Na sociedade em que vivemos onde muito se consome e muito se produz, pensar em preservar o meio ambiente é também pensar em desenvolvimento, isto porque, a necessidade de se produzir e consumir para sobreviver equivale a de preservar, ou pelo menos assim deveria ser.
Entretanto, várias são as concepções de “meio ambiente” conforme discutiremos mais adiante. Assim como, também teremos diferentes concepções de “desenvolvimento”, e dessa forma, a noção de desenvolvimento sustentável trazida nos documentos da UNESCO, que o definem como o objetivo mais decisivo da relação homem/natureza ou como desenvolvimento que utilize os recursos naturais considerando a sua equidade, tem sofrido diversas críticas.
Sabemos que o tipo de relação que temos com a natureza é que vai determinar os problemas ambientais. E que a atividade humana econômica e cultural interferem no meio biofísico e na qualidade e intensidade dessas relações, o que requer transformações diante do quadro natural no qual nos encontramos. Diante destas constatações, vários documentos provenientes de diversos encontros e conferências nacionais e internacionais sobre o tema meio ambiente vêm sendo elaborados desde Estocolmo (1972), assim como Belgrado (1975), Tibilisi (1977) entre tantos outros, até Copenhague (2009). No entanto, precisamos de ações que viabilizem a prática das determinações desses documentos.
A necessidade de um Desenvolvimento Sustentável está presente nestas determinações e o conceito de sustentabilidade vem sendo construído a partir de todas estas discussões e dos documentos elaborados nestes encontros, assumindo dessa forma, uma diversidade de interpretações e diferentes formas de se pensar e praticar a sustentabilidade.
Atualmente, pensar em sustentabilidade implica associar esta palavra à expressão “desenvolvimento sustentável”. Segundo Barreira Filho e Sampaio (2004) o conceito de desenvolvimento sustentável passa pelo de sustentabilidade e deve aceitar três princípios fundamentais:
Socialmente Justo – procurar diminuir as desigualdades sociais - , Economicamente viável – econômico do ponto de vista de contribuir para melhor distribuição de renda – e Ecologicamente correto – viabilizar a preservação e conservação da natureza (BARREIRA FILHO; SAMPAIO, 2004, p.91).
Estes autores destacam ainda que, o crescimento econômico deve se adequar à sustentabilidade ambiental, considerando a equidade social e que o modelo de desenvolvimento econômico e o padrão de consumo dos países desenvolvidos deve ser repensado.
A dificuldade está no fato de que estes países não estão dispostos a reduzir o consumo e, consequentemente, os ganhos econômicos em detrimento dos países pobres ou em desenvolvimento, a exemplo do que aconteceu em Copenhague na Dinamarca (2009), quando líderes mundiais reuniram-se para discutir como reagir às mudanças climáticas atuais, buscando soluções a partir da diminuição da emissão de gases poluentes na atmosfera.
Esta Conferência organizada pelas Nações Unidas foi marcada por manifestações populares de ambientalistas que protestavam pela posição de países desenvolvidos que se mantiveram contrários ao acordo, não aderindo aos planos de discussões almejados, para não comprometerem seus ritmos de desenvolvimento.
De acordo com Rodriguez e Silva (2009), muitos ambientalistas têm feito críticas à concepção de desenvolvimento sustentável por acreditarem que a palavra „sustentabilidade‟ tem sofrido vulgarização e tornado-se um „lance de marketing‟ ou ainda ter sido reduzida ao simples uso racional dos recursos naturais.
Diante das críticas, várias são as propostas para uma possível substituição do termo “desenvolvimento sustentável”. Porém, considerando que foi consolidado num debate tecido pela opinião pública internacional e que ganhou espaço e aceitação no mundo, buscamos não assumir esta indefinição conceitual em nossa reflexão, apesar de admitirmos as várias interpretações dadas não somente ao “desenvolvimento sustentável”, mas também ao “meio ambiente” e até mesmo à “Educação”. Procuramos não entrar nestas discussões e nos detemos às interpretações destes conceitos que consideramos mais apropriadas a nossa temática.
Acreditamos na Educação como uma prática includente, e se o momento requer uma busca pela sustentabilidade atribuímos a ela a incumbência de “ferramenta” de mobilização social nessa busca. Ela não deve ser apenas a “Educação Ambiental Para o Desenvolvimento Sustentável”; sua dimensão de alcance deve ser bem maior. Segundo Sauvé (1997) “a educação deve objetivar o desenvolvimento ideal da humanidade, com ênfase na autonomia e no pensamento crítico” através de construção de conhecimentos, objetivando transformações sociais por meio da dialética, isto é, por meio do debate crítico e da troca de conhecimentos entre os sujeitos sociais envolvidos, para então promover o desenvolvimento social e consequentemente sustentável.
Segundo Rodriguez e Silva (2009) é a partir das diferentes correntes epistemológicas das ciências ambientais que se estabelecem diferentes definições de meio ambiente, são elas:
a) visão biológica onde o meio ambiente é o grupo de todas as condições e influências externas que afetam a vida e o desenvolvimento de um organismo; essa visão não considera o ser humano;
b) visão antropocêntrica que considera os fatores bióticos e abióticos, porém incorpora o ser humano como o centro das relações entre o sujeito e os objetos;
c) visão da ecologia humana que inclui todos os aspectos dos ecossistemas aos quais pertencem os seres humanos, o meio natural e as condições socioculturais;
d) visão holística onde o meio ambiente é uma unidade composta de círculos concêntricos, onde as pessoas interagem e se desenvolvem;
e) visão global onde o ambiente nem é a sociedade e nem a natureza, mas a inter-relação de ambas;
f) visão do meio ambiente como representação social seria o lugar onde os elementos naturais e sociais estão em relação dinâmica e sob interação;
g) visão do meio ambiente como espaço, na qual os seres vivos interagem com os diversos componentes, bióticos, abióticos e socioculturais, transformando o espaço e a si próprio, ou seja, o meio ambiente é resultado das inter-relações entre sociedade e natureza no espaço e tempo concretos (RODRIGUEZ; SILVA, 2009, p.27).
Todas estas concepções podem coexistir e complementar-se, contemplando substancialmente a nossa temática, porém, esta diversidade é base de profundas reflexões. Dessa forma, optamos por adotar a noção de meio ambiente como espaço, pois, nesta perspectiva ele é o resultado da relação sociedade-natureza através de um processo histórico de ocupação e transformação do espaço pela sociedade.
Fizemos esta escolha por tratar-se de uma visão geográfica e já abordada por nós no capítulo anterior direcionada ao foco desta pesquisa.
Estabelecidas as concepções de educação e de meio ambiente, retomemos então a questão do “desenvolvimento sustentável” que, conforme mencionamos, anteriormente, vem sendo alvo de inúmeras críticas.
Segundo Sato (2001), o conceito do termo “desenvolvimento sustentável” apareceu pela primeira vez, em 1987, no documento intitulado “Nosso futuro comum” (Brundtland, 1987). Esse documento já admitia que uma aceitação desse conceito não se fazia necessária, mas sim a sua aplicação. De acordo com a United
NationsEducational, Scientificand Cultural Organization (Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), UNESCO, “o desenvolvimento sustentável procura satisfazer as necessidades do presente sem comprometer as das gerações futuras“.
Nesse sentido, em 2002, na 57ª sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas foi proclamada a Resolução nº. 254 que instituiu a “década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável de 2005 a 2014”. A partir daí somaram-se esforços para instituir a Educação Ambiental Para o Desenvolvimento Sustentável (EAPDS). Havia os que o viam como o objetivo principal da Educação Ambiental, e outros como um dos objetivos específicos. O desenvolvimento sustentável como meta passou a ser pauta de diversos discursos tanto nos países desenvolvidos como nos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, e em meio a tantos “desenvolvimentos” podemos nos questionar: De que tipo dedesenvolvimento estamos falando? Seria do desenvolvimento como sinônimo de progresso; ou do econômico, social, cultural ou ambiental?
Sato (2001) propõe um “(des)envolvimento humano”, a partir da análise desta palavra verificada em diferentes idiomas, observou que ela assume significados semelhantes, como sinônimo de progresso e avanços tecnológicos, que mais se adéqua a um desenvolvimento econômico e que historicamente significa “avançar no sentido de maximizar potencialidades”. Quando analisado a partir do dicionário da língua portuguesa consta-se que é composto por dois radicais “des” e “envolvimento” e pode ser compreendido como “tirar a cápsula; mostrar o que estava encoberto; „não envolvimento‟” (FERREIRA, 1999, apud SATO, 2001).
Para esta autora, este “não envolvimento” significa justamente “desenfrear um modelo perverso sem o envolvimento com as questões sociais, ecológicas e
espirituais”. Nesse sentido, ela propõe a substituição do termo “desenvolvimento” somente pelo “envolvimento”, isto é:
[...] por um envolvimento humano que se posicione além do poder econômico, mas que atente às necessidades sociais, ecológicase também as espirituais, compreendendo a ética, a paixão e a solidariedade como patamares fundamentais para qualquer envolvimento que tenha clareza da globalidade da Terra em sua diversidade. Que reconheça que a beleza da vida ancora-se na pluralidade e que os modelos gerados por aquelas plataformas políticas não conseguiram responder aos desafios da fome e da miséria no planeta (SATO, 2001, p.22).
Partindo da idéia de que o desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades (Comissão Mundial sobre meio ambiente e desenvolvimento, 1991), o gerenciamento ambiental seria fundamental para a sustentabilidade, pois objetiva conciliar as atividades humanas e o meio ambiente.
No entanto, o gerenciamento ambiental dificilmente alcançaria seu objetivo sem que o homem, sujeito ativo no processo de intervenção para a modificação do meio receba uma educação no sentido de exercer suas atividades produtivas respeitando os limites naturais.
À Educação Ambiental desenvolvida na escola e fora dela cabe, portanto, o papel de disseminação dos objetivos da prática da sustentabilidade ambiental, pois necessária se faz a conciliação do desenvolvimento econômico com o desenvolvimento humano, de modo a promover uma educação que desperte o sentimento de participação e de envolvimento. Como destaca Sorrentino:
Diante do aparente paradoxo de promover uma cidadania planetária que encare o desafio de decodificar e enfrentar essa complexa matriz de fatores que ameaçam nossa existência na Terra, além de aliar e incentivar ações locais, inovadoras e criativas para a superação da miséria, pobreza, desemprego, niilismo e uso de drogas, entre outas questões relacionadas à luta cotidiana pela sobrevivência e pela melhoria na qualidade de vida, precisamos despertar em cada individuo o sentimento de “pertencimento”, participação e responsabilidade na busca de respostas locais e globais que a temática do desenvolvimento sustentável nos propõe (SORRENTINO, 2008, p.19).
A Educação Ambiental para o Desenvolvimento Sustentável deve ser vista também como uma educação para a prática da cidadania, para o desenvolvimento do homem, para a preparação para o mercado de trabalho, e para a vida. Educar é também sinônimo de preservar o meio ambiente e assim preservar a si e a todos. Assim, da relação entre homem e meio resulta o desenvolvimento, seja ele sustentável ou não sustentável.
Dessa forma, acreditamos ser através de uma educação feita com autonomia e pautada na ética, ser possível apostar no envolvimento humano, através da busca por uma sociedade desenvolvida sob todos os aspectos, de forma equilibrada, para então alcançarmos a sustentabilidade.