O intuito de compreender a ditadura militar paraguaia, assim comodemaisocorridas no Cone Sul e temas permeados poresses processos históricos, têm motivado muitas pesquisas ao longo dos últimos anos, com destaque aos projetos iniciados pelo Laboratório de Estudos de Gênero e História (LEGH) da UFSC, sob a coordenação das professoras e historiadoras Joana Maria Pedro e Cristina Scheibe Wolff, no ano de 2006.Nesses, as investigações do LEGH se organizaram em torno de duas temáticas: Revoluções do Gênero: apropriações e identificações com o feminismo (1964-1985), seguido de Os feminismos e os movimentos sociais de resistência às ditaduras no Cone Sul: uma história comparativa (1960-1980). O grupo de pesquisadoras, liderado pelas historiadoras citadas, possibilitou expressivos contatos com outros grupos de pesquisa, favorecendo diálogos mais complexos, o aprofundamento das investigações e múltiplas trocas de conhecimentos.
As reflexões de diversos temas, tais como gênero, feminismos, resistências e a literatura como fonte, incentivaram meus interesses, juntamente às leituras e conversas realizadas no LEGH, as quais me fariam encontrar o Paraguai e, em especial, a escrita de Guido Alcalá, como objeto de pesquisa. Foi justamente nesse contexto de estudos sobre o Cone Sul propiciados pelas reuniões e pesquisas do LEGH, que algumas lacunas na escrita da história sobre a ditadura paraguaia, em particular, ficaram evidentes33. A história do Paraguai em geral é amplamente debatida nos veios acadêmicos, especialmente no que se refere à Guerra da Tríplice Aliança34. Porém, no que diz respeito ao
33 O LEGH tem reunido pesquisadores que se dedicam a essas questões, no âmbito do mestrado
e do doutorado, como também existem outros pesquisadores no Brasil, como Ceres Moraes, também preocupados com a conjuntura paraguaia. Ver: MORAES, Ceres. Paraguai: a consolidação da ditadura de Stroessner, 1954-1963. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000.
34 Guerra travada contra o Paraguai pelos chamados países da Tríplice Aliança (Uruguai,
Argentina e Brasil), sob os interesses da Inglaterra. Ao fim deste conflito, o Paraguai perdeu parte de seu território, suas riquezas e muitos de seus homens; por mais de uma década foi governado por representantes dos países opositores, perdendo também a sua autonomia
século XX, está em processo de elaboração e em vários aspectos sendo debatida pela primeira vez. Nesse contexto, com o propósito de compreender a ditadura militar de Alfredo Stroessner em conjunto aos interesses de suas pesquisas, no ano de 2010, as historiadoras Cristina Scheibe Wolff e Joana Maria Pedro viajaram para o Paraguai em busca de mais fontes que pudessem direcionar as pesquisas do LEGH e contribuir para acompreensão sobre acontecimentos tão traumáticos, colaborando com o debate historiográfico.
A partir da coleção de obras trazida pelas professoras, escolhi alguns livros Guido Alcalá – Cuentos Decentes (1987), Narrativa Paraguaya(1992) e Narradoras Paraguayas(1999).Além desses, encontrei vários outros trazidos anteriormente, como o Curuzu Cadete: Cuentos de Ayer y de Hoy (1993), livro de contos que estabelece relações entre a Guerra da Tríplice Aliança e a ditadura militar de Alfredo Stroessner. Foi a partir da leitura e análise desses materiais que considerei relevante problematizar a relação entre a escrita de Guido Alcalá – a qual não se restringe à literatura – e a historiografia sobre a ditadura militar paraguaia, cuja construção caminha a passos gradativos no Paraguai, sobretudo no que se refere às reflexões sobre a ditadura de Stroessner, temporalmente a mais recente. O fato é que mesmo antes da referida viagem, Cristina Scheibe Wolff já havia tomado conhecimento sobre a obra de Guido Alcalá, tendo o encontrado em novembro de 2005, em Paris, durante a realização de um colóquio – Le Paraguay à l’ombre de sesguerres.
A viagem para o Paraguai não foi a única empreendida durante a realização da pesquisa de ambas as pesquisadoras. Cristina Scheibe Wolff e Joana Maria Pedro, acompanhadas de discentes de graduação, de mestrado, de doutorado e de pós-doutorado, percorreram diversos países na última década, procurando conhecer e conversar com muitas mulheres e homens que, de algum modo, foram afligidos pelas ditaduras civis militares no Cone Sul. A cada viagem, depoimentos foram sendo somados a outros a partirde indicações muitas vezes das redes de contatos dos próprios entrevistados, como afirma Joana Maria Pedro sobre uma viagem em 2008, da qual trouxeram inúmeros documentos, revistas, livros, fotocópias, não sem desconfianças das pessoas
política. “Guerra do Paraguai”, “Guerra da Tríplice Aliança” e “Grande Guerra” são sinônimos de um mesmo acontecimento, utilizados na escrita desta tese de maneira equivalente. Pude perceber ao longo da pesquisa a farta documentação existente e produção histórica correspondente sobre o conflito em questão, bastante diferente da escassa e incipiente produção sobre a ditadura de Alfredo Stroessner, em particular. Ver: DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
entrevistadas, visto que são de uma área (História) diversas dessas. Além disso, essas redes faziam suas indicações, as quais deviam ser cuidadosamente analisadas, considerando que a recusa de uma ou outra entrevista poderia fazer com que as pesquisadoras não fossem mais recebidas35.
Essas redes, das quais a pesquisadora Joana Maria Pedro trata, foram paulatinamente sendo formadas pelas pessoas que compartilharam suas memórias e opiniões, desempenhando um papel fundamental na forma como os acontecimentos foram apropriados e narrados. A percepção desses elos é crucial quando se trata dos caminhos da memória, de uma história nacional ou mesmo do ato de narrar em si mesmo; contar algo implica se expor, contrapor versões e se posicionar, trata-se de interpretar os acontecimentos conforme uma agenda própria, nem sempre de forma intencional. Diante disso, a escrita da história suscita muitas vozes e, ao mesmo tempo, demanda um processo de seleção por parte do historiador, considerando os trilhos que cada pesquisa explora. Com frequência, as múltiplas vozes interferem na direção do olhar e na formulação dos problemas; mas, por vezes, é preciso manter o foco e retomar as motivações iniciais.
Nessas incursões, portanto, o nome de Guido Alcalá passou a ser conhecido. É importante observar que as publicações de Guido Alcalá têm destaque não apenas no Paraguai. Além de uma tese já escrita com base em sua obra – Guido Rodríguez Alcalá enel contexto de la narrativa histórica paraguaya36; seus livros, em geral, organizados a partir de diversas fontes, em especial sobre a Guerra da Tríplice Aliança, são objeto de estudos de pesquisadores da Espanha, do Uruguai, da Argentina e dos Estados Unidos37. No Paraguai, além de ser uma referência no que diz respeito à independência do país, formação política e a ditadura militar de Stroessner, o escritor é respeitado também em relação à história geral paraguaia, sobre a qual escreveu e publicou diversos ensaios e compilações. Desse modo, esses livros de Alcalá, acompanhados por um variado conjunto de entrevistas,
35 PEDRO, Joana Maria; VEIGA, Ana Maria; WOLFF, Cristina Scheibe. Resistências, Gênero
e Feminismos contra as ditaduras no Cone Sul. Florianópolis: Editora Mulheres, 2011, p. 28.
36 PIZARRO, M. Mar Langa. Guido Rodríguez Alcalá en el contexto de la narrativa histórica
paraguaya. 445 f. Tese (Tese em História). Facultad de Filosofía y Letras. Universidad de Alicante, 2001.
37 O evento Jornadas Internacionales de Historia delParaguay é realizado com periodicidade
bienal, reunindo pesquisadores e pesquisadoras da América e da Europa, cujos temas estão estritamente relacionados à história paraguaia e muitas vezes se utilizam das fontes reunidas por Guido Alcalá. Trata-se de um congresso importante, aonde temas e resultados são aprofundados e difundidos.
panfletos, processos e jornais encontrados ao longo desta pesquisa, oferecem um leque de oportunidades às investigações sobre o país: em tempos de escrita da história, em que a memória é a fonte e o objeto de disputa entre grupos políticos e/ou entre vítimas e opressores, tal coleção ganha relevância ao possibilitar o estudo dos acontecimentos e de suas versões.
O fato é que aquele que narra e/ou escreve sempre traz consigo o contingente de sua época; cada voz é marcada por seu tempo e seu espaço. No colóquio de 2005, mencionado acima,Le Paraguay à l’ombre de sesguerres,Guido Alcalá proferiu uma palestra intitulada Imágenes de la Guerra y del Sistema38, na qual explorou a imagem de Francisco Solano López, presidente do Paraguai, ao tempo da Guerra da Tríplice Aliança39. Para Alcalá, essa imagem foi concebida por Bernardino Caballero e outros generais sobreviventes à guerra e que, mesmo pertencendoao lado que havia perdido, conseguiram altos cargos no governo constitucional seguido ao ano de 1870 e foram os responsáveis pela fundação do Partido Colorado40, entre os anos de 1882-1886 (do qual Stroessner viria a fazer parte, anos mais tarde). Considerando o largo período separando López (1862-1870) de Stroessner (1954-1989), em que medida essas reflexões de Guido Alcalá se relacionariamà ditadura militar? De que forma a fala de 2005 revelariaaspectos de López, de Stroessner ou do próprio Alcalá?
Considero importante, apenas em um primeiro momento, trazer aspectos do debate sobre o período do século XIX41, visto que o tema é um dos cernes de Guido Alcalá, assim comorelaciona-se com a história política paraguaia, a qual culmina com a ditadura de Stroessner, tema foco de discussão do LEGH. Para o escritor, muito além de Stroessner ser do Partido Colorado (ainda que com uma distância temporal de mais de cem anos), o que permite uma aproximação é o fato deste, muitas vezes, se “autoproclamar” representante dos López no século XX,
38ALCALÁ, Guido R. Imágenes de la Guerra y del Sistema. In: RICHARD, Nicolas;
CAPDEVILA, Luc; BOIDIN, Capucine (Orgs.). LesguerresduParaguayaux XIX et XX siècles.Paris: CoLibris, 2007, p. 200.
39 Carlos Antônio López foi o primeiro presidente do Paraguai, entre os anos de 1844-
1862. Ficou conhecido pela abertura do país ao mercado internacional, construção de ferrovias, criação de bibliotecas e, ainda, por ter dado aos “índios” a condição de cidadãos após o fim das Missões. Seu filho, Francisco Solano López, considerado um ditador por muitos, foi eleito após a morte do pai. Conhecido como El Supremo, governou no período de 1862 até 1870, quando morreu em razão da Guerra da Tríplice Aliança. Ver: DORATIOTO, op. cit.
40Partido fundado por Bernardino Caballero em 1887 sendo o que mais permaneceu no
executivo no século XX.
tomando para si uma imagem construída para simbolizar o progresso e o futuro da nação paraguaia. No que diz respeito ao período de 1870, observo que tanto Bernardino Caballero quanto outros que participaram da formação do Partido Colorado fizeram uso político da imagem dos López, ainda que o criticando em outras vezes, como também fez Stroessner. Este oportunismo não se deu sem motivo, de acordo com Guido Alcalá:
A quem beneficiava aquela exaltação do passado militar? Aos generais Bernardino Caballero, Patricio Escobar, Pedro Duarte e outros grandes donos de terras que pertenceram aos círculos do poder antes e depois da guerra. Eles foram responsáveis pelas leis de venda das terras públicas de 1883 e 1885 que empobreceram o camponês e defraudaram o Fisco. Para eles, era preferível que as críticas recaíssem sobre o passado, sobre o Imperador do Brasil e Bartolomé Mitre. [...] O revisionismo paraguaio nasceu como uma ideologia acobertadora, ainda que seus promotores se jactassem de haver elevado a moral de um povo deprimido pela derrota de 1870: “quis ser o animador, o unificador e o dignificador do espírito nacional”, disse O’Leary[tradução minha]42.
Para o escritor, permitir que a memória dos López fosse preservada como a de um herói, processo para o qual os chamados revisionistas (responsáveis pela história nacional) colaboraram,concedeu àqueles generais domínio político sobre as diretrizes do país nos governos seguintes. Com a persistência dos mesmos grupos privilegiados no poder, foram frustradas as possibilidades de mudanças políticas, as quais poderiam ter ocorrido naquela fase da república paraguaia. A situação social dos campesinos foi deteriorada, ainda que se investisse em um projeto de reconstrução do país, então representada nas figuras de Caballero e seu grupo e legitimada pela escrita dos revisionistas. Alcalá pontua que a elite manteve seus privilégios, ao mesmo tempo em que a desigualdade social apenas se alastrou, sob a
42 No original: “¿A quiénbeneficiabaaquellaexaltacióndelpasado militar? A losgenerales
Bernardino Caballero, Patricio Escobar, Pedro Duarte y otros grandes terratenientes que pertenecieron a los círculos del poder antes y después de la guerra. Ellosfueronresponsables de lasleyes de venta de lastierras públicas de 1883 y 1885, que empobrecieron al campesino y defraudaron al Fisco. Para ellosresultabapreferible que las críticas recayeran sobre elpasado, sobre elEmperadordel Brasil y Bartolomé Mitre. [...] El revisionismo paraguayonació como una ideologíaencubridora, aunque sus promotores se jactaran de haber remontado la moral de unpueblo deprimido por la derrota de 1870: “he querido ser el animador, el unificador y el dignificador delespíritu nacional”, dijo O’Leary.” ALCALÁ, Imágenes de la Guerra y del Sistema..., op. cit., p. 200.
égide da Guerra da Tríplice Aliança, na qual apenas os países vizinhos foram acusados como culpados. Naquelaépoca, ainda de acordo com Alcalá, algumas condições sociais paraguaias favoreceram os interesses da classe política dominante, visto que mais de 85% da população falava apenas o guarani e era analfabeta43. Ademais, havia apenas um jornal no país, com abrangência limitada, não apenas pelo número reduzido de indivíduos alfabetizados, mas também pela falta de poder aquisitivo.
Apoiados pela Junta (Brasil, Uruguai e Argentina), os militares apenas se mantiveram no poder após a derrota de López porque o criticaram, conforme Alcalá demonstra ao apresentar uma fala de Bernardino Caballero, entre excertos de arquivos da época:
[...] o Paraguai, desde a aparição do seu primeiro tirano, José Gaspar de Francia, desapareceu do catálogo das demais nações, esquecido e perdido por muitos anos [...]. Posteriormente [...] o novo Nero americano [López] lhe arrancou sua existência, seu porvir inteiro, sacrificando a suas paixões brutais tantas vítimas ilustres [tradução minha]44.
Segundo Alcalá, primeiramente Caballero criticou Carlos López e Solano López para ganhar o respeito político da Junta e, depois, já conquistado o poder, passou a fomentar a imagem de Solano López como herói, a fim de obter a confiança e o apoio popular. O que se pode apreender dessas relações estabelecidas pelo escritor é a sua preocupação em debater o modo como a história paraguaia passou a ser registrada, de acordo com os objetivos de políticos como Caballero. De acordo com Alcalá, apoiado em estudos do historiador norte-americano Harris Warren, o grupo político de Caballero pagava45 para que revisionistas escrevessem consoante aos seus interesses, incluindo aidealização de López que teria se iniciado pelo “culto” aos heróis da Guerra do Paraguai. Uma escrita que teria suas consequências, afinal, se a palavra é um acontecimento, passa a ser vista como uma ‘verdade’ e define parte do destino de um país. Neste sentido, lembro que o que despertou a atençãoda historiadora Cristina Scheibe Wolff em relação ao‘nome’ de Guido Alcalá, como uma referência de pesquisa paraguaia dentro das redes de informações, foi essa postura do escritor em relação
43 Idem.
44 No original: “[...] elParaguay desde laaparición de su primer tirano, José Gaspar de Francia,
desapareciódel catálogo de lasdemásnaciones, olvidado y perdido por muchosaños [...]. Posteriormente [...] elnuevoNerón americano [López] learrancósuexistencia, suporvenirentero, sacrificando a sus pasionesbrutales tantas víctimas ilustres.” Ibidem, p. 193.
à importância da memória na história de um país, história esta que também marcaria a sua trajetória e que se trata de uma versão, de um acontecimento.
Muitas das fontes analisadas pelas pesquisadoras do LEGH fazem parte dos estudos sobre a memória e a história oral. Lembro que a historiografia, desde os anos de 1970, tem revisto suas ideias e conceitos. Segundo ArletteFarge, ao trabalhar com a história do tempo presente, somos confrontados com a fala das testemunhas; porém, não é possível ver na testemunha (e em suas lembranças) apenas ideias que não confrontem o nosso objetivo, causando ainda conflitos entre a memória e a história46. Dessa forma, testemunhos e lembranças de processos traumáticos motivaram as indagações que historiadores passaram a fazer a partir dos anos de 1970, preocupados com os acontecimentos dos últimos 50 anos. Historiadores têm buscado a construção de uma história mais crítica, contemplando tanto a memória quanto as reflexões epistemológicas, ao passo que consideram as diferentes possibilidades de se perceber um acontecimento, comumente repleto de questionamentos e de testemunhas. Disso resulta uma infinidade de possibilidades e de “coisas a se resolver” no contingente de emoções que é o tempo presente, um período em que tudo e todos desejam o imediatismo, o que parece muitas vezes estar na contramão do próprio processo de escrita da história.
Para François Hartog, essa conjuntura se deve ao modo como o século XX mudou a perspectiva que tínhamos de futuro47. Em um primeiro momento, o futuro era o horizonte orientador de todas as transformações, em vista das transformações e novidades que logo viriam – as guerras mundiais, novos países decorrentes das independências na África e Ásia, a corrida espacial e a Guerra Fria, o desenvolvimento da teoria da relatividade, o crescimento dos meios de comunicação, entre muitas outras. Porém, a partir das mudanças ocorridas nos anos de 1970, em boa parte intensificadas pela globalização, como o fim do Estado de Bem Estar Social, o aumento das taxas de desemprego e as manifestações por liberdade de expressão e de igualdade social e racial, por exemplo, os indivíduos passaram a ter menos perspectiva em relação ao futuro e o presente tornou-se o novo horizonte. No entender de François Hartog, Émile Benveniste simplifica
46 FARGE, Arlette. Lugares para a história. Belo Horizonte: Autêntica, 2011, p. 80.
47 HARTOG, François. Regimes de Historicidade:presentismo e experiência do tempo. Belo
essa expectativa: “o presente é o iminente: o corpo do corredor inclinado para frente no momento de se lançar”48.
As circunstâncias que alteraram as perspectivas sobre o futuro também trouxeram novas preocupações, como a preservação de museus, patrimônios e acervos e a criação de espaços de memória, acompanhadas de milhares de publicações sobre o assunto. O presente foi envolto pela busca desenfreada por raízes, identidades, lembranças, genealogias. Nesse contexto, emergiram as ditaduras civis e/ou militares do Cone Sul que, por um tempo, tiveram suas memórias caladas em nome da escrita de “histórias oficiais”. Leis (como a da Anistia no Brasil) cujo objetivo foraque o esquecimento se tornassea pauta, em nome da paz e do perdão (ou da vergonha e do medo). É nessa conjuntura que se situam as memórias e os relatos que hoje se apresentam em entrevistas, em textos literários, em processos, pois:
A fronteira entre o dizível e o indizível, o confessável e o inconfessável, separa [...] uma memória coletiva subterrânea da sociedade civil dominada ou de grupos específicos, de uma memória coletiva organizada que resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado desejam passar e impor49.
Considerando as palavras de Pollak e ao refletir sobre as pessoas que não puderam falar em determinado momento da história e que estariam nessa memória coletiva subterrânea, os anos de 1990 e, em especial, os de 2000, proporcionaram àqueles que tinham vivido situações traumáticas ou difíceis oportunidades para contar o que lhes havia ocorrido. Importante lembrar que nem todos gostam de recordar ou de narrar a sua experiência, visto que cada pessoa tem seu modo de lidar com suas próprias memórias. Nesse período, início dos anos de 2000, o LEGH iniciou suas pesquisas. Ainda assim, trabalhar com essas narrativas foi desafiador: alguns entrevistados tinham certa desconfiança sobre “a real” intenção das pesquisas, do alcance das publicações acompanhadadoreceio de falar sobre a clandestinidade e a militância em tempos tão cruéis e nem tão distantes.
Nesse sentido, ainda em sintonia com Pollak, é preciso:
Distinguir entre conjunturas favoráveis ou desfavoráveis às memórias marginalizadas é de saída reconhecer a que ponto o presente colore o passado. Conforme as circunstâncias,
48 Ibidem, p. 142.
49 POLLAK, Michael. Memória, história, silêncio. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 2, n.
ocorre a emergência de certas lembranças, a ênfase é dada a um ou outro aspecto [...]50.
Portanto, além de respeitar a vontade dos entrevistados ou as narrativas sobre o quelembrar ou frisar, faz-se necessário considerar que o presente é importante para determinar como o passado é lembrado, ou seja, interesses do presente, os traumas tratados ou não e as trajetórias vividas após o período ditatorial motivam o modo como cada