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Etape Grenobloise du 9 octobre

Dans le document Magazine Developpez (Page 35-39)

Compte rendu de l'Agile Tour 2008

4. Etape Grenobloise du 9 octobre

“Os pensamentos são ações”. (Nietzsche)

Morgan (1997), citado por Gondin (2003, p.151), define grupos focais “[...] como uma técnica de pesquisa que coleta dados por meio das interações grupais ao se discutir um tópico especial sugerido pelo pesquisador”. Como uma técnica, os grupos focais ocupam uma posição intermediária entre a observação participante e as entrevistas

em profundidade, podendo ser utilizados como ferramenta para se compreender o processo de construção das percepções e atitudes de grupos sociais.

Embora, para muitos, essa técnica possa perecer uma modalidade de entrevista em grupo, as diferenças entre elas são significativas no que se refere à qualidade dos dados obtidos. Na entrevista em grupo, o entrevistador grupal exerce uma relação mais didática, diretiva, com cada membro do grupo. No grupo focal, o pesquisador deve assumir uma postura de facilitador e moderador da discussão, estando sua ênfase nos processos psicossociais que emergem, nas contradições, nos jogos de forças, nas influências. No processo de entrevista grupal, as respostas são ouvidas individualmente e comparadas, enquanto no grupo focal todas as respostas são vistas como sendo do grupo, ainda que tenham sido expressas por um único membro. Esse último aspecto muda consideravelmente o nível das análises, pois na entrevista grupal, é feita do indivíduo no grupo, enquanto no grupo focal o que estará em análise é o próprio grupo.

Os grupos focais podem ser utilizados de três formas: a) grupos auto-referentes, principal fonte de dados de uma pesquisa; b) grupos focais como técnica complementar, em que ele servirá para estudos preliminares, testagem de instrumentos ou hipóteses; e c) grupo focal como uma proposta multimétodos qualitativos, que integra seus resultados com o da observação participante e de entrevistas em profundidade (MORGAN, 1997, apud GODIN, 2003).

Consideramos interessante o emprego de grupos focais por tornar possível a comparação entre o conteúdo produzido no grupo e o cotidiano de trabalho dos agentes, o que muitas vezes colocou em evidência as contradições presentes no processo de trabalho desses sujeitos. Além disso, foi por meio dessa discussão que tivemos acesso à percepção que os agentes têm do próprio trabalho, a maneira como se sentem na relação com a comunidade e com a equipe, o que entendem por saúde, entre outros itens.

Um aspecto que, desde o início, apontamos para os agentes foi de que nenhum deles deveria se sentir impelido a participar da pesquisa, ainda que os demais agentes de sua equipe assim o fizessem. Foi assegurado total sigilo de suas identidades, principalmente quando na utilização do gravador para registro das falas e discussão dos grupos focais.

Foram realizados dois grupos focais em que estiveram presentes as duas equipes, dez agentes ao todo. No primeiro grupo, que aconteceu dois meses depois de iniciado o trabalho, começamos explicando quais eram os objetivos daquele encontro: conhecer as percepções que eles tinham sobre o próprio trabalho, o que eles entendiam por PSF e como era para eles trabalhar e, ao mesmo tempo, serem moradores da comunidade. Explicamos de início como a discussão deveria ocorrer: um falando por vez para que ninguém deixasse de ser ouvido e assim fosse possível o registro (gravação) de todas as falas. Explicamos que todos teriam o direito de expressar suas opiniões e solicitamos que não houvesse conversas paralelas. Foi elaborado um roteiro (Apêndice A) com tópicos a serem discutidos de forma que a discussão não se perdesse. Nossa interferência, entretanto, limitava-se a introduzir algumas questões e pedir que explicitassem melhor alguma colocação feita, deixando que a discussão entre os sujeitos fluísse livremente.

Foi interessante percebermos que, no início do grupo, alguns agentes se mostravam apreensivos com o teor da discussão, preferindo permanecer mais calados. Entretanto, ao perceberem nossa postura de acolhimento ao que expressavam, passaram a se mostrar mais à vontade. Tivemos a nítida impressão de que, em função da nossa entrada na unidade ter sido via coordenadora, eles tinham medo de que alguma coisa que fosse dita ali chegasse até ela. Os agentes chegaram a comentar, durante a discussão sobre uma reunião que havia sido realizada com eles por uma psicóloga da unidade, e que “deu muita conversa” (ACS) e que não era para ninguém ficar comentando o que seria discutido ali. Percebemos que, depois desse

primeiro encontro, os agentes tornaram-se ainda mais abertos e receptivos, pois tiveram a certeza de que nós não estávamos ali para dizer se o trabalho deles estava certo ou errado, como haviam pensado a princípio.

Assim, à medida que a discussão fluía, os pontos por nós considerados importantes iam sendo debatidos espontaneamente, tornando-se desnecessário introduzir alguns deles na discussão. Durante a realização do grupo, alguns aspectos interessantes emergiram e, a partir deles, introduzimos questões que não haviam sido previstas no roteiro. Os grupos foram realizados em uma das salas da Unidade de Saúde (sala de reuniões) e tiveram duração média de uma hora e meia.

Nesse primeiro grupo, a discussão se fez mais em torno do trabalho do agente, de suas principais dificuldades, de que maneira eles tentavam superá-las e de como era sua relação com a equipe e com a comunidade. Este último ponto, a relação com a comunidade, foi retomado no segundo grupo por iniciativa dos próprios agentes. No primeiro grupo focal, eles haviam afirmado que não encontravam nenhuma dificuldade na relação com a comunidade, o que foi trazido sob outro ângulo no segundo grupo, ocasião em que eles relataram como é difícil posicionarem-se como moradores e trabalhadores e lidar com as formas de controle que a população exerce sobre eles.

No segundo grupo focal, conduzimos a discussão no sentido de perceber que conceitos de saúde permeavam suas práticas e o que eles entendiam por promoção da saúde. Nesse encontro, pensamos que seria interessante a utilização de algum recurso que levasse os sujeitos a expressarem livremente seus pensamentos e conceitos. Fizemos, então, um cartaz com a palavra SAÚDE em letras grandes. Pedimos que os agentes associassem livremente palavras que, na visão deles, guardavam relação com a saúde e que fossem escrevendo no cartaz. Foi solicitado que, a medida que as palavras fossem sendo ditas, eles explicassem qual era a

relação delas com saúde. Essa dinâmica de trabalho foi interessante, pois permitiu que todos participassem e iniciassem de forma tranqüila a discussão proposta.

4. 4 ANÁLISE DOS DADOS

“Quem fala e age? Sempre uma multiplicidade, mesmo que seja uma pessoa que fala ou age. Nós somos todos pequenos grupos” (MICHAEL FOUCAULT, 2002).

Finalizada a etapa do trabalho de campo, demos início à organização dos dados obtidos pela transcrição das gravações dos grupos focais e da organização dos registros de acontecimentos observados no cotidiano de trabalho dos agentes. A partir dos dados coletados e organizados, realizamos a construção das categorias de análise, que serão discutidas mais à frente, em capítulo específico.

Nossas análises se construíram a partir de uma avaliação (leitura) histórico- genealógica proposta por Foucault. Segundo Andrade (1999), essa proposta de análise não se constitui como um conjunto de preceitos ou regras que compõem um arcabouço metodológico e que indicam como devem se operar as análises. Na verdade, a Genealogia pode ser considerada muito mais como uma postura que o pesquisador assume diante dos dados a que teve acesso. Postura essa que leva o pesquisador a considerar esses dados como efeito de jogos de força, constituídos num dado momento da história. Ou seja, a Genealogia não pretende que as análises produzidas assumam o estatuto de verdade, por considerar que elas serão sempre provisórias e fragmentárias. Assim, podemos afirmar:

Na perspectiva genealógica não há essências fixas, nem leis subjacentes, nem finalidades metafísicas. A pesquisa genealógica evita a busca das profundidades, o retorno a uma imagem imaculada, fora do tempo. Ela procura a superfície dos acontecimentos, os mínimos detalhes, as menores mudanças e os contornos sutis [...] (NEVES; JOSEPHSON, 2002, p.102).

Não pretende, portanto, analisar o sujeito que fala (saber o que fala e por que fala em um plano da individualidade), mas sim o que está sendo enunciado por essa fala. Que acontecimentos, que realidades, que regras levaram à constituição daquele discurso, daquela prática, e não de outros.

Não é a fala dos entrevistados, no seu aspecto lingüístico que tentamos ouvir, e sim, o que o discurso enuncia. Buscamos as regras de constituição dos discursos neles mesmos. Ou seja, não é a fala como coisa dita que é analisada, tentamos procurar as múltiplas determinações que levam os sujeitos pesquisados a fazer determinadas afirmações (BARROS; OLIVEIRA, 2000, p. 5).

O que pretendemos é analisar a emergência de certas práticas e discursos a partir de um conceito de historicidade que não é tida como linear, mas como o resultado de um jogo de forças, de rupturas, que permite a emergência de certos acontecimentos. Não se trata, portanto, de tentar entender por que aquele agente comunitário de saúde age de uma forma ou de outra, como se tratassem de ações pessoais, mas de tentar cartografar6 o que tem permitido a emergência dessas práticas e não de outras, desses discursos e não de outros. A maneira como esses sujeitos entendem o fenômeno saúde/doença, como se relacionam com o saber que a comunidade traz, entre tantas outras questões aqui analisadas, não são construídas em um vazio, mas sim a partir de determinados valores, a partir do lugar em que eles se constituíram como sujeitos e que ocupam no mundo, a partir das relações que se estabelecem entre eles e tudo que os cerca.

Não há algo que deva ser encontrado, resgatado, que está por trás do discurso. Trata-se de enunciar as várias formas como somos produzidos pelas práticas sociais

6 Guattari utiliza o termo cartografia como uma analogia às cartas cartográficas, por meio das quais,

diferentemente de uma fotografia, é possível perceber os movimentos de um determinado terreno, com suas reentrâncias, declives e altitudes. Para Guattari, a cartografia está ligada à preocupação com a composição de novas práticas.

em suas múltiplas configurações. Não se trata de buscar a essência do discurso e das práticas em si, pois os discursos e as práticas apontam coisas diferentes e múltiplas ao mesmo tempo; é preciso pensar que subjetividades e realidades são constituídas a partir desses discursos, o que isso põe em funcionamento, onde e como se constituem os movimentos de criação dessas realidades. Não procuramos, portanto, analisar as práticas dos ACS no sentido de perceber se são melhores ou piores do que as práticas dos demais profissionais, mas tentamos analisar o que elas põem em funcionamento, o que elas produzem em seus desdobramentos e qual é sentido ético e político ali produzido.

Para Foucault (2002, p. 7), deve-se buscar conhecer os acontecimentos dentro de uma trama histórica e não na personificação de um sujeito instituínte:

Queria ver como estes problemas de constituição podiam ser resolvidos no interior de uma trama histórica, em vez de remetê-la a um sujeito constituinte. É preciso se livrar do sujeito constituinte, livra-se do próprio sujeito, isto é, chegar a uma análise que possa dar conta da constituição do sujeito na trama histórica. É isto que eu chamaria de genealogia, isto é,

uma forma de história que dê conta da constituição dos saberes, dos discursos, dos domínios de objeto, etc., sem ter que se referir a um sujeito, seja ele transcendente com

relação ao campo de acontecimentos, seja perseguindo sua identidade vazia ao longo da história (Grifo nosso).

Não pretendemos que nossas análises sejam produções solitárias, mas sejam compostas a partir desse cenário de forças, estando impregnadas pelos valores do mundo que nos cerca, por nossas crenças e pelas expectativas que temos em relação a este trabalho de investigação. É necessário, no entanto, que estejamos atenta à nossa própria implicação com esta pesquisa e não percamos de vista que, mais do que o simples desejo de conhecer, temos a responsabilidade ética e política de possibilitar que este trabalho sirva de ferramenta para a transformação da realidade dos sujeitos por nós pesquisados.

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