O fato de compreender e tirar partido das preexistências é de fundamental importância para a arquitetura. O projeto não deve ser um objeto autônomo. “A arquitetura sempre depende de coisas preexistentes. Ela envolve o reconhecimento de seu potencial ou dos problemas que representam; talvez envolva lembrar-se de suas associações e significados; [...]” (UNWIN, 2009, p. 63, 64).
Embora todo projeto de arquitetura parta de elementos preexistentes, que também podem ser entendidos como o contexto ou lugar, como vimos no item 3.1, em um projeto de requalificação arquitetônica, os elementos condicionantes e preexistentes dizem respeito à arquitetura existente. Alguns elementos dessa arquitetura se apresentam de forma imutável e, desta maneira, condicionam o projeto de requalificação arquitetônica. Identificamos as seguintes condicionantes e preexistências: estrutura, perímetro da unidade habitacional, posição das áreas molhadas e rede de esgoto, aberturas existentes no perímetro como janelas, vãos e portas de acesso ao apartamento e a orientação:
3.2.1 ESTRUTURA
A leitura da estrutura tem como objetivo investigar sua interferência nos novos espaços, e como condicionou o projeto de requalificação arquitetônica. A estrutura do projeto original é um elemento fixo e imutável, devendo ser mantida na mesma posição e com o mesmo tamanho nos projetos de requalificação arquitetônica. Verificaremos como, ou se, os arquitetos a redefiniram quanto à função em relação à delimitação ou divisão dos espaços. A estrutura e o espaço são meios da arquitetura. A estrutura além de manter o edifício em pé organiza os espaços. Muitas vezes a escolha da estrutura se faz pela pré-organização dos espaços ou vice e versa. Ainda, existem projetos onde a estrutura e o espaço coexistem, sem danos para nenhum dos elementos (UNWIN, 2009).
Podemos entender estrutura como o suporte que existe em todos os edifícios e pode ser planar, colunar ou a combinação delas. É um elemento da edificação que pode ser usado pelo arquiteto para reforçar ideias. Pilares, muros e vigas podem ser posicionados de modo a criar ou reforçar ideias de repetição, frequência, padrão, regularidade e complexidade. A estrutura pode ser usada para definir
espaços, criar unidades, articular circulações, sugerir movimento ou desenvolver composições e modulações (CLARK e PAUSE, 1997). A última via de aproximação utilizada por Vieira (2015) é a Estrutura. “O conjunto dos elementos construtivos responsáveis pela estabilidade de um edifício, tem relevância significativa na determinação dos espaços na arquitetura” (CORONA E LEMOS apud VIEIRA, 2015).
3.2.2 ABERTURAS
A maioria dos condomínios não permite a alteração da fachada em caso de reformas de apartamentos. Desta maneira, fica vetada a abertura de novos vãos ou alteração do tamanho dos vãos existentes. Este fato condiciona, muitas vezes, em um projeto de requalificação arquitetônica, a posição dos cômodos no apartamento, especialmente se, originalmente, os caixilhos apresentam tamanhos e desenhos diversos. Por exemplo, se o banheiro apresenta um caixilho alto, do tipo basculante com vidro fantasia, dificilmente um outro cômodo será posicionado no lugar original deste banheiro.
3.2.3 ÁREAS MOLHADAS
A infraestrutura necessária para implantação das áreas molhadas em um apartamento, condiciona sua posição em projetos de requalificação arquitetônica. Geralmente, em projetos de edifícios residenciais, as prumadas de esgoto são previstas próximo às áreas molhadas, e desta forma, fica impossibilitado o afastamento de ralos e bacias dos seus locais originais. O sistema de esgoto da maioria dos apartamentos funciona por gravidade, isso quer dizer que a tubulação deve ter uma inclinação mínima para que funcione corretamente. A tubulação de esgoto da bacia sanitária convencional apresenta diâmetro de 100 mm e deve ter uma inclinação mínima de 1%. Para que isso seja possível, a tubulação deve ficar embutida no contra piso, e nesse caso prevê-se um enchimento da laje, ou deve correr pelo teto do apartamento inferior, e nesse caso prevê-se a instalação de forro de gesso. A alteração da posição ou criação de novas áreas molhadas, onde originalmente era uma área seca, deve pressupor um enchimento de piso, criando um desnível ou alterar a tubulação pelo teto do apartamento de baixo.
3.2.4 ORIENTAÇÃO
A implantação do edifício e a orientação das aberturas do apartamento também são fatores condicionantes para o projeto de requalificação arquitetônica. A insolação e aeração necessárias para cada cômodo devem ser consideradas e respeitadas.
A análise da iluminação natural verificará a forma como, e em quais espaços, a luz entra na edificação. A iluminação confere ao espaço qualidade nas cores e na percepção dos volumes e massa. A entrada de iluminação natural, é uma decisão tomada pelo arquiteto principalmente ao projetar os cortes e fachadas do edifício. A qualidade da iluminação que chega no interior do edifício é resultado de diferentes filtros, reflexos e barreiras impostas a ela (CLARK e PAUSE, 1997).
De modo geral, no caso de reformas de apartamentos, não existe a possibilidade de criação de novas aberturas ou de ampliação das aberturas existentes. Os projetos de reforma deverão, portanto, considerar a situação existente e distribuir os espaços internos de forma que a insolação seja aproveitada da melhor maneira. Para verificar como os projetos estudados aproveitaram o posicionamento das aberturas preexistentes, usaremos a carta solar e a modelagem
eletrônica dos edifícios, onde os apartamentos se situam, juntamente com seu entorno, a fim de poder averiguar interferências das sombras projetadas pelos edifícios vizinhos.
A carta solar apresentada neste trabalho foi elaborada pelo software SOL-AR, que permite a obtenção de carta solar a partir da latitude e da orientação da fachada informadas ao sistema. Esse programa foi desenvolvido pelo Laboratório de Eficiência Energética em Edificações - Campus Universitário Reitor João David Ferreira Lima Trindade, parte da Universidade Federal de Santa Catarina. As imagens dos modelos dos edifícios foram elaboradas no software SketchUp pela própria autora. Optamos por fazer a modelagem e estudo de insolação utilizando o programa SketchUp a fim de complementar a análise da carta solar, já que esta não considera o entorno existente.