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Partie I : Expérimentation

Chapitre 3. Résultats expérimentaux

3.4. Caractéristiques mécaniques

3.4.3. Essai de traction

No decorrer das aulas de Reinhold a que Novalis assistiu, o tema terá sido com toda a certeza o conteúdo da obra de Reinhold, os Beiträge zur Berichtigung bisheriger

Miβverständnisse der Philosophen, 1º volume, de 1790.22

A ideia fundamental que preside à reflexão reinholdiana é, de certa maneira, semelhante àquela que presidirá às posteriores filosofias de Fichte e Schelling, e ela assume-se, particularmente nesta obra, como uma espécie de reiteração definitiva por um lado, do que já fora aludido em «Abhandlung über das Bedürfnis einer neuen Untersuchung des menschlichen Vorstellungsvermögens» (1789)23 ou «Fragmente über

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Reinhold, Karl Leonhard: Beiträge zur Berichtigung bisheriger Missverständnisse der Philosophen (2 Bde.) Hrsg. Faustino Fabianelli, Felix Meiner Verlag, Hamburg, 2003.

23 Reinhold, Karl Leonhard, «Abhandlung über das Bedürfnis einer neuen Untersuchung des

menschlichen Vorstellungsvermögens», in: Versuch einer neuen Theorie des menschlichen

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das bisher allgemein verkannte Vorstellungs-Vermögen» (1789)24, textos porventura não desconhecidos de Novalis, e certamente conhecidos dos seus colegas25, por outro, do que viria a ser consumado em Über das Fundament des philosophischen Wissens (1791),26 a saber: que a filosofia carecia de um fundamento, um princípio absoluto que

unisse as suas partes teorética e prática27, cada vez mais cindidas em razão da sobre- interpretação a que o domínio, os limites, a própria linguagem da filosofia fora votada pelas diferentes seitas que se haviam formado em torno da filosofia crítica de Kant.28 A ausência de um tal princípio regulador, para além de ocultar ao olhar do homem o horizonte de expectativa do seu conhecimento (levando o homem a crê-lo mais ou menos distendido do que este verdadeiramente era), acentuava ainda a convicção de que o progresso até esse ponto do conhecimento – a aquisição de uma linguagem, a suplantação de toda a dúvida através dessa linguagem e a obtenção da verdade do conhecimento como fruto dos dois aspectos anteriores – poderia ser alcançado sem o

auxílio da razão: o que, por sua vez, não podia deixar de fortalecer as pretensões dos

defensores do comum entendimento humano. Mas, mais nefasto ainda para a crítica, a linguagem da filosofia afastava-se assim da linguagem da ciência, para se aproximar da linguagem da história (ReB: 10)29, onde o acaso e a aleatoriedade da vida se antecipavam ao fundamento científico, e onde as leis científicas são elevadas à condição

24 Reinhold, Karl Leonhard, «Fragmente über das bisher allgemein verkannte Vorstellungs-Vermögen»,

in Der Teutsche Merkur, 1773-89. 1789 , 4.Bd. , S. 3 – 22.

25 A influência de Reinhold, aliás, não se quedaria por Jena; pois também em Tübingen ela seria sentida

por Hegel, Schelling, Hölderlin, e outros alunos do Stift. Não esquecer que um dos dois specimina de Schelling, hoje perdidos, tinha como título «Über die Möglichkeit einer Philosophie ohne Beinamen, nebst einigen Bemerkungen über die Reinholdsche Elementarphilosophie». Sobre o tema, vd. Faustino Fabianelli (ed.),. Die zeitgenössischen Rezensionen der Elementarphilosophie K. L. Reinhold, Hildesheim: Olms, 2003.

26 Reinhold, Karl Leonhard: Über das Fundament des Philosophischen Wissens/ Über die Möglichkeit

der Philosophie als strenge Wissenschaft, Hrsg. Wolfgang H. Schrader, Felix Meiner Verlag, Hamburg,

1978.

27 Cf. Reinhold, Karl Leonhard, Beiträge zur Berichtigung bisheriger Missverständnisse der Philosophen,

Vol. I. Hrsg. Faustino Fabianelli (Hamburg: Felix Meiner Verlag, 2003), p. 3: «(...) den Mangel eines ersten und allgemeingeltenden Prinzips aller Philosophie überhaupt.»

28 Sobre este problema central em Kant, cf. Dieter Henrich, Grundlegung aus dem Ich, 1. Band, Frankfurt

am Main: Suhrkamp, 2004; Manfred Frank, ›Unendliche Annäherung‹. Die Anfänge der philosophischen

Frühromantik., Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1998; Martin Bondeli, Das Anfangsproblem bei Karl Leonhard Reinhold. Eine systematische und entwicklungsgeschichtliche Untersuchung zur Philosophie Reinholds in der Zeit von 1789 bis 1803, Frankfurt: Klostermann, 1995; Martin Bondeli und W. H.

Schrader (eds.), Die Philosophie Karl Leonhard Reinholds, Amsterdam: Rodopi, 2003, ou Reinhard Lauth (ed.), Philosophie aus einem Prinzip. Karl Leonhard Reinhold, Bonn: Bouvier, 1974, entre outros cuja economia do texto me impede de mencionar.

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Cf. Karl Leonhard Reinhold, «Vorrede ueber die bisherigen Schicksale der kantischen Philosophie», in

Versuch einer neuen Theorie des menschlichen Vorstellungsvermögens, (Prag und Jena: C. Widtmann

und I. M. Mauke, 1789 (2. Auflage 1796)), p. 10: «In den Lehrbüchern nahm die Philosophie in eben dem Verhältnisse die Form der Geschichte an, als sie sich von der Form der strengen Wissenschaft sich entfernete.»

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de leis universalmente válidas – e não universalmente vigentes,30 como era recomendável; algo que, para além de impossibilitar a aquisição de um princípio absoluto, lançava um manto de dúvida sobre todo o problema. A paz entre seitas filosóficas passaria, pois, segundo Reinhold, não só por identificar o que as unia na sua objecção ao purismo kantiano, como por rectificar o que era incongruente na linguagem destas. Cumpria, numa palavra, contrariar a obstinação das seitas em afirmar a

inexistência e impossibilidade de um princípio primeiro e único da filosofia (id.: 71), o

que passaria, justamente, por alcançar um tal princípio absoluto, assim protegendo o edifício crítico de tais ataques e unindo as diferentes seitas em torno de uma única linguagem crítica; sob pena, conclui Reinhold, de se desconsiderar para sempre a empresa regulativa da razão, votando-a a um progresso constitutivo e heteronómico.

Ora, para Reinhold, a causa originária de um tal problema tem uma origem dupla, de raíz filosófica. Reinhold refere-se a ela em Versuch einer neuen Theorie des

menschlichen Vorstellungsvermögens, de 1789; mais concretamente no Prefácio:

«Vorrede über die bisherigen Schicksale der kantischen Philosophie».31 Uma primeira é a reformulação do sistema filosófico leibniz-wolffiano, a qual, ainda inconcluída, se expandira porém de maneira excessivamente rápida entre a comunidade filosófica (ReVV: 1-3), o que originara um fenómeno de popularização da filosofia (id: 2) e, como tal, a «queda da antiga parede divisória entre mundo e escola» (ibid: 5) – o referido problema da diferença de línguas da filosofia. Fora esta dispersão que resultara na fragmentação da comunidade filosófica, um processo que atingia o seu auge justamente na época de Novalis em Jena; mais concretamente, no cerne do diálogo que o próprio Reinhold, então em Jena, travava com os teólogos de Tübingen32, os cépticos e os kantianos ortodoxos, as ditas «seitas filosóficas» (ou «Schulphilosophie» (ibid.: 11)) que, segundo este, ao refutarem Kant, apenas acentuavam a sua incompreensão do mestre de Königsberg, contribuindo para a ainda maior disseminação de diferentes facções no seio da própria filosofia (e, com esta, para a proliferação de diferentes

linguagens no seio da filosofia).

30 «Es muβ ein allgemeingeltender Satz als erster Grundsatz möglich sein, oder die Philosophie ist als

Wissenschaft unmöglich (...).» (ReB: 248)

31 Reinhold, Karl Leonhard, «Vorrede ueber die bisherigen Schicksale der kantischen Philosophie», in

Versuch einer neuen Theorie des menschlichen Vorstellungsvermögens, Prag und Jena: C. Widtmann und

I. M. Mauke, 1789 (2. Auflage 1796), 1-68.

32 Refiro-me aqui aos supernaturalistas G. C. Storr, J. F. Flatt ou F. G. Süβkind, Professores de Teologia

de Hölderlin, Hegel, Niethammer ou Schelling em Tübingen, para quem as verdades da genuína doutrina crista eram verdades irrefutáveis, visíveis não apenas para além, mas também independentemente da razão, na revelação («Offenbarung»).

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A segunda origem deste problema é, por sua vez, exposta no início de um dos capítulos dos Beiträge de 1790, intitulado «Verhältnis der Theorie des Vorstellungsvermögens zur Kritik der reinen Vernunft». Aí aprofunda Reinhold a referida questão, explicando que os problemas causados em razão da inexistência de um princípio absoluto da filosofia deveriam ser identificados não só no exacerbamento que esses problemas haviam sofrido às mãos das seitas, mas também na própria

insuficiência da teoria de Kant; pois, apesar de ao nível da faculdade de conhecimento –

da aquisição das formas das intuições, dos conceitos e das ideias – a teoria kantiana ser para Reinhold inultrapassável (razão por que o seu objectivo nunca poderia ser o de derrubar Kant, antes chegar por um outro caminho aos mesmos resultados do seu mestre),33 já a outro nível mais profundo (o nível da obediência do conhecimento a um único princípio), Kant deixara a sua empresa incompleta (ReB: 184-5). A razão era, para Reinhold, óbvia, e similar às posteriormente veiculadas por Fichte e Schelling34: Kant indicara um tal princípio absoluto da filosofia, mas não o elevara a essa condição; isto é, não o firmara por conceitos, não o votara à perenidade da palavra. Mas porque a possibilidade de um tal princípio primeiro era inegável e a sua efectivação, enquanto principal carência da filosofia da época, tanto mais necessária, então recuperar a empresa kantiana só poderia significar, para Reinhold, empreender um passo mais além

na consolidação da voz, da linguagem desse princípio, assim colmatando tais omissões

e instituindo de vez a filosofia no terreno da ciência.

Já antes Reinhold começara a empreender esse mesmo fôlego duplo, o de demonstrar o erro das seitas e a insuficiência de Kant, a saber, no já referido prefácio intitulado «Über die bisherigen Schicksale der kantischen Philosophie», de 1789. Aí se aborda, sobretudo, o procedimento da filosofia kantiana.

Assim, diz Reinhold que na procura de tornar os seus princípios universalmente vigentes (absolutos), Kant vira-se instado a percorrer um caminho que o distinguia dos filósofos populares: «em vez de determinar a natureza e o alcance da faculdade de conhecimento por meio de objectos conhecidos, fora-lhe necessário procurar determinar

33 «(...) So stellt er [die Zurückführung der Hauptmomente der kr. Philosophie auf einen

allgemeingeltenden Grund] die ganze kritische Elementarphilosophie unabhängig von den Gründen, auf welchen sie in der Kr. d. r. V. feststeht, von neuem auf; und dient, da er auf einem ganz verschiedenen Wege zu eben denselben Resultate führt, den Kantischen Entdeckungen, als eine den Rechnungsproben ähnliche Bestätigung.» (ReB: 184)

34 A opinião de Reinhold, aliás, não só coincidia com a de Fichte, como seria ainda secundada, por

exemplo, por Schelling, em «Über die Möglichkeit einer Form der Philosophie überhaupt» (1794) e Vom

Ich als Princip der Philosophie (1795), e no texto «Das älteste Systemprogramm des deutschen

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a cognoscibilidade dos próprios objectos por meio da pura faculdade de conhecimento» (ReVV: 46). Por outras palavras, diz Reinhold, ao invés de descender do universal para o particular (do infinito para o finito, isto é, da faculdade de conhecer em geral para os objectos conhecidos), Kant tivera de ascender antes do particular para o universal, isto é, dos objectos eles próprios para a pura faculdade de conhecer; mas ao fazê-lo – diz Reinhold –, apenas ilusoriamente Kant ascendera do comum particular para o comum universal; pois, para Kant, nem a pura faculdade de conhecer é um comum universal, nem o objecto assim subsumido apenas um comum particular. Bem pelo contrário, Kant

antes fizera do mais infinito que a filosofia possuía, a pura faculdade de conhecer, a sua própria instância finita, particular, e só então, a partir desta inversão velada, Kant se elevou ao universal (que se afigura, nesta perspectiva, como o infinito dos objectos

conhecidos, a verdadeira cognoscibilidade dos objectos) – uma inversão metodológica

entre particular e universal, ascensão e descensão através da qual se alcançara um círculo reflexivo entre contrários que tão útil provaria ser a Reinhold e Fichte (segundo

os quais o mínimo da finitude é a infinitude, o mínimo da infinitude é a finitude), e que, para qualquer filósofo que não aceitasse ou compreendesse os moldes da voz deste método analítico, não passaria de uma mera transição do finito para o infinito (e, portanto, de uma «vertigem»35 em que a filosofia de então se deixava enredar). Não obstante, di-lo-ia Reinhold, o que Kant assim empreendera não era senão o mais ousado

progresso da filosofia de então, o móbil reflexivo de toda uma geração, na medida em

que invertia por completo não os elementos que compõem a análise filosófica, mas o próprio sentido, a própria linguagem da análise, consumando a forma da própria

filosofia, e cumprindo, pois, as suas próprias disposições da impossibilidade de um

progresso unívoco e contínuo em direcção ao infinito, da assumpção de um ideal,36 das quais também Reinhold e Fichte partilhariam.

Ora, este singular processo significava, para Reinhold o desenvolvimento mais

consumado da faculdade do conhecimento; mas, não obstante a infalibilidade desta

faculdade, visível na forma como a instância universal se compatibiliza com a particular, fazendo desta aquela e daquela esta, continuava a faltar, porém, uma

instância que justamente comprovasse que, tal como o universal pode assumir

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«Wie sollte ihm der Populärphilosoph ohne Schwindel folgen können?» (ReVV: 24)

36 «Nun ist das eigentliche unveränderliche Grundmaβ der Natur das absolute Ganze derselben, welches

bei ihr als Erscheinung zusammegefaβte Unendlichkeit ist. (...) dieses Grundmaβ [aber ist] ein sich selbst widersprechender Begriff ist (wegen der Unmöglichkeit der absoluten Totalität eines Progressus ohne Ende)...» (AA, V: 255)

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livremente a forma do particular, também o particular não é senão o universal desmembrado; por outras palavras, algo faltava que unisse as pontas do feixe invisível que liga a filosofia (a voz do espírito humano) e o espírito humano (a ampla caixa de ressonância da filosofia), para que, em vista da filosofia, em presença da voz desta, o espírito humano nela pudesse espontaneamente discernir-se, redescobrir-se, a si e a sua linguagem muda; pois só esta apodicticidade absoluta, esta linguagem em surdina

entre o espírito e a sua forma de expressão mais privilegiada, é perfeitamente compatível com a mais evidente repercussão de um princípio absoluto que reja sobre este diálogo; a saber, que, diz Reinhold, aos olhos da filosofia como do espírito, o

particular é universal, e vice-versa, ou, o que é o mesmo, que «as verdadeiras premissas

de uma ciência só podem ser descobertas após a própria ciência» (ReVV: 67), e que também «o conteúdo essencial de uma ciência tem de ser descoberto antes que o princípio que confere forma à ciência possa aceder à consciência» (ReB: 186): uma

ordem inversa das coisas que, sabemo-lo, é uma «consequência necessária do curso

analítico», enquanto natural progresso do espírito humano.

Por conseguinte, afirma Reinhold, apesar de ter identificado o particular com o universal, assim estipulando as formas das intuições, dos conceitos e das ideias enquanto elementos do conhecimento, Kant não lograra divisar nestas uma outra forma que não a cognoscente (pois, segundo Reinhold, Kant tão-pouco se apercebera deste elemento conectante entre as vozes da filosofia e do espírito humano). Assim, ao fornecer as premissas originais da faculdade de conhecimento (particularizando o universal e unindo a cognoscibilidade ao finito), Kant lograra, pois, que a cognoscibilidade se universalizasse (na linguagem), mas não que esta forma de pensar

fosse reconduzida a uma instância superior, a uma forma mais elementar do conhecimento e da linguagem – em Reinhold, o representar –, numa palavra, a um outro grau de certeza que a comprovasse espontânea e apodicticamente no espírito humano. E porém, era justamente isto, para Reinhold como posteriormente para Fichte

(e depois ainda para Schelling), que promovia a cisão entre teorético e prático, e que, na ausência de um princípio anterior, superior à faculdade de conhecimento, fazia com que o edifício crítico permanecesse incompleto. E, claro está, também no turbilhão problemático que esta indistinção assumiria em ambos reside o problema inicial de Novalis, cifrado na ausência de um (possível) princípio absoluto da filosofia como factor de oscilação no seio da filosofia do conhecimento.

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Ora, como não poderia deixar de ser, os resultados desta não-distinção entre o conhecer e uma instância superior (em Reinhold, o representar) repercutiam-se indefinidamente no escrutínio das pretensões do conhecimento humano, apresentando- se sob a forma das mais variadas inconsistências.

Uma de entre estas, todavia, preocupava sobremaneira Reinhold, e conduz-nos ao cerne do problema deste: a repercussão do problema filosófico na sua vertente de

linguagem. O problema advém do anterior, e expõe-se nos mesmos termos que aquele.

Pois, diz Reinhold, ao não se fundamentar a faculdade de conhecimento sobre nada superior, esta via-se exposta às mais diversas interpretações (às mais diversas inconsistências linguísticas), a ponto de, segundo Reinhold, se transporem predicados

que apenas pertenciam ao representar para o conhecer das próprias coisas. Significava

isto que, mesmo no seio de um método analítico que progrida legitimamente do infinito para o finito, o conhecer tende a subsumir exageradamente as espécies («Arten») a partir do género («Gattung») – mas não por inconstância das espécies, antes por

insuficiente delimitação do género: a mesma insuficiência, afinal, que conduzia à

inexistência de um género científico último, um princípio último para a faculdade de conhecimento (id: 189-90). Kant discernira, pois, a latência do género nas espécies; mas, reforça Reinhold, não seguira o conceito de género até aos seus últimos fundamentos – até ao princípio absoluto (ibid.:187). O mesmo é dizer: Kant firmara, com efeito, o conceito de causalidade enquanto imagem do género precedendo as espécies; mas sempre afirmara que tal se devia somente ao facto de as espécies nunca poderem preceder o género, e nunca, como diz Reinhold na pág. 186 dos Beiträge, «porque a razão só pode formar o conceito de género a partir daquilo que é comum às espécies, mas este elemento comunitário só ascende à condição de consciência quando a

matéria a partir da qual o conceito de espécies é formado ascende por inteiro à condição

de consciência.»37 Ora, a aqui referida «matéria» do conceito de espécies que ascende à consciência é, justamente, o género; isto é, a ascensão (à qual sucedem os processos de

composição e desmembramento dos conceitos, os quais alternam entre si na sua

tendência do mais composto para o menos composto, desmembrando e legitimando o género nas espécies) tem de ser precedida por um plano anterior à consciência: anterior, pois, a sujeito e objecto (ReB: 189); plano esse em que se progride do menos composto

37 «(...) weil die Vernunft den Begriff der Gattung nur aus demjenigen, was den Arten gemeinschaftlich

ist, bilden kann, dieses Gemeinschaftliche aber nur erst dann zum Bewuβtsein gelangt, wenn der Stoff, aus welchem die Begriffe der Arten gebildet werden, vollständig zum Bewuβtsein gelangt ist.» (ReB: 186)

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para o mais composto, assim – e só assim – sendo possível ascender à consciência (ou não precedesse a composição (o corpo inteiro da ciência), ela própria, todo e qualquer desmembramento, legitimando o que é finito38). Isto é, numa palavra, é o género que

precede toda e qualquer espécie; mas não como resultado de uma qualquer operação do

conhecimento, antes como algo absolutamente espontâneo, uma forma de linguagem

absolutamente inata do espírito humano; e portanto, neste limiar entre as teorias de

Kant e Reinhold (que, para Reinhold, são uma só, mas vistas de perspectivas diferentes), a elevação da matéria à condição de consciência era em Kant apenas parcial devido à presença de sujeito e objecto antes da consciência, ao passo que em Reinhold ela é total, a saber: só se pode proceder do género para as espécies, enquanto primeira acção de sujeito e objecto. Ao não considerar o género nos seus fundamentos ulteriores, Kant jamais poderia ter alcançado o conceito de representação em geral (pois o género

é, ele próprio, o conceito de representação em geral) – e, ao não o fazer, afirma

Reinhold, ele, Kant, deixara também por determinar o que fazia dos conceitos de representação, conceito e ideia sensíveis um único género, obedientes a um só princípio, e criara um problema para a posteridade, um problema de inconsistência e indefinição dos fundamentos da filosofia em geral.

Ora, a primeira consequência desta diferença de intensidade do género instaurada por Reinhold, creio, é manifestamente óbvia, a saber: uma tal ascensão total, no entender do filósofo vienense, não mais diz respeito ao conhecimento. Pois o que é anterior à consciência (por ser já «inteiro» antes de se desmembrar) não pode já referir- se à esfera do conhecer, mas sim à acção do puro representar (ReB: 88-9), algo como um receptáculo vazio da razão, do entendimento e da imaginação na sua produção de ideias, conceitos e representações, e sem o qual os conceitos de representação, conceito e ideia sensíveis não poderiam ser pensados – em suma, uma «filosofia elementar»,

«Elementarphilosophie» (ReB: 193). O representar é, pois, para Reinhold, anterior ao conhecer: simplesmente porque todo o conhecer é representar; mas, inversamente, nem todo o representar é conhecer.

A segunda consequência, todavia, revela-se absolutamente decisiva para o futuro imediato da filosofia e, vê-lo-emos, do curso de Novalis; ela prende-se com o próprio

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«Die Zusammenfassung nun, die der Zergliederung vorhergehen und zum Grund liegen muβ, wird bei philosophischen Begriffen durchs Denken, bei historischen durchs Empfinden bestimmt.» (Reinhold,

Beiträge, 18); or «Die Zusammenfassung im Philosophischen Begriffe wird lediglich durchs Denken

bestimmt, und zwar durch ein Denken, welches keine Zergliederung, sondern das Gegenteil von derselben ist, und aller Zergliederung vorhergeht.» (ReB: 189)

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procedimento filosófico assumido por esta intensificação do método analítico de Reinhold. É que muito embora, na esfera do conhecimento, o conceito de género só