Dentro do movimento da sociologia do conhecimento a expressão construção social refere-se à ação de reflexão sobre o conhecimento do senso
comum. Os principais autores deste campo de conhecimento são os sociólogos Peter Berger e Thomas Luckmann, que escreveram um livro clássico intitulado A
Construção Social da Realidade. A principal contribuição desta obra foi demonstrar a
influência dos processos de socialização, de institucionalização, e dos papéis e condutas na mudança dos sentidos e na promoção da transformação social da realidade (BERGER; LUCKMANN, 1985).
A utilização desses pressupostos no campo da saúde mental é importante para o reconhecimento do processo de institucionalização do sentido de exclusão da loucura, do papel de submissão ao poder médico que o doente mental exerceu no manicômio, bem como as condutas da psiquiatria que isola e castiga a loucura desde seus primórdios, e como isto foi legitimado socialmente. Esse conhecimento é fundamental quando se busca transformar os sentidos sociais e a realidade.
Segundo os autores desta obra, que pretenderam escrever um Tratado Teórico Sistemático, são três os antecedentes intelectuais da sociologia do conhecimento: o pensamento marxista, o nietzscheano e o historicista. Do pensamento de Karl Marx, principalmente das questões desenvolvidas em seu trabalho intitulado Manuscritos Econômicos e Filosóficos (1844), a sociologia do conhecimento herdou particularmente os conceitos de “’ideologia’ (ideias que servem de armas para interesses sociais) e ‘falsa consciência’ (pensamento alienado do ser social real do pensador)”, e construiu suas bases na proposição de Marx “que declara ser a consciência do homem determinada por seu ser social” (1985, p. 17). O anti-idealismo de Nietzsche acrescentou novas perspectivas com relação ao pensamento humano a partir de suas análises da significação social do engano da ilusão como condição necessária da vida. Na obra de Wilhelm Dilthey o historicismo marcante foi a principal contribuição. Entretanto, os fundadores desta disciplina são Max Scheler e Karl Mannheim. O primeiro, filósofo alemão, cunhou o termo sociologia do conhecimento na década de vinte, e o segundo é o responsável por trazer para esta área a relação entre ideologia e verdade (SPINK; FREZZA, 2000).
Para Berger e Luckmann (1985), a sociologia do conhecimento está embasada em três conceitos: objetivação, institucionalização e socialização. Com relação à objetivação as afirmações fundamentais do raciocínio dos autores consistem em declarar a construção da realidade é um processo social e que a
sociologia do conhecimento deve analisar como tal processo ocorre. A partir da definição de “realidade” como uma qualidade pertencente a fenômenos que reconhecemos terem um ser independente de nosso próprio desejo e de “conhecimento” como a certeza de que os fenômenos são reais e possuem características próprias. O interesse da sociologia nas questões da realidade e conhecimento justifica-se por sua relatividade social. Desse modo, a “compreensão sociológica da realidade e conhecimento situa-se de certa maneira à meia distância entre a do homem de rua e a do filósofo” (p.12). O conhecimento humano é desenvolvido, transmitido e mantido em situações sociais, a partir de interações face-a-face na qual o outro e apreendido a partir de esquemas tipificadores. Sendo a sociedade considerada um produto humano, os autores defendem que este campo de conhecimento refere-se a análise da construção social da realidade.
Dentro da realidade da vida cotidiana, considerada a realidade por excelência, a linguagem usada fornece continuamente as necessárias objetivações e determina a ordem em que estas adquirem sentido e constroem sentidos para vida cotidiana. Além disso, a realidade da vida cotidiana apresenta-se como um mundo intersubjetivo de que participo juntamente com outros homens. Dentro do processo de comunicação, a mais importante experiência ocorre na situação de estar face à face com o outro, que é o caso protótipo da interação social.
A partir disso, pesquisas que estudam fenômenos sociais, como é o caso deste estudo que tem como foco o fenômeno da loucura, precisam privilegiar as narrativas dos diversos atores envolvidos, buscando apreender de forma mais aproximada os sentidos que tais pessoas atribuem a realidade. A ciência precisa ser utilizada na promoção de mudanças, e isso só será possível se der voz aos atores que foram objetos do poder, pois historicamente a ciência foi utilizada para privilegiar os detentores do poder e para legitimar cientificamente a superioridade destes sobre os indivíduos do senso comum (BASAGLIA, 1985).
No processo de institucionalização, o ser humano em desenvolvimento se relaciona com um ambiente natural particular, mas também com uma ordem cultural e social específica. Desde o nascimento, o desenvolvimento orgânico e biológico do homem está submetido a uma continua interferência socialmente determinada. A institucionalização, que implica ainda a historicidade e o controle, ocorre sempre que há uma tipificação recíproca de ações habituais por tipos de atores. As tipificações
recíprocas das ações são construídas no curso de uma história compartilhada. Assim tem sempre uma história, da qual são produtos. É impossível compreender adequadamente uma instituição sem entender o processo histórico e cultual em que foi produzida.
No processo histórico de constituição da psiquiatria podemos perceber como foram institucionalizadas as ações tipificadas para os atores psiquiatras e para o doente mental. E sendo facticidades históricas e objetivas, as instituições defrontam- se com o indivíduo na qualidade de fatos inegáveis, controlando a conduta humana e estabelecendo padrões previamente definidos de conduta, que canalizam em uma direção por oposição à muitas outras direções que seriam teoricamente possíveis. Assim, têm um poder coercitivo sobre o indivíduo, tanto por si mesmas, pela pura força de sua facticidade, quanto pelos mecanismos de controle social geralmente ligados ás mais importantes delas. Dizer que um segmento da atividade humana foi institucionalizado já é dizer que este segmento da atividade humana foi submetido ao controle social.
No campo da psiquiatria a institucionalização social das práticas de exclusão da loucura influencia e dificulta o processo de mudança paradigmática. Por isso, o cuidado a crise em liberdade ainda é um obstáculo no processo de reforma psiquiátrica, pois os sentidos de medo, estigma e periculosidade ainda envolvem este fenômeno e fazem parte do tecido social.
Com relação à socialização, a sociedade, entendida como uma realidade objetiva e subjetiva, deve ser reconhecida como um processo dialético contínuo entre os momentos de exteriorização, a objetivação e a interiorização (o mundo social objetivado é reintroduzido na consciência no curso da socialização). Assim, os autores defendem que os esquemas tipificadores, no qual as pessoas são apreendidas, tornam-se habituais no decorrer das gerações. E como o hábito precede a institucionalização no processo de socialização, é a partir da institucionalização dos hábitos que a objetividade é percebida e internalizada. Porém, a sociedade não é vista por eles como um modelo estático, pois se a socialização tem um caráter de conservação, os processos de ressocialização possibilitam a ressignificação e reconstrução do conhecimento social. Assim, consideramos importante entender no campo da saúde mental os processos de ressignificação dos sentidos que envolvem a loucura e a crise, e como os
profissionais dos serviços substitutivos estão construindo a atenção e as relações com os usuários neste novo contexto.