes categorias. Cada uma delas foi composta por um termo chave, indicativo da significação central do conceito que se quis apreender (Vala, 2014). A definição do seu conteúdo foi, também, cuidadosamente explicitada para não serem originadas distorções no ato da codificação.
o desenvolvimento de sensibilidade (Strauss & Corbin, 2008), receei poder vir a influenciá-los se tentasse elaborar uma interpretação espontânea, porque nela estariam presentes os meus valores e representações. Para ser capaz de ir além das evidências e das simples leituras aparentes do real (sempre tentadoras) foi necessário proceder a um trabalho de análise “vertical” (Bardin, 2013) de todo o material, que consistiu na realização de comparações e associações transversais (Maxwell, 2005; Strauss & Corbin, 2008) entre as sinopses das trajetórias de vida e entre as categorias e subcategorias construídas. Dos questionamentos constantes que surgiam desta análise160 consegui, então, detetar padrões e regularidades e descobrir aspetos que se revelavam complementares. No entanto, também verifiquei aspetos contraditórios e, até mesmo, ausentes.161 Foi por meio da reformulação de sucessivas inferências (ou deduções lógicas)162 realizadas na articulação e cruzamento destes aspetos identificados, com as matrizes teóricas e estruturais de entendimento do fenómeno (relações entre teoria e empiria) que fui atribuindo sentido às características do material sistematizado e organizado; e construindo indutivamente um paradigma compreensivo, explicativo e interpretativo da “cultura” das travestis trabalhadoras do sexo, em Portugal, cujos resultados se apresentam nos capítulos seguintes.
160 Muitas das vezes estes questionamentos eram discutidos com algumas travestis e informantes privilegiados de forma a não condicionar a minha leitura da realidade e evitar interpretações erróneas sobre ela.
161 Se apenas tivesse focado nos discursos repetidos ou que apresentavam semelhanças entre si, existiria o perigo de negligenciar importantes dimensões presentes em discursos contraditórios ou ausentes, por serem considerados “não significativos”. Mas foi, precisamente, a atenção às contradições e às diferenças entre os dados que me ajudaram a captar a máxima heterogeneidade da realidade. Além disso, olhar para as “ausências” também me permitiu questionar e atribuir significados para aquilo que geralmente não foi dito, ou se encontrava implícito. Sobre este aspeto, Bardin (2013, p. 143) é perentória a referir que “torna-se necessário distanciarmo-nos da crença sociológica na significação da regularidade. O acontecimento, o acidente e a raridade possuem, por vezes, um sentido muito forte que não deve ser abafado”.
162 Bardin (2013, p. 41) caracteriza a inferência como sendo uma “operação lógica, pela qual se admite uma proposição em virtude da sua ligação com outras proposições já aceites como verdadeiras”. Isto significa que a inferência é uma operação que permite a formulação de interpretações válidas, pela atribuição de sentido aos dados. Ela é, pois, a finalidade da técnica da análise de conteúdo (Vale, 2014).