9. Resultados
9.1. Análisis Exploratorio de Datos previo al cumplimiento de objetivos
Eu disse, inclusive, que sem poesia eles nunca teriam sido um povo filosófico. HÖLDERLIN Em Der Ursprung des Kunstwerkes, Heidegger afirma categoricamente: “a poesia é dizer projetante”458. A poesia projeta originariamente a saga da história do ser. Anteriormente havíamos apontado para o fato de que o pensamento só pode se voltar para o ser tão logo seja levado a se confrontar com os limites do ente. Sendo projeto que parte essencialmente da abertura do ser, é assim também que a poesia desvela mundo: remetendo o ente em sua totalidade para o ser que é sua condição de possibilidade. Todavia, esta condição, por ser de possibilidade, é abissal: “o dizer projetante é aquele que, na preparação do dizível, ao mesmo tempo traz ao mundo o indizível como tal”459. A poesia remete à abertura de sentido através de sua ambiguidade essencialmente constitutiva. Por isso ela é uma modalidade privilegiada da linguagem.
A poesia é originariamente a via através da qual o que é vem a ser a partir do aberto de ser. É bem sabido que, em Heidegger, tal manifestação dá-se essencialmente através da linguagem, mas justamente por isto “a própria linguagem é poesia em sentido essencial”, posto que “a linguagem é aquele acontecer no qual primeiramente o ente enquanto ente se descerra para o homem”460. Entendemos que inicialmente este descerramento é de ordem trágica, pois ele só se realiza em todo seu vigor a partir da “luta” que o poeta empreende com
457 STEIN: Compreensão e finitude, p. 271.
458 Das entwerfende Sagen ist Dichtung. HEIDEGGER: Holzwege, p. 60. 459 HEIDEGGER: Holzwege, p. 60.
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a palavra para fazer da realidade concreta um “espaço da poesia”461. Este espaço é o campo de inter-seção e tensão entre o ôntico e o ontológico. É a partir deste seu caráter de confrontação que se pode dizer que “a poesia é a abertura do ‘antagonismo dos poderes do ser’”462. Antagonismo que constitui “a intimidade do próprio ser”463.
É justamente sua vocação para o aberto que expõe o poeta àquilo que lhe sobrepuja. Assim diz Hölderlin na 7ª estrofe (vs. 56) do poema “Wie wenn am Feiertage...”: “contudo vos cabe, sob tempestades do deus, vós poetas! Estar com a cabeça desnuda”464. Entendemos que esta condição pode ser estendida à existência como um todo, dado afirmar Heidegger de maneira destacada que “o Dasein nada mais é que a condição de estar exposto à sobrepujança do ser”465. Esta disposição, por ser originária, é o que fundamenta a destinação primeira, última e maior do homem historial, ela “constitui nosso Dasein como tal, é aquele modo de nosso Dasein em que está em jogo sobretudo o ser e o não-ser”466. A partilha da Moira destina ao homem ter seu ser colocado em jogo enquanto ele sempre é467.
Apesar da poesia poder ser compreendida como a morada do mortal sobre a terra em geral, para Heidegger, é o poeta que originariamente institui o ser. Instituir o ser consiste em despertar suas possibilidades originárias. Todavia, essas mesmas possibilidades não podem de todo ser apreendidas. Esta tarefa trágica de ter que revelar e ao mesmo tempo preservar o inefável como tal “é a tarefa poética por excelência, a única”468. Isto teve para Heidegger sua importância no seguinte: “Aqui se inaugura uma nova perspectiva na essência da verdade, que torna própria uma tal poesia, e por conseguinte na essência da linguagem poética fundada originariamente. Se a tomamos já e sobretudo segundo sua capacidade de expressão, então
461
Cf. HEIDEGGER: Hölderlins Hymnen „Germanien“ und „Der Rhein“, p. 22. A luta em torno da verdade deixa-se dizer também como Streit em HEIDEGGER: Einführung in die Metaphysik, p. 146, HEIDEGGER:
Parmenides, p. 38 e HEIDEGGER: Holzwege, pp. 34 ss. É inclusive em virtude desta permanente luta que “a
essência da poesia” em Heidegger “não se deixa dizer em uma definição”! HEIDEGGER: Hölderlins Hymnen
“Germanien” und „Der Rhein“, p. 29.
462 HEIDEGGER: Hölderlins Hymnen „Germanien“ und „Der Rhein“, p. 257. 463 HEIDEGGER: Hölderlins Hymnen „Germanien“ und „Der Rhein“, p. 257. 464 HÖLDERLIN: Poemas, p. 259.
465
„Dasein ist nichts anderes als die Ausgesetztheit in die Übermacht des Seyns”. HEIDEGGER: Hölderlins
Hymnen „Germanien“ und „Der Rhein“, pp. 130-31. Ainda: „Das Da-sein: die Offenheit des Sichverbergens
ausstehen“. HEIDEGGER: Beiträge zur Philosophie, p. 301; cf. tb. p. 44. „Ek-sistenz bedeutet inhaltlich Hin- aus-stehen in die Wahrheit des Seins“. HEIDEGGER: Wegmarken, p. 326; cf. tb. pp. 350, 374.
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HEIDEGGER: Hölderlins Hymnen „Germanien“ und „Der Rhein“, p. 58. Obs.: grifo nosso.
467 “As Deusas sublinham ainda a ambiguidade do Poder que são elas. A força de presentificação e
descobrimento que põe os seres e fatos à luz da Presença é a mesma força de ocultação e encobrimento que os subtrai à luz e lhes impõe a ausência”. Jaa Torrano. In: HESÍODO: Teogonia, p. 24.
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deve ela aqui justamente nada expressar, mas deixar inaudito o indizível, e isto em e através de seu dizer”469.
A poesia é “instituição” de sentido, mas esta instituição só acontece propriamente a partir da abertura do ser, onde “deve vir ao aberto aquilo que sustenta e rege o ente no todo. O ser deve se abrir para que o ente se manifeste”470. O poeta deve projetar seu dizer no abismo do ser. Por isto “poesia é o nomear instituidor do ser e da essência de todas as coisas – não um dizer qualquer, mas aquele somente através do qual tudo isto adentra o aberto”471. E para que a palavra poética possa se colocar no encalço do ser enquanto abertura de mundo, ela deve conservar a própria dinâmica do fenômeno ontológico que, como vimos, é regido essencialmente pelo jogo entre velamento e revelamento. Jogo que se desdobrou originariamente através do mito. E é justamente através da poesia trágica que essas perspectivas coincidem plenamente.
A abertura da palavra poética preserva a tragicidade originária do espaço onde o ser se doa e ao mesmo tempo se recusa sempre a partir da diferença. Onde esta abertura acontece propriamente, dá-se a referência histórica do poeta: “a instituição que ele prenuncia remetendo a linguagem à sua origem (Ursprache) só é possível porque ele inscreve sua poesia na poesia originária”472.
É justamente por se remeter à abertura do ser que o “dizer poético” está sempre novamente reconfigurando uma trama de mundo que escapa à apreensão imediata: “aquilo que nós habitualmente vemos a partir do mundo, das coisas humanas e divinas, é, através do dizer poético, cunhado como precioso na superabundância do que é pleno de mistério”473. Esta remissão poética ao aberto do ser enquanto seu mistério é realizada através do “aceno”474. O dizer poético sinaliza a partir do espaço aberto pelo passo atrás diante do ser. Esta reserva diante do aberto do ser é o que determina a condição originariamente trágica do ser-no-mundo.
A determinação originariamente trágica do poeta reza que ele deve buscar a palavra que se choca com o próprio ser em sua recusa mais própria. Isto significa que ele deve
469 HEIDEGGER: Hölderlins Hymnen „Germanien“ und „Der Rhein“, p. 119. “Com a poesia da obra ad-vém
uma mudança do desvelamento do ente e isto quer dizer: do ser”. COUTURIER: Monde et être chez Heidegger, p. 254.
470 HEIDEGGER: Erläuterungen zu Hölderlins Dichtung, p. 41. 471 HEIDEGGER: Erläuterungen zu Hölderlins Dichtung, p. 43. 472
VANDEVELDE: «Heidegger et la poésie», p. 19.
473 HEIDEGGER: Aus der Erfahrung des Denkens, p. 138.
474 Curiosamente, o aceno, que é também a linguagem originária dos deuses, dá-se essencialmente pelo “luto”
(Trauer), posto que se remete ao que se nos recusa em última instância! HEIDEGGER: Beiträge zur
perseguir o inapreensível. O que configura essa poesia originária é, por conseguinte, a própria condição do poeta disposto pela abertura do ser. É desta condição que provém a essência da poesia. Voltado para ela, “o poeta permanece tão surpreendido no mistério de uma palavra que só aparentemente é sua e se encontra assim tão desolado quanto aquele que tenta se aproximar da dimensão aberta e ao mesmo tempo dissimulada pela palavra”475. É neste sentido ontológico que o poeta trágico partilha da mesma destinação de suas personagens.
A palavra, quando essencial, tem uma dimensão de sentido que excede sua significação habitual. Ela encontra esta sua dimensão quando se torna, sobretudo, tragicamente poética. Sendo originariamente trágica, neste caso, sua riqueza é ainda mais ampla, pois é na tragédia que a palavra trai constantemente seu sentido imediato. Esta “dimensão essencial” na qual tentamos situar a tragédia grega repousa para nós especificamente na origem daquilo que Heidegger chama o “espírito histórico de uma linguagem”476.
O poeta tem de se apropriar do próprio sentido que lhe escapa. A abertura para apropriação é a “preeminência mais interna” de uma palavra colocada em obra através de uma linguagem477. Esta abertura é o que permite ao sentido se elevar para além do convencionalmente estabelecido. A decorrência essencial disto é que o sentido do ser não mais admite em caso algum ser explicitado positivamente (unidimensionalmente), pois o balanço poético consiste justamente em furtar-se à razão de ser em proveito daquilo que torna possível o ser em sua recusa. A imposição dessa renúncia extrapola as condições existenciais do homem e justamente por isto expõe o poeta às intempéries deste seu ser próprio compelindo-o ao abismo da origem do ser. Este abismo, na sua recusa de proveniência, aloja o poeta na clareira de sentido que permite e exige seu modo de ser na constância do porvir diante da ausência de destinação última para sua palavra. É a partir deste horizonte trágico que a palavra pode chocar e ao mesmo tempo preservar a linguagem de se cristalizar no conceito unívoco. Esta abertura de sentido é o que nos expõe ao encanto da palavra poética e também exige de nós determinadas apropriações condizentes com o horizonte de sentido que historicamente e a partir da origem se permutam para chegar até nós. É neste horizonte que se determina nossa condição essencial comprometida com sua proveniência.
Com isso, estamos buscando ver que no aberto da palavra poética o mundo insurge tragicamente enquanto abertura de possibilidades que nos excedem. É assim em sentido
475 HEIDEGGER: Hölderlins Hymne „Andenken“, p. 7. 476 Cf. HEIDEGGER: Hölderlins Hymne „Der Ister“, p. 75. 477
trágico que a poesia é fundamento da história. Na tragédia, a palavra poética reenvia o mundo à sua abertura originária, daí ela ter se nutrido a partir do mito. Comprometida com esta abertura, é próprio da poesia trágica oscilar em uma “multivocidade” (Vieldeutigkeit) essencial ao ser478. No fundo, isto também é próprio da palavra como tal, posto que a linguagem deve ser vista como o espaço de trânsito do ser. Contudo, entendemos que é a poesia originariamente trágica que, de maneira essencial, traz à linguagem esta dinâmica tão própria do ser479. A abertura poética que possibilita a transcendência é essencialmente trágica porque originariamente exige do mortal que ele se confronte com sua própria condição de ser:
Na verdade, porém, cada autêntica palavra tem seu espaço de oscilação velado e múltiplo. A poesia essencial corrobora-se antes de tudo pelo fato de que aquilo que por ela é poetado se atém somente na dimensão deste espaço que se arroja para além de si e que fala a partir dele. A riqueza de cada autêntica palavra, que nunca é uma mera pluralidade dispersa de significações, mas a unidade simples do essencial, tem seu fundamento no fato de que designa o originário e no fato de que toda origem é ao mesmo tempo inesgotável e única. Por isso a poesia também torna própria uma determinação de caráter singular. Porque ela encerra a riqueza do significar e estende da poesia ao pensamento uma legitimidade elevadamente rigorosa480.
A unidade na qual se recolhem as possibilidades do ser repousa em sua própria abertura que vem à palavra somente de maneira poética. Devendo estar essencialmente em aberto, a palavra trágica remete assim todo seu dizer ao abismo do ser. Radicado na abertura do ser, o conceito é rompido deixando escapar um feixe de possibilidades de sentido retido pela apreensão que depende de um asseguramento concreto do ser em concordância com uma realidade estratificada. Porém, a partir deste rompante, o sentido do ser é posto em suspenso para que o ente se dê neste espaço de crise. Todavia, devemos atentar neste ponto que aquilo que desponta a partir da dissolução de sentido último é inesgotável em possibilidades, exige um posicionamento na abertura que expõe o homem aos múltiplos acenos do ser. De tal forma que “no exato momento e grau em que o que é vigente se dissolve, também se sente o que recomeça, o novo, o possível”481. Segundo Heidegger, esta dinâmica ditada por Hölderlin é a própria “essência originária do ser”482. Por meio disto, podemos inferir que cabe ao esforço do
478 Cf. HEIDEGGER: Hölderlins Hymne „Andenken“, p. 10. Por isso “a riqueza da palavra poética, que tem sua
própria articulação, não se deixa deduzir por ‘definições’.” HEIDEGGER: Hölderlins Hymne “Andenken”, p. 26.
479 “A palavra poética abre e encerra uma palavra que é inesgotável por ser do tipo originário”. HEIDEGGER:
Hölderlins Hymne „Andenken“, p. 13.
480
HEIDEGGER: Hölderlins Hymne „Andenken“, p. 15. “A palavra poética plenifica ainda mais a essência originária da palavra, isto porque toda palavra autêntica, enquanto palavra, já é poética”. HEIDEGGER:
Hölderlins Hymne „Andenken“, p. 25.
481 Hölderlin, apud HEIDEGGER: Hölderlins Hymnen „Germanien“ und „Der Rhein“, p. 122. 482
poeta sustentar a palavra que insiste em reincidir no aberto. Configurada originariamente na poesia trágica, essa sustentação acontece da seguinte maneira: o rompante do ser em seu caráter abissal é precedido por um sentido forjado nas próprias limitações do mortal. Daí ter de se admitir também que a força da poesia provém de seu “poder dissimulador” (verhüllenden Macht)483. O que confere tragicidade a esse poder é o fato dele abarcar o homem ao mesmo tempo em que dele escapa: “Esta dissimulação do ente em totalidade não procede, na realidade, do ser-aí mas resulta da essência do ser. Ela é mais anterior que todo o comportamento humano e que toda a revelação deste ou daquele ente, mais anterior ainda, diz Heidegger, que o deixar-ser ele próprio. Esta dissimulação do ente na totalidade constitui o que Heidegger chama a não-verdade originária ou ainda o mistério (das Geheimnis)”484. Segundo entende Emilio Brito, é essa dissimulação colocada em obra pela poesia que determina nossa destinação:
a dissimulação pertence de maneira permanente ao desencobrimento. Essa proveniência, onde desencobrir e ocultar estão unidos indissoluvelmente, é precisamente o Geschick. O desvelamento do mundo só se dá ao mortal se recolhendo no apelo do totalmente outro. Todavia, o desencobrimento dissimulador, que reina no mundo, permanece um fundamento sem fundo, pelo qual, segundo Heidegger, não se pode obter garantias de qualquer fundamento último. No jogo de mundo se abisma toda fundação485.
Uma vez que o sentido que se desvela na palavra poética, no fundo, abriga também no poema aquilo que deve permanecer essencialmente não-pronunciado, isto é, a própria abertura de sentido, então devemos saber que a poesia essencial não pode ter um objeto determinado, posto que provém do ser e a ele retorna se abismando na abertura de seu próprio dizer que é sempre já “o acontecer fundamental do ser como tal”486. Neste sentido, o dizer poético do ser é circular “porque a poesia, enquanto instituição do ser, é da mesma origem daquilo que ela propriamente institui, também por isto e somente por isto a poesia pode e inclusive deve dizer o ser”487. Todavia, para isso ela depende sempre de uma dimensão essencial instituída por si e configuradora de si. Esta dimensão não pode se desdobrar fora do tempo, o que significa reconhecer que ela é sempre histórica. Sendo histórica, o vigor de sua essência repousa em sua origem. E é justamente por ser essencialmente originária que a
483 HEIDEGGER: Hölderlins Hymnen „Germanien“ und „Der Rhein“, p. 119. Cf. tb. HEIDEGGER:
Einführung in die Metaphysik, p. 87. Na poesia “um lugar se abre em meio aos entes, na abertura em que tudo é
diferente do que aparece”. COUTURIER: Monde et être chez Heidegger, p. 254.
484 BOUTOT: Introdução à filosofia de Heidegger, pp. 54-55. 485 BRITO: Heidegger et l´hymne du sacré, p. 132.
486 HEIDEGGER: Hölderlins Hymnen „Germanien“ und „Der Rhein“, p. 257. 487
designação poética abre mundo, pois através dela, “quando nomeamos as coisas e os deuses, um mundo aparece”488.
Sendo fundamento radical da história, a poesia trágica reclama nossa essência. Também enquanto tal fundamento, a essência da poesia só se deixa determinar historicamente489. Radicada na origem, a poesia trágica prediz a saga do ser enquanto evento próprio da história, enquanto abertura de sentido a ser apropriada em seu tempo. Assim, a poesia trágica dimensiona originariamente a estada histórica do homem sobre a terra. “Enquanto medição própria da dimensão do habitar, o poetar é o deixar-habitar originário”490.
Mas se através da palavra poética se decide originariamente a essência histórica do homem (posto que “decisivo para os homens é manter a possibilidade de um espaço de abertura por meio dela, a possibilidade do acontecimento de mundo”491), então devemos concordar com Marco Aurélio Werle quando constata que o “caráter poético” é “imanente à postura humana fundamental diante da abertura de mundo”492. Logo, o que temos aqui é de fato uma significativa ampliação da noção de “poético” através de uma concepção que a partir de agora deve ser entendida como “a dimensão instaurada pela poesia, que remete a um âmbito que envolve o poeta e a partir do qual ele realiza a sua obra, uma espécie de solo e terreno histórico-temporal que delimita seu campo de atuação. Essa dimensão, porém, é própria de todo ser humano, na medida em que a existência humana tem para Heidegger e Hölderlin um traço essencialmente poético”493.
Como conseqüência, este âmbito conquistado originariamente nos autoriza desde já apresentar uma base que deve nos permitir desdobrar “como Heidegger instaura essa espécie de ‘ontologia poética-fundamental’ por meio da poesia de Hölderlin, a qual pretende ser um novo horizonte de colocação da questão do ser. Ao mesmo tempo, importa notar como essa ontologia permite o estabelecimento das bases de um determinado conceito de poesia e de
488 INWOOD: Dicionário Heidegger, p. 146. “Com isso, se partimos do poder de nomeação da palavra, então
tocamos, como todos pressentem, o elemento mais próprio do pensamento de Martin Heidegger. Se há uma coisa que distingue inconfundivelmente o pensador Martin Heidegger dentre os pensadores de nosso século, essa coisa é o seu sentido para o poder de nomeação da palavra. O que entregou ao seu pensamento a força impulsionadora mais própria foi o fato de ele ter inserido esse poder de nomeação no movimento de seu pensar e de ter sempre acolhido e colocado à prova o direcionamento de seu caminho a partir da linguagem.” GADAMER:
Hermenêutica em retrospectiva, p. 119.
489
Cf. HEIDEGGER: Zu Hölderlin Griechenlandreisen, p. 36.
490 HEIDEGGER: Vorträge und Aufsätze, p. 196.
491 WERLE: Poesia e pensamento em Hölderlin e Heidegger, p. 50. 492 WERLE: Poesia e pensamento em Hölderlin e Heidegger, p. 25. 493
uma certa concepção da tarefa da poesia diante da existência como um todo”494. A partir dessa reformulação acreditamos poder consolidar um dos pressupostos deste trabalho: poesia e tragédia se articulam como as duas instâncias originárias do ser-no-mundo. Não obstante o fato de que o ser-no-mundo em geral implica já essencialmente uma condição originariamente poética, o poeta trágico como tal é aquele que mais originariamente responderia ao apelo do ser por estar disposto justamente na instituição de sua história enquanto evento mais próprio, tendo de colocar em obra justamente as instâncias mais fundamentais do ser-no-mundo em toda a radicalidade de sua tensão existencial. Lançado nesta disposição originária, isto é, disposto por essa condição inicial, o poeta se encontra entregue de maneira imediata e iniludível ao abismo do ser. A maneira originária através da qual o poeta trágico disponibiliza seu ser-no-mundo se dá justamente através do fato que “o poeta se abandona ao ser”495. Isto configura o “salto” poético originário: o estar lançado no abismo do ser. Este projeto originário funda a própria história enquanto acontecer próprio do ser. História que, comprometida com sua origem, abrirá, no que se segue, para o estranhamento de si em sua própria possibilidade futura de reapropriação, processo através do qual “a noção de iniciar, relacionada ao fundar, promove aquele salto à frente”496.
É quando se verá compelido a designar o estranhamento de ser que o poeta trágico