Como o foco deste trabalho é o usuário falante não-nativo, trataremos somente das obras que têm como foco o inglês como língua estrangeira – LE.Hausmann (1977, apud WELKER, 2004, p. 215) faz uma distinção entre dicionário para aprendizes e dicionário de aprendizagem. Os dicionários de aprendizagem são aqueles que devem ajudar o usuário na aquisição de vocabulário e de preferência têm macroestrutura onomasiológica. Segundo o mesmo autor, há dicionários semasiológicos que contêm informações necessárias para auxiliar na aprendizagem de língua.
Nesta subseção, discutimos as características dos dicionários chamados de
learners’ dictionaries, dicionários para aprendizes, cujo objetivo é auxiliar o aprendiz
de LE nas suas inúmeras atividades.
Na revisão de bibliografia, conseguimos recuperar muitos trabalhos e estudos que tratavam da lexicografia pedagógica e, mais especificamente, de dicionários para aprendizes. Entretanto, a maioria dos trabalhos refere-se somente a dicionários monolíngües. Quanto às origens dos dicionários para aprendizes, podemos citar Cowie (1999):
[...] os ‘pais fundadores’ do MLD (monolingual learner’s dictionary) – Harold Palmer, Michael West e A. S. Hornby – haviam, já naquela época, acrescido, às informações características dos dicionários ingleses de língua materna, um novo conjunto de elementos que era inspirado pelas necessidades de aprendizes não-nativos.
Os lexicógrafos citados – Palmer, Hornby e West – estavam interessados no ensino de inglês como língua estrangeira (EFL) e queriam promover meios para facilitar a aprendizagem de LE.
O primeiro dicionário para aprendizes publicado foi o New Method English
Dictionary (1935), que usou nas definições, pela primeira vez, um vocabulário limitado
ou ‘controlado’, constituído de 1490 palavras (WELKER, 2004, p. 217). Dois anos depois, ocorreu a elaboração de uma lista de mil palavras, organizada por Hornby e Palmer, que continha não somente lexemas, mas também formas irregulares, palavras derivadas e colocações (Thousand Word English, 1937).
Segundo Cowie (2000), os verbetes de verbos deste tipo de dicionário apresentavam informações sobre a construção sintática, indicando, por exemplo, se um objeto poderia designar coisas ou pessoas.
De acordo com Welker (2004), historicamente, em 1948 o dicionário de Hornby foi reeditado com o título A Learner’s Dictionary of Current English e, em 1952, com o título The Advanced Learner’s Dictionary of Current English, tornando-se o primeiro famoso dicionário para aprendizes. Hoje, intitula-se Oxford Advanced Learner’s
Dictionary (OALD), como é geralmente citado.
Em 1978, o OALD ganhou um concorrente – Longman Dictionary of
Contemporary English (LDOCE) e, em 1987, Collins publicou Collins COBUILD English Language Dictionary (hoje intitulado de Collins COBUILD English Dictionary), impulsionando ainda mais o mercado de dicionários para aprendizes. Pode-
se dizer que, pela abrangência da língua inglesa como LE no mundo inteiro, o mercado desse tipo de dicionário começou a crescer. Em 1995, a editora Cambridge publicou o
Cambridge Dictionary of English (CIDE), aumentando a oferta de dicionários para
aprendizes. No mesmo ano, Oxford, Longman e Collins lançaram reedições dos seus dicionários.
Herbst (1996), em seu artigo “On the way to the perfect learner’s dictionary: a
first comparison of OALD5, LDOCE3, COBUILD2 and CIDE”, faz uma comparação
entre os quatro dicionários, chamando a atenção para as principais características do dicionário para aprendizes, como mostra o Quadro 4, extraído de seu texto:
QUADRO 4 – Comparação entre dicionários para aprendizes
OALD LDOCE CIDE COBUILD
Oxford American English Corpus (mais de 40 milhões de ocorrência) Não há informação Mais de 700 milhões de ocorrências de palavras Bank of English (200 milhões de palavras) Corpus
Baseados em corpora eletrônicos
Vocabulário de Definição
Definições escritas com vocabulário de definição entre 2000 e 3500 palavras
Exemplos Exemplos são construídos com base nas ocorrências do corpus
Maior número de exemplos, todos extraídos do corpus Registradas e explicadas
Colocações Exemplos Notas de uso
Exemplos Abonações + definição
Transcrição Fonética
Utilizam símbolos do Alfabeto Fonético Internacional e marcam diferenças entre inglês britânico e inglês americano
Ilustração Gráfica Apresentam ilustrações gráficas do significado de alguns lexemas, geralmente mostrando certos campos
semânticos
Não apresenta
Marcas de Uso Abreviaturas ou palavras inteiras
Não contém, dá as informações sobre as variedades dentro da própria definição Principais significados e registro em diferentes
entradas, mas admite várias acepções dentro do mesmo verbete
Registradas no mesmo verbete
Unidades Lexicais Homógrafas
Uso de palavras guias – escritas em caixa alta, facilitam a escolha do verbete pelo usuário
Lexias Complexas (palavras derivadas
e lexemas compostos)
Inclusão das lexias compostas dentro do verbete da lexia simples Melhor solução: entradas separadas
Inclusão das lexias compostas dentro do verbete da lexia simples
Os corpora permitem a seleção de lemas com base na freqüência, além de diferenciar e ordenar as diferentes acepções da unidade lexical.
O vocabulário de definição tem como objetivo facilitar a compreensão do verbete pelo usuário. Segundo Herbst (1996), outra vantagem do vocabulário de definição é servir de modelo para um professor de LE em suas explicações em sala de aula.
Um dos objetivos de um dicionário para aprendizes é o auxílio na produção de textos em LE, assim, uma das preocupações dos autores desses dicionários é oferecer informações gramaticais que vão além da regência.
Quanto às colocações, ou seja, combinações de duas ou mais palavras que formam uma expressão que corresponde a um modo convencional de dizer algo na língua, todos os dicionários fornecem suas explicações, entretanto, cada um possui um método distinto do outro. No OALD, as colocações são contempladas nos exemplos; no
COBUILD, apresentam-se nas abonações, mas às vezes aparecem dentro da definição; já o LDOCE dá maior destaque para as colocações inserindo-as em notas de uso.
Por exemplo, o OALD traz as combinações de palavras nos exemplos que seguem as definições. Para se descobrir quais adjetivos podem ser usados com um substantivo em particular, o usuário deve ler os exemplos no verbete.
wine /wain/ n 1 [U,C] an alcoholic drink made from the juice of grapes (GRAPE) that has been left to FERMENT1: open a bottle of wine { dry/sweet wine { a glass of
red/white/rosé/sparkling wine { vintage wines. 2 [U,C] an alcoholic drink made from plants or
fruits other than grapes (GRAPE): apple/cowslip/rice wine.
Herbst (1996) tinha como objetivo apenas mostrar algumas características de dicionários para aprendizes, sem analisar criticamente cada um de seus componentes. É interessante observar, entretanto, que os dicionários para aprendizes têm colocado em prática muitas recomendações e resultados de pesquisas lexicográficas que têm como foco o ensino de língua estrangeira.
Um bom dicionário para aprendizes deve satisfazer não somente o usuário do dicionário, mas também o professor de LE, além de satisfazer o próprio lexicógrafo.
[...] O lexicógrafo que quer praticar a lexicografia pedagógica ou a lexicografia de aprendizagem [...] com um certo sucesso deve ser também um professor. Para selecionar, organizar e apresentar o vocabulário simultaneamente sobre o plano lingüístico e conceitual, ele deve conhecer as necessidades receptivas e produtivas e as dificuldades dos aprendizes, ter uma idéia dos processos de aquisição do vocabulário e saber como este é ensinado. (ZÖFGEN, 1994, apud WELKER, 2004, p. 222)
Há também no mercado outros dicionários para aprendizes como o MacMillan
English Dictionary for Advanced Learners of American English, além de dicionários em
outras línguas, que não foram estudados neste trabalho. O mercado também oferece espaço para dicionários onomasiológicos para aprendizes, como é o caso do Longman
Language Activator, cuja estrutura favorece a produção de LE dos usuários, com mais
informações sobre cada entrada, partindo do conceito para os signos. Entretanto, nem sempre tais dicionários têm boa aceitação por parte dos usuários, pois a divisão em categorias geralmente dificulta a busca de lexemas pelos usuários.
Longo (2002) analisa as características de dicionários para aprendizes de língua. Em seu artigo, a autora apresenta os critérios de classificação de dicionários segundo Malkiel (1967) e Landau (1989). Em seguida, analisa criticamente os dicionários escolares com relação aos seus propósitos, público alvo, microestrutura, seleção de entradas e vocabulário de definição.
Segundo a autora, os dicionários escolares têm por objetivo a compreensão e a produção. Podem ser monolíngües ou bilíngües e geralmente abrangem um faixa etária entre 10 e 18 anos. Entretanto, quando o público alvo é constituído de falantes não- nativos, não há limite de idade.
Depois de analisar Biderman (1984a) com relação ao corpus de base que permite estabelecer uma hierarquia de freqüência para as entradas; Amritavalli (1999) quanto ao vocabulário de definição, que simplifica a explicação da palavra; e Höfling (2000) sobre a definição referencial no dicionário monolíngüe para aprendizes, que deve possibilitar a inserção do item em classe genérica e conter as características semânticas relevantes para a sua descrição, complementada pela definição sinonímica, por frases ilustrativas; Longo (2002) conclui que:
[...] num dicionário escolar de comunicação, o verbete deve trazer a forma lematizada do item, bem como possíveis variações ortográficas e de realização fonética; definição referencial baseada em vocabulário fundamental; definição sinonímica; informações morfossintáticas incluindo a classificação dos itens, especificações sobre flexões irregulares, sobre a estrutura argumental e sobre possíveis restrições de subcategorização; exemplificação do uso. Nesse tipo de dicionário, é essencial contemplar o sistema de transitividade dos itens, e as diferentes possibilidades de distribuição e configuração sintática, correlacionando-as às diversas acepções.
A autora analisa 04 dicionários escolares: Minidicionário da língua portuguesa (FERREIRA, 1993); Minidicionário Luft (2000); Oxford Advanced Learner’s
Dictionary - OALD (HORNBY, 1995); e Longman Dictionary of Contemporary English - LDOCE (LONGMAN, 1987). No Quadro 5, a seguir, procuramos sintetizar
QUADRO 5 – Análise comparativa de 04 dicionários escolares Minidicionário da língua portuguesa Minidicionário Luft OALD LDOCE
Transcrição fonética Somente algumas “chaves de pronúncia” Transcrição fonética
Figuras Não apresentam figuras Apresentam figuras
Definição Definições sinonímicas e paráfrases Algumas acepções não são contempladas
Paráfrases
Número de entradas
Varia de 30.000 a 60.000 (ultrapassam a extensão de um dicionário escolar)
Divisão silábica As palavras base apresentam divisão silábica
Informações gramaticais
Categoria da palavra e especificações gramaticais
Apêndices e páginas de estudo
Informações gramaticais e listas de nomes próprios ou gentílicos, sufixos, numerais, pesos e medidas etc.
Vocabulário presente na definição
O vocabulário parece ser acessível aos estudantes
Remissões Fazem uso de remissões
Não faz uso de remissões nos
verbetes analisados
Contextualização Quando não recorrem à contextualização, correm o risco de não cumprir seu papel de explicação do item
Uso abundante de exemplos
Estrutura argumental
Não há preocupação em apresentar colocações
Apresentam nos exemplos as principais colocações
Em conclusão, Longo (2002) mostra que os dicionários do inglês poderiam ser classificados como dicionários escolares, mas os dicionários do português nem sempre alcançam o objetivo da compreensão por parte do aluno, nem o levam à produção na LM. Faltam definições sinonímicas para complementar as referenciais, informações gramaticais e contextualização.
A autora propõe que o recurso a um corpus delimitado, o estudo das propriedades morfossintáticas e semânticas dos itens, bem como a inserção de exemplos de uso real da língua, seriam fatores que delimitariam o dicionário como escolar, um dicionário “que realmente pudesse ser utilizado como instrumento para a competência comunicativa dos aprendizes de língua.”
Há ainda que mencionar os dicionários semibilíngües com estrutura semasiológica. Tais dicionários têm as mesmas características dos dicionários monolíngües para aprendizes, com o acréscimo da tradução no final do verbete.
A problemática dos dicionários para aprendizes, suas idiossincrasias, seus aspectos positivos e negativos vêm sendo estudados por muitos teóricos – lexicógrafos, lexicólogos, lingüistas aplicados ao ensino de LE – entretanto, ainda há muito que se considerar quanto a este tipo de dicionário. O foco deste trabalho reside na análise do
perfil do usuário de dicionários para aprendizes, sejam tais dicionários monolíngües, bilíngües ou semibilíngües. Os dicionários utilizados na coleta de dados deste trabalho foram analisados e suas características são apresentadas na subseção que trata do material utilizado, juntamente com as informações a respeito da metodologia. Seguimos, portanto, com algumas considerações a respeito do uso do dicionário para aprendizes na sala de aula de LE e de reações dos aprendizes em relação ao uso do dicionário.