Ao longo das entrevistas foi utilizado um instrumento de avaliação que permitiu caracterizar o nível de dependência dos participantes (anexo 6). Essa avaliação facilitou a
confrontação dos mesmos com os seus défices, permitindo-lhes reconhecer as dificuldades a enfrentar e ajudando-os a identificar progressos que favorecessem o seu envolvimento com a vivência da transição.
(Enf-Inv) – “Arranja os objectos do banho sem ajuda?
(Participante 3) – Por acaso não mas, já os podia levar sem ajuda, mas a semana passada
tinham que mos levar…”.
Segundo Meleis et al. (2000:18), “os indivíduos necessitam inicialmente de
percepcionar as mudanças que estão a ocorrer para poderem reorganizar-se e dar respostas”.
(Participante 1) – "Eu preciso dela para tudo... A minha mulher tem de ajudar-me a vestir, a passar para a cadeira, a arranjar a comida para eu poder comer, a usar o urinol na cama ou a ajudar-me no WC...";
(Participante 4) – “Ela (esposa) põem-me a roupa aqui e veste-me as calças… O casaco visto eu…
(Prestador de Cuidados 4) – Em antes de ir para o hospital… Depois disso nunca mais se vestiu… É
sempre o pijama… Antes ele vestia para cima e eu vestia para baixo… Agora nunca mais se vestiu…”;
(Participante 5) – “Até aqui têm-me sentado, ensaboado e como eu digo, comecei a tentar
participar na lavagem, mas pronto… É isso, é uma grande dependência.”.
Da análise emergiram categorias substantivas que caracterizavam as várias limitações evidenciadas pelos participantes e que, através do método de comparação constante, puderam ser agrupadas nas seguintes categorias conceptuais: dependência para andar; dependência para erguer-se; dependência para comer e beber; dependência para cozinhar; dependência para fazer compras e dependência no autocuidado (ver o quadro 2).
Ao analisar o quadro 2 podemos observar a forma como a subcategoria conceptual dependência no Autocuidado, emergiu de forma indutiva através dos dados, reunindo e revelando as relações entre os conceitos que a retratam.
Continuando a progredir na abstracção, todas estas categorias deram origem a outra categoria conceptual que aglutina em si as características das anteriores e que foi denominada de Actividade Executada pelo Próprio (ver a figura 4) que, segundo o ICN (2005), é um comportamento intencional que gera a acção auto-iniciada, e que permite ao ser humano sobreviver, desenvolver-se e adaptar-se.
Figura 4 - Representação esquemática da categoria Actividade Executada pelo Próprio
Dependência no Autocuidado Dependência para Andar Dependência para Comer e Beber
Dependência para Erguer-se Dependência para Cozinhar Dependência para Fazer Compras
Actividade Executada pelo Próprio Dependência no Autocuidado
Dependência para Andar Dependência para Comer e Beber
Dependência para Erguer-se Dependência para Cozinhar Dependência para Fazer Compras
Actividade Executada pelo Próprio Dependência no Autocuidado
Dependência para Andar Dependência para Comer e Beber
Dependência para Erguer-se Dependência para Cozinhar Dependência para Fazer Compras
Ou seja, “um indivíduo consegue desempenhar com eficácia o autocuidado quando
compreende os factores que têm de ser controlados ou geridos de forma a regular o seu funcionamento e desenvolvimento” (Soderhamn, 2000:184).
Quadro 2 - Exemplos da subcategoria Autocuidado
CODIFICAÇÃO ABERTA CODIFICAÇÃO AXIAL
Unidades de registo (Exemplos) Subcategorias Conceptuais (P1) - “No chuveiro é a minha mulher que me lava...”
(P3) - “Para o banho preciso do meu marido para me chegar as coisas”
(P4) - “...a torneira está fechada com tamanha pressão que eu não consigo rodar o punho.”
Dependência para Tomar banho:
Dependência para enxaguar o corpo ou partes dele em água, por exemplo, entrando ou saindo da banheira, providenciando todo o material necessário para o banho, obtendo ou abrindo a água, lavando e secando o corpo (ICN, 2001:55).
(P1) - “É ela que me veste... Eu vou ajudando conforme vou podendo”.
(NC2) - São as filhas que escolhem a roupa e o vestem e despem na cama.
(P5) - “As calças ainda me as enfiam em baixo, porque tenho dificuldade em chegar lá em baixo…”
Dependência para Vestir-se ou despir-se:
Dependência para colocar ou retirar roupas e sapatos adaptados à situação e ambiente tendo em consideração convenções e códigos normais de vestir, vestir e despir as roupas pela sequência correcta, fechando-as de forma correcta (ICN, 2001:55).
(P1) - “Para comer a mulher arranja-me a comida e eu como sozinho na mesa…”
(P2) - “Elas dão-me sopa e leite pela seringa...”
(PC4) – “Até para as refeições… Sou eu que lhe tenho que dar de comer… Ou eu ou o meu filho que esteja aí à noite…”
Dependência para Alimentar-se:
Dependência para organizar a ingestão de alimentos sob a forma de refeições saudáveis, cortar e partir os alimentos em pedaços manejáveis, levar os alimentos à boca, colocá-los na boca utilizando os lábios, músculos e língua e alimentando-se até estar satisfeito (ICN, 2001:56).
(P1) - “Preciso dela para tudo... Para me fazer a barba, para cortar as unhas...”
(NC2) - São as filhas que o arranjam (barbeiam, penteiam)...
(E-I) - Barbear-se?
(P4) - “É o meu filho… É o meu filho porque às vezes não tenho forças nos braços...”
Dependência para Arranjar-se:
Dependência para manter-se asseado, cuidar do cabelo e da barba, barbear-se, pentear-se, escovar ou encaracolar o cabelo, lavar, arranjar as unhas, aplicar desodorizante, cosméticos e maquilhagem, manter as roupas limpas sem odor e em ordem, verificar a aparência ao espelho (ICN, 2001:55).
(NC1) - Enquanto falava precisou de limpar o nariz... Pegou num pacote de lenços que, estava intacto, e tentou abrir com a mão esquerda. Após várias tentativas falhadas chamou pela esposa.
(P1) “Oh mulher, chega aqui... Abre-me isto”
(NC2) - São as filhas que [...] cuidam da higiene pessoal (higiene oral, lavar as mãos...)
Dependência para Cuidar da higiene pessoal:
Dependência para manter um padrão contínuo de higiene, manter o corpo limpo e bem arranjado, sem odor corporal, lavar regularmente as mãos, limpar as orelhas, nariz e áreas perineais, manter a pele macia usando princípios de preservação e manutenção de limpeza (ICN, 2001:55).
(P1) - “A mulher ajuda-me a ir à casa de banho e a sentar- me lá...”
(NC2) - Faz a sua eliminação intestinal/vesical, na cama, para a fralda que é trocada pelas filhas.
(P5) – “Tenho uma cadeira própria… Vou… Fico lá… E depois a Sra. vai-me limpar…”
Dependência para Usar o sanitário:
Dependência para levar a cabo as actividades de eliminação fazendo a sua própria higiene intima, limpar- se depois de urinar ou evacuar, deitar fora os produtos de eliminação, por exemplo, puxar o autoclismo de maneira adequada, no sentido de manter o ambiente limpo e evitar a infecção (ICN, 2001:56).
(P1) - “Passar para a cama tem de ser a minha mulher a ajudar...“
(P2) - “Quando chega o meu genro passa-me para a cama...”
(P4) - “(...) ajudam-me a sentar na cama… Depois põem- me a cadeira aqui à beira… Depois puxam-me com jeitinho, uma agarra de um lado, a outra a agarra do outro… E eu sento-me…”
Dependência para Transferir-se:
Dependência para mover e mudar o corpo entre a cama e a cadeira (ICN, 2005:47).
(P1) - “A mulher ajuda-me a deitar e deixa-me confortável na cama... A meio da noite vem ver se eu preciso de alguma coisa e às vezes dá-me um jeito”.
(P5) - “Deitei-me virada para a direita, depois irritei-me e achei que era melhor virar para o outro lado e pedi para me darem uma ajudinha…”.
Dependência para Virar-se:
Dependência para mover e mudar o corpo de um lado para outro e de frente para trás (ICN, 2001:56)
(P1) - “Levanto-me de manhã, passo para a cadeira... a mulher traz-me para aqui...”
(NC2) - “Pediu-se para que tentasse mobilizar a cadeira de banho com a mão direita ao que respondeu:
(P2) - “Eu assim não consigo... Elas estão cá e empurram...”
Dependência para Usar a cadeira de rodas:
Dependência para movimentar o corpo de um lado para outro em cadeira de rodas, transferir-se de e para a cadeira com segurança, manobrar em curvas, rampas de acesso e outros obstáculos (ICN, 2005:47)
Este factor, do ponto de vista da saúde, coloca o cliente como principal responsável por gerir o seu projecto de vida (com base no seu repertório de recursos internos). Contudo, quando isso não acontece e não consegue desempenhar a actividade reguladora, ele tem de fazer um esforço para se confrontar com a situação para a qual sente não ter recursos, o que significa que qualquer alteração ao nível dessa capacidade implica uma necessidade pessoal de mudança, que segundo Orem (2001:147) carece da ajuda da enfermagem.
Os deficits de autocuidado, quando expressos nas limitações das pessoas para se comprometerem com as operações intencionais (de estimativa) ou de produção de autocuidado, fornecem guias de orientação para a selecção de ajuda e de compreensão do papel do paciente no autocuidado.
Pode-se assim dizer que a dependência ao nível da acção auto-iniciada é um factor gerador de stress que incute nos participantes uma necessidade de mudança, dando início à transição (ver a figura 5).
Figura 5 - Representação esquemática das relações entre a categoria Actividade
Executada pelo Próprio e o processo de transição
Inicia Dependência na Actividade Executada pelo Próprio TRANSIÇÃO Inicia Dependência na Actividade Executada pelo Próprio TRANSIÇÃO Inicia Dependência na Actividade Executada pelo Próprio TRANSIÇÃO