NOTAS SOBRE A COLETA DE DADOS DA PESQUISA (QUALITATIVA)
Ao lado das oportunidades de descobertas que representa, uma pesquisa de natureza qualitativa, como a realizada para esta Dissertação, traz, para o pesquisador, também, algumas dificuldades, pela subjetividade intrínseca à própria metodologia. Patton (1990) definiu o fator humano como, ao mesmo tempo, o ponto forte e o ponto fraco fundamental de uma pesquisa como esta. Barreto & Honorato (1999:76) acreditam que, por um lado, as “técnicas qualitativas apresentam como virtude a possibilidade de se obter informações sobre os modos de sentir, pensar e agir de determinada pessoa”). Por outro lado, como alerta Patton (1990), ela dependerá, em cada estágio, dos “skills” (competências, qualificações), experiência, “insights” (sacadas, descobertas) e visão de mundo do entrevistador.
Por esses motivos, na descrição da etapa de coleta de dados do presente trabalho, foi mencionado que “as entrevistas permitiram identificar, inclusive, aspectos emocionais e não verbais subjacentes às respostas”, o que se acentuou pela natureza exploratória da pesquisa. Com o intuito de se fazer um registro sobre o andamento da etapa de coleta de dados, especialmente daqueles aspectos, foram reunidas, neste anexo, algumas observações que possam vir a ser úteis a quem for conduzir projetos semelhantes, no futuro.
Envolvimento emocional
Este aspecto era considerado relevante, pelo pesquisador e, por esse motivo, a maior parte das entrevistas foi realizada com sujeitos contatados através da intervenção de algum terceiro que tivesse relacionamento com o sujeito e com o pesquisador. Em alguns casos, o sujeito fazia parte da rede de relações do pesquisador. O objetivo era facilitar o envolvimento, não só imediato mas, também, intenso, do entrevistado com o objeto da pesquisa, favorecendo tanto o fluir das informações, quanto a acuidade das respostas. Nos casos em que o sujeito não foi acessado dessa maneira, houve uma particular atenção do pesquisador em criar um clima equivalente de envolvimento e de confiança, através de perguntas que valorizassem o conhecimento do entrevistado sobre o assunto. Ao mesmo tempo, procurou-se manter, em todos os casos, um ritmo de troca de informações, gratificando o sujeito com dados levantados pelo pesquisador no referencial teórico ou em
entrevistas anteriores. O objetivo desse envolvimento foi reduzir enventuais barreiras à comunicação e favorecer a revelação de dados fidedignos e os mais completos possível.
Frustrações com experiências mal sucedidas
Um tema difícil que surgiu durante a pesquisa, e que implicou numa sensibilidade do pesquisador quanto a aspectos emocionais e não-verbais, foi o relato de fracassos ou dificuldades dos sujeitos, com experiências e iniciativas mal sucedidas no campo de interesse da pesquisa. De uma forma geral, os entrevistados tendem a valorizar os aspectos mais positivos de suas atividades e esclarecer aquelas situações negativas, delas extraindo dados relevantes, requereu sempre um cuidado especial do pesquisador e uma redobrada atenção a cada reação do entrevistado.
Tema tabu
No decorrer do projeto, o pesquisador deparou-se com um tema tratado como bastante reserva, quase como um certo tabu, por alguns dos entrevistados: o convênio BID/CACB. Este convênio apresenta interesse, como fonte potencial de recursos, para as organizações dirigidas por alguns sujeitos da Pesquisa, fornecedores de serviços; e ao mesmo tempo, suscita questionamentos quanto às reais motivações econômicas – internacionais, especialmente nortemaericanas - por ele representadas.
Em suma, a implantação do convênio pode ter impacto sobre o perfil do desenvolvimento da mediação e, principalmente, da arbitragem em muitos segmentos. Por essa razão, havia sentimentos conflitantes e contraditórios a respeito do convênio e, compreendê-los, implicou numa leitura cuidadosa de significados, nem sempre explicitados verbalmente em alguns depoimentos.
Entrevistas pessoais versus entrevistas por telefone
A situação ideal para uma coleta de dados de pesquisa dessa natureza é a entrevista pessoal, que permite uma interação mais direta e mais rica de dados. Por tratar-se de investigação indutiva, a “análise e a interpretação dos dados vão sendo feitas de forma interativa com a coleta, acompanhando todo o processo de investigação” (Alves Mazzotti, 2000:162). Entretanto, por serem os sujeitos executivos ocupando posições no topo da pirâmide de suas organizações, nem sempre as agendas foram fáceis de se negociar, dentro das expectativas de prazo do pesquisador. A solução foi a realização de algumas
entrevistas por telefone, solução igualmente adotada, quando estiveram envolvidos sujeitos de diferentes geografias.
Importante observar que mesmo não sendo a situação ideal, as entrevistas por telefone podem ser também bastante efetivas, desde que se tomem alguns cuidados: agendar a entrevista em horário da melhor conveniência do entrevistado; preparação prévia sobre quem é o entrevistado, levantando-se caracterísiticas e fatos sobre a organização que representa; bloquear outras atividades no horário negociado, fazendo a ligação em ambiente tranquilo e que favoreça a total concentração no evento; utilizar telefone com a função “viva voz”, deixando as mãos livres para as anotações; organizar a mesa onde vai fazer anotações com roteiro e outrso materiais de referência; tendo o cuidado de registrar dúvidas para perguntas complentares, não previstas, inicilamente.
Balancamento entre demonstrar conhecimento e provocar novas vertentes
Um fator que pareceu importante, durante as entrevistas, foi equilibrar dois aspectos potencialmente conflitantes. O pesquisador deve demonstrar ao entrevistado algum grau de conhecimento sobre o tema, adquirido, no mínimo, durante a etapa de exploração do referencial teórico. A troca de informações daí decorrente, como já mencionamos, estimula o envolvimento e favorece o relacionamento que se pretende estabelecer entre as partes.
Em contraposição, o entrevistador deve, por vezes, despojar-se desse conhecimento prévio e soar como um leigo em busca de dados, que podem parecer básicos, mas que podem também ser raiz de uma nova e importante vertente de análise, que não deve, portanto, ser bloqueada.