Os interlocutores utilizaram a categoria "aprendizado" para indicar um mecanismo de constituição143 dos sujeitos. O aprendizado seria um processo interno que se sustenta nas interações com os outros,
143 O aprendizado também foi associado, por alguns sujeitos, a conhecimento
científico, profissional e escolar. Nesse sentido, entrariam informações disponibilizadas na TV, rádio e internet, os conhecimentos científicos vinculados às profissões específicas e à trajetória escolar.
onde o sujeito tanto incorpora certos valores e práticas, como questiona os que já possui. O aprendizado acompanha avaliações (certo e errado), revisões, e remete muitas vezes a mudanças de atitudes e das formas de ser. É a partir de um espaço interior (cambiante, diante das experiências, aprendizados e revisões) que se dariam as mudanças. A construção da pessoa enquanto um sujeito autônomo é percebida, sobretudo, como um processo de avaliação de si e transformação pessoal (MALUF, 2005). As transformações pessoais por meio desse mecanismo são vistas como progressos, aprimoramentos ou "melhora como pessoa"144, no sentido de amadurecimento para viver o cotidiano e enfrentar dificuldades. O indivíduo utiliza ferramentas conceituais, afetivas, morais, simbólicas, sociais, para construir o eu dentro de contextos específicos, e promover reformulações e mudanças. Nesse sentido, é produtivo pensar que: "As subjetividades são complexas porque são culturalmente e emocionalmente complexas, mas também por causa do trabalho de reflexividade em andamento, monitorando a relação do eu com o mundo" (ORTNER, 2007, p. 398).
Mayara e sua mãe Adriane afirmaram: "aprendi com a vida"145, ou seja, diante dos acontecimentos, sobretudo dos sofrimentos, eram elas quem avaliavam as situações e retiravam o que consideravam bom para suas vidas. A classificação do que é bom ou ruim, não somente para elas, mas para Daiane, Alucard, seu Marcos e outros sujeitos, depende do que é visto como benéfico para si no momento, o que pode
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Pode-se pensar também que, embora enfatizem o amadurecimento pessoal, circula ainda a ideia de que as subjetividades fabricadas, por exemplo, em configurações familiares vistas como "desestruturadas", em contextos onde há violência doméstica, alcoolismo, etc., apontam para uma dimensão do mecanismo do aprendizado no sentido negativo. O aprendizado está trelado as experiências, aos valores e práticas mostrados e vividos pela família e outras pessoas, que impulsionariam os processos internos de subjetivação. Nesses casos, os aprendizados parecem estar mais centrados na pura incorporação do que é vivido no contexto relacional exterior do que no questionamento de ações e valores (o que também não está bem claro para os sujeitos). Há o entendimento de que o sujeito pode aprender com qualquer pessoa, em qualquer momento, em diferentes contextos, mas a família seria ainda fundamental no sentido de produzir os recursos que seriam matéria-prima para os aprendizados.
145 No caso de Adriane e Mayara, é preciso pontuar uma diferença em seus
discursos. Adriane não faz referências aos ensinamentos da mãe; pelo contrário, expõe os conflitos, enfatizando as cobranças. Mayara indica amadurecimento pessoal, porém faz referência à atuação da mãe, atenciosa e afetiva, contribuindo com seus aprendizados.
ser reavaliado depois, mas sobretudo em função de valores e práticas alimentados pela família. A noção de certo ou errado, bom ou ruim, vem do que circula no contexto familiar. Alguns valores morais e sociais são vistos como centrais para o aprendizado pessoal: honestidade, afetividade, respeito, cumprir responsabilidades, preservação da virtude feminina, etc., bem como a noção de acúmulo de experiências, que habilitariam para agência. Há uma dimensão flexível e dinâmica desse eu (além da substância inata imutável) representada pela construção social, onde experiências e aprendizados se acumulariam para compor e sustentar a subjetividade, mas não representam algo cristalizado, pelo contrário, estão mais na dimensão da transformação ou da possibilidade de transformação.
O aprendizado pode ser instigado pelos ensinamentos direcionados pelos valores familiares, e/ou ainda pelo que o outro faz, diz, mostra (sendo familiar ou não), onde o indivíduo "pega o que é
melhor para si". Mas para isso é necessário que haja disponibilidade- querer, estar atento- para o aprendizado, para o aprimoramento. Nesse sentido, observar, ouvir, interagir socialmente e colocar-se no lugar do outro são ferramentas para o aprendizado. Daiane entende que a vida é um aprendizado, conta que aprendeu muito com a tia e outras pessoas:
"Imagina, tudo tu aprende, com um vizinho, família, com avós, tá sempre aprendendo com alguém". Durante as escutas e trocas de experiências, compreende que eu aprendi com ela: "Eu (Daiane) fiz ela
se colocar no meu lugar, eu perguntei, tu tem teu pai e tua mãe junto? Então tu imagina teu pai fora de casa?". O aprendizado é extremamente dinâmico, pode ser recíproco, unilateral, depende da disponibilidade, do contexto, do momento, da condição subjetiva. Colocar-se no seu lugar seria não somente um mecanismo de aprendizado e constituição do eu, mas também uma forma de aproximação da experiência de Daiane, de como seria viver sem ter o pai por perto.
As compreensões dos interlocutores acerca do aprendizado indicam que os sujeitos assumem a produção de seu eu com o passar dos anos na medida que se percebem com maior autonomia e capacidade de avaliar as situações. Não se pode reduzir o sujeito à configuração individualista146, pois, ao buscar outras formas de compreensão sobre
146 Segundo Maluf (2011), não se pode reduzir o "sujeito" à configuração
individualista moderna, pois está presente em diversos campos (etnologia indígena, ou nos estudos mais recentes que recolocam o conceito de “agência” na agenda teórica da Antropologia). Para a autora, centrar os estudos nessa configuração produz sérias limitações, pois Dumont (1985), em seu “modelo de
ele, é possível abrir espaço para entender a individualidade como "experiência vivida" (MALUF, 2011). O próprio entendimento jurídico da família como matriz geradora de personalidades singulares coloca a necessidade de alargamento de compreensões centradas apenas na ideologia do individualismo, buscando entender a produção dessas individualidades. Nesse sentido, é produtivo pensar sobre as formulações heurísticas de Simmel, considerando o aprendizado um mecanismo de singularização. Simmel faz a distinção entre um "individualismo quantitativo" (correspondente ao individualismo econômico do século XVIII, encontrado no ideário universalista, iluminista, de afirmação da liberdade, igualdade e autonomia) e um "individualismo qualitativo" (característico do individualismo romântico do século XIX, aludindo à singularidade, interioridade, intensidade, autenticidade) (DUARTE, 2003; MALUF, 2011). Trata-se do individualismo qualitativo do Romantismo que se opõe ao individualismo numérico do Iluminismo (SIMMEL, 1971 apud LUNA, 2007). O autor traz a questão da diferenciação, da particularidade, do que é único. Ao evocar a temática da "cultura subjetiva", torna explícita a tensão entre as duas formas de individualismo, característica da cultura moderna, mostrando um caminho para o sujeito contemporâneo (MALUF, 2011, p.11). Simmel chama atenção para um domínio interno, um "indivíduo psicológico" (SALEM, 1992), onde trata de converter 'liberdade', 'vontade' e a 'deliberação' na busca da "personalidade autêntica" (ibid, p. 7). Dessa forma, segundo Salem, o sujeito se subjetiva, no sentido de refletir de modo mais sistemático sobre seu "eu interior". "O indivíduo quer se distinguir dos demais, tornando-se insubstituível: a individualidade é primordial e eterna no ser humano" (LUNA, 2007, p.6). O aprendizado seria uma forma de diferenciar-se, de se apropriar de sua singularidade na contemporaneidade e refletir sobre o eu interior, dentro de contextos que tensionam, proclamando ideais de igualdade e liberdade.
Aprendizado também significa busca pessoal, amadurecimento, independência, além de acúmulo de experiências para agências futuras. Mayara, ao avaliar sua vida, fala do processo de saída da casa dos familiares para morar com o namorado, das experiências conturbadas com um relacionamento aos 17 anos e da relação conflituosa com o pai.
análise”, não inclui a questão da construção de sujeitos e indivíduos, da individualidade como “experiência vivida” pelos sujeitos, abrindo assim pouco espaço para as subjetividades e agências (individuais ou coletivas).
Entende tudo isso como aprendizado, gerando amadurecimento: "Eu sou
nova, tenho 21, já aprendi muito com a vida, já apanhei muito, levantei [...] eu tombo, com aquele tombo eu aprendo". O aprendizado entendido como busca pessoal, impulsiona mudanças e amadurecimento para vivenciar a vida e as situações adversas. As experiências acumuladas são centrais para a constituição da subjetividade, e fornecem subsídios que habilitam para as ações e avaliações. A experiência de ser tirado de uma prova por falta de pagamento da faculdade promoveu reflexões em Alucard. Entendeu o acontecimento como benéfico, serviu como incentivo para estudar mais e provar que era um bom aluno: "Não vi isso
como uma humilhação, eu vi isso como um negócio pra me dedicar e poder esculachar ela (professora)". Alucard mobilizou seus recursos internos para demonstrar que era bom aluno e estava sendo discriminado, o que foi entendido como aprendizado, fortalecendo-o diante das dificuldades e capacitando-o para uma forma de ação/reação, no caso esculachar, revidar, mostrar que é bom aluno.
Os aprendizados capacitam para a ação (agência individual). Nesse sentido, as agências individuais são situadas dentro de visões de mundo e suas formas simbólicas, valores familiares, morais e sociais, diferentes contextos cambiantes, subjetividades específicas, etc. Para Daiane: "Com o passar do anos, vai aprendendo, vai vivendo, se
formando uma pessoa melhor". De forma geral, os interlocutores entendem que as vivências engendram, ou podem engendrar, aprendizados e mudanças. Há permanente aperfeiçoamento do eu, com objetivos mais coerentes e amadurecimento pessoal. Daiane menciona preocupações com o futuro, pensando em seu bem estar e do companheiro, experimentando um eu que investe em si e age pensando em sua construção profissional. Também faz projeções futuras visando o que classifica como qualidade de vida (estabilidade financeira, aquisição de apartamento, carro), bem como revisões de atitudes que tomava quando era mais jovem. Como subjetividade complexa, produz reflexividade sobre suas ações, experiências, aprendizados, desejos (GIDDENS, 1989)147 que capacitam-na a agir. Ela é efeito de construções familiares, sociais, históricas e dotada de agency (capacidade de agir), essa última construída por seus desejos e intenções, tendo sua subjetividade como matriz, onde as ações praticadas podem instigar questionamentos sobre as consequências das ações.
147 Giddens (1989) entende que os atores sociais são sujeitos cognoscentes,