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Dans le document Faits et chiffres 1994-2005 (Page 31-35)

O sentido da escola e o sentido da vida de cada um de nós estão diretamente ligados ao amor enquanto força conectiva que nos liga ao todo. Bachelard (2008b, p. 58) afirma que a fenomenologia primitiva é uma fenomenologia da afetividade, portanto, dando sequencia na nossa pesquisa, outro aspecto que resolvemos investigar diz respeito à afetividade dos sujeitos com o seu entorno e sua identificação com ele. Aprendemos por vivência própria que as emoções desempenham um papel regulador importante no nosso organismo e permitem a conservação da vida. Além do mais, são as emoções que guiarão o fluir do comportamento humano e lhe darão o seu caráter de ação (MATURANA; REZEPKA, 2008).

Buscando contemplar o caráter afetivo e as experiências e saberes adquiridos na sua relação com o seu meio ambiente, uma das perguntas do questionário versava sobre a possibilidade do sujeito ser uma planta que florescesse no semiárido, bioma de todos os sujeitos da pesquisa. Além de fazer essa escolha, que configuraria o seu pseudônimo durante todo esse percurso investigativo, preservando a sua identidade, os sujeitos da pesquisa justificariam sua escolha. Para nossa satisfação, não houve estranhamento e a adesão foi completa, como observamos nas suas escolhas e respectivas justificativas que seguem:

 Ipê-amarelo (Tabebuia caraiba): no semiárido essa árvore (FIGURA 31A) é também conhecida como craibeira, sendo comum às margens dos rios temporários e tendo uma florada de cor intensa em forma de flocos dourados, facilmente avistada, daí a escolha pelo sujeito da pesquisa como podemos observar em seu depoimento:

Por sua fulo e colorido intenso. Pode ser empregada como árvore ornamental, indicada para recuperação de áreas degradadas em áreas de baixa pluviosidade e suas cascas e raízes podem ser utilizadas na forma de chá como expectorante e anti-séptico (SIQUEIRA FILHO et al., 2009).

 Macambira (Bromelia laciniosa): essa planta pertence à família das Bromeliáceas (FIGURA 31B), tendo pequeno porte e se desenvolvendo nas terras mais áridas dos

trópicos. Por se alimentar do ar atmosférico e possuir umidade suficiente, torna-a resistente para as mais duras secas, vindo de encontro ao depoimento do sujeita da pesquisa moradora do meio rural quando diz: Pois é rústica e bonita. A macambira

pode ser empregada para extração de fibras das folhas, assim como de uma massa rica em carboidratos da base dilatada das folhas. Assim pode servir como fonte de alimento humano e dos animais do sertanejo (VAINSENCHER, 2000).

 Jurema: (Piptadenia communis): essa árvore escolhida (FIGURA 31C) tem como

característica ser uma planta pioneira que facilmente ocupa capoeiras e beira de estradas, sendo dessa forma tolerante aos elevados níveis de perturbação da vegetação. Também pode ser empregada na extração de madeira, na medicina caseira, na restauração florestal, como fornecedora de pólen e néctar além de forragem principalmente para caprinos (MAIA, 2004). Portanto, razões suficientes para a identificação do sujeito da pesquisa, morador do meio rural como observamos em seu depoimento: Além do poder medicinal, tem aspecto rústico que a caracteriza como do campo, do meio rural.

 Mandacarú 1 e Mandacarú 2 (Cereus jamacaru): o mandacarú é uma planta da

família das cactáceas (FIGURAS 31D e 31N), bastante comum em regiões semiáridas, considerada o símbolo da Caatinga e da luta pela sobrevivência do homem sertanejo, por apresentar características como durabilidade, adaptabilidade e beleza. Assim, se identifica através do folclore popular por conta da sua resistência em áreas consideradas de difícil sobrevivência. O sertanejo associa à floração do mandacaru a chegada das chuvas, como consagrou Luiz Gonzaga com ‘o xote das meninas’ em 1953, onde ele cantava que ‘mandacaru quando fulora na seca é o sinal que a chuva chega no Sertão...’. Daí a escolha dos sujeitos Mandacarú1 quando nos diz sua flo simboliza a chuva que chega no sertão em meio ao clima seco e do depoimento de Mandacarú2: Pois durante todo o período de seca, ela é bastante resistente e ainda coloca flores bastante belas. Essa planta também é empregada na restauração de solos degradados, serve como cerca natural e alimento para os animais (SILVA J. G. M. et al., 2013)

 Juazeiro (Ziziphus joazeiro): o Juazeiro é uma árvore que se destaca, especialmente

por sua resistência na época seca, no meio da vegetação seca, apresentando uma bela copa globosa, de cor verde-escuro (FIGURA 31E), vindo de encontro ao depoimento do sujeito quando diz: Consegue manter-se vivo mesmo no período de seca. Ela também é empregada para extraçào de madeira, na alimentaçào humana por meio do seu fruto e ainda na medicina caseira (MAIA, 2004).

 Palma (Opuntia ficus-indica): essa cactácea (FIGURA 31F) destaca-se pela sua capacidade de adaptação no semiárido nordestino. É resistente à falta de chuvas, armazenando uma grande quantidade de água e tendo alta digestibilidade. É destinada principalmente à obtenção de forragem para alimentar os rebanhos no período de estiagem. (VERAS et al., 2002). Por isso a escolha do sujeito por essa cactácea quando diz: Além de conte muita água, serve para alimentação dos animais.  Xique-xique 1 e Xique-xique2 (Pilosocereus gounellei): ao se desenvolver nas áreas

mais secas da região semiárida do Nordeste, em solos rasos, encima de rochas, essa cactácea (FIGURAS 31G e 31H) é também empregada na alimentação dos animais de criação, sendo assim estratégico nos sistemas pecuários (SILVA J. G. M. et al., 2013). Dai a escolha pelos sujeitos da pesquisa Xique-xique1 quando diz Com o passa do tempo, aprendeu a armazena água. Devemos aprende com ele e Xique-xique2: É capaz de resisti nos piores lugares. Os dois sujeitos são moradores da região rural do semiárido.

 Coroa-de-frade (Melocactus bahiensis): essa cactácea (FIGURA 31I), com forma

arredondada, pequena e achatada, possui espinhos mistos, grossos e finos, e flores em tons rosa e vermelho formando uma coroa bem procurada pelas abelhas. É típico do semiárido do Nordeste, é pouco exigente quanto ao solo e à umidade, sendo normalmente encontrado entre pedras. É empregado para fins medicinais, como planta decorativa além de alimentação inclusive para os animais de criação, por ter uma boa reserva de água e proteína (DIAS, M. M. et al., 2013), justificando dessa forma a escolha do sujeito quando diz: Tem a resistência de sobrevive em ambientes tão adversos.

 Cacto Branco e Cacto (Cactaceae): os cactos (FIGURAS 31J e 31L) pertencem à família das cactáceas e contribuem substancialmente para a sustentabilidade do bioma Caatinga, principalmente, como fonte de alimentação alternativa para o sertanejo e para a fauna local, já que os cactos, entre outras espécies, constituem a principal fonte de alimentos para os ruminantes nas épocas de secas prolongadas (CORREIA et al., 2007). Dai a escolha dos sujeitos da pesquisa Cacto Branco quando diz Pela sua resistência e utilidade, uma vez que é capaz de armazenar água e Cacto: Por ser

resistente a seca e mesmo assim é fonte de água. Esses dois sujeitos, moradores do meio urbano, identificarem-se de forma genérica a uma planta do semiárido, diferindo da maioria dos sujeitos dessa pesquisa moradores do meio rural, como explicitados anteriormente. Essa observação nos remete a Tuan (2012, p. 114) quando defende que um habitante urbano, devido ao extraordinário contraste, tem um vocabulário muito limitado sobre os aspectos da natureza.

 Girassol (Helianthus annuus): a planta escolhida (FIGURA 31L) caracteriza-se por

ser empregada na produção de grãos e de forragem, sendo extraído um óleo com excelente qualidade industrial e nutricional, sendo o seu uso como óleo comestível, a principal utilização. É também uma planta famosa pelo heliotropismo (movimento da planta em direção ao sol), pois ao amanhecer, os girassóis estão com suas flores voltadas para o leste, ao longo do dia seguindo o sol para oeste e a noite se voltando para o oriente (LIRA et al., 2011). É o movimento constante de busca, seja por energia solar, seja por saber como observamos no depoimento do sujeito dessa pesquisa quando diz: Girar o mundo em busca de aprendizagem e conhecimento.

Analisando as justificativas dos sujeitos para a planta do semiárido escolhida, na grande maioria das transcrições surgiu um grande tema: a valorização da resistência. Estes poderiam ter abstraído para várias situações diferentes, mas apenas dois sujeitos o fizeram: Ipê-amarelo sinalizando para a cor e Girassol para o movimento. Os demais sujeitos da pesquisa se identificam como um ser resistente, rústico, que aprendeu a acumular a força para resistir, para manter-se vivo. Esse aprendizado pode ser explicado buscando as contribuições de Freire, P. (2011a; 2012a). Segundo o autor, o Nordeste brasileiro tem sido o lugar privilegiado da empreitada colonial-mercantilista portuguesa desde o início do século XVI, com exportação maciça de açúcar e perdendo a hegemonia econômica para outras províncias brasileiras. Como consequência, a decadência econômica de uma região que não direcionou sua infraestrutura para outras produções como as tropicais, estagnou as relações sociais de produção.

Figura 31: Pseudônimos escolhidos pelos sujeitos da pesquisa. Em A – Ipê-amarelo, B

- Macambira, C – Jurema, D – Mandacarú1, E – Juazeiro, F – Palma, G – Xique-xique1,

H – Xique-xique2, I – Coroa-de-frade, J – Cacto Branco, L – Cacto, M – Girassol, N –

Mandacarú2. A B C D E F G H I J L M N Fontes: Imagens A e M - Acervo da autora; Imagens B, D, E, F, G, H, I, J, L, N – Acervo do GEPEA, Imagem C – Disponível em <http://fatosefotosdacaatinga.blogspot.com.br/2012/09/a- floracao-da-jurema-preta-na-caatinga.html> Acesso em: 20 jul 2014.

Daí vem talvez a explicação para as evidentes falas dos sujeitos se identificando com a resistência pela vida, como tão profundamente ilustrado por João Cabral de Melo Neto ao retratar em sua obra Morte e vida Severina:

Somos muitos Severinos, iguais em tudo e na sina: a de abrandar estas pedras, suando-se muito em cima, a de tentar despertar, terra sempre mais extinta, a de querer arrancar, algum roçado da cinza. (MELO NETO, 1994, p. 30)

Se o amor é a emoção que funda o social como o âmbito de convivência no respeito por si mesmo e pelo outro, como defendem Maturana e Rezepka (2008, p. 25), vale relatar que também ganhamos um pseudônimo carinhoso durante nosso tempo de observação participante na pesquisa: ‘cataibana’, (cata = catarinense, nosso estado natal;

ibana = paraibana, estado em que nossas raízes se apronfundam cada vez mais por meio dessa pesquisa). Destacamos como primordial essa interação, pois ao estarmos situados historicamente no contexto da nossa investigação, precisamos também estar atentos sobre a subjetividade e a nossa posição enquanto pesquisador, sabendo assim lidar com as situações apresentadas no ato da pesquisa. Ao defendermos a afetividade como uma das vertentes temáticas do nosso objeto de estudo, a Pedagogia Ecovivencial, a ‘contaminação’ mútua do investigador e da realidade foi condição indispensável para alcançar a compreensão da troca de significados (SACRISTAN; GÓMEZ, 1998).

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