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ETUDES DE CAS

O telefone celular incorporou funções para além da comunicação por voz e mensagem de texto antes mesmo de ser utilizado para estabelecer conexão com a internet, em razão de sua portabilidade, dimensões adequadas ao tamanho da palma da mão e peso insignificante. Fidalgo e Canavilhas (2009) explicam que o dispositivo foi adotado como ferramenta de organização e produtividade – com funções como agenda, despertador, calculadora, relógio e máquina fotográfica, entre outras – e lazer, pois oferece jogos e pode reproduzir músicas através de receptores de rádio FM ou leitores de mp3. Deste modo, “agregando funções que antes exigiam vários utensílios [...], o celular tornou-se um objeto imprescindível no dia a dia, de tal ordem que não se sai de casa sem ele” (FIDALGO; CANAVILHAS, 2009, p. 4). As mais básicas funcionalidades do celular já representavam a razão do apego ao dispositivo e necessidade de sempre carregá-lo a tiracolo.

Desde 1997, era possível acessar a internet no celular através da tecnologia WAP (Wireless Application Protocol), um padrão que permite exibir páginas da web nos dispositivos móveis. Estes, na época, ainda que incorporassem recursos como a capacidade de acessar a internet e armazenar e reproduzir música, não dispunham das funcionalidades avançada de um smartphone. Os sites no estilo WAP eram bastante elementares, caracterizados por listas de hiperlinks e texto simples. Em vista disso, hoje o uso do WAP é obsoleto, limitado aos celulares antigos – nenhum dos smartphones modernos se serve dessa tecnologia (BUDIU E NIELSEN, 2013).

A partir do 3G, terceira geração de tecnologia digital de internet móvel, que oferece uma transmissão de dados mais veloz através de frequências de rádio, foi possível navegar na internet via celular de forma mais agilizada. A conexão eficaz através do celular e suas funções de PDA49 conduziram ao surgimento dos smartphones que, como afirmam Fidalgo e Canavilhas (2009), aumentaram de tamanho em comparação aos celulares, particularmente no que diz respeito às telas. Além disso, tal mudança de dimensões correspondeu, em muitos dispositivos, ao desaparecimento do teclado físico, que se tornou um elemento virtual na tela

49 Acrônimo para Personal Digital Assistant (em português, assistente pessoal digital). Atualmente em desuso, os

PDA’s consistem em dispositivos pequenos e móveis de computação, armazenamento de informação e capacidade de recuperação de dados, para uso pessoal ou empresarial. Disponível em: <http://www.palmbrasil.com.br/vocab/pda.html>. Acesso em: 15 abr. 2016.

sensível ao toque (touch screen). Smartphones geralmente têm grande capacidade de armazenamento de dados, e proporcionam uma navegação fluida pela internet através dos sinais de Wi-Fi, 3G e 4G. Dotados de sistemas operacionais complexos, estes aparelhos permitem o download de aplicativos, que se constituem em programas para as mais diversas finalidades, além de jogos, músicas, filmes, livros, e assim por diante.

Espera-se dos smartphones e tablets – dispositivos pós-PC, assim chamados por Baxter-Reynolds (2013) – que estejam sempre conectados e disponíveis para uso, pois necessitam de recargas menos frequentes se comparados a notebooks e computadores de mesa. Tipicamente, smartphones suportam um dia sem precisar de uma nova carga de energia, enquanto tablets resistem de três a quatro dias, e esse atributo é fundamental à noção de estar sempre disponível.

Igualmente, a disponibilidade constante está relacionada ao design dos smartphones: eles são concebidos no menor e mais leve formato possível, dentro dos limites das funções que desempenham; nas palavras de Baxter-Reynolds (2013), são ultraportáteis (enquanto os PCs são apenas adaptáveis e, os tablets, microportáteis). Ao mesmo tempo em que a maioria das pessoas carrega seu celular junto de si em qualquer situação, poucas fazem o mesmo com o computador pessoal:

esta habilidade de levar um smartphone onde quer que você vá deve-se, em grande medida, à posição sociológica dos telefones celulares que tem sido forjada ao longo das duas últimas décadas. Especificamente, todas as pessoas esperam que todas as outras tenham um telefone com elas o tempo todo (BAXTER-REYNOLDS, 2013, p. 20)50.

Em 2016, o celular ultrapassou o computador e é atualmente o principal meio de acesso à internet no Brasil pela primeira vez51. Isto decorre da popularização dos smartphones, além de constantes variações no seu valor médio desde que foram introduzidos no mercado nacional: no terceiro trimestre de 2014, por exemplo, custavam em torno de R$

50 Tradução livre da autora para: “this ability to take a smartphone wherever you go is largely thanks to the

sociological position of cellular phones that’s been carved out over the past two decades. Specifically, everyone expects everyone else to have a phone with them all of the time” (BAXTER-REYNOLDS, 2013, p. 20).

51 De acordo com o Instituto Brasileiro de Economia e Geografia (IBGE), que promoveu a Pesquisa Nacional

por Amostra de Domicílios (PNAD), com base em dados de 2014. Disponível em: <http://g1.globo.com/jornal- nacional/noticia/2016/04/celular-passa-ser-o-principal-meio-de-acesso-internet-no-brasil.html>. Acesso em: 20 abr. 2016.

590,00 (310 reais a menos do que se registrou no início de 2011)52. A oferta de aparelhos acessíveis e de boa qualidade, aliada à melhor compreensão do consumidor brasileiro a respeito da questão custo-benefício – ou seja, um smartphone bom não é, necessariamente, o mais caro – é uma das razões da ampla adoção desta tecnologia no dia a dia dos brasileiros. As atuais melhorias nas especificações técnicas e a maior sofisticação e robustez dos aparelhos prolongam seu ciclo de vida: os dispositivos vêm sendo trocados com menos frequência. O período de cerca de um ano e seis meses, em geral suficiente para a aquisição de um novo aparelho, tem se estendido53.

Em 2015, ainda, a Nielsen IBOPE registrou que 68,4 milhões de brasileiros acessam a internet por meio de smartphone – a posse desse recurso, contudo, ainda se concentra nas classes A e B (que somam 62% do total). Redes sociais e comunicadores de mensagens, e- mail, vídeos, notícias, música e portais são os conteúdos e serviços mais usados pelos brasileiros na internet do dispositivo. Dos 20 aplicativos mais utilizados no país, sete são redes sociais ou comunicadores, quatro são bancos, três são plataformas de e-mail, dois são para vídeos e os outros são um game, uma loja de aplicativos, um navegador e um serviço de mapa e GPS54.

A ampla adesão aos smarpthones se verifica, também, em razão do manejo comumente descomplicado desses aparelhos. Como afirma Baxter-Reynolds (2013), o uso de dispositivos pós-PC deve ser muito fácil: quanto mais simples o manuseio do objeto, maiores são as chances de que sobreviva no mercado. Nesse sentido, a ideia é que o uso do smartphone ou tablet demande pouca carga cognitiva, que é a quantidade de esforço mental consciente necessária para executar determinada ação. Dispositivos valorizados no mercado são projetados para levar os usuários, sem muita dificuldade – ou seja, sem o empenho expressivo de carga cognitiva –, à “competência inconsciente”, habilidade de desempenhar uma tarefa sem precisar empregar esforço mental.

O conceito de carga cognitiva está diretamente ligado às noções de usabilidade e

52 Dados da consultoria de mercado IDC. Disponível em:

<http://tecnologia.uol.com.br/noticias/redacao/2014/12/22/mercado-de-smartphone-bate-recorde-com-preco- medio-de-r-590-diz-idc.htm>. Acesso em: 04 jan. 2016.

53 Dados da consultoria de mercado IDC. Disponível em: <http://br.idclatin.com/releases/news.aspx?id=1959>.

Acesso em: 04 jan. 2016.

54

Disponível em: <http://www.nielsen.com/br/pt/press-room/2015/68-milhoes-usam-a-internet-pelo- smartphone-no-Brasil.html>. Acesso em: 04 jan. 2016.

experiência do usuário: quando os dispositivos móveis oferecem esses dois atributos de forma satisfatória, é mais fácil aprender a usá-los, encaminhando o sujeito de modo rápido e regular ao estado de competência inconsciente. Ao contrário dos PCs, concebidos para desenvolverem muitas atividades ao mesmo tempo, os dispositivos pós-PC são idealizados para desempenhar uma ação de cada vez. Assim, a dinâmica de uso desses aparelhos consiste, basicamente, em operar aplicativos individualmente. Tendemos a manipular um aplicativo que está em primeiro plano e, quando do desejo de mudar de atividade, “saltamos” de um app para o outro (BAXTER-REYNOLDS, 2013).

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